Anônimo 18/02/2011 12:02 Outras - Comidas e Bebidas
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Aonde posso comprar Cianureto ?

Pode ser pessoalmente ou pela internet, aonde posso encontrar ????

125 Respostas

Silvio 18/02/2011 12:32 1 8

na Cianureteira
*-*

Srtª Bananaa 18/02/2011 12:33 3 2

NÃO ACABE COM A SUA VIDA VC TEM MUITO PELA FRENTE
E NEM TENTE MATAR ALGUEM NÃO VALE A PENA

MAIS SE VOCÊ QUER ACHAR É FACIL:

EM QUALQUER FARMACIA ONLINE VOCÊ PODE FAZER O PEDIDO

BJS

tentando ajudar 18/02/2011 12:47 7 0

Arruma prá mim também ??

veluca 18/02/2011 13:34 2 2

Acredito que não seja fácil adquirir. Penso mesmo que somente cientistas ou agricultores com a aprovação de um cadastro (a substância costuma ser usadas no combate de pragas em porões de navios e em grandes silos onde são armazenados grãos).

E também não tente imitar Jim Jones, de seita estadunidense, fundador da igreja Templo dos Povos (Peoples Temple) e mentor do suicídio coletivo em Jonestown-Guiana que matou 918 pessoas (a substância utilizada foi uma poção a base de cianureto)

Maria Aline 21/02/2011 12:20 1 7

…tb já pensei onde as pessoas que querem se suicidar ou matar alguém envenenado conseguem ter acesso ao veneno…não mate nem se mate!!!

paula 26/09/2011 7:33 34 0

PAPO FURADO JA TENTEI ME MATAR 4X E ME DEI MAL ,PORQUE NAO FIZ DO GEITO CERTO …AGORA QUEM E DONA DE MINHA VIDA DE MERDA SOU EU ,SE EU QUERO ME MATAR , VOU FAZER E PELO MENOS NAO QUERO SER OTARIA E SENTIR DOR , A SOCIEDADE E MEDIOCRE ,NAO AJUDA ,SO DA CONSELHO FURADO ,E AINDA TENQUE AGUENTAR PAPO DE TUA VIDA VAI MELHORAR ,JA FIZ DE TUDO E 9 ANOS SO FAZ PIORAR ,A VIDA MINHA VOU ME MATAR TOMAR NO CU , QUEM ME DER CONSELHO QUE TENHO QUE VIVER PORQUE TENHO UMA MISSAO A CUMPRIR ,E FODAM-SE PORQUE DE UM GEITO OU DE OUTRO VOU CONSEQUIR CIANURETO PARA ME MATAR ,PELO MENOS MORRO RAPIDO E SEM DOR! A VIDA E MINHA FACO O QUE QUISER ,INCLUSIVE ME MATO.PAULA

valeria 02/09/2012 3:54 5 6

paula,
tambem ja tentei varias vezes e não consegui. Mas sera que é mesmo a solução? Talvez Deus nos livrados de arder no fogo do inferno, por isso que nunca tá certo. Faço tratamento psiquiatrico e terapia, e procuro rezar pra que Deus possa me curar, não é facil aguentar essa maldita DEPRESSAO onde só a morte é a unica solução, mas sera que vale a pena entregar nossa alma, espírito pro malígno ou tentar lutar e entregar tudo nas maos de Deus.
Já perdir dois irmãos pelo suicidio, um tinha dezoito anos estava servindo o exercito, a outra (irma) se enforcou, mss o que sera que estam passando agora, só eles sabem. Tenha fé em Deus, faça tratamento espiritual, psiquiatrico e terapia, e muita fé, reze bastante que tudo vai passar. Sei bem o que vc está sentindo, já passei por tudo e nada adiantou… Mas uma coisa te peço se tiver que entregar sua alma e seu espírito que seja para o nosso Divino Pai eterno.Fique com Deus, Ele vai te ajudar.
Deus te abençoe todos os dias com sua divina misericordia. Creia nisso e tudo mais vai passar. Um grande abraço, lelinha

valeria 02/09/2012 3:54 2 5

paula,
tambem ja tentei varias vezes e não consegui. Mas sera que é mesmo a solução? Talvez Deus nos livrados de arder no fogo do inferno, por isso que nunca tá certo. Faço tratamento psiquiatrico e terapia, e procuro rezar pra que Deus possa me curar, não é facil aguentar essa maldita DEPRESSAO onde só a morte é a unica solução, mas sera que vale a pena entregar nossa alma, espírito pro malígno ou tentar lutar e entregar tudo nas maos de Deus.
Já perdir dois irmãos pelo suicidio, um tinha dezoito anos estava servindo o exercito, a outra (irma) se enforcou, mss o que sera que estam passando agora, só eles sabem. Tenha fé em Deus, faça tratamento espiritual, psiquiatrico e terapia, e muita fé, reze bastante que tudo vai passar. Sei bem o que vc está sentindo, já passei por tudo e nada adiantou… Mas uma coisa te peço se tiver que entregar sua alma e seu espírito que seja para o nosso Divino Pai eterno.Fique com Deus, Ele vai te ajudar.
Deus te abençoe todos os dias com sua divina misericordia. Creia nisso e tudo mais vai passar. Um grande abraço, lelinha

valeria 02/09/2012 3:55 1 5

paula,
tambem ja tentei varias vezes e não consegui. Mas sera que é mesmo a solução? Talvez Deus nos livrados de arder no fogo do inferno, por isso que nunca tá certo. Faço tratamento psiquiatrico e terapia, e procuro rezar pra que Deus possa me curar, não é facil aguentar essa maldita DEPRESSAO onde só a morte é a unica solução, mas sera que vale a pena entregar nossa alma, espírito pro malígno ou tentar lutar e entregar tudo nas maos de Deus.
Já perdir dois irmãos pelo suicidio, um tinha dezoito anos estava servindo o exercito, a outra (irma) se enforcou, mss o que sera que estam passando agora, só eles sabem. Tenha fé em Deus, faça tratamento espiritual, psiquiatrico e terapia, e muita fé, reze bastante que tudo vai passar. Sei bem o que vc está sentindo, já passei por tudo e nada adiantou… Mas uma coisa te peço se tiver que entregar sua alma e seu espírito que seja para o nosso Divino Pai eterno.Fique com Deus, Ele vai te ajudar.
Deus te abençoe todos os dias com sua divina misericordia. Creia nisso e tudo mais vai passar. Um grande abraço, lelinha

clarisse 06/10/2012 5:29 14 0

Onde posso comprar um cianureto? Preço? (URGENTE)

Igor 04/11/2012 16:39 0 2

Meu gostaria de saber quanto tempo leva mais o menos pra faze o resultado em uma pessoa (eu), alguem pode me falar ?

ERIVANIO 19/11/2012 3:54 4 2

Walton BioTeach Company Llimited ; tai o email do cara que vende ciANETO e NEMBUTAL

erivanio 19/11/2012 3:55 0 1

ordering_walton_biotechno_company_ltd@consultant.com e esse aqui

erivanio 19/11/2012 3:57 0 0

ordering_walton_biotechno_company_ltd@consultant.com e esse aqui o de cima ta errado

MALEBOLGE 20/11/2012 0:59 2 9

AOS FRACASSADOS E FRACASSADAS AQUI Q DIZEM Q TENTARAM O SUICIDIO , SÃO UNS PIADISTAS ; QUEREM É Q ALGUÉM SINTA PENÃ DE VOCES …SÃO UNS PERDEDORES MESMO , UNS MERDAS INUTEIS ,QUEREM MORRER MESMO ?? , ESPERE UM TREM BEM ENTRE UMA ESTAÇÃO E OUTRA , POIS NESTA ALTURA ELE JÁ ESTA BEM VELOZ É SO SE JOGAR EMBAIXO QUE VAI SER DIFICIL ATÉ ENCONTRAR OS PEDAÇOS… SUICIDIO RAPIDO , SEM DOR E SEM CHANCE DE FALHAR.

Rayckou 28/11/2012 18:18 6 3

Vocês são uns idiotas.. Não entendem nosso problema. Nos tratam como se quiséssemos entrar para sua igreja, ou como se fosse drama, que queremos chamar atenção.. Não, nós também não queremos nos jogar na frente de um trem, não é simplesmente morrer, além de que isso seria muito mais doloroso para nossos parentes e amigos. Nós queremos morrer para acabarmos com nossa dor, não para causar aos outros. Nós temos um motivo, e não são palavras de “Vai passar, não vale a pena..” que irão nos salvar.
Paula, eu estive vendo na televisão, uns casos de erro médico onde se injetava comida na veia e a pessoa morria. Mas ao invés de comida, tente colocar cloro(NaClO) ou alguma outra coisa que o faça mais rápido.

erivanio 29/11/2012 4:10 2 4

tenho cianeto de potasio pra vender me adc erivanios@yahoo.com

Raisapauferro 08/12/2012 11:29 3 0

Se vcs passasse pele depressão com bipolaridade entenderia a dor q n passa, e respeitaria mais as pessoas em vez de escreverem bobagens, tenho psiquiatra ,terapeuta espiritual e terapia de grupo tomo remédio pesado tenho irmã com 54 anos com idade mental de 8 anos com pânico e filho q tb sofre de pânico com TDh e hiperatividade barata n estou cansada e cheia de dores na coluna cervical q se operar posso ficar tetaplégica.

sabrina 14/12/2012 19:19 2 2

erivanio me adc no msn bynynhasouza@hotmail.com

Talita 17/03/2013 20:38 0 0

Alguém comprou cianeto desse tal de erivanios? Ele entregou?

Yasmin 19/03/2013 1:42 2 0

Nao comprem nada de esse erivanios@ yahoo.com e estelionatario FICA COM SEU DINHEIRO E NAO ENTREGA NADA, acabo de ser roubada por ele e nao me enviou nem cianureto nem Nembutal. E um bandido.

Yasmin 19/03/2013 1:45 3 0

Nao comprem nada de esse erivanios@ yahoo.com e estelionatario FICA COM SEU DINHEIRO E NAO ENTREGA NADA, acabo de ser roubada por ele e nao me enviou nem cianureto nem Nembutal. E um bandido.

Raquel 21/03/2013 0:18 2 0

Comprei o cianureto nesse endereço e não recebi

raquel 21/03/2013 0:19 2 0

antes de enviar o dinheiro davam toda atenção agora nem respondem mais

Raquel 21/03/2013 0:21 3 0

Concordo com o pessoal, depressão é realmente uma porcaria, destrói a vida da gente, passamos pelo mundo como um vegetal. Será que isso é vida?

Matias 21/03/2013 12:41 0 0

Vc num recebeu? Ou xegou a recer e não veio nada? Explica melhor yasmin e Raquel!

Yasmin 24/03/2013 15:41 1 0

Matias, ele erivanios@yahoo.com pede um deposito bancario vc envia e ele some e nao Te envia nada. Nao recebi nada, ele e golpe. Nao compre nada dele.

vanessa 26/03/2013 2:51 0 0

Eu preciso desse remedio o mais rapido possivel
Que deus me perdoe, mas eu nao aguento mais viver desse jeito.
Erivanio me add vanessa.g123@hotmail.com que eu pago td que vc quiser por isso!
Me ajuda. :-(

vanessa 26/03/2013 2:53 0 0

Melhor me ligue no 31 75600441

Pasqual 29/05/2013 8:23 0 0

Oi vanessa eu estou igual a vc. Posso te ligar?

pamela 30/05/2013 19:25 0 0

eu nao aguento mais sofrer ja se passou dois anos e nada aconteceu so tenho lagrimas e lagrimas e lagrimas e nenhuma vontade de viver, sai por sair pra as pessoas nao ficarem com papo chato que a vida continua mas eu nao aguento mais por favor onde eu compro esse remedio

Thiago BioQuimico 15/07/2013 5:41 4 3

VENDO CIANETO DE POTÁSSIO (KCN) EM PÓ (PÓ BRANCO)

Feliz em Ajudar ..

Thiago BioQuimico 15/07/2013 5:42 4 1

VENDO CIANETO DE POTÁSSIO (KCN) EM PÓ (PÓ BRANCO)

Feliz em Ajudar ..

snyffer@live.com

Dark-Fox 12/08/2013 10:11 2 0

Gente todos podem fazer cianureto, basta mergulhar carvão em brasa em uma vasilha de amoníaco, por culpa do calor e do carbono irá ter uma reação química reversa e o resultado é cianureto em gás e liquido que evapora rapidamente, sem rastros, testado e funciona, rápido, silencioso e quase indolor!

William 14/08/2013 19:22 3 0

Vendo Cianeto de potássio (KCN) em pó branco 500g.

Contato: david_will8@hotmail.com

Alex 28/08/2013 1:01 0 0

Eu tb estou passando por uma crise existencial muito grande. Gostaria q algum d vcs convesarsse comigo.
contato: ax_pt@hotmail.com

floor 28/01/2014 19:01 0 0

ow dark fox…é verdade?

emerson 11/02/2014 11:52 1 0

se alguem puder me ajudar, quero comprar cianureto o mais rapido possivel, ficarei muito agradecido por favor não venha com papinho de que a vida continua e bla bla

Marcio 16/02/2014 23:29 0 0

alguém vende esse veneno, sem nhe nhe nhe por favor?

jair 27/02/2014 16:51 1 1

vendo ricina pura em pó

marcio 30/03/2014 2:53 0 0

ow jair tem q pegar antes essa ricina ae como é?

Ja fuiiiiii 16/04/2014 23:25 1 1

Oi. Eu morri, e digo a vcs todos. Aqui tá frio e tem gente gritando muito. Não existe sol nem luzes. somente gemidos e gente querendo voltar pra Terra…. uuuuuuuuuuuuu

Amigo oculto 08/05/2014 18:09 1 0

Ha um tempo minha esposa se trata por depressão e distúrbio bipolar, e bem isso mesmo, tentou autoexterminio duas vezes, a pessoa não tem forças para reação, é incrível o que o cérebro faz com a personalidade da pessoa, hoje ela está bem ( medicação ajustada) temos um reizinho de 03 anos

ICanHelpU 13/05/2014 2:12 4 2

Pra quem for de sp capital posso dar tiro na nuca, tenho porte de arma.

Faço apenas por dinheiro.

jorge luiz 24/05/2014 4:33 7 1

…Pra quem ta afim de ir dessa pra melhor/pior, eu indico um lugar pra isso, no bar do “Caolho” vc come umas coxinhas de entrada depois no prato principal uma buchada de jegue, tiro e queda, eu fiz e deu certo…Mas ates me deu uma caganeira, efeito colateral…

jredy 09/06/2014 19:07 1 0

Caraca a pergunta é onde comprar, aí vem um monte de gente achando que isso serve para suicídio. Responde a pergunta ou cai fora….

Gregory 11/06/2014 12:03 0 0

Eu vendo, contato através por email despacho para todo o Brasil e outros países, sigilo e confidenciabilidade gregchemicalsco@mail.com

Gregory 16/06/2014 12:33 0 0

Vendo Cianeto de Potássio, pacote com 200gr! Preço acessível para pessoas físicas e com facilidade de entrega!
Dúvidas por e-mail gregchemicalsco@mail.com

Catia Silene Santos Macedo 14/07/2014 23:57 0 0

Sofro com a depressão a mais de 12 anos! Tudo começou com a síndrome do panico. fui assaltada e levei uma estiletada na barriga.Desde esse dia passei a definhar, sou de uma família evangélica, creio em Deus,mas os outros não sabem o que sinto realmente. Passo de psiquiatra a psicologo, mas nada tira o vazio que há em mim. Prefiro ficar sozinha! Não adianta eu continuar mendigando ajuda de quem quer que seja,todos são bons comigo , mas não gosto de ser uma carga para os que me querem bem. Sou tremendamente infeliz! Ouço louvores e me desmancho em lágrimas. Não me sinto coitadinha e não gosto desse Título. Já tentei o suicídio diversas vezes e não tive êxito,a quantidade de remédios que tomo é absurdo, mas tomo para me manter firme, comer e não preocupar os outros.Quero morrer longe da minha família e ser enterrada como indigente. não é por não amá-los e sim evitar sofrimento desnecessário, creio que é melhor gastar com os vivos. Sei que muitos gostariam de ter a vida que levo, no enantato elas não sabem como me sinto. Todos os dias são iguais para mim, não fumo, não tomo bebidas alcoólicas e ainda assim fui diagnosticada com esquizofrenia cronica. Nunca fui feliz! Tenho dois filhos e até uma neta recém nascida.Tenho 44 anos e amo animais.

Vanessa 03/08/2014 14:15 0 0

Conheço um fornecedor de cianeto, é confiável pois já comprei para fins de estudo. Não me responsabilizo com o que vão fazer, cada um sabe onde o calo aperta . O email é esse: importsbrazil@presidency.com

Juliana 09/08/2014 1:00 0 0

Tem um produto chamado Cimemtox que é composto por 15% de cianeto de potássio e sódio. Não sei quanto seria suficiente para matar, já que a dose letal do puro é de cerca de 5mg/kg.
Esse cimentox é facilmente encontrado em sites na internet e qualquer um pode comprar sem controle algum.Boa sorte #ficaadica

Mateus 21/09/2014 0:25 0 0

Vendo Cianeto de Potássio (Cianureto), sou graduado em química e possuo contatos para obter o produto.
O Cianureto é uma cápsula que causa uma morte rápida e indolor ao ingerir, provocando um desmaio instantâneo, evitando uma morte dolorosa e agonizante como vemos em muitos casos.
Interessados favor enviar e-mail para quimicativada@gmail.com
Preço a combinar.

Mateus 21/09/2014 0:25 0 0

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Interessados favor enviar e-mail para quimicativada@gmail.com
Preço a combinar.

Mateus 21/09/2014 0:26 0 0

Vendo Cianeto de Potássio (Cianureto), sou graduado em química e possuo contatos para obter o produto.
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Sirlene 28/09/2014 1:18 4 0

PARA O POVO QUE DESEJA SE MATAR…NÃO QUERO FICAR DE BLÁ-BLÁ-BLÁ PQ ESTOU PASSANDO A MESMA COISA QUE TODOS VOCÊS, MAS QUEM VAI MESMO CHEGAR AO “FINALMENTE”,QUE ANTES PELO MENOS, PEÇA PERDÃO PRA DEUS, PQ NÃO SABEMOS COMO SERÁ O OUTRO LADO….ENTÃO É MELHOR MORRER DE BEM COM O CRIADOR…MELHOR MORRER PEDINDO PERDÃO E ADORANDO À ELE, PQ MEU AMIGO, SÓ DE PENSAR EM MORAR COM O CAPETA NUM LUGAR MAIS QUENTE QUE O BRASIL, JÁ DÁ ATÉ PAVOR!!! JÓ NA BÍBLIA COMEU O PÃO QUE O DIABO AMASSOU, MAS NUNCA BLASFEMOU CONTRA DEUS, AGUENTOU FIRME AS PROVAS E DEUS TEVE MISERICÓRDIA DELE E RESTITUIU TUDO, DEVOLVEU A ELE TUDO O QUE TINHA PERDIDO PELA SUA FIDELIDADE. O IDEAL SERIA QUE TODOS AGUENTASSESM AS PROVAS, MAS SE NÃO SOBRAR MAIS NADA DE FORÇA, ENTÃO QUE PELO MENOS MORREMOS DE BEM DELE, SEM BLASFEMAR…AFINAL, NINGUÉM NUNCA VOLTOU PARA CONTAR COMO É DO OUTRO LADO E JÁ SOFREMOS TANTO NESSE MUNDO, QUE NÃO COMPENSA PASSAR A ETERNINADE QUEIMANDO AO LADO DO CAPETA “CUTUCANDO” A GENTE…E SINTO INFORMAR, LÁ TBM NÃO TEM ÁGUA, NÃO TEM GELO PARA DAR UMA “AMENIZADA” NA TEMPERATURA, NÃO TEM AR CONDICIONADO E NEM CASAS BAHIA PARA PARCELAR UM VENTILADOR.

Mateus 25/10/2014 22:15 0 0

Atenção, o e-mail quimicativada@gmail.com FOI ALTERADO PARA quimicativada@yahoo.com
As vendas continuam normalmente.

Mateus 25/10/2014 22:16 0 0

Atenção, o e-mail quimicativada@gmail.com FOI ALTERADO PARA quimicativada@yahoo.com
As vendas continuam normalmente..

Mateus 25/10/2014 22:16 0 0

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As vendas continuam normalmente…

Mateus 25/10/2014 22:16 0 0

Vendo Pentobarbital (Nembutal) & Cianeto de Potássio (Cianureto), sou graduado em química e possuo contatos para obter o produto.
Tanto o Nembutal quanto o Cianureto causam uma morte rápida e indolor ao ingerir, provocando um desmaio quase instantâneo, evitando uma morte dolorosa e agonizante como vemos em muitos casos.
Interessados favor enviar e-mail para quimicativada@yahoo.com
Preço a combinar.

Atenção, o e-mail quimicativada@gmail.com FOI ALTERADO PARA quimicativada@yahoo.com
As vendas continuam normalmente.

Mateus 25/10/2014 22:16 0 0

Vendo Pentobarbital (Nembutal) & Cianeto de Potássio (Cianureto), sou graduado em química e possuo contatos para obter o produto.
Tanto o Nembutal quanto o Cianureto causam uma morte rápida e indolor ao ingerir, provocando um desmaio quase instantâneo, evitando uma morte dolorosa e agonizante como vemos em muitos casos.
Interessados favor enviar e-mail para quimicativada@yahoo.com
Preço a combinar.

Atenção, o e-mail quimicativada@gmail.com FOI ALTERADO PARA quimicativada@yahoo.com
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Mateus 25/10/2014 22:17 0 0

Vendo Pentobarbital (Nembutal) & Cianeto de Potássio (Cianureto), sou graduado em química e possuo contatos para obter o produto.
Tanto o Nembutal quanto o Cianureto causam uma morte rápida e indolor ao ingerir, provocando um desmaio quase instantâneo, evitando uma morte dolorosa e agonizante como vemos em muitos casos.
Interessados favor enviar e-mail para quimicativada@yahoo.com
Preço a combinar.

Atenção, o e-mail quimicativada@gmail.com FOI ALTERADO PARA quimicativada@yahoo.com
As vendas continuam normalmente…

Cristiane 31/10/2014 8:04 0 0

GOSTARIA DE DEIXAR REGISTRADO QUE EU, ASSIM COMO MUITOS AQUI TAMBÉM, ESTAVA TENTANDO TIRAR A MINHA PRÓPRIA VIDA, MAS AO PESQUISAR SOBRE FATOS REAIS DE CASOS DE PESSOAS QUE SOBREVIVERAM APÓS TEREM PASSADO PELA MORTE, EU TIVE MEDO DO QUE IA ME ESPERAR LÁ DO OUTRO LADO, POIS TODOS OS CASOS DE PESSOAS QUE COMETERAM SUICÍDIO, AS PESSOAS VIRAM ESPÍRITOS DO MAL, FIGURAS DABÓLICAS E OUTRAS PESSOAS QUEIMANDO EM FOGO E NO SOFRIMENTO ETERNO, POIS COMETERAM O SUICÍDIO.
ONDE AS PESSOAS, AO RESSUSCITAR APÓS ESTA EXPERIÊNCIA TENEBROSA, MUDARAM COMPLETAMENTE DE VIDA, POIS FICARAM APAVORADAS COM O QUE VIRAM DO OUTRO LADO DA MORTE.
RELATOS ESTES QUE FORAM DADOS POR ATEUS E RELIGIOSOS , ONDE TIVERAM A CHANCE DE VOLTAR PARA CONTAR E MUDAR DE VIDA…HÁ RELATOS DE ATEUS QUE SE TORNARAM PESSOAS VOLTADAS Á DEUS, POIS PUDERAM COMPROVAR QUE EXISTE SIM UM DEUS, MAS QUE TBM EXISTE SIM O DEMÔNIO.
NÃO É SÓ A BÍBLIA QUE FALA SOBRE A EXISTÊNCIA DO CÉU E DO INFERNO, MUITAS PESSOAS TIVERAM ESSA EXPERIÊNCIA DE MORRER, SE VER MORTO, ONDE OS RELATOS DE SUICIDAS NUNCA FORAM BONS, ELES SEMPRE VEEM DEMÔNIOS VINDO BUSCÁ-LOS (NÃO É HISTORINHA, SÃO FATOS COMPROVADAMENTE REAIS) TANTO É QUE EXISTE ESTUDO CIENTÍFICO DE PÓS MORTE.
A VIDA AQUI NA TERRA NÃO É FÁCIL, MAS MORRER NÃO É A SAÍDA CERTA, POIS EXISTE SOFRIMENTO MAIOR E ETERNO DO OUTRO LADO…
UM DIA TODOS IREMOS MORRER, MAS QUE SEJA NA HORA QUE DEUS QUISER, E NÃO POR CULPA NOSSA.
SEI QUE A MAIOR PARTE DAS PESSOAS QUE SOFREM, SÃO PESSOAS DO BEM, PESSOAS QUE SEMPRE FIZERAM E DESEJARAM O BEM AO PRÓXIMO E SÓ SE FERRARAM NA VIDA (ASSIM COMO EU)PORÉM MESMO ASSIM, É MELHOR CONTINUAR A SER BOM, MESMO SOFRENDO, DO QUE COMETER A PIOR BURRADA DO MUNDO, POIS A SALVAÇÃO É INDIVIDUAL E O SUICÍDIO É UM PECADO QUE FAZ A PESSOA PERDER A SALVAÇÃO ETERNA.
NÃO É COISA DE LIVROS, MAS SIM DE FATOS REAIS…EXISTEM SIM CÉU E INFERNO, JÁ É COMPROVADO E ISSO FAZ PARTE DE ESTUDOS CIENTÍFICOS!!!!
SE ESFORCEM UM POUCO, TENTE CONVERSAR COM DEUS, ELE VAI FALAR COM CADA UM DE VOCÊS E AOS POUCOS OS PROBLEMAS VÃO AOS POUCOS SENDO RESOLVIDOS, ACREDITEM, EU CONSEGUI SAIR DESSA, E VOCÊS QUE SÃO MELHORES DO QUE EU, TBM VÃO CONSEGUIR, EU SEI!!! EU ACREDITO NA FORÇA INTERIOR DO BEM DE CADA UM QUE ESTÁ LENDO AGORA, SAIBA QUE DEUS ME MANDOU DIZER A VOCE QUE ELE ESTÁ VENDO SIM O SEU SOFRIMENTO E QUE VAI ENTRAR COM PROVIDÊNCIA NA SUA VIDA!!! TENHA FÉ, ACREDITE, DEUS VAI MUDAR A SUA VIDA E VAI MOSTAR PARA TODOS AQUELES QUE TE HUMILHARAM, QUEM É O TEU DEUS!!! E VOCE SERVIRÁ DE TESTEMUNHO PARA OUTRAS VIDAS!!! VC É UM SER PERFEITO E LINDO, CRIADO POR DEUS, ELE JAMAIS VAI INVADIR O SEU ESPAÇO, É VOCÊ QUE TEM QUE CONVIDAR ELE PARA ENTRAR NA SUA VIDA, SÓ COM A SUA PERMISSÃO ELE PODERÁ FAZER DE VC, MAIS QUE UM VENCEDOR!!! VC NASCEU PARA VENCER, EU QUE ERA UM LIXO, CONSEGUI, VC TBM VAI CONSEGUIR E IR MUITO MAIS ALÉM!!!!

vera 04/11/2014 14:58 0 0

mateus

te mandei varios emails e vc nao me respondeu.
porque??noa vende mais???

Mateus 08/11/2014 15:59 1 1

NOVO EMAIL: farmaciadaweb@gmail.com

Vendo Pentobarbital (Nembutal) & Cianeto de Potássio (Cianureto), sou graduado em química e possuo contatos para obter o produto.
Tanto o Nembutal quanto o Cianureto causam uma morte rápida e indolor ao ingerir, provocando um desmaio quase instantâneo, evitando uma morte dolorosa e agonizante como vemos em muitos casos.

Interessados favor enviar e-mail para farmaciadaweb@gmail.com
Preço a combinar.

Atenção, o e-mail quimicativada@gmail.com E quimicativada@yahoo.com FORAM ALTERADOS PARA farmaciadaweb@gmail.com
As vendas continuam normalmente.

Mateus 08/11/2014 16:00 1 1

NOVO EMAIL: farmaciadaweb@gmail.com

Vendo Pentobarbital (Nembutal) & Cianeto de Potássio (Cianureto), sou graduado em química e possuo contatos para obter o produto.
Tanto o Nembutal quanto o Cianureto causam uma morte rápida e indolor ao ingerir, provocando um desmaio quase instantâneo, evitando uma morte dolorosa e agonizante como vemos em muitos casos.

Interessados favor enviar e-mail para farmaciadaweb@gmail.com
Preço a combinar.

Atenção, o e-mail quimicativada@gmail.com E quimicativada@yahoo.com FORAM ALTERADOS PARA farmaciadaweb@gmail.com
As vendas continuam normalmente..

Mateus 08/11/2014 16:00 1 1

NOVO EMAIL: farmaciadaweb@gmail.com

Vendo Pentobarbital (Nembutal) & Cianeto de Potássio (Cianureto), sou graduado em química e possuo contatos para obter o produto.
Tanto o Nembutal quanto o Cianureto causam uma morte rápida e indolor ao ingerir, provocando um desmaio quase instantâneo, evitando uma morte dolorosa e agonizante como vemos em muitos casos.

Interessados favor enviar e-mail para farmaciadaweb@gmail.com
Preço a combinar.

Atenção, o e-mail quimicativada@gmail.com E quimicativada@yahoo.com FORAM ALTERADOS PARA farmaciadaweb@gmail.com
As vendas continuam normalmente…

Mateus 08/11/2014 16:00 1 1

NOVO EMAIL: farmaciadaweb@gmail.com

Vendo Pentobarbital (Nembutal) & Cianeto de Potássio (Cianureto), sou graduado em química e possuo contatos para obter o produto.
Tanto o Nembutal quanto o Cianureto causam uma morte rápida e indolor ao ingerir, provocando um desmaio quase instantâneo, evitando uma morte dolorosa e agonizante como vemos em muitos casos.

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Preço a combinar.

Atenção, o e-mail quimicativada@gmail.com E quimicativada@yahoo.com FORAM ALTERADOS PARA farmaciadaweb@gmail.com
As vendas continuam normalmente….

cintia 10/11/2014 21:03 2 2

alguem ja comprou por este mateus

lizi 13/11/2014 2:21 1 1

comprei cintia..pede o valor do sedex depois manda um email avisando que estao sendo investigados e ficam como nosso dinheiro, dei ate dia 15/11 pra me mandarem o que paguei ou devolver meu dinheiro tenho cpf, dados bancarios senão mandarem vou atras d euma forma de terminar com isso, tem gente seria na internet,

karla 13/11/2014 2:29 2 2

cintia senao enviarem vou postar os dados bancarios com cpf da transferencia que fiz na caixa federal

Liliane 14/11/2014 22:22 1 0

Gente, eu consegui comprar com o Mateus, chegou direitinho o produto aqui, não sei o que deu errado com quem tá reclamando, pois eles são muito discretos, tem que saber comprar…

Marcelo 14/11/2014 22:26 1 0

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Joyce 14/11/2014 22:28 0 1

Se te Queres Matar Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria…
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente…
Talvez, acabando, comeces…
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…

A mágoa dos outros?… Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão…
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros…

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada…
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas…
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além…
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido…
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia…

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos…
Se queres matar-te, mata-te…
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! …
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo…

Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Talita Vieira 14/11/2014 22:29 0 0

Olá! Achei muito interessante o texto e todos os comentários… Enfim, chamo-me T. V., tenho 29 anos, nasci na cidade de Governador Valadares-M.G. Moro no exterior (Noruega) há 10 anos , Já passei por momentos escuros e de muita depressão em minha vida, pensei várias vezes em acabar c/ minha própria vida, eu estava no fundo do poço… Fumava 40 cigarros por dia e bebia descontroladamente…Sofria de insônia, depressão e sem vontade de viver…Até q depois de 2 anos as coisas boas foram acontecendo uma atrás da outra, conheci o homem da minha vida (hj o meu esposo), , compramos uma casa, um carro e temos um filho lindo de 6 meses que chama-se: David Adrian.:) Eu resolvi esperar, pq sabia q se tomasse a decisão em suicidar-me não teria + volta. E esperar foi a decisão mais certa que tomei em toda minha vida… Pois a vida é feita de momentos, momentos bons e ruins e os momentos ruins e escuros eles mais cedo ou mais tarde passão. E hj considero-me uma pessoa realizada, feliz e amada. E sou muito grata a Deus por mesmo não merecendo ter sido fiel para comigo.
Vou contar a vocês o relato do que aconteceu recentemente na minha família… Eu tenho uma tia que era casada e teve dois filhos, Isaque. e Daniel.. O Isaque. faleceu qnd tinha apenas 10 anos de idade (acidente de bicicleta), isso aconteceu há 30 anos atrás, depois de alguns os meus tios tiveram então mais um filho, o Daniel acabou então se tornando o único filho em vida então dos dois. Em julho desse ano 2013 o tio João ficou muito doente e foi internado no hospital, e depois de poucos dias acabou falecendo, e o meu primo o Daniel (27 anos),estava c/ sua mãe (minha tia) e o tio no hospital qnd recebram a notícia de que meu tio havia falecido, o Daniel na mesma hora saiu do hospital e comprou os chumbinhos e ingeriu todos eles e depois de uma semana ele veio a falecer. Ninguém da nossa família teve coragem de comunicar a tia Laura sobre o que realmente havia ocorrido com ele, eles disseram que a pressão dele havia abaixado por isso ele não pode comparecer ao velório do pai…Pensem vocês enquanto ela velava o corpo do marido o filho estava internado no hospital, entre a vida e a morte. Depois de uma semana foi a vez dela velar o filho. Tipo o tio João faleceu em um sábado e o Daniel no outro sábado, havia completado uma semana certinha. A tia Laura agora está sofrendo muito, ela não consegue mais viver sozinha, está morando na ksa da irmã, minha outra tia. Ela tem crises durante a noite e acorda gritando de tanta dor, a dor da alma. Ela vive a base de calmantes e anti-depressivos… Ela questiona a Deus, ela acha q o Daniel não a amava por tê-la a abandonado dessa forma, ainda mais quando ela mais precisava do apoio dele. Enfim… Triste:(

Felipe 14/11/2014 22:32 0 0

Eu ainda não experimentei o que é ter uma vida plena, desde pequeno tenho sofrido com situações que trazem um constante sentimento de frustração e tristeza. Eu sempre quis constituir uma família, ter filhos, ser uma pessoa “normal”, mas desde tenra infância sempre tive atração por homens, não tenho a prática dessa conduta, mas de certa forma este sentimento influenciou minha vida negativamente, pois era contrario as convicções e projetos que eu desejava para mim, então eu gastei boa parte do meu tempo diário, querendo de alguma fora encontrar um antídoto para isso, o que me levou a passar por psicólogos, psiquiatras, os quais me indicaram o uso de alguns remédios de tarja preta que acabei utilizando por um longo tempo. Mas o problema continuava lá e eu precisava fazer alguma coisa para soluciona-lo, acabei lendo muitos livros que falavam a respeito do assunto, mas nenhum deles realmente continha uma formula mágica que pudesse me ajudar. Eu ainda não contei que além de enfrentar o problema do homossexualismo, eu vivia debaixo da mão de um pai carrasco ditador e indiferente a minha pessoa em todos os sentidos, o que agravava minha condição psicológica, por que tive que começar a trabalhar com 15 anos de idade pois para ele essa idade era suficiente para assumir responsabilidades, embora eu descordasse plenamente. Minha mãe ao contrario do meu pai, era uma pessoa muito complacente, bondosa, mas inteiramente coagida pelas condutas tirânicas do meu pai, acabava sendo omissa em muitas situações. Baseado nisso você poderia dizer: Hey! Ai esta o motivo por que você é homossexual! Eu também pensei isso por muitos anos, mas saber a origem de um problema, não significava que possa soluciona-lo. Algumas pessoas me indicaram a procurar alguns lideres religiosos que talvez pudessem me ajudar, elas não sabiam qual era o meu problema, mas de alguma forma perceberam que eu precisava de ajuda, acabei conversando com alguns desses lideres e descobri que, em um mesmo jardim existem diversos tipos de flores e plantas, algumas exalam perfumes agradáveis , outras não exalam nada, e ainda há aquelas que são venenosas, deve-se tomar cuidado ao se andar no jardim. Bom eu que eu quero dizer com todo esse relato e que praticamente não teve um dia se quer, que não levasse em conta a possibilidade de um suicídio e depois de um tempo, por alimentar esse pensamento, se tornou algo obsessivo onde eu planejava como fazer e onde fazer, fiquei boa parte do tempo preso a isso, o que me fez perceber que eu somente havia trocado um problema por outro, pois nessa altura a questão do homossexualismo não era tão “problema” assim em comparação ao suicídio, pois em um eu poderia conseguir uma solução ainda que fosse a longo prazo, e mesmo que não tenha um meio de soluciona-lo, teria a chance de criar algo que aliviasse minha bagagem e tornar a viajem mais agradável, entretanto no outro, as possibilidades seriam esgotadas assim como problema, e também as chances de vitória sobre ele, de conhecer novas pessoas, talvez amar uma pessoa, quem sabe carregar meu filho no colo e vê-lo dar os primeiros passinhos, de conhecer lugares e descobrir que existem tons de cores além do preto e cinza, de conseguir o emprego dos sonhos, de experimentar um novo sabor de sorvete, de andar descalço na areia da praia, de chorar quando tiver vontade, de rir da coisa mais boba, de tentar novamente, e novamente, e novamente…de estar no lugar certo e na hora certa onde toda minha vida iria mudar, quem sabe!? Percebi que o suicídio me traria mais desvantagens que o problema que enfrento, não é um bom negócio. Querido leitor você possa ter a mesma percepção que tive e apesar dos problemas você consiga olhar pela janela da vida e ver que ainda carregando tantas bagagens, uma imensa e lida paisagem de possibilidades se abre para você e notar que durante a viajem as bagagens não ficam com você e sim no bagageiro. Um grande Abraço.

Magali 15/11/2014 12:28 0 0

ESTOU PASSANDO POR ISSO,UMA VOLTADE ENORME DE ME MATAR,POIS FUI TRAIDA
COVARDEMENTE E HUMILHADA PELO MEU MARIDO…PEGUEI ELE DORMINDO NA
CASA DA EX HOJE DIA 11 DE NOVEMBRO DE 2012 AS 07:OO HS COMPLETAMENTE
BEBADO E ELE DISE QUE NÃO SABE COMO FOI PARAR LAR.NOSSO CASAMENTO JA
NAÕ ANDA BÉM ALGUNS MESES,MAIS ELE SEMPRE FALAVA QUE NÃO TINHA MAIS NADA COM A EX,SOMENTE A RELAÇÃO COM OS FILHOS.MORAMOS EM UM APARTAMENTO QUE É DELE
MAIS EU SEMPRE AJUDEI A PAGAR AS PRESTAÇÕES,DEI O MEU SANGUE E SUOR PELA NOSSA CASA É HOJE ELE QUER QUE EU SAI PRA MORAR COM A EX E OS DOIS FILHOS.NÃO VOU SUPORTA VER A QUELA BRUXA NA MINHA CASA DEPOIS DE TANTO SACRIFICIO QUE PASSEI AO LADO DELE.A EX É UMA MULHER MACUMBEIRA E ENQUANTO NÃO ME DESTRUIR ELA NÃO VAI SUCEGAR,AGORA FICO ENDGUINADA COMO ELA É DIABOLICA,DEPOIS DE SER ABANDONADO POR ELE COM FILHO PEQUENO ACEITAR SER AMANTE HOJE,POIS ELA TA CANSADA DE SABER QUE ESTAMO CASADO NO CIVIL E MESMO ASSIM SE PRESTA A ESSE PAPEL.ESTOU ME SINTINDO MUITO FRACA ESPILITUAL,TUDO NA MINHA VIDA ESTA DANDO ERRADO,POIS NÃO TENHO FILHOS,TRABALHO,MÃE E TRABALHO PARA ME AJUDAR, PORISO A QUALQUER MOMENTO VOU ME MATAR,FALEI PRA ELE E ELE RIU DA MINHA CARA,POIS QUERO QUE ELE CARREGUE ESSA CULPA POR TODA SUA VIDA E NÃO FAÇA ISSO
MAIS COM NÉM UMA MULHER.
NÃO SOU UMA MALUCA E NÉM PSICOPATA E SIM UMA MULHER QUE AMOU UM HOMEM MAIS QUE A PROPRIA VIDA.
ADÉUS.

Silas 15/11/2014 12:29 0 0

Não procurem Deus em igrejas, pois ele certamente não está lá. Queridos.. ele está dentro de cada um de vocês, notem que somente buscamos igrejas quando estamos mal, caidos, e essa ideia nos faz vencer, não pq a igreja fez, mas pq vc acreditou que indo lá encontraria Deus e sua vida mudaria, por isso com muitos também não acontece NADA. Deus é o Universo, Deus é lindo a vida é linda. E olha que eu só entrei aqui porque estava procurando formas eficazes de suicídio e acreditem, motivos eu tenho, não só por causa dessa bobagem de aii.. eu amo ele e ele não me quer. Que se dane! O Mundo está cheio de homens e mulheres, todos vão te fazer chorar um dia, vc só terá que escolher por quem vale a pena sofrer. Bem.. lendo tudo aqui, vi que não tem nenhum caso que se compare ao meu e eu já desisti de morrer. Aff… imagina.. transportar os mesmos sentimentos para outra dimensão, será pior pq lá vc já não poderá fazer mais nada. Pensem Bem! Fica a dica. Parem já de acreditar em lorotas desse povo de igreja, Deus está dentro de vc, viva o bem, faça o bem, ore, medite, eu tenho mesmo que tomar vergonha na cara, justo eu uma pessoa tão forte, eu qria me matar por preguiça de lutar mais uma vez, mas eu sempre venço. Que a Paz de Jah esteja no coração de vcs!!! ♥

Rodolfo 15/11/2014 12:29 0 0

Com certeza irei me matar disso eu nao tenho duvidas o abandono e o despreso e a pior coisa que alguem deve fazer com a outra pessoa.
outra coisas as pessoas precisam medir bem oque falam pra outra pessoa uma palavra mau falada desencadiou em mim uma vontade enorme de me matar e isso ja faz uns 3 meses me sinto um lixo , me sinto totalmente sem chao a unica coisa que consigo fazer e andar de um lado por outro feito um zumbi realmente a vida pra mim nao tem mais nem um siginificado varias vezes pensei em me jogar em frente a uma carreta olha eu era feliz minha esposa me abandonou literalmente depois que fcamos sem dinheiro eu nao tenho mais nem onde morar estou morando dentro do carro as vezes fico 3 dias sem comee.
Reso o dia todo falo com Desus o di todo trabalhei 2 meses coo servente de pedreiro ralei mas eu nao aguentei a dias peço uma misericordia pra minha ex peço pra ela me ajudar psicologicamente mas ela nao da a minima vivemos 22 anos eu nao quero que ela volte pra mim so queria que ela retirasse tudo que ela falou pois em 22 anos tivemos momento ruins mas tambem tivemos momentos maravilhos e ela so lembra dos ruins e joga na minha cara toda hora que eu fiz ela perder 22 anos .
planejamos uma viagem onde ela iria na frente e eu iria um mes depois acabamos com tudo entrguei a casa e fui morar com um amigo 15 dias depois ela decidiu que eu nao iria mais ai me vi sem casa sem amigo e sem ninguem pois quando vc perde o dinheiro vc perde todos os amigos.
eu me sinto um trapo , um lixo humando ,um derrotado sou um cara humilhado eu nao tenho pra onde correr nem pra casa da minha familha eu posso voltar .
a unica coisa que me resta e me jogar embaixo de uma carreta , ou arrmar um revolver e dar um tiro na minha cabeça

João Pedro 15/11/2014 12:30 0 0

SOU CANTOR E COMPOSITOR DESDE CRIANÇA, SEMPRE LUTEI E FIZ O POSSIVEL PRA VIVER BEM, MAS ENTENDAM: NASCI D E UMA TRAIÇÃO DE MINHA MAE, QUE ME ABANDONOU LOGO NA PRE ADOLESCENCIA. CRESCI COM MINHA AVÓ PATERNA Q ME DEU MUITO AMOR, POREM MEU PAI QUE EU CONHECI COM 26 ANOS NUNCA ME ACEITOU DE VERDADE APENAS FINGIMENTO.CONHECI UMA PESSOA Q ME TRAIU COM SETE ANSO D E CASAMENTO, ONDE EU ERA FIEL, HOJE TENHO 5 FILHOS SENDO UMA QUE NAO É MINHA GENETICAMENTE ELA TINHA ELA QUANDO FOMOS MORAR JUNTOS, HOJE ELA QUER E F AZ DE TUDO PRA E U ME SEPARAR DA MAE DELA MESMO EU TENDO PERDOADO A TRAIÇÃO DELA. O QUE ME ACONTECEU ?? A ESPOSA QUE EU PERDOEI DE UMA TRAIÇÃO HOJE ME OLHA NOS OLHOS E PEDE O DIVORCIO, ME FALA QUE NUNCA ME AMOU, QUE NAO ME QUER COMO HOMEM , QUE SE SENTE SEPARADA MESMO ESTANDO EU MORANDO EM MINHA CASA QUE CONSTRUI COM MUITA LUTA. NAO VEJO OUTRA AUTERNATIVA SE NAO ME MATAR…COMPREI O CHUMBINHO, E ESTOU PRONTO PARA TOMAR E MORRER LOGO.POIS NAO QUERO V ER A MULHER QUE EU AMO COM OUTROS, E MINHAS FILHAS SENDO CRIADAS SEM PAI…COMIGO VIVO, POIS JA PASSEI POR ISTO. CRENTES, AHH CRENTES VEEM FALAR D E DEUS DE COVARDIA E DE FRAQUEZA…MAS EU NAO SOU FRACO SOU DECIDIDO, FUI ESPIRITA A MUITOS ANOS E TAMBEM NAO ME ACRESCENTARAM NADA APENAS CONTURBARAM MINHA VIDA, DEIXO AQUI MEU NOME ARTISTICO PARA ALGUEM QUE QUEIRAM OUVIR MINHAS OBRAS: http://www.palcomp3.com.br/ocowboydoforro TENHO PENSADO EM ME MATAR , E NAO VOU FICAR SOFRENDO SEM TOMAR UMA DECISAO.

Marisa 15/11/2014 15:09 0 2

Vendo Cianeto de Potássio, produto é garantido, conheço pessoas do ramo que fornecem o cianureto para venda.
Quem manifestar interesse, o e-mail é kantorski.lp@gmail.com
Também vendemos Nembutal.

Marisa 15/11/2014 15:10 0 1

Vendo Cianeto de Potássio, produto é garantido, conheço pessoas do ramo que fornecem o cianureto para venda.
Quem manifestar interesse, o e-mail é kantorski.lp@gmail.com
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thiago 15/11/2014 18:05 0 0

mateus/marcelo,
seu email foi desativado de novo
me escreve

abs

thiago 15/11/2014 18:06 0 0

se está tendo problemas, abre um email num servidor em outro pais
thiagomedeirossp@gmail.com

abraço

Bacalhau 15/11/2014 20:36 0 1

CESUSC – FAAG

APOSTILA DE FILOSOFIA

Professor: Otavio Augusto Auler Pinheiro Rodrigues
AULAS DE INTRODUÇÃO Á FILOSOFIA
Introdução

A palavra filosofia é de origem grega e significa amor à sabedoria. Ela surge desde o momento em que o homem começou a refletir sobre o funcionamento da vida e do universo, buscando uma solução para as grandes questões da existência humana. Os pensadores, inseridos num contexto histórico de sua época, buscaram diversos temas para reflexão. A Grécia Antiga é conhecida como o berço dos pensadores, sendo que os sophos ( sábios em grego ) buscaram formular, no século VI a.C., explicações racionais para tudo aquilo que era explicado, até então, através da mitologia
Os Pré-Socráticos
Podemos afirmar que foi a primeira corrente de pensamento, surgida na Grécia Antiga por volta do século VI a.C. Os filósofos que viveram antes de Sócrates se preocupavam muito com o Universo e com os fenômenos da natureza. Buscavam explicar tudo através da razão e do conhecimento científico. Podemos citar, neste contexto, os físicos Tales de Mileto, Anaximandro e Heráclito. Pitágoras desenvolve seu pensamento defendendo a idéia de que tudo preexiste a alma, já que esta é imortal. Demócrito e Leucipo defendem a formação de todas as coisas, a partir da existência dos átomos.
Período Clássico
Os séculos V e IV a.C. na Grécia Antiga foram de grande desenvolvimento cultural e científico. O esplendor de cidades como Atenas, e seu sistema político democrático, proporcionou o terreno propício para o desenvolvimento do pensamento. É a época dos sofistas.e..do..grande..pensador..Sócrates.
Os sofistas, entre eles Górgias, Leontinos e Abdera, defendiam uma educação, cujo objetivo máximo seria a formação de um cidadão pleno, preparado para atuar politicamente para o crescimento da cidade. Dentro desta proposta pedagógica, os jovens deveriam ser preparados para falar bem ( retórica ), pensar e manifestar suas qualidades artísticas.
Sócrates começa a pensar e refletir sobre o homem, buscando entender o funcionamento do Universo dentro de uma concepção científica. Para ele, a verdade está ligada ao bem moral do ser humano. Ele não deixou textos ou outros documentos, desta forma, só podemos conhecer as idéias de Sócrates através dos relatos deixados por Platão.
Platão foi discípulo de Sócrates e defendia que as idéias formavam o foco do conhecimento intelectual. Os pensadores teriam a função de entender o mundo da realidade,separando-o..das..aparências.
Outro grande sábio desta época foi Aristóteles que desenvolveu os estudos de Platão e Sócrates. Foi Aristóteles quem desenvolveu a lógica dedutiva clássica, como forma de chegar ao conhecimento científico. A sistematização e os métodos devem ser desenvolvidos para se chegar ao conhecimento pretendido, partindo sempre dos conceitos gerais para os específicos.
Período Pós-Socrático

Está época vai do final do período clássico (320 a.C.) até o começo da Era Cristã, dentro de um contexto histórico que representa o final da hegemonia política e militar da Grécia.
Ceticismo : de acordo com os pensadores céticos, a dúvida deve estar sempre presente, pois o ser humano não consegue conhecer nada de forma exata e segura.
Epicurismo : os epicuristas, seguidores do pensador Epicuro, defendiam que o bem era originário da prática da virtude. O corpo e a alma não deveriam sofrer para, desta forma, chegar-se.ao.prazer.
Estoicismo : os sábios estóicos como, por exemplo Marco Aurélio e Sêneca, defendiam a razão a qualquer preço. Os fenômenos exteriores a vida deviam ser deixados de lado, como a emoção, o prazer e o sofrimento.
Pensamento Medieval

O pensamento na Idade Média foi muito influenciado pela Igreja Católica Desta forma, o teocentrismo acabou por definir as formas de sentir, ver e também pensar durante o período medieval. De acordo com Santo Agostinho, importante teólogo romano, o conhecimento e as idéias eram de origem divina. As verdades sobre o mundo e sobre todas as coisas deviam ser buscadas nas palavras de Deus.
Porém, a partir do século V até o século XIII, uma nova linha de pensamento ganha importância na Europa. Surge a escolástica, conjunto de idéias que visava unir a fé com o pensamento racional de Platão e Aristóteles. O principal representante desta linha de pensamento foi Santo Tomás de Aquino.
Pensamento Filosófico Moderno

Com o Renascimento Cultural e Científico, o surgimento da burguesia e o fim da Idade Média, as formas de pensar sobre o mundo e o Universo ganham novos rumos. A definição de conhecimento deixa de ser religiosa para entrar num âmbito racional e científico. O teocentrismo é deixado de lado e entre em cena o antropocentrismo ( homem no centro do Universo ). Neste contexto, René Descartes cria o cartesianismo, privilegiando a razão e considerando-a base de todo conhecimento.
A burguesia, camada social em crescimento econômico e político, tem seus ideais representados no empirismo e no idealismo.
No século XVII, o pesquisador e sábio inglês Francis Bacon cria um método experimental, conhecido como empirismo. Neste mesmo sentido, desenvolvem seus pensamentos Thomas Hobbes e John Locke.
O iluminismo surge em pleno século das Luzes, o século XVIII. A experiência, a razão e o método científico passam a ser as únicas formas de obtenção do conhecimento. Este, a única forma de tirar o homem das trevas da ignorância. Podemos citar, nesta época, os pensadores Immanuel Kant, Friedrich Hegel, Montesquieu, Diderot, D’Alembert e Rosseau.
O século XIX é marcado pelo positivismo de Auguste Comte. O ideal de uma sociedade baseada na ordem e progresso influencia nas formas de refletir sobre as coisas. O fato histórico deve falar por si próprio e o método científico, controlado e medido, deve ser a única.forma..de..se…chegar.ao..conhecimento.
Neste mesmo século, Karl Marx utiliza o método dialético para desenvolver sua teoria marxista. Através do materialismo histórico, Marx propõe entender o funcionamento da sociedade para poder modificá-la. Através de uma revolução proletária, a burguesia seria retirada do controle dos bens de produção que seriam controlados pelos trabalhadores.
Ainda neste contexto, Friedrich Nietzsche, faz duras críticas aos valores tradicionais da sociedade, representados pelo cristianismo e pela cultura ocidental. O pensamento, para libertar, deve ser livre de qualquer forma de controle moral ou cultural.
Época Contemporânea

Durante o século XX várias correntes de pensamentos agiram ao mesmo tempo. As releituras do marxismo e novas propostas surgem a partir de Antonio Gramsci, Henri Lefebvre, Michel Foucault, Louis Althusser e Gyorgy Lukács. A antropologia ganha importância e influencia o pensamento do período, graças aos estudos de Claude Lévi-Strauss. A fenomenologia, descrição das coisas percebidas pela consciência humana, tem seu maior representante em Edmund Husserl. A existência humana ganha importância nas reflexões de Jean-Paul Sartre, o criador do existencialismo.

GRANDES PENSADORES
SÓCRATES
Sócrates nasceu em Atenas em 470 a.C., filho de Sofrônico, escultor, e de Fenáreta, parteira. Desde cedo dedicou-se à meditação e ao ensino filosófico, como a uma vocação religiosa, não se deixando distrair pelos cuidados domésticos e pelos interesses políticos. A sua atitude crítica, irônica e o seu método racional despertaram descontentamento geral, hostilidade popular e inimizades pessoais que se concretizaram na famosa acusação movida contra ele, de corromper a mocidade e alterar a religião nacional. Processado, desdenhou defender-se; foi condenado à morte, que enfrentou, serenamente, no cárcere, no ano 355 a.C. A introspecção é a característica dominante da personalidade socrática, e se exprime no famoso conhece-te a ti mesmo, e se personificava na voz divina, interna, do gênio ou demônio. As notícias relativas a sua vida e seu pensamento as devemos especialmente a dois discípulos seus: Xenofonte e, sobretudo, Platão.
Como Sócrates é o fundador da ciência, em geral, mediante a doutrina do conceito, assim é, em particular, o fundador da ciência moral, mediante a doutrina que identifica eticidade com racionalidade, ação racional. Virtude é inteligência, razão, ciência, não sentimento, rotina, costume, tradição, lei positiva, opinião comum. No entanto, como a gnosiologia socrática carece de especificação lógica, precisa, assim a ética socrática carece de conteúdo racional, por falta de uma metafísica.
Sócrates não elaborou um sistema filosófico acabado, nem deixou escrito algum, mas descobriu um método e fundou uma grande escola, de modo que dele depende, direta ou indiretamente, toda a especulação grega que se seguiu, a qual, mediante o pensamento socrático, aperfeiçoa o pensamento dos pré-socráticos em sistemas e desenvolvimentos vários e originais. Isto patenteia-se imediatamente nas escolas socráticas. Elas, ainda que se diferenciem não pouco entre si, concordam todas pelo menos na característica da doutrina socrática, de que o maior bem do homem é a sabedoria. A escola socrática maior é a platônica; as escolas socráticas menores são a de Mégara, de Elis, a Cínica, e a Cirenaica. Pelas suas doutrinas específicas – a virtude e o prazer fins da vida – e pelo lugar proeminente, atribuído à moral na filosofia, a escola cínica(cujo famoso expoente é Diógenes) e a cirenaica representam respectivamente o germe do estoicismo e do epicurismo.

PLATÃO

Platão nasceu em Atenas no ano 428 a.C. Seus pais pertenciam a uma antiga e nobre descendência. Teve um temperamento de artista e de filósofo ao mesmo tempo, manifestação característica e elevada de gênio grego. Aos vinte anos, Platão travou relações com Sócrates, cujo ensino e amizade gozou durante oito anos. Quando discípulo de Sócrates, Platão estudou também os maiores pré-socráticos. Após a morte do mestre, começou a viajar, dando um vasto giro para se instruir através do Egito, da Itália meridional e da Sicília. Na Sicília tentou inutilmente realizar a sua utopia política junto à corte de Siracusa. Pelo ano de 368 fundava em Atenas a sua famosa escola, que tomou o nome de Academia, dedicando-se inteiramente à especulação metafísica, ao ensino filosófico e à redação de suas obras até à morte em 347 a.C. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos; escreveu treze cartas e trinta e seis diálogos, que representam a obra-prima da sua atividade artística e filosófica.
Platão, como também Sócrates, pensa que a filosofia tem um fim prático, moral; é a grande ciência que resolve o problema da vida. Este fim prático, porém, realiza-se só intelectualmente, através da especulação, do conhecimento, da ciência. Mas, diversamente de Sócrates, que limitava a investigação filosófica, conceitual, ao campo antropológico e moral, Platão estende tal investigação ao campo metafísico e cosmológico, quer dizer, a toda a realidade. Como Sócrates, também Platão distingue um conhecimento sensível, a opinião, e um conhecimento intelectual, a ciência; particular e mutável o primeiro, universal e imutável o segundo. Entretanto Platão, diversamente de Sócrates, que faz derivar o segundo do primeiro, julga que o conhecimento intelectual não pode derivar do conhecimento sensível, por terem precisamente estes dois conhecimentos características opostas. Diversamente do mestre, pois, que ignora a metafísica, Platão dá tanto a um quanto a outro conhecimento, um objeto correspondente, um fundamento ontológico: ao conhecimento sensível o mundo material, multíplice e mutável; ao conhecimento intelectual o mundo ideal, universal e imutável.
AS IDÉIAS = O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias, a que é contraposta a matéria, obscura e incriada. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo – arquiteto do universo – e as almas, donde desce das idéias para a matéria o tanto de racionalidade que nela aparece. A divindade platônica é representada pelo mundo das idéias, e especialmente pela idéia do Bem, que ocupa o lugar de maior destaque. Pelo fato de que as idéias são conceitos personificados, transferidos da ordem lógica à ordem ontológica, terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcendentes à experiência, universais, imutáveis, e ordenados logicamente, sistematicamente entre si(dialética).
AS ALMAS = Como o Demiurgo, e em dependência dele, a alma tem uma função mediadora entre as idéias e a matéria, a que comunica ordem e vida. Platão distingue três espécies de almas: concupiscível(vegetativa), irascível(sensitiva), racional(inteligente), que são próprias, respectivamente, da planta, do animal e do homem; e no homem se acham reunidas hierarquicamente, enquanto ele é um ser vivo, sensitivo e dotado de intelecto. A alma racional está no corpo humano como em prisão, em exílio, a que é condenada por uma culpa cometida quando estava no mundo das idéias, sua pátria verdadeira, donde, em conseqüência dessa culpa, decaiu.
O MUNDO = O mundo material, o cosmos platônico, resulta da síntese de dois princípios opostos: as idéias e a matéria. O Demiurgo plasma o caos da matéria sobre o modelo das idéias eternas, introduzindo-lhe a alma, princípio de ordem e de vida. Platão é um pampsiquista, isto é, anima todo o universo: haveria, antes de tudo, uma alma do mundo, e, depois, partes dela, dependentes e inferiores, que seriam as almas dos astros, dos homens, etc.
Consoante a psicologia platônica, a natureza do homem é racional, e, por conseqüência, na razão o homem realiza a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem que é, ao mesmo tempo, felicidade e virtude. Entretanto, esta natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento, e sim um obstáculo, que Platão explica mediante um dualismo filosófico-religioso de alma e corpo: o intelecto encontra um obstáculo no sentido, a vontade no impulso. A moral platônica, portanto, é uma moral de renúncia ao mundo – ascética – , e o homem realiza o seu destino além deste mundo, na contemplação do mundo das idéias. Nesta ascese moral, Platão distingue quatro virtudes fundamentais: a sabedoria, a fortaleza, a temperança, a justiça. Quanto ao destino das almas após a morte, julga Platão que as dos sábios, dos filósofos, que se libertaram inteiramente da sensibilidade, voltam para o mundo ideal; as dos homens mergulhados inteiramente na matéria, vão para um lugar de danação; as almas intermediárias se reincarnam em corpos mais ou menos nobres, conforme o bem ou o mal que fizeram.
Platão deriva da natureza humana a justificação da sociedade e do estado, visto que cada um precisa do auxílio moral e material dos outros; deve, portanto, estar unido com os outros. Desta variedade de necessidades humanas origina-se a divisão do trabalho e, consequentemente, a distinção do povo em classes, em castas, bem como a instituição da escravidão, para os trabalhos mais materiais, servis. Segundo Platão, o estado ideal deveria ser dividido em três classes sociais: a dos filósofos, conhecedores da realidade, aos quais cabe o governo da república; a dos guerreiros, a quem cabe a defesa interna e externa do estado, de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos; a dos produtores – agricultores e artesãos – submetidos às duas classes precedentes, cabendo-lhes a conservação econômica do estado. Platão tinha compreendido que os interesses privados, domésticos, redundam efetivamente em contraste com os interesses sociais, estatais. E não hesita em sacrificar inteiramente a família e a riqueza dos particulares ao Estado; daí o assim chamado comunismo platônico, que não é materialista, econômico, e sim espiritual, ascético. Se a natureza do estado é, essencialmente, a de um organismo ético, o seu fim principal é pedagógico: o estado, antes de tudo, deve prover ao bem espiritual dos cidadãos, educando-os virtuosamente; e apenas secundariamente, instrumentalmente, se deve ocupar com o bem-estar dos cidadãos.A divindade platônica é constituída pelo mundo das idéias, ocupando o centro a idéia do Bem. Quanto à religião positiva grega, Platão hostiliza o antropomorfismo, admitindo entretanto um politeísmo astral, tendo ao centro o Demiurgo. As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. No conjunto do seu pensamento prevalece a desvalorização e por dois motivos, teorético um, prático outro. O motivo teorético é que a arte seria cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico, que já é cópia do mundo ideal. Em suma, a arte copiaria os fenômenos, não as essências como as ciências fazem. O motivo prático é que a arte, dada esta sua natureza teorética inferior, impura fonte gnosiológica, torna-se igualmente danosa no campo moral: com efeito, operando cegamente sobre o sentimento, a arte nos atrai para o verdadeiro assim como para o falso, para o bem como para o mal.
A escola filosófica fundada por Platão, a Academia, sobreviveu-lhe por quase um milênio, até o século VIdC. A Academia platônica divide-se comumente em antiga, média e nova. A antiga academia preocupa-se com uma sistematização mais completa do pensamento platônico e com uma maior valorização da experiência. A média academia toma uma tendência cética, sobretudo graças a Carnéadas. A nova academia orienta-se especialmente para o ecletismo. Chega-se, entrementes, ao início da era vulgar; a academia platônica, porém, sobreviverá ainda e tomará uma última forma no neoplatonismo.
ARISTÓTELES
Este grande filósofo grego nasceu em Estagira no ano 384 a.C. Aos 18 anos entrou na Academia Platônica, onde ficou por vinte anos, até à morte do mestre. Em 343 foi convidado por Filipe, rei da Macedônia, para educar o filho Alexandre, chamado mais tarde, Magno. Voltando para Atenas em 335, aí fundou sua escola famosa, chamada Liceu e também escola peripatética. Em 323 teve de abandonar Atenas por motivos políticos, retirando-se para Eubéia, onde morreu em 332 a.C. com 62 anos de idade. Aristóteles foi especialmente um homem de cultura e de pensamento, que se isola da vida prática, para a pesquisa científica. A sua atividade literária foi vasta e intensa, como a sua cultura e o seu gênio; chegam perto de um milheiro as obras escritas por ele, das quais ficou a parte, não quantitativamente, mas qualitativamente mais importante, a saber: os tratados científicos elaborados para o ensino. A primeira edição completa das obras dele é a de Andrônico de Rodes – pelos fins da era antiga – que classifica os escritos aristotélicos da maneira seguinte: lógica, física, metafísica, moral, política, retórica e poética. As obras doutrinais dele manifestam um grande rigor científico, exposição e expressão breve e aguda, clara e ordenada, maravilhosa perfeição da terminologia filosófica.
Segundo ele, a filosofia é essencialmente teorética, deve decifrar o enigma do universo: o seu problema fundamental é o problema do ser, não o da vida. A filosofia divide-se em teorética, prática e poética, e abrange todo o saber humano. A teorética divide-se, por sua vez, em física, matemática e filosofia primeira(metafísica e teologia); a prática divide-se em ética e política; a poética em estética e técnica. Pelo que concerne ao problema gnosiológico, a ciência, a filosofia têm como objeto o universal, o necessário, isto é, a forma, a essência das coisas existentes na realidade. Objeto essencial da lógica aristotélica é o processo de derivação, demonstração, dedução ideais do particular pelo universal, que corresponde a um processo de derivação real no mundo das coisas: a sua expressão clássica é o SILOGISMO. Segundo ele, porém, diversamente de Platão, os elementos primeiros do conhecimento, da ciência – conceitos e juízos – têm que ser, num caso e noutro, tirados da experiência. Assim sendo, compreende-se como Aristóteles, ao lado da doutrina da dedução, foi levado a elaborar, na lógica, uma doutrina da indução. Não é ela por certo efetivamente completa, mas pode ser integrada logicamente segundo o espírito profundo da filosofia aristotélica.
A metafísica aristotélica é a ciência do ser como ser, isto é, do ser em geral(ontologia=metafísica geral). Ciência de Deus , do homem e do mundo(Metafísica especial=cosmologia, psicologia e teologia). As questões principais da metafísica geral aristotélica podem-se reduzir a quatro: potência e ato: potência significa não-ser atual e capacidade de ser: ato significa ser efetivo, realização de uma possibilidade. Todo ser, salvo o ser perfeitíssimo, é uma síntese(sínolo) de potência e ato. A passagem da potência ao ato é o vir-a-ser. Matéria e forma: a matéria é a potência e a forma é o ato no mundo material. A matéria é, portanto, o princípio de indeterminação, que é determinado pela forma (essência, espécie). Todo ser material resulta da síntese de matéria e forma(substância. Particular e universal: a particularidade, a singularidade, a individualidade das várias substâncias depende da matéria, que multiplica precisamente em muitos indivíduos a universalidade da forma. Motor e coisa movida: o movimento, o vir-a-ser, a mudança, é a passagem da potência ao ato, da matéria à forma. A fim de que esta passagem se realize, para que haja movimento, vir-a-ser, mudança, é preciso um motor, uma causa da própria passagem, até que, de causa em causa, se chegue a Deus, ato puro, motor imóvel do universo.
Uma questão geral da física aristotélica como filosofia da natureza, é a análise dos vários tipos de movimento, mudança que já sabemos consistir na passagem da potência ao ato, realização de uma possibilidade. Outra e também importantíssima questão desta física concerne ao espaço e ao tempo, concebidos como reais por Aristóteles: não, porém, como substâncias, mas como relações entre substâncias. Uma questão fundamental da filosofia natural aristotélica é a referente à finalidade, à ordem da natureza. Aristóteles é um autêntico afirmador da doutrina da finalidade, com base na doutrina da causa final.
Objeto principal da pscicologia aristotélica é o mundo vivente, que tem como princípio a alma, e se distingue essencialmente do mundo inorgânico, mineral. Aristóteles distingue uma alma vegetativa, própria das plantas; uma alma sensitiva, própria dos animas; uma alma racional, própria do homem, e que reúne em si também as funções características das duas almas precedentes. O homem é uma unidade substancial de alma e corpo, em que a alma desempenha o papel de forma com respeito à matéria, esta constituindo o corpo. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade, a inteligência, o pensamento, pelo que ela é espírito e deve ser imortal. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: a teorética, cognoscitiva, contemplativa; e a prática, operativa, ativa. Cada uma delas, pois, se desdobra em dois graus, sensitivo e intelectivo, se levar em conta que o homem é um espírito unido, substancialmente, ao corpo. Teremos, assim, um conhecimento sensível e um conhecimento intelectual, e dois tipos de atividades práticas: a tendência e a vontade.
Objeto próprio da teologia é o motor imóvel, o ato puro, o pensamento do pensamento, isto é, Deus. Aristóteles chega a Deus mediante uma sólida demonstração, que parte da experiência imediata, da indiscutível realidade do devir, da passagem da potência ao ato. Todo devir demanda necessariamente uma causa, e esta uma outra causa ainda; e, assim por diante, até se chegar a um ser que não vem-a-ser, a um motor em ato, a um puro ato, que, de outra forma, deveria ser movido por sua vez. Da análise do conceito de Deus, concebido como primeiro motor imóvel, Aristóteles deduz logicamente a natureza essencial de Deus. Antes de tudo, Deus concebido como ato puro, perfeição absoluta e, depois, concebido como pensamento do pensamento, conhecimento de si mesmo: nesta autocontemplação imutável e ativa está a beatitude divina. Se Deus é mera atividade teorética, tendo como objeto unicamente a própria perfeição, não conhece o mundo imperfeito, e menos ainda atua sobre ele como criador e providência. O Deus de Aristóteles atua sobre o mundo, por Ele movido, não como causa eficiente, operante, mas como causa final, atraente.
Conforme a metafísica aristotélica, todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza, à concretização plena da sua forma: e nisto está o seu fim, o seu bem, a sua felicidade e, por conseqüência, a sua lei. Visto ser a razão a essência característica do homem, realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente, e sendo disto consciente. E, desta maneira, ele alcança a felicidade e a virtude. Logo, o fim do homem é a felicidade, para a qual é necessária a virtude, que, por sua vez necessita da razão. A característica da ética aristotélica é a harmonia entre paixão e razão, virtude e felicidade; e também a doutrina de que a virtude é um hábito racional. Enfim, a ética aristotélica reconhece a primazia das virtudes dianoéticas, contemplativas, sobre as virtudes éticas, ativas; a supremacia do conhecimento e do intelecto sobre a prática e a vontade. O Estado é um organismo moral, condição e complemento da atividade moral individual. A política, todavia, é distinta da moral; pois, esta tem como objeto o indivíduo, aquela a coletividade: a ética é a doutrina moral individual, a política é a doutrina moral social. O estado é composto pela comunidade das famílias, como os diversos indivíduos compõem as famílias. Segundo ele, a família é constituída de quatro elementos: os filhos, a mulher, os bens e os escravos; fora naturalmente o chefe, a quem cabe a direção geral. A fim de que a propriedade seja produtora, são necessários instrumentos animados e inanimados: os animados seriam os escravos, a que Aristóteles não nega a natureza humana, mas não lhes reconhece os direitos humanos, por causa da atividade material deles. O estado provê inicialmente a satisfação daquelas necessidades materiais, negativas e positivas, defesa e organização, que não se podem de outro modo realizar; mas o seu fim é essencialmente espiritual, pedagógico. O Deus aristotélico é representado pelo Ato Puro, admitindo Aristóteles outros deuses subordinados a este: os deuses astrais, inteligências animadoras das estrelas. Não obstante este teísmo superior, Aristóteles deixa ao povo a religião positiva, antropomórfica, a ele adaptada, sem correção alguma. Aristóteles, como Platão, considera a arte como imitação. Entretanto, não imitação da imitação, como é o fenômeno, o sensível platônico; mas imitação direta da própria idéia, imitação do inteligível imanente no sensível, imitação da forma imanente na matéria. Na arte, este inteligível, universal, é encarnado concretizado em um sensível, em um particular e, destarte, tornado, intuitivo, graças ao artista. A escola peripatética – o Liceu – não teve a longa duração e a variedade de orientações da academia platônica, e dedicou-se especialmente à indagação empírica, naturalista, histórica. Inversamente, o aristotelismo, mais do que o platonismo, terá uma fecunda vida fora e além do pensamento grego, isto é, no pensamento cristão, escolástico, tomista.

AULA 1
Unidade 1:
Mito e logos
• Mito e logos entre os helenos

Talvez, as primeiras críticas feitas ao modo mítico de expor as idéias tenham partido do pensador pré-socrático chamado Xenófanes, da cidade de Cólofon (na atual Turquia), no século VI a. C. No fragmento 11, registrado por Sexto Empírico, Xenófanes, que escrevia em versos, critica Homero e Hesíodo, personagens do século VII a. C., por atribuírem “aos deuses tudo quanto entre os homens é vergonhoso e censurável: roubos, adultérios e mentiras recíprocas”. Essas restrições remontam à época da tomada de Cólofon pelos Medos, cerca de 540 a. C.
As guerras Médicas e a conseqüente guerra do Peloponeso são uns dos antecedentes históricos que contribuíram para minarem a fé que os helenos tinham em seus deuses protetores, do campo e da cidade. A corrupção dos costumes que ocorria, então, levava à contestação, por parte dos primeiros pensadores ocidentais, daqueles que supostamente deveriam defender a comunidade. A decadência religiosa coincide com a ascensão do raciocínio de tipo filosófico, enquanto abria espaço para o afloramento de um sentimento místico em que cada um busca as respostas que os antigos deuses coletivos já não podem mais fornecer. Ao lado disso, o sarcasmo e o ceticismo transformam o Olimpo num condomínio povoado por deuses risíveis e cruéis da mitologia helênica, totalmente contrários à moral e à concepção religiosa.
Nesse contexto, começa a se manifestar a oposição entre mythos e logos, inaugurada por Xenófanes e seguida por Platão em seus diversos Diálogos. Uma terceira posição é tomada pelos sofistas que passam a ignorar o comportamento divino, propondo uma interpretação do mundo calcada numa descrição tipicamente humana. Por um lado, Platão recusa o relativismo e agnosticismo sofistas, propostos por Protágoras e Górgia. Por outro, acompanhando a crítica de Xenófanes, faz fortes objeções morais aos mitos narrados por Homero e Hesíodo. Para Platão, o logos deveria representar o discurso racional, inquiridor e verdadeiro, que a forma da narrativa ficcional já não suportava mais.
Não obstante, os diálogos platônicos estão repletos de mitos que ora servem para ilustrar suas afirmações, ora são pontos-de-partida para o desenvolvimento de um discurso verdadeiro, ou ainda complementam as limitações do logos – como se quisesse demonstrar que uma forma narrativa mais ampla, com a força encantadora que o mito tem, poderia ser utilizada na pesquisa da verdade. Exemplos disso são as famosas passagens da alegoria da caverna, encontrada no livro VII da República, o destino das almas, no Fédon, e a parelha alada do Fedro.
Religião, mito e logos
Para melhor entender a oposição entre mito e logos, é preciso considerar a função dessas duas formas de narrar e a distinção do mito para com a religião. O mito, na tradição arcaica grega se distingue da narrativa religiosa nos seguintes aspectos: enquanto a religião propunha aos helenos um ordenamento do cosmos e a hierarquização da cidade, inspirando perfeição e autoridade, além de serviços religiosos – como festivais, oferendas e orações – que ficavam a cargo de alguns membros de famílias nobres, mas sempre dentro de uma tradição oral; a mitologia não se reduzia à descrição da vida dos deuses, integrando ao seu inventário de histórias os feitos extraordinários de seus heróis e fundadores de cidades, servindo, por vezes, como registro histórico dos fatos mais importantes na vida dos helenos. Isso fica evidente na Ilíada de Homero. Durante séculos, pensava-se que essa obra retratasse apenas fantasiosa exaltação do imaginário coletivo de um povo, sobre uma guerra ocorrida numa cidade fictícia, até que escavações arqueológicas revelassem os escombros de uma antiga cidade na Ásia menor, a qual se supõe ter sido a Ílion descrita naquela rapsódia.
Outra característica diferencial do mito, em relação à religião, é a sua dinâmica, mais sensível às mudanças sociais, fato que explica a sua fácil assimilação da escrita e da alteração dos sentimentos coletivos. Além disso, o mito também desempenha a função de fundamento de recomendações morais, como no caso do poema Trabalho e os Dias, de Hesíodo, onde a decadência humana é metaforizada pelo mito das cinco raças – raças de ouro, prata, bronze, de heróis e do ferro – e a influência das mulheres nos negócios dos homens, condenado no exemplo de Pandora. Tanto pessimismo na obra de Hesíodo não é desprovido de uma forte motivação materialista, a saber, a partilha da herança paterna com seu irmão Perses, na qual os interesses do autor foram lesados graças à decisão de juízes corruptos em favor de seu irmão. Outra característica fundamental é o fato de nem Homero, nem Hesíodo, serem propriamente sacerdotes, ou encarregados dos serviços religiosos. Homero, que por si só constitui uma figura lendária, costuma ser representado como um rapsodo cego, isto é, um contador de histórias em verso que passava de cidade em cidade narrando suas histórias. Hesíodo, por seu turno, era agricultor ou pastor de ovelhas que habitava a região estéril e inóspita ao pé do monte Hélicon, onde ficava a cidade de Ascra. Ele tinha de trabalhar de sol a sol para se manter.
Por serem pessoas que, supostamente, encontravam amiúde dificuldades de sobrevivência, o relato mítico que faziam misturava as paixões humanas, no que elas tinham de bom e de ruim, ao sobrenatural,. Daí, o fato de Xenófanes atacar justamente essa impureza dos deuses nos mitos de Homero e Hesíodo. Isso permite que especulemos até que ponto as objeções a essa forma de narrativa atingiam menos o modo de expressão do que seu conteúdo.
Nesse sentido, a clássica oposição entre mito e logos, entendida como uma oposição entre discursos falsos e verdadeiros, também não está livre de distorção, uma vez que, nem mesmo Platão, um dos maiores opositores da poesia de Homero, no tocante ao comportamento dos deuses, dispensava o uso de ficção em seus diálogos. Aliás, sua obra está cheia de mitos por ele mesmo criados. O tratamento dado ao mito nessas ocasiões demonstrava a preocupação de acompanhar essas narrativas, a partir de uma interpretação que pudesse trazer à tona a verdade que eles procuravam transmitir.
Logos, é preciso que se diga, entre seus diversos significados, também pode ser traduzido como discurso ou relato – além de razão, definição e proporção. Como o mito, o logos tinha também sua estrutura narrativa, embora com um senso de proporção e exatidão que não eram encontrados no discurso mítico. Eis porque, quando a forma do mito entra em desgaste, o logos se torna o candidato mais apto a ocupar seu lugar, na tarefa de descrever o mundo e dar sentido às relações humanas, sob a perspectiva dos pensadores e filósofos gregos.. Por sua vez, a religião, apesar de ameaçada pela desconfiança causada por sucessivos reveses sociais, preocupava-se em manter a tradição, radicalizando no combate às heresias. Devemos notar, ainda, que, mesmo sendo um oponente direto da narrativa mítica, é possível encontrar quem apontasse as limitações do logos para assuntos religiosos, pois esses não podem ser definidos como “verdadeiros” ou “falsos”, por conta de sua obscuridade. Por exemplo, vale a pena citar o sofista Protágoras, da cidade de Abdera, que em seu fragmento de Sobre os Deuses afirmava:
sobre os deuses, sou incapaz de experimentar sua existência ou não, nem qual seja a sua essência ou forma externa: muitos empecilhos o impede, a obscuridade do assunto e a brevidade da vida humana (EUSÉBIO, Preparação Evangélica, XIV 3, 7).
Protágoras pagou caro por sua ousadia. Seu agnosticismo foi considerado um crime de impiedade e, por conta disso, condenado ao degredo. Em sua fuga, o sofista acabou por morrer afogado, após o naufrágio do barco que o transportava para fora de Atenas. Isso é um sinal de que, embora a narrativa mítica estivesse em declínio, o discurso religioso ainda encontrava fôlego para impor suas recomendações. O mito caía em desgraça, como falsificação, mas a religião permanecia como uma terceira via discursiva fora da oposição mito-logos. De modo algum o logos, entendido como história “verdadeira”, se opunha ao discurso religioso, mas sim às histórias “falsas” que os mitos relatavam. O discurso religioso, destacado do discurso mítico, não podia ser encarado como “falso”. Nem mesmo “verdadeiro”, segundo os mais céticos, como Protágoras.
Portanto, se pode-se falar de uma oposição entre mito e logos, enquanto uma tensão entre histórias “falsas”e “verdadeiras”, o mesmo já não pode ser afirmado da relação religião-logos. A religião não pode ser facilmente caracterizada como um discurso mítico ou uma história “falsa”, muito menos como um logos ou discurso “verdadeiro”. As críticas de cunho moral, lançadas por Xenófanes, tinham alvos precisos, com nome e tudo. Esses alvos eram Homero e Hesíodo. Nos fragmentos 173 a 175, ele afirma a existência de um só deus, sem forma e pensamento humanos, imóvel e onipotente, mostrando que as desconfianças lançadas sobre o mito não visavam extinguir o pensamento religioso, ou a forma mítica em si, mas tão somente a falta de propriedade desse tipo de narrativa em abordar questões religiosas, morais ou, por extensão, tudo aquilo que fosse passível de ser contradito por um discurso “verdadeiro”.
O lugar do mito e do logos
Em suma, à medida que fatores externos propiciavam o descrédito da maneira mítica de contar uma história e, ao mesmo tempo, fomentavam a investigação de uma maneira mais precisa de tratar dos assuntos humanos, o campo de ação do mito foi sendo limitado por novos modos de pensar. O logos e a filosofia, por tabela, assumem a tarefa da busca pela verdade, no instante em que o mito já não mais satisfaz os anseios humanos, em sua relação com o mundo.
Todavia, a despeito dessa mudança de configuração mental, o discurso mítico permanece ora explicitamente, nas formas literárias de ficção, ora nos discursos científicos reducionistas. Saber identificar as características desse modo de pensar, tão arraigado em todas as culturas, não é tão fácil quanto se imagina. Em todas as sociedades humanas, as narrativas ficcionais estão presentes. Entretanto, nem todas culturas alimentaram a pretensão de construir um sistema de pensamento que fosse capaz de atingir a verdade. Esse é um fenômeno típico das civilizações ocidentais. A presença do cientificismo é um fator importante para a identificação de culturas marcadas pela influência grega, desde o advento da filosofia.
Nessas sociedades, a oposição manifesta entre o mytho e o logos pode ser resgatada na problematização do discurso literário e científico. Um tema ainda muito presente nas discussões filosóficas contemporâneas, a literatura e o discurso teórico serão o tema do próximo ponto.

Bibliografia
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AULA 2
• Literatura e Discurso Teórico;

Desde a antiguidade, o mito adquiriu o caráter, por vezes pejorativo, de uma narrativa fabulosa, ficcional ou mentirosa. Esse aspecto desfavorável não permitia mais que o mito fosse aceito como uma forma válida para abordar assuntos considerados superiores, tais como os religiosos e filosóficos. Entretanto, problemas em relação à falta de documentos históricos e argumentos definitivos não favoreciam uma fundamentação última desses assuntos. Em muitos casos foi preciso abandonar essa pretensão em favor de uma interpretação não literal dos fenômenos no mundo. Eventualmente, para evitar as dificuldades impostas pelas limitações racionais e materiais, teve-se de recorrer à alegorias ou metáforas que elucidassem essas questões.
As fracassadas tentativas do Cristianismo, por exemplo, de estabelecer a verdade dos evangelhos como fatos históricos levaram os primeiros exegetas cristãos – como Orígenes (séc. II) – a tentarem mostrar que o verdadeiro sentido da religião estava além da história, ou seja, encontrava-se em seu sentido espiritual. A partir desse novo enfoque, termos como “enigmas”, “parábolas” e “dogmas”, assumiram a mesma função que os rejeitados “mito”, “ficção” e “mistérios”.
Do lado filosófico, a construção de um discurso teórico verdadeiro não esteve – e ainda não está – livre de embaraços míticos. A teoria, sendo entendida enquanto um conjunto de sentenças que precisam ser plenamente satisfeitas, de acordo com o filósofo norte-americano Williard Quine, só pode ser considerada verdadeira de modo relativo. Isso porque, ao se especificar as sentenças que comporão a teoria, o teórico emprega palavras cuja escolha depende de uma teoria doméstica geral que não foi exposta. Por conseguinte, as sentenças da teoria seriam descritas por outra, a saber: aquela teoria doméstica cujos objetos também deveriam ser questionados. A construção de uma teoria consistente – com todas sentenças verdadeiras -, portanto, nunca pode ser executada em sua concepção absoluta, mas sempre relativa a outra teoria que não é posta à prova(1).
Existem alguns critérios para averiguar a validade de uma teoria. Primeiro, o da não-contradição: uma teoria não pode dizer de algo que esse algo seja verdadeiro e falso, ao mesmo tempo. Segundo, ela não pode cair num regresso ao infinito, recorrendo sempre a outras teorias sucessivamente. Terceiro, não deve comete uma circularidade, isto é, suas conclusões não devem ser pressupostas por suas premissas. Tais requisitos já haviam sido exigidos pelos filósofos céticos, discípulos de Pirro (séc. III a. C.). O ceticismo pirrônico propunha a suspensão do juízo sob a alegação de que apesar de existirem critérios para demonstrações teóricas, não haveria nenhuma demonstração que pudesse satisfazer esses critérios(2).
Sem poder satisfazer tantas exigências de uma só vez, o discurso teórico, quando visa encontrar o fundamento último de um enunciado com pretensões de verdade, frequentemente tem de apelar para uma construção imaginária ideal que sustente suas posições.
A crítica ao mito, realizada por filósofos e religiosos, não significa, nas palavras de Mircea Eliade, que “esse pensamento tenha sido definitivamente abolido”(3). Apesar de todo ataque sofrido, por esses dois flancos, os mitos helênicos resistiram, como obra literária, à crença religiosa e muitas teorias lançadas contra eles pelos pensadores e filósofos antigos. Nesse sentido, a escrita foi uma aliada importante para isso, pois os cultos religiosos se perderam no tempo, quando a oralidade da tradição abriu espaço à cristianização de suas práticas. Tudo que restou da religião helênica se deve ao fato dela ter sido mencionada em obras-primas literárias e artísticas(4). Quanto ao logos helênico, muito de seu significado foi perdido, durante as inevitáveis mudanças históricas, ocorridas através do tempo, apesar dos fragmentos e testemunhos grafados, pois seu conteúdo filosófico circusntanciado também foi esquecido.
Eis uma vantagem que o mito tem sobre outras formas de discurso: a narrativa mítica consegue manter uma certa perenidade, enquanto a religião e a filosofia perdem muito de sua força original, com o passar dos anos. A capacidade da narrativa mítica atender a diversas perspectivas pessoais sobre o mundo, permite que novas gerações possam reinterpretá-los sem que eles percam coesão. Por não admitirem mais de um significado em suas teses centrais, religiosos e filósofos fazem com que suas doutrinas sejam refratárias às transformações interpretativas, tornando-se logo obsoletas.
Literatura
A literatura, então, pôde absorver toda a herança da riqueza de significados do mito, sem restrições. Renegado pela religião e filosofia, os escritores literários não impuseram barreiras à narrativa mitológica. Pelo contrário, esses artistas perceberam que os mitos poderiam fornecer a matéria-prima que, depois de reelaborada, expressariam novos significados, o que outras formas de expressão proibiam.
Eliade, que sempre se dedicou à análise dos mitos, crê ser “possível dissecar a estrutura ‘mítica’ de certos romances modernos”(5). Temas como herói-salvador, visões mitológicas da mulher, riquezas e ritos de iniciação, encontrados nos livros modernos revelariam o desejo por consumir o maior número possível de “histórias mitológicas”. Para Eliade, “alguns aspectos e funções do pensamento mítico são constituintes do ser humano”(6). Apesar do romance moderno ter um tempo próprio diferente de uma sociedade tradicional – que ouvia, mais do que lia o mito -, do mesmo modo que na narrativa mítica, o leitor atual é convidado a sair do seu tempo histórico e pessoal, mergulhando num “tempo fabuloso, trans-histórico”(7). Nesse tempo imaginário, o ritmo é ditado segundo uma concepção própria e exclusiva de cada história. Nesse sentido, o ser humano conserva hoje,
“resíduos de um comportamento mitológico (…). Os traços de tal comportamento mitológico revelam-se igualmente no desejo de reencontrar a intensidade com que se viveu, ou conheceu, uma coisa pela primeira vez; de recuperar o passado longínquo, a época beatífica do ‘princípio’”(8).
O paralelo traçado aqui, entre literatura e mito, discurso teórico e logos, estende-se até o valor de verdade pretendido por cada uma dessas formas de pensamento cognitivo. Na antiguidade, como foi exposto, o mito era tratado por fábulas sem teor de verdade, enquanto o logos tinha a pretensão de revelá-la. Modernamente, considera-se que os argumentos empregados por uma teoria visam convencer alguém de sua veracidade, apelando para procedimentos que estabeleçam provas formais e empíricas. As histórias literárias, por sua vez, procuram, de um modo geral, sustentar semelhanças com a vida, sua verossimilhança, e não verdade. A literatura, como uma invenção dos romancistas e dramaturgos modernos, imagina um contexto feito de realidades psíquicas dos personagens, deixando o mundo “real” como pressuposto ou implícito. Essa imaginação produz histórias envolventes e críveis, mas sem compromisso com a verdade.
O Discurso Teórico
O argumento lógico, que caracteriza o discurso teórico, tem uma função diferente da história bem contada. De acordo com o psicólogo Jerome Bruner, autor de Realidade Mental, Mundos Possíveis, o modo de pensamento lógico-científico “tenta preencher o ideal de um sistema formal e matemático de descrição e explicação”(9). Conceitos e categorias usados são relacionados uns com os outros, de modo que encontrem seu exato lugar num sistema formal. A intuição do teórico, diferente da imaginação poética, procura revelar as conexões formais, para depois prová-las de uma maneira formal ou concreta, apresentando um exemplo empírico. Em suma, o discurso teórico trabalha com causas gerais e como elas são constituídas. Nesta tarefa, utiliza-se de procedimentos que visam garantir uma referência comprovável, que também possa ser testada empiricamente.
A linguagem do cientista está sempre preocupada em atender às exigências do critério cético apontado antes. Pode-se dizer que a ciência também constrói mundos possíveis, imaginando fatos com os quais a teoria tem que considerar. Enquanto a literatura não tem a preocupação de comprovar suas conclusões, a ciência vai mais além, predizendo algo que supostamente pode ser provado como certo, apesar de toda especulação. Numa frase, o discurso teórico ergue pretensões de verdade que podem ser falsificadas por um exame qualquer, enquanto as histórias erguem pretensões de verossimilhança que não podem ser negadas, mas aceitas ou não pelos leitores.
Não obstante, eventualmente, um escritor de romance pode vir a ultrapassar essas limitações e pretender, com suas histórias, passar subsumidamente uma teoria sobre o mundo e as relações humanas com teor de verdade. Por outro lado, os cientistas, ao elaborarem suas teorias, por vezes, são forçados a tratarem de temas que não são passíveis de falsificação, quando, por exemplo, um historiador apela para as intenções e sentimentos de um certo personagem histórico, a fim de explicar uma das causas de certo acontecimento; ou quando um físico se vale de argumentos antrópicos, isto é, quando ele afirma que sua teoria não pode estar errada porque senão não seria possível perceber o mundo tal como o percebemos, segundo seu estágio atual e a nossa capacidade de conhecê-lo.
Jerome Bruner conta que
o economista Robert Heilbroner observou certa vez que, quando as previsões baseadas em teoria econômica falham, ele e seus colegas passam a contar histórias sobre administradores japoneses, sobre a “cobra” de Zurich, sobre a “determinação” do Banco da Inglaterra de impedir a queda da libra esterlina (…)(10)
Isso mostra que “as narrativas podem ser o último recurso dos teóricos econômicos”(11), pois, afinal, elas constituem a vida das pessoas e seu comportamento cotidiano, objetos do estudo de economistas. Assim, tanto a literatura e discurso teórico passam a entrelaçarem-se inevitavelmente.
Recapitulando, tanto o discurso teórico, como a literatura, a despeito de todos os esforços de categorização de suas estruturas e características, continuam tão envolvidos, um com o outro, quanto estavam na origem da oposição entre mitos e logos, na longínqua civilização helênica clássica. Talvez como para provar o que dizem Eliade e Bruner, de ponto de vistas diferentes, isto é que a necessidade do envolvimento humano pelas narrativas faça parte inseparável de sua própria condição e que tudo que o ser humano faz ou pensa está inserido irremediavelmente numa história.
Bibliografia
BARROW, J. D. Teorias de Tudo; trad. MªLuíza X. De A. Borges. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
BRUNER, J. Realidade Mental, Mundos Possíveis; trad. Marcos A. G. Domingues. – Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
DIÓGENES LAÉRCIO. Vidas e Doutrinas dos Filósofos Antigos; trad. – Brasília: Unb, 1987.
ELIADE, M. Mito e Realidade; trad. Pola Civelli. – São Paulo: Perspectiva, 1972.
SMITH, P. J. “Wittgenstein e o Pirronismo”, in Analytica, vol. 1, n° 1. – Rio de Janeiro: UFRJ, 1993.
QUINE, W. v. O. “Realidade Ontológica”, in Ensaios; trad. Osvaldo Porchat. – São Paulo: Abril Cultural, 1985.
Notas
1. Veja QUINE, W. v. O. “Realidade Ontológica”, in Ensaios, II, pp. 146/7.
2. Veja DIÓGENES LAÉRCIO. “Pirro”, in Vida dos Antigos Filósofos, liv. IX. Também o artigo de SMITH, P. J. “Wittgenstein e o Pirronismo”, in Analytica, vol. 1, n° 1, 1993.
3. ELIADE, M. Mito e Realidade, VIII, p. 138.
4. ELIADE, M. Op. Cit., idem, p. 139.
5. ELIADE, M. Idem, ibdem, p.163.
6. ELIADE, M. Ibdem, ibdem, pp. 156/7.
7. ELIADE, M. Ibdem, Ibdem, p. 164.
8. ELIADE, M. Ibdem, ibdem, p. 165.
9. BRUNER, J. “Dois Modos de Pensamento”, in Realidade Mental, Mundos Possíveis, p. 13.
10. BRUNER, J. Op. Cit., Idem, p. 45.
11. BRUNER, J. Idem, ibdem, p.45.

AULA 3
Unidade III : Relação Homem-Mundo
• O lugar do ser humano no mundo;

Quando se pede para localizar a origem histórica da filosofia ocidental, a resposta unânime aponta para uma região do mapa da Europa, enquanto se afirma que num determinado período da antiguidade, nesse território específico, alguns habitantes de então passaram a levantar questões sobre tudo que os cercava. Tais perguntas exigiam uma explicação que não podia ser plenamente satisfeita por argumentos religiosos ou míticos. Os homens que faziam esse tipo de questionamento, perceberam que as respostas tradicionalmente dadas, amiúde, enfrentavam dificuldades de comprovação, diante das limitações da condição humana e do desenrolar dos acontecimentos.
Os deuses, que deviam constituir a imagem da perfeição, já não garantiam a felicidade das cidades que deveriam proteger, assolados que eram por guerras, epidemias e ameaças naturais constantes – terremotos, erupções vulcânicas etc. Tanto a religião, como as histórias dos antepassados caíam em descrédito. Se alguma resposta houvesse para tanta perplexidade, elas não deveriam ser buscadas fora deste mundo, ou num passado mítico, mas sim dentro do próprio ser humano, naquilo que ele tivesse de mais característico. A capacidade de raciocínio, destacada dos outros animais, começava a se impor e a elaborar argumentos que exigissem uma investigação mais atenta do mundo por parte dos pensadores. O objetivo, depois desse espanto inicial, era produzir teorias que desvelassem os mistérios que havia em tudo e encarar o mundo tal como ele é.
A nova postura adotada pelos pensadores helênicos propunha o esforço de apresentação de hipóteses que fossem adequadas à compreensão do lugar do ser humano e sua ação no mundo. Um mundo que sobre muitos aspectos lhe era estranho e desafiador. As questões que surgiam, desde aquela época originária, demandavam um conhecimento mais preciso sobre aquilo que é, ou seja, a existência dos seres, sua relação com os outros entes e consigo mesmo. Surgia, assim, o que, segundo o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), se chama filosofia, ou metafísica, propriamente dita(1). Por metafísica, entende-se o estudo do ser enquanto ser e as implicações acarretadas por uma progressiva abstração dos conceitos em relação à matéria de um mundo físico.
Metafísica
Para saber o lugar do ser humano no mundo, a pesquisa filosófica teve de ir além das observações dos fatos. A direção tomada conduzia ao próprio ser que subjaz a tudo e o modo como este ser se apresenta no mundo, perante os homens. Isso necessariamente levou a indagações de como seria possível o conhecimento do mundo através de um entendimento humano, por vezes tão superficial. Sempre ficava a dúvida se aquele conhecimento obtido pelo pesquisador poderia ser válido objetivamente, isto é, independente do próprio observador, ou se todo conhecimento seria limitado à condição finita da razão humana.
Essas dúvidas exigiam que, em certo sentido, a investigação se voltasse para aquele que investiga. O próprio inquiridor teria de ser alvo de exame, pois a visão mais apurada e precisa dependia da capacidade dele distinguir suas afecções das informações apresentadas pelos entes. Assim, para saber seu lugar no mundo, foi preciso que o ser humano passasse a se conhecer em primeiro lugar. O ponto de partida da investigação deveria estar na condição humana. A metafísica caminha, portanto, nesse paulatino afastamento dos fenômenos naturais, nos temas filosóficos. É pondo o mundo em suspensão – entre parênteses como se costuma dizer na matemática – que o filósofo poderá pretender, a partir de si mesmo, descobrir a verdade.
Metafísica é o nome que foi dado a uma das mais famosas obras do filósofo macedônio, da cidade de Estagira, Aristóteles (384-322 a. C.). Nela, procura-se compreender o “ser”, as maneiras pelas quais esta palavra pode ser entendida, e as causas primeiras de tudo que existe ou acontece. Para o fundador do Liceu, a filosofia mostraria que o conhecimento teórico participaria da natureza da sabedoria e por ela se conheceria os princípios e causas, tendo por objetivo a verdade(2). Existiria um primeiro princípio – associado ao motor imóvel, ou Deus (livro XII da Metafísica) – e as quatro causas das coisas: 1. Material; 2. Formal; 3. Motor; 4. Final.
“Causa” [material] significa (1) aquilo que, como material imanente, provém o ser de uma coisa; p.ex., o bronze é a causa da estátua e a prata, da taça, e do mesmo modo todas as classes que incluem estas. (2) A forma ou modelo, isto é, a definição da essência, e as classes que incluem esta (…); bem como as partes incluídas na definição. (3) Aquilo de que origina a mutação ou a quietação; p.ex., o conselheiro é causa da ação e o pai causa do filho; e, de modo geral, o autor é causa da coisa realizada e o agente modificador, causa da alteração. (4) O fim, isto é, aquilo que a existência de uma coisa tem em mira; p.ex., a saúde é causa do passeio (ARISTÓTELES, Metafísica, V, 2, 1013a, 24-33).
Princípios e causas estão relacionados com as três substâncias: duas físicas (matéria e forma) e uma imóvel. Enquanto a matéria e a forma estão sujeitas à mudança e o movimento, a substância imóvel existiria independente das outras, mas que seria capaz de movê-las sem se mover.
O primeiro princípio ou ser primeiro não é suscetível de ser movido, quer em si mesmo, quer acidentalmente, mas diga-se antes que é ele que produz o movimento primeiro, movimento eterno e único. Ora, o que é movido o é necessariamente por alguma coisa; por outro lado, o primeiro motor deve ser imóvel em si mesmo; o movimento eterno deve ser produzido por algo eterno, e o movimento simples por algo de simples; (…) cada um destes últimos movimentos deve também ser causado por uma substância imóvel em si mesma e eterna (…) (ARISTÓTELES. Op. Cit., XII, 8, 1073a, 24-35).
Curiosamente, o batismo dessa obra deu-se apenas por motivos bibliográficos e não filosóficos. Atribui-se a Andrônico, editor do período helenista dos textos aristotélicos, o fato de ter reunido os diversos tratados que compõem a Metafísica e catalogado-os na posição imediatamente seguinte aos estudos de física. Logo, metafísica se referia simplesmente àqueles estudos que vinham depois da Física aristotélica – em grego, a expressão meta ta phisika quer dizer “depois da física”. Essa história é interessante, porque de um acontecimento casual, o emprego da palavra metafísica terminou por gerar um tipo de investigação que, em geral, visava o afastamento dos temas da natureza material. Um caso exemplar de como a palavra pode gerar a coisa.
Por conta desse esforço especulativo, na busca das verdadeiras causas dos seres e do mundo, da essência de tudo, a metafísica passou a ser considerada como a forma de conhecimento mais digno de chamar-se sabedoria. Contudo, não se deve pensar que Aristóteles tenha sido o primeiro a tratar desse assunto. A tentativa de alcançar o princípio de tudo, partindo do conhecimento particular, para o mais geral, é uma característica do pensamento helênico, desde Tales de Mileto (c. 625-558 a. C.). Platão, em diálogos como Teeteto, Crátilo e Sofista, tentou encontrar argumentos que fundamentasse um conhecimento sólido sobre o mundo, contra a concepção relativista dos sofistas. Mas é com Heráclito de Éfeso (c. 540-470 a. C.), considerado um pensador obscuro, que o tema do conhecimento humano atinge o ponto mais profundo. Heráclito propunha uma concepção de saber radicalmente centrado na condição humana e nem por isso relativa a um determinado sujeito. Em seus fragmentos, pode-se perceber a tentativa de aproximar a capacidade humana de compreensão ao conhecimento que está em tudo. Por vezes, essa tentativa é frustrada pela superficialidade do tratamento dado pelo homem a essas questões, por outra, só uma profunda reflexão sobre o próprio conhecimento humano seria capaz de alcançar a devida sabedoria que estaria escondida em tudo(3).
Duas linhas de investigação podem ser traçadas, a grosso modo, a partir do que foi dito sobre Heráclito e Aristóteles. Enquanto o primeiro sugeria a compreensão do princípio ordenador que há no mundo, desde a profundidade do conhecimento no próprio homem, entendido como aquele que, fazendo parte do mundo, também é atravessado pelo princípio ordenador – logos, na concepção de Heráclito. Aristóteles, na sua Metafísica, ao iniciar a busca pelo conhecimento particular, empreende uma abstração gradativa até chegar a um princípio motor imóvel, fora do ser humano. Tal princípio motor, foi interpretado pelos filósofos cristãos – por exemplo, Sto. Tomás de Aquino (1227-1274) – como Deus. Ou seja, duas tendências metafísicas podem ser distinguidas, aqui, uma, a vertente heraclítica, onde o homem pode encontrar em si mesmo a essência do ser, e outra, a aristotélica, que permite fundar uma teologia, como o conhecimento mais alto dos princípios que regem tudo, a partir da reflexão filosófica.

Repercussões modernas e contemporâneas
A tendência de fundar o conhecimento humano, ora em si mesmo, ora numa entidade superior – Deus -, pode ser reconhecida em filósofos modernos da magnitude do francês René Descartes (1596-1650) e o prussiano oriental Immanuel Kant (1724-1804). Descartes, em suas Meditações, tenta provar a existência de Deus como fonte mantenedora e garantidora da verdade de todo conhecimento humano. Kant, por seu turno, ao invés de valer-se da hipótese divina, procura mostrar que o próprio homem, como participante dos mundos inteligível e sensível, poderia perceber por intermédio da razão pura os limites de seu conhecimento e, conseqüentemente, a incapacidade de conhecer a coisa em si, mas apenas os fenômenos sensíveis. Kant propunha uma crítica da razão pura que determinasse os limites do conhecimento e, destarte, inaugurou uma nova metafísica em torno de um suposto mundo inteligível, acessível à parte racional do ser humano.
Todavia, é no início do século XX que as influências da metafísica helênica são mais marcantes, sobretudo, na obra de Heidegger. Contra a corrente aristotélica que busca um princípio para o ser fora do próprio ser, Heidegger estabelece uma concepção de metafísica tão radical quanto a de Heráclito. Nesse sentido, ele propõe em Introdução à Metafísica, uma recuperação do sentido originário do ser, esquecido ao longo da história ocidental. Heidegger, assim, visa encontrar, nos moldes dos pensadores helênicos, as causas pelas quais o sentido do ser fora originalmente ocultado(4).
A questão fundamental da metafísica, no sentido heideggeriano, é saber “porque há simplesmente o ente e não o Nada?”(5). A resposta passa necessariamente pelo entendimento do ser como algo que vem a ser, isto é, aquilo que se apresenta no tempo como realização. A inspiração para essa concepção peculiar de ser, decorre da interpretação dada, por Heidegger, à palavra grega physis. Para ele, physis -comumente traduzida por natureza – deveria ser “entendida, como sair e brotar,” aquilo que pode ser experimentado em toda parte(6). Através da physis o “ente se torna e permanece observável”(7). O significado de ser, nesse contexto, não surge de uma casualidade, mas de uma presença constante. A aparente confusão que a investigação ontológica emerge por causa do esquecimento do ser e de uma postura niilista perante essa complexidade, o que acaba gerando uma essência no Nada.
Por conseguinte, para a metafísica poder responder à questão “porque há simplesmente o ente e não antes o Nada?”, Heidegger vai expor e fundar o Ser na origem grega, que diferenciava o ente do pensar. Época em que o logos, como em Heráclito, guiava o pensamento para consideração do Ser. A perspectiva originária dessa discussão revelaria a conseqüente separação entre Ser e Pensar, Percepção e Ser que passou a acompanhar a história da filosofia, desde então. O retorno à visão originária, para Heidegger, revelaria a própria determinação do ser do homem.
À questão sobre a Essencialização do Ser se abotoa e vincula à questão sobre quem é o homem. A determinação da essencialização do homem, que aqui carece, não é, entretanto, tarefa de uma antropologia flutuante no ar, que, no fundo, se representa o homem, como Zoologia se representa o animal. Em sua perspectiva e em seu alcance a questão sobre o ser do homem é determinada exclusivamente pela questão do Ser. (HEIDEGGER, M. Ibdem, p. 226).
Crítica semelhante à antropologia, como estudo do homem, foi lançada pelo francês Michel Foucault (1926-1984), em As Palavras e as Coisas, obra marcada pela influência de Heidegger. No entanto, Foucault praticava um método “arqueológico”, muito pessoal – diferente da ontologia heideggeriana – pelo qual tratava de fazer um corte histórico transversal à linha do tempo, a fim de expor as camadas sob as quais a concepção de homem foi estratificada. A interessante abordagem foucaultiana apontava para o século XIX, como o período no qual a reflexão tentou funda

Rita 16/11/2014 13:26 0 1

EVANGELHO SEGUNDO
MATEUS
Introdução — Desde os tempos mais antigos, a tradição vai no sentido de considerar que o autor deste Evangelho foi um dos primeiros discípulos de Jesus; seria aquele cobrador de impostos, tornado discípulo, que é chamado Mateus em Mateus 9,9 e Levi em Marcos 2,14. Pensa-se que o discípulo Mateus poderia ter recolhido em aramaico alguns ditos e feitos de Jesus, tendo mais tarde escrito o texto actual deste Evangelho, numa altura em que já dispunha de outros Evangelhos, nomeadamente o de Marcos, escrito em grego, que o podem ter ajudado na nova escrita. Este livro terá sido escrito depois do ano 70.
É provável que tenha tido como principais destinatários igrejas de origem judaica com uma forte ligação ao seu património religioso tradicional, mas que já não parecem identificar-se com o judaísmo, uma vez que este se recusou a acolher Jesus com as características de Messias que este Evangelho sublinha.
O Evangelho segundo Mateus caracteriza-se por uma particular sensibilidade a questões que têm a ver com o judaísmo. Os temas tradicionais da religião hebraica bíblica, as suas personagens antigas mais marcantes e os confrontos com vários grupos que representam o judaísmo contemporâneo de Jesus aparecem neste Evangelho com algum destaque. A longa genealogia de antepassados sublinha as raízes de Jesus no interior do povo hebraico, indo até Abraão e sublinhando a maneira como Jesus articula toda a história do povo de Deus, uma vez que quatro ciclos de catorze gerações conduzem directamente de Abraão, por David e pelo exílio da Babilónia até Jesus. Tal como acontece na genealogia, também no resto deste Evangelho são constantes as referências aos temas do Antigo Testamento. A infância de Jesus e outras referências da sua vida pública, nomeadamente o modo como ensina e a autoridade que revela, fazem dele um novo Moisés; a nova Torá é o seu ensino que inaugura o Reino de Deus. Valoriza e interpreta os textos proféticos para demonstrar que Jesus é o Messias esperado pelo povo, aquele que iria realizar as promessas feitas através dos séculos de história hebraica. A autoridade de Jesus tanto assenta na capacidade de declarar verdades novas como na reinterpretação de verdades que vinham da Escritura. Por isso é tão frequente encontrar citações do Antigo Testamento ao longo deste Evangelho.
Os ensinamentos de Jesus são apresentados ao longo da sua vida pública, em cinco secções, sendo cada uma delas dominada por um grande discurso:
— O sermão da montanha: 5—7.
— Instruções aos doze discípulos sobre a sua missão: 10.
— As parábolas do reino: 13.
— Ensinamentos sobre a vida dos cristãos neste mundo: 18.
— O fim da vida presente e a vinda do reino de Deus: 24—25.
Este evangelho pode sintetizar-se no seguinte plano:
— Antepassados e nascimento de Jesus: 1—2.
— Mensagem de João Baptista: 3,1—12.
— Baptismo e tentação de Jesus: 3,13—4,11.
— Actividade de Jesus na Galileia: 4,12—18
— A caminho de Jerusalém: 19—20.
— Actividade de Jesus em Jerusalém: 21—25.
— Paixão, morte e ressurreição: 26—28.

Antepassados de Jesus Cristo
(Lucas 3,23–38)
1 1 Esta é a lista dos antepassados de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão.
2 Abraão foi pai de Isaac, Isaac foi pai de Jacob e Jacob foi pai de Judá e dos seus irmãos. 3 Judá foi pai de Peres e de Zera, sendo a mãe Tamar. Peres foi pai de Hesron e Hesron foi pai de Rame. 4 Rame foi pai de Aminadab, Aminadab foi pai de Nachon e Nachon foi pai de Salmon. 5 Salmon foi pai de Booz, sendo a mãe Raab. Booz foi pai de Obed, sendo a mãe Rute. Obed foi pai de Jessé 6 e Jessé foi pai do rei David.
David foi pai de Salomão, sendo a mãe a que foi mulher de Urias. 7 Salomão foi pai de Roboão, Roboão foi pai de Abias e Abias foi pai de Asa. 8 Asa foi pai de Josafat, Josafat foi pai de Jorão e Jorão foi pai de Uzias. 9 Uzias foi pai de Jotam, Jotam foi pai de Acaz e Acaz foi pai de Ezequias. 10 Ezequias foi pai de Manassés, Manassés foi pai de Amon e Amon foi pai de Josias. 11 Josias foi pai de Jeconias e dos seus irmãos, no tempo do exílio para a Babilónia.
12 Depois do exílio na Babilónia, Jeconias foi pai de Salatiel e Salatiel foi pai de Zorobabel. 13 Zorobabel foi pai de Abiud, Abiud foi pai de Eliaquim e Eliaquim foi pai de Azur. 14 Azur foi pai de Sadoc, Sadoc foi pai de Jaquin e Jaquin foi pai de Eliud. 15 Eliud foi pai de Eleazar, Eleazar foi pai de Matan e Matan foi pai de Jacob.
16 Jacob foi pai de José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Messias.
17 No conjunto são catorze gerações de Abraão até David, outras catorze de David até ao exílio para a Babilónia e mais catorze do exílio até ao Messiasa.
José dá o nome a Jesus
(Lucas 2,1–7)
18 O nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, tinha o casamento tratado com José; mas, antes de casarem, achou-se grávida pelo poder do Espírito Santo. 19 José, o seu noivo, que era justo, não a queria acusar publicamente. Por isso pensou deixá-la sem dizer nada. 20 Andava ele a pensar nisto, quando lhe apareceu num sonho um anjo do Senhor que lhe disse: «José, descendente de David, não tenhas medo de casar com Maria, tua noiva, pois o que nela se gerou foi pelo poder do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho e tu vais pôr-lhe o nome de Jesusb, pois ele salvará o seu povo dos pecados.»
22 Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: 23 A virgem ficará grávida e dará à luz um filho que se há-de chamar Emanuelc.
Emanuel quer dizer: Deus está connosco. 24 Quando José acordou, fez como o anjo do Senhor lhe tinha mandado: recebeu Maria por esposa; 25 sem terem tido antes relações conjugais, Maria deu à luz o menino, a quem José pôs o nome de Jesus.
Sábios do Oriente adoram o Messias
2 1 Jesus nasceu em Belém, na região da Judeia, no tempo do rei Herodes. Depois do seu nascimento, chegaram uns sábios do Oriente a Jerusalém 2 e perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? É que nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.»
3 Quando ouviu isto, o rei Herodes ficou muito perturbado e com ele a população de Jerusalém. 4 Mandou reunir todos os chefes dos sacerdotes mais os doutores da lei e perguntou-lhes onde haveria de nascer o Messias. 5 Responderam: «Em Belém da Judeia, conforme o que o profeta escreveu: 6 Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as terras principais da Judeia, porque de ti é que há-de vir um chefe que será o pastor do meu povo de Israela.»
7 Então Herodes chamou à parte os sábios e perguntou-lhes quando é que exactamente a estrela lhes tinha aparecido. 8 Depois mandou-os a Belém com esta recomendação: «Vão, informem-se cuidadosamente acerca do menino e, quando o encontrarem, venham-me dizer para eu ir também adorá-lo.»
9 Depois de ouvirem o rei, os sábios partiram. Nisto, repararam que a estrela que tinham observado a Oriente ia adiante deles, até que parou por cima do lugar onde se encontrava o menino. 10 Ao verem a estrela, sentiram uma alegria enorme. 11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e inclinaram-se para o adorar. Depois abriram os cofres e fizeram-lhe as suas ofertas de ouro, incenso e mirra. 12 Então Deus avisou-os por meio dum sonho, para não voltarem a encontrar-se com Herodes. E eles partiram para a sua terra por outro caminho.
Fuga para o Egipto
13 Depois de se terem ido embora, um anjo do Senhor apareceu a José, num sonho, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino mais a sua mãe e foge com eles para o Egipto. Deixa-te lá estar até que eu te diga, porque Herodes vai procurar a criança para a matar.» 14 José levantou-se, tomou o menino com a sua mãe e pôs-se a caminho, de noite, para o Egipto. 15 Ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Chamei do Egipto o meu filhob.
Massacre das criancinhas
16 Quando Herodes percebeu que os sábios o tinham enganado, ficou furioso e mandou matar, em Belém e nos arredores, todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo que ele tinha apurado pelas palavras dos sábios. 17 Foi assim que se cumpriu o que o profeta Jeremias tinha dito:
18 Em Ramá se ouviu um grito,
choro amargo, imensa dor.
É Raquel a chorar os filhos;
e não quer ser consolada,
porque eles já não existemc.
Regresso do Egipto
19 Depois da morte de Herodes, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egipto, 20 e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe e volta para a terra de Israel, porque já morreram aqueles que procuravam tirar a vida ao menino.» 21 José levantou-se, tomou o menino com a sua mãe e voltou para a terra de Israel. 22 Mas, quando soube que Arquelaud reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Tendo recebido novas instruções de Deus por meio dum sonho partiu para a região da Galileia. 23 Ali fixou residência numa terra chamada Nazaré. Foi assim que se cumpriu aquilo que foi dito pelos profetas: Ele há-de chamar-se Nazarenoe.
Pregação de João Baptista
(Marcos 1,1–8; Lucas 3,1–18; João 1,19–28)
3 1 Naquele tempo apareceu João Baptista no deserto da Judeia a pregar assim: 2 «Arrependam-se, porque o reino dos céus está próximo.» 3 Foi a respeito dele que o profeta Isaías falou, quando disse: Alguém grita no deserto: preparem o caminho do Senhor e tornem direitas as suas estradasa.
4 João usava uma vestimenta de pêlo de camelo, apertada com uma cintura de couro, e alimentava-se de gafanhotos e de mel apanhado no campo. 5 Os habitantes de Jerusalém e de toda a região da Judeia, assim como do vale do Jordão, iam ter com ele. 6 Confessavam os seus pecados e ele baptizava-os no rio Jordão.
7 Quando João viu que muitos fariseus e saduceus iam ter com ele para serem baptizados, disse-lhes: «Raça de víboras! Quem vos disse que podiam escapar do castigo que se aproxima? 8 Mostrem pelo fruto das vossas acções que estão verdadeiramente arrependidos. 9 E não andem por aí a dizer: “Abraão é nosso pai!” Pois eu garanto-vos que Deus até destas pedras pode suscitar filhos de Abraão. 10 O machado já está prestes a cortar as árvores pela raiz. Toda a árvore que não der bons frutos será abatida e lançada no fogo. 11 Eu baptizo-vos em água como sinal de arrependimento. Mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu; não mereço sequer a honra de lhe levar as sandálias! Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo. 12 Tem nas mãos a pá e vai separar, na sua eira, o trigo da palha. Guardará o trigo no celeiro e queimará a palha numa fogueira que não se apaga.»
Baptismo de Jesus
(Marcos 1,9–11; Lucas 3,21–22)
13 Nessa altura Jesus deslocou-se da Galileia ao rio Jordão para ser baptizado por João Baptista. 14 Este, porém, negava-se a isso exclamando: «Sou eu quem tem necessidade de ser baptizado por ti e tu é que vens ter comigo?» 15 Mas Jesus respondeu: «Deixa lá. É bom cumprirmos deste modo toda a vontade de Deus.» E João concordou em baptizá-lo.
16 Assim que foi baptizado, Jesus saiu da água. Nesse momento, abriram-se os céus e viu o Espírito de Deus a descer do céu por cima de si, como uma pomba. 17 E uma voz do céu dizia: «Este é o meu Filho querido. Tenho nele a maior satisfaçãob!»
Jesus é tentado
(Marcos 1,12–13; Lucas 4,1–13)
4 1 Em seguida, Jesus, conduzido pelo Espírito Santo, retirou-se para o deserto a fim de ser ali tentado pelo Diabo. 2 Depois de passar quarenta dias e quarenta noites sem comer, Jesus teve fome. 3 O tentador aproximou-se dele e disse: «Se és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.» 4 Jesus respondeu: «A Sagrada Escritura diz: Não se vive só de pão, mas também de toda a palavra que vem de Deusa.»
5 Então o Diabo levou-o à cidade santa, colocou-o no ponto mais alto do templo, 6 e disse-lhe: «Se és o filho de Deus, atira-te daqui abaixo, porque diz a Escritura: Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito: eles hão-de segurar-te nas mãos para evitar que magoes os pés contra as pedrasb.»
7 «Mas a Escritura diz também: Não tentarás o Senhor teu Deusc», respondeu Jesus.
8 O Diabo levou-o ainda a um monte muito alto, mostrou-lhe dali todos os países do mundo com as suas grandezas 9 e disse: «Tudo isto te darei se de joelhos me adorares.» 10 Jesus respondeu: «Vai-te, Satanás! A Escritura diz: Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás cultod.»
11 O Diabo então deixou-o e aproximaram-se alguns anjos que começaram a servi-lo.
Jesus inicia a sua actividade na Galileia
(Marcos 1,14–15; Lucas 4,14–15)
12 Quando Jesus soube que João Baptista tinha sido preso, retirou-se para a Galileia. 13 Deixou Nazaré para ir viver em Cafarnaum, uma cidade à beira do lago nos limites de Zabulão e Neftalie. 14 Aconteceu assim para que se cumprissem estas palavras de Isaías:
15 Terras de Zabulão e de Neftali,
da beira-mar e de além do Jordão,
Galileia dos pagãos!
16 O povo mergulhado na escuridão
viu uma grande luz!
Luz que brilhou
para os que estavam na região escura da mortef.
17 Daí em diante Jesus começou a pregar: «Arrependam-se, porque o reino dos céus está a chegar.»
Primeiros companheiros de Jesus
(Marcos 1,16–20; Lucas 5,1–11)
18 Caminhava Jesus junto ao lago da Galileia quando viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e André, que andavam a lançar as redes no lago pois eram pescadores. 19 Jesus disse-lhes: «Venham comigo e eu vos farei pescadores de homens.» 20 Ambos largaram imediatamente as redes e foram com ele. 21 Um pouco mais adiante, Jesus viu outros dois irmãos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, que estavam no barco com o pai, a consertar as redes, e chamou-os. 22 Eles deixando logo o barco e o pai seguiram Jesus.
Jesus percorre a Galileia
(Lucas 6,17–19)
23 Jesus andava por toda a Galileia, ensinava nas sinagogas, pregava a boa nova do reino e curava o povo de todas as doenças e sofrimentos. 24 Ouvia-se falar dele por toda a Síria. Traziam-lhe os que sofriam de várias doenças e males, os que tinham espíritos maus, os epilépticos e os paralíticos. E Jesus curava-os a todos. 25 Acompanhava-o uma enorme multidão que vinha da Galileia, das Dez Cidades, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão.
A verdadeira felicidade
(Lucas 6,20–23)
5 1 Ao ver a multidão, Jesus subiu ao monte. Sentou-se e os seus discípulos foram para junto dele. 2 Jesus começou então a ensiná-los desta maneira:
3 «Felizes os que têm espírito de pobres,
porque é deles o reino dos céus!
4 Felizes os que choram,
porque Deus os consolará!
5 Felizes os humildes,
porque terão como herança a Terra!
6 Felizes os que têm fome e sede de ver cumprida a vontade de Deus,
porque Deus os satisfará!
7 Felizes os que usam de misericórdia para com os outros,
porque Deus os tratará com misericórdia!
8 Felizes os íntegros de coração,
porque hão-de ver Deus!
9 Felizes os que promovem a paz,
porque Deus lhes chamará seus filhos!
10 Felizes os que são perseguidos por procurarem que se cumpra a vontade de Deus,
porque é deles o reino dos céus!
11 Felizes serão quando vos insultarem, perseguirem e caluniarem,
por serem meus discípulos!
12 Alegrem-se e encham-se de satisfação porque é grande a recompensa que vos espera no céu. Pois assim também foram tratados os profetas que vos precederama.»
O sal e a luz
(Marcos 9,50; Lucas 14,34–35)
13 «Vocês são o sal do mundo. Mas se o sal perder as suas qualidades, poderá novamente salgar? Já não presta para nada, senão para se deitar fora e ser pisado por quem passa.
14 Vocês são a luz do mundo. Uma cidade situada no alto de um monte não se pode esconder. 15 Também não se acende um candeeiro para o pôr debaixo duma caixa. Pelo contrário, põe-se mas é num lugar em que alumie bem a todos os que estiverem em casab. 16 Do mesmo modo, façam brilhar a vossa luz diante de toda a gente, para que vejam as vossas boas acções e dêem louvores ao vosso Pai que está nos céus.»
A lei e o reino dos céus
17 «Não pensem que vim anular a Lei de Moisés ou o ensino dos profetas. Não vim para anular mas para dar cumprimento. 18 Saibam que enquanto o Céu e a Terra existirem, nem uma letra, nem sequer um acento se hão-de tirar da lei, sem que tudo se cumpra. 19 Por isso quem desobedecer ainda que seja a um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no reino dos céus. Mas aquele que obedecer à lei e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será tido por grande no reino dos céus. 20 Digo-vos mais: vocês não entrarão de maneira nenhuma no reino dos céus, se não cumprirem a vontade de Deus com mais fidelidade do que os doutores da lei e os fariseus.»
Reconciliação com o semelhante
(Lucas 12,57–59)
21 «Ouviram o que foi dito aos antigos: Não matarásc. E ainda: Aquele que matar alguém terá de responder em julgamento. 22 Mas eu digo-vos: Todo aquele que se irritar contra o seu semelhante terá de responder em julgamento; aquele que insultar o seu semelhante, chamando-lhe “imbecil”, será julgado pelo tribunal; e aquele que lhe chamar “estúpido” merece ir para o fogo do inferno. 23 Por isso, quando fores ao templo levar a tua oferta a Deus, e ali te lembrares que o teu semelhante tem alguma razão de queixa contra ti, 24 deixa a oferta diante do altar e vai primeiro fazer as pazes com o teu semelhante. Depois volta e apresenta a tua oferta.
25 Faz as pazes com o teu adversário enquanto vão os dois a caminho do tribunal. Senão o adversário entrega-te ao juiz, este entrega-te ao oficial de justiça e metem-te na cadeia. 26 Garanto-te que não sais de lá enquanto não pagares o último cêntimo.»
Perigo das más intenções
27 «Ouviram o que foi dito: Não cometerás adultériod. 28 Mas eu digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com más intenções já cometeu adultério no seu coração. 29 Portanto, se o teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e atira-o para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ser todo inteiro lançado no inferno. 30 De igual modo, se a tua mão direita te leva a pecar, corta-a e atira-a para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ir todo inteiro para o inferno.»
Sobre o divórcio
(Mateus 19,9; Marcos 10,11–12; Lucas 16,18)
31 «Também foi dito: Todo o homem que se divorciar da sua mulher deve passar-lhe uma declaraçãoe. 32 Mas eu digo-vos: Todo o homem que se divorciar da sua mulher, excepto no caso de adultériof, é culpado de a expor ao adultério. E o homem que casar com ela também comete adultério.»
Evitar juramentos
33 «Também ouviram o que foi dito aos antigos: Não farás juramentos falsos, mas cumprirás diante do Senhor o que jurasteg. 34 Mas eu digo-vos que não devem jurar de modo nenhum. Não jurem pelo Céu, porque é o trono de Deus; 35 nem pela Terra, porque é o estrado para os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. 36 Nem mesmo pela tua cabeça deves jurar, porque não és capaz de tornar um só dos teus cabelos branco ou preto. 37 Basta que digas sim, quando for sim, e não, quando for não. Tudo o que vai além disso é obra do Malignoh.»
Paciência e generosidade
(Lucas 6,29–30)
38 «Ouviram o que foi dito: Olho por olho e dente por dentei. 39 Mas eu digo-vos: Não resistam a quem vos fizer mal. Se alguém te bater na face direita, apresenta-lhe também a outra. 40 Se alguém te quiser levar a tribunal para te tirar a camisa, dá-lhe também o casaco. 41 Se alguém te obrigar a levar alguma coisa até a um quilómetro de distância, acompanha-o dois quilómetrosj. 42 Se alguém te pedir qualquer coisa, dá-lha; e a quem te pedir emprestado não lhe voltes as costas.»
Amor aos inimigos
(Lucas 6,27–28.32–36)
43 «Ouviram o que foi dito: Amarás o teu próximok e desprezarás o teu inimigo. 44 Mas eu digo-vos: Tenham amor aos vossos inimigos e peçam a Deus por aqueles que vos perseguem. 45 É deste modo que se tornarão filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz brilhar o Sol tanto sobre os bons como sobre os maus, e faz cair a chuva tanto para os justos como para os injustos.
46 Se amarem apenas aqueles que vos amam que recompensa poderão esperar? Não fazem também isso os cobradores de impostos? 47 E se saudarem apenas os vossos amigos, que há nisso de extraordinário? Qualquer pagão faz o mesmo! 48 Portanto, sejam perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito.»
Como dar esmola
6 1 «Quando praticarem o bem, procurem não o fazer diante dos outros para dar nas vistas. Se assim fizerem, já não terão nenhuma recompensa a receber do vosso Pai que está nos céus.
2 Portanto, quando deres esmola, não faças alarde à tua volta, como é costume das pessoas fingidas, nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiadas. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 3 Mas tu, quando deres esmola, procura que a tua mão esquerda nem saiba o que faz a direita. 4 Deste modo, a tua esmola ficará em segredo; e o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há-de recompensar-te.»
Jesus ensina a orar
(Lucas 11,2–4)
5 «Quando orarem, não façam como as pessoas fingidas que gostam de orar de pé, nas sinagogas e às esquinas das ruas, para toda a gente as vera. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 6 Tu, porém, quando quiseres fazer oração, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai que está presente sem ser visto. E o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há-de recompensar-te.
7 Quando orarem, não usem muitas palavras, como fazem os pagãos, que pensam que é por muito falarem que serão mais facilmente ouvidos. 8 Não sejam como eles pois o vosso Pai sabe muito bem do que vocês precisam, antes de lho pedirem. 9 Portanto, devem orar assim:
“Pai nosso que estás nos Céus,
Santificado seja o teu nomeb;
10 venha o teu reino;
seja feita a tua vontade,
assim na Terra como no Céu.
11 Dá-nos hoje o pão de que precisamos.
12 Perdoa-nos as nossas ofensas,
como nós perdoámos aos que nos ofenderam.
13 E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do Maligno.”
14 De facto, se perdoarem aos outros as suas ofensas, o vosso Pai celestial também vos perdoará. 15 Mas se não perdoarem aos outros, o vosso Pai também vos não perdoará.»
Acerca do jejum
16 «Quando jejuarem não andem de cara triste, como as pessoas fingidas, que até desfiguram a cara para toda a gente ver que andam a jejuar. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 17 Mas tu, quando jejuares, lava a cara e penteia-te bem. 18 Deste modo, ninguém saberá que andas a jejuar, a não ser o teu Pai que está presente sem ser visto. Ele, que vê tudo o que se passa em segredo, te dará a recompensa.»
A verdadeira riqueza
(Lucas 12,33–34)
19 «Não se preocupem em juntar riquezas neste mundo, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões assaltam e roubam. 20 Preocupem-se antes em juntar riquezas no céu, onde não há traça nem ferrugem para as destruir, nem ladrões para assaltar e roubar. 21 Onde estiver a vossa riqueza, aí estará o vosso coração.»
Luz e escuridão
(Lucas 11,34–36)
22 «A luz do corpo são os olhos. Por isso, se o teu olhar for bom, todo o teu corpo tem luz. 23 Mas se o teu olhar for mau, todo o teu corpo fica às escuras. Ora se a luz que há em ti não passa de escuridão, que grande será essa escuridão!»
Deus e as riquezas
(Lucas 16,13)
24 «Ninguém pode servir a dois patrões: ou não gosta de um deles e estima o outro, ou há-de ser leal para um e desprezar o outro. Não podem servir a Deus e ao dinheiro.»
Deus cuida dos seus filhos
(Lucas 12,22–31)
25 «É por isso que eu vos digo: Não andem preocupados com o que hão-de comer ou beber, nem com a roupa de que precisam para vestir. Não será que a vida vale mais do que a comida e o corpo mais do que a roupa? 26 Olhem para as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem amontoam grão nos celeiros. E no entanto, o vosso Pai dá-lhes de comer. Não valem vocês muito mais do que as aves? 27 Qual de vós, por mais que se preocupe, poderá prolongar um pouco o tempo da sua vidac?
28 E por que hão-de andar preocupados por causa da roupa? Reparem como crescem os lírios do campo! E eles não trabalham nem fiam. 29 Contudo digo-vos que nem o rei Salomão, com toda a sua riqueza, se vestiu como qualquer deles. 30 Ora se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada, quanto mais vos há-de vestir a vocês, ó gente sem fé?
31 Não andem preocupados a dizer: “Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?” 32 Os pagãos, esses é que se preocupam com todas essas coisas. O vosso Pai celestial sabe muito bem que vocês precisam de tudo isso. 33 Procurem primeiro o reino de Deus e a sua vontade e tudo isso vos será dado. 34 Portanto, não devem andar preocupados com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia a sua dificuldade.»
Não julgar os outros
(Lucas 6,37–38.41–42)
7 1 «Não julguem ninguém e assim Deus não vos julgará!
2 É que Deus há-de julgar-vos do mesmo modo que julgarem os outros, usando a mesma medida que usarem para os outros. 3 Por que reparas tu no cisco que está na vista do teu semelhante, e não vês a trave que está nos teus próprios olhos? 4 Como te atreves a dizer-lhe: “Deixa-me cá tirar-te isso da vista”, quando tens uma trave nos teus olhos? 5 Fingido! Tira primeiro a trave dos teus olhos e depois já vês melhor para tirares o cisco da vista do teu semelhante.
6 Não dêem aos cães o que é santo. Eles são capazes de se virar contra vocês e de vos despedaçar. Não deitem as vossas pérolas aos porcos! Pois eles vão pisá-las.»
Deus ouve a oração
(Lucas 11,9–13)
7 «Peçam e Deus vos dará; procurem e hão-de encontrar; batam à porta e ela há-de abrir-se-vos, 8 pois aquele que pede, recebe; aquele que procura, encontra; e a quem bate, a porta se abrirá. 9 Qual de vocês que seja pai seria capaz de dar uma pedra ao filho, quando este lhe pedisse pão? 10 Ou quem lhe daria uma cobra quando lhe pedisse peixe? 11 Ora se vocês, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está no céu dará coisas boas àqueles que lhas pedirem!
12 Façam aos outros tudo aquilo que desejariam que eles vos fizessem. Aqui está o essencial da lei e do ensino dos profetas.»
O caminho para a vida eterna
(Lucas 13,24)
13 «Entrem pela porta estreita! Pois é larga a porta e espaçoso o caminho que vai dar à perdição e são muitas as pessoas que para ali se encaminham. 14 Mas é estreita a porta e apertado o caminho que vai dar à vida eterna e são poucas as pessoas que o encontram.»
Os falsos profetas
(Lucas 6,43–44)
15 «Cuidado com os falsos profetas! Vêm ter convosco como se fossem ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. 16 É pelos seus frutos que os hão-de reconhecer. Porventura podem colher-se uvas das silvas ou figos dos cardos? 17 Portanto, a árvore boa dá bons frutos e a árvore má dá maus frutos. 18 Assim pois, uma árvore boa não pode dar maus frutos e uma árvore má não pode dar bons frutos. 19 Toda a árvore que não dá bons frutos corta-se e deita-se ao fogo. 20 Portanto, é pelas suas acções que poderão reconhecer os falsos profetas.»
Quem entra no reino dos céus
(Lucas 6,46; 13,25–27)
21 «Nem todos aqueles que me dizem: “Senhor, Senhor!” entrarão no reino dos céus, mas apenas os que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus. 22 Quando aquele dia chegar, haverá muitos que me hão-de dizer: “Senhor, Senhor, não profetizámos nós em teu nome? Não fizemos numerosos milagres em teu nome? Não chegámos a expulsar demónios em teu nome?” 23 Eu então hei-de declarar-lhes: “Nunca vos conheci. Afastem-se de mim, seus malfeitores!”»
Cumprir a palavra de Deus
(Lucas 6,47–49)
24 «Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática pode comparar-se ao homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. 25 Caiu muita chuva, vieram as cheias e os ventos sopraram com força contra aquela casa. Mas ela não caiu, porque os seus alicerces estavam assentes na rocha. 26 Porém, aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática pode comparar-se ao homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia. 27 Caiu muita chuva, vieram as cheias e os ventos sopraram com força contra aquela casa. Ela caiu e ficou arruinada.»
28 Quando Jesus acabou de pronunciar estas palavras, a multidão estava admirada com os seus ensinamentos. 29 É que ele ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da lei.
Cura de um homem com lepra
(Marcos 1,40–45; Lucas 5,12–16)
8 1 Ao descer do monte, Jesus foi seguido por uma grande multidão. 2 Então aproximou-se dele um homem com lepra que se ajoelhou e lhe disse: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me da lepra.» 3 Jesus estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero, fica purificado!» No mesmo instante, o homem ficou purificado da lepra. 4 Jesus então disse-lhe: «Escuta, não fales disto a ninguém. Mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece a Deus o sacrifício que Moisés ordenou, para ficarem a saber que estás curado.»
Cura do criado de um oficial romano
(Lucas 7,1–10)
5 Quando Jesus entrou em Cafarnaum aproximou-se dele um oficial do exército romano e fez-lhe este pedido: 6 «Senhor, o meu criado está de cama e sem se poder mexer, num sofrimento horrível.» 7 «Eu vou lá curá-lo», disse Jesus. 8 Mas o oficial respondeu: «Ó Senhor, eu não mereço que entres na minha casa. Basta que digas uma palavra e o meu criado ficará são. 9 Também eu tenho superiores a quem devo obediência e soldados às minhas ordens. Digo a um que vá, e ele vai. Digo a outro que venha, e ele vem. E digo ao meu criado: “faz isto”, e ele faz.» 10 Ao ouvir aquilo, Jesus ficou admirado e disse para os que o seguiam: «Fiquem sabendo que ainda não encontrei ninguém com tanta fé entre o povo de Israel. 11 Digo-vos mais: hão-de vir muitos do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa no reino dos céus com Abraão, Isaac e Jacob, 12 enquanto os herdeiros do reino serão lançados fora, na escuridão. Ali haverá choro e ranger de dentes.» 13 Em seguida Jesus disse ao oficial: «Podes ir. Seja como acreditaste.» E naquela mesma hora o doente ficou curado.
Jesus cura muitos doentes
(Marcos 1,29–34; Lucas 4,38–41)
14 Quando Jesus chegou a casa de Pedro, viu que a sogra deste estava de cama, com febre. 15 Tocou-lhe na mão e a febre passou-lhe. Ela então levantou-se e começou a servi-lo.
16 Ao cair da tarde, trouxeram a Jesus muitas pessoas com espíritos maus. Com uma palavra Jesus expulsou os espíritos maus e curou todos os que estavam doentes. 17 Assim se cumpria aquilo que disse o profeta Isaías: Ele próprio tomou as nossas fraquezas e suportou o peso das nossas doençasa.
Convite para seguir Jesus
(Lucas 9,57–62)
18 Quando Jesus viu a multidão que o rodeava, deu ordens para passar à outra margem do lago. 19 Foi então que se aproximou um doutor da lei e lhe disse: «Mestre, irei contigo para onde quer que fores.» 20 Jesus porém declarou: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde encostar a cabeça.»
21 Um dos discípulos pediu: «Senhor, deixa-me ir primeiro fazer o enterro ao meu pai.» 22 Contudo Jesus disse-lhe: «Segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus próprios mortos.»
Jesus acalma a tempestade
(Marcos 4,35–41; Lucas 8,22–25)
23 Jesus entrou no barco e os seus discípulos acompanharam-no. 24 Nisto, levantou-se no lago um temporal tão grande que as ondas encobriam o barco. Jesus, porém, dormia. 25 Os discípulos aproximaram-se dele e acordaram-no, gritando: «Senhor, salva-nos, que estamos perdidos!» 26 Jesus disse: «Por que estão com medo, homens sem fé?» Então levantou-se, deu ordens aos ventos e às ondas e fez-se uma grande calma. 27 Eles ficaram espantados e exclamavam: «Quem é este afinal, que até os ventos e as ondas lhe obedecem?!»
Cura de dois homens com espíritos maus
(Marcos 5,1–20; Lucas 8,26–39)
28 Jesus chegou à região dos gadarenos, do outro lado do lagob. Vieram ao seu encontro, saindo dos sepulcros, dois homens possuídos de espíritos maus. Os homens eram tão perigosos que ninguém se atrevia a passar por aquele caminho. 29 De repente, desataram a gritar: «Que é que tu queres de nós, Filho de Deus? Vieste cá para nos atormentar antes do tempo?»
30 Ora a uma certa distância dali, andava a pastar uma grande quantidade de porcosc. 31 Então os espíritos maus fizeram a Jesus este pedido: «Se nos vais expulsar, manda-nos para aquela vara de porcos.» 32 Jesus permitiu: «Vão!» E eles saíram e foram para os porcos que se puseram todos a correr pelo monte abaixo e afogaram-se no lago.
33 Os que andavam a guardar os animais fugiram e foram à cidade contar o que tinha acontecido aos dois homens com espíritos maus. 34 Então toda a gente da cidade foi ter com Jesus. Quando o viram, pediram-lhe para se ir embora daquela região.
Cura de um paralítico
(Marcos 2,1–12; Lucas 5,17–26)
9 1 Jesus entrou num barco, atravessou o lago e foi para a sua cidadea. 2 Trouxeram-lhe então um paralítico deitado numa enxerga. Ao ver a fé daqueles homens disse ao paralítico: «Coragem, meu filho! Os teus pecados estão perdoados.» 3 Nisto, alguns doutores da lei começaram a dizer para consigo: «Este homem está a ofender a Deus!» 4 Jesus percebeu-lhes os pensamentos e questionou-os: «Por que é que estão a pensar mal no vosso íntimo? 5 O que será mais fácil? Dizer: “Os teus pecados estão perdoados”, ou dizer: “Levanta-te e anda?” 6 Ficam pois a saber que o Filho do Homem tem poder na Terra para perdoar pecados.» E disse ao paralítico: «Levanta-te, pega na tua enxerga e vai para casa.» 7 O homem levantou-se e foi para casa. 8 Ao ver aquilo, a multidão ficou impressionada e louvava a Deus que deu tão grande poder aos homens.
Jesus chama Mateus
(Marcos 2,13–17; Lucas 5,27–32)
9 Quando Jesus ia a sair dali, viu um homem sentado no posto de cobrança de impostos. O seu nome era Mateus. Jesus chamou-o: «Segue-me.» Ele levantou-se e foi com Jesus. 10 Jesus estava sentado à mesa em casa de Mateus e vieram muitos outros cobradores de impostos e mais gente pecadora sentar-se à mesa com ele e os discípulos. 11 Ao verem isso, os fariseus perguntavam aos discípulos: «Por que é que o vosso Mestre se senta à mesa com os cobradores de impostos e gente pecadorab?» 12 Jesus ouviu isso e explicou: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os que estão doentes. 13 Vão aprender o que significam estas palavras da Escritura: Prefiro a misericórdia e não os sacrifíciosc. Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores.»
A questão do jejum
(Marcos 2,18–22; Lucas 5,33–39)
14 Naquela ocasião, os discípulos de João Baptista aproximaram-se de Jesus com esta pergunta: «Por que é que nós e os fariseus jejuamos muitas vezes, e os teus discípulos não jejuam?» 15 Jesus esclareceu-os: «Acham que os convidados para um casamento se podem apresentar de luto enquanto o noivo está com eles? Lá virá o tempo em que o noivo lhes será tirado. Nessa altura jejuarão.
16 Ninguém cose um remendo de tecido novo em roupa velha, porque o remendo novo repuxa o tecido velho e fica um rasgão ainda maior. 17 Do mesmo modo, ninguém deita vinho novo em vasilhas velhas, porque o vinho rebenta-as, perdendo-se assim o vinho e as vasilhas. Portanto, o vinho novo deve ser metido em vasilhas novas e assim se conservam ambas as coisas.»
Ressurreição de uma menina e cura de uma doente
(Marcos 5,21–43; Lucas 8,40–56)
18 Ainda Jesus lhes estava a dizer estas coisas, quando chegou um dirigente da sinagoga que se ajoelhou diante dele a pedir: «A minha filha acaba mesmo agora de morrer. Mas vem, põe a tua mão sobre ela, e viverá.» 19 Jesus levantou-se e seguiu-o com os seus discípulos. 20 Nisto, uma mulher, que havia doze anos sofria duma doença que a fazia perder sangue, aproximou-se por detrás de Jesus e tocou-lhe na ponta do manto. 21 Ela pensava consigo: «Se eu conseguir ao menos tocar-lhe na roupa, ficarei curada.» 22 Jesus voltou-se, olhou para ela e disse: «Coragem, minha filha! A tua fé te salvou!» E desde aquele momento a mulher ficou curada.
23 Quando Jesus chegou a casa do dirigente da sinagoga e viu os tocadores de flautad e a multidão que gritava, 24 mandou: «Saiam daqui para fora, que a menina não está morta, está só a dormir.» E começaram a fazer troça dele. 25 Quando aquela gente toda foi posta fora, Jesus entrou, pegou na mão da menina e ela levantou-se. 26 A notícia deste acontecimento espalhou-se por toda a região.
Jesus cura dois cegos
27 Ao sair daquele lugar, houve dois cegos que foram atrás de Jesus, gritando: «Filho de David tem piedade de nós!» 28 Quando Jesus ia a entrar em casa, os dois cegos aproximaram-se dele e Jesus perguntou-lhes: «Vocês acreditam que eu tenho poder para vos fazer isso?» Responderam eles: «Sim, Senhor, acreditamos!» 29 Então Jesus tocou-lhes nos olhos e disse: «Pois seja feito conforme a vossa fé!» 30 E os dois cegos ficaram a ver. Jesus recomendou-lhes em tom severo: «Olhem que ninguém deve saber disto!» 31 Eles, porém, saindo dali começaram a falar dele por toda a região.
Cura de um mudo
32 Na altura em que os dois cegos se foram embora, trouxeram a Jesus um mudo possuído dum espírito mau. 33 Jesus expulsou o espírito mau e o mudo pôs-se a falar. A multidão ficou muito admirada e dizia: «Nunca se viu uma coisa assim em Israel!» 34 Os fariseus, porém, diziam: «É pelo poder do chefe dos demónios que ele expulsa os demónios.»
Poucos trabalhadores para a colheita
35 Jesus andava por todas as cidades e aldeias, ensinava nas sinagogas, anunciava a boa nova do reino de Deus e curava toda a espécie de doenças e males. 36 Ao ver a multidão, Jesus sentiu imensa compaixão, porque andavam desorientados e perdidos como ovelhas que não têm pastor. 37 Disse então aos discípulos: «A colheita é abundante, mas os trabalhadores são poucos. 38 Peçam ao dono da seara que mande mais trabalhadores para a sua colheita.»
Os doze apóstolos
(Marcos 3,13–19; Lucas 6,12–16)
10 1 Chamando para junto de si os seus doze discípulos, Jesus deu-lhes poder para expulsarem espíritos maus e curarem toda a espécie de doenças e males. 2 São estes os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e seu irmão André; Tiago e seu irmão João, filhos de Zebedeu; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, do partido dos Nacionalistas, e Judas Iscariotes, aquele que atraiçoou Jesus.
Jesus envia os apóstolos
(Marcos 6,7–13; Lucas 9,1–6)
5 Jesus enviou estes doze dando-lhes as seguintes instruções: «Não se desviem para o caminho dos pagãos, nem entrem em qualquer cidade dos samaritanosa. 6 Vão antes ter com as ovelhas perdidas do povo de Israel. 7 Pelo caminho anunciem que o reino dos céus está a chegar. 8 Curem os que estão doentes, purifiquem os leprosos, ressuscitem os mortos e expulsem os espíritos maus. Receberam de graça, dêem de graça. 9 Não procurem ouro, prata ou cobre para levar nos bolsos. 10 Não levem saco de viagem, nem muda de roupa, nem calçado, nem cajado. O trabalhador tem direito ao seu sustento.
11 Quando chegarem a qualquer cidade ou aldeia, procurem uma pessoa de confiança e fiquem em sua casa até se irem embora. 12 Ao entrarem numa casa cumprimentem os presentes com saudações de pazb. 13 Se os daquela casa forem dignos dela, que a vossa paz fique com eles; se não forem dignos, que volte para vocês. 14 Se nalguma casa ou cidade não vos receberem, nem derem ouvidos às vossas palavras, quando saírem daquela casa ou daquela cidade sacudam o pó dos vossos pésc. 15 Garanto-vos que no dia do juízo, a gente de Sodoma e Gomorrad será tratada com menos dureza do que o povo dessa terra.»
Sofrimentos e perseguições dos apóstolos
(Marcos 13,9–13; Lucas 21,12–17)
16 «Eu vos envio como ovelhas para o meio dos lobos. Portanto, sejam cautelosos como as serpentes e simples como as pombas. 17 Tenham muito cuidado! Haverá homens que vos levarão aos tribunais e vos hão-de espancar nas suas sinagogas. 18 Vão ter que comparecer diante de governadores e de reis, por minha causa. Aí darão testemunho de mim, a eles e aos pagãos. 19 Quando vos entregarem às autoridades não se preocupem como hão-de falar, nem com o que hão-de dizer. Nessa altura, Deus vos dará as palavras, 20 pois não serão vocês a falar, mas sim o Espírito de Deus, vosso Pai, que falará por vosso intermédio.
21 Haverá irmãos que hão-de entregar os seus próprios irmãos à morte, e pais que hão-de entregar os próprios filhos. E haverá filhos que se hão-de revoltar contra os pais e os hão-de matar. 22 Serão odiados por toda a gente por minha causa, mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.
23 Quando vos perseguirem numa cidade, fujam para outra. Garanto-vos que o Filho do Homem há-de vir antes de terem ido a todas as cidades de Israel.
24 Nenhum discípulo está acima do seu mestre, nem um servo está acima do seu senhor. 25 Basta ao discípulo que venha a ser como o seu mestre e ao servo como o seu senhor. Ora se ao dono da casa já chamaram Belzebu, que nomes não hão-de chamar aos outros membros da família!»
A quem devemos temer
(Lucas 12,2–7)
26 «Não tenham medo deles! Não há nada encoberto que não venha a descobrir-se, nem há nada escondido que não venha a saber-se. 27 O que eu vos digo em segredo, digam-no à luz do dia, e aquilo que vos é dito ao ouvido, apregoem-no em cima nos telhados. 28 Também não devem ter medo dos que matam o corpo mas não podem matar a alma. Temam antes a Deus que pode fazer perder tanto o corpo como a alma no inferno. 29 Não se vendem dois pássaros por uma moeda? No entanto, nem um só deles cai ao chão sem o vosso Pai querer. 30 Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados! 31 Não tenham medo! Vocês valem mais do que muitos pássaros.»
Aceitar ou negar Cristo
(Lucas 12,8–9)
32 «Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu farei o mesmo por ele diante do meu Pai que está nos céus. 33 Mas àquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.»
Jesus, motivo de divisão
(Lucas 12,51–53; 14,26–27)
34 «Não pensem que vim trazer a paz à Terra. Não vim trazer a paz, mas a guerra. 35 Vim, de facto, trazer a divisão entre filho e pai, filha e mãe, nora e sogra: 36 os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria famíliae.
37 Aquele que amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; e o que amar o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. 38 Aquele que não pegar na sua cruz e não me seguir, não é digno de mim. 39 Aquele que pensa que tem a sua vida segura, perde-a, mas aquele que perder a sua vida por minha causa é que a tem segura.»
Recompensas por fazer bem
(Marcos 9,41)
40 «Quem vos receber é a mim que recebe, e quem me receber recebe aquele que me enviou. 41 Quem receber um profeta, por ser profeta, terá uma recompensa de profeta; e quem receber um justo, por ser justo, terá a recompensa de justo. 42 E aquele que der um simples copo de água fresca a um dos mais pequeninos destes meus discípulos, por ser meu discípulo, garanto-vos que não ficará sem a sua recompensa.»
Resposta de Jesus aos discípulos de João Baptista
(Lucas 7,18–23)
11 1 Depois de ter dado estas instruções aos seus doze discípulos, Jesus saiu dali para ir ensinar e pregar nas povoações da região.
2 Quando João Baptista, que estava na prisão, ouviu falar das obras de Cristo, enviou-lhe alguns dos seus discípulos com esta pergunta: 3 «És tu aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?» 4 Jesus deu-lhes esta resposta: «Vão contar a João aquilo que vêem e ouvem: 5 os cegos vêem, os coxos andam, os que têm lepra são curados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres é anunciada a boa nova. 6 Feliz aquele que não achar em mim motivo de escândalo.»
Jesus fala de João Baptista
(Lucas 7,24–35)
7 Depois de os discípulos de João se terem ido embora, Jesus começou a falar a respeito dele ao povo: «O que é que foram ver no deserto? Uma cana abanada pelo vento? 8 Que é que lá foram ver? Um homem vestido de roupas finas? Bem sabem que os que se vestem de roupas finas estão nos palácios dos reis. 9 Mas, afinal, que é que lá foram ver? Um profeta? Sim! E também vos digo: ele é mais do que um profeta. 10 Pois é aquele de quem as Escrituras dizem: Enviarei o meu mensageiro à tua frente para te preparar o caminhoa.
11 E fiquem sabendo isto: entre os homens não houve ninguém maior do que João Baptista. No entanto, o mais pequeno no reino dos céus é maior do que ele. 12 Desde o tempo de João Baptista até hoje, o reino dos céus tem sido assaltado com violência e os violentos procuram apoderar-se dele. 13 Com efeito, até ao tempo de João, tudo isso foi anunciado pela Lei de Moisés e pelos profetas. 14 Podem acreditar que é ele o Elias que havia de vir. 15 Quem tem ouvidos, preste atenção!»
16 Jesus disse ainda: «Com quem hei-de comparar as pessoas desta geração? São semelhantes às crianças que estão na rua e dizem umas para as outras:
17 “Tocámos flauta e vocês não dançaram!
Cantámos coisas tristes e não choraram!”
18 Realmente apareceu João, que jejuava e não bebia vinho, e dizem logo que tinha o Demónio com ele. 19 Depois veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem dele: “Olhem para este homem! Come bem, bebe melhor e é amigo de cobradores de impostos e de outra gente pecadora.” Mas a sabedoria de Deus só se mostra pelas obras que produz.»
As cidades rebeldes
(Lucas 10,13–15)
20 Jesus começou então a censurar as cidades em que tinha realizado a maior parte dos seus milagres, porque os seus habitantes não se tinham arrependido. 21 Dizia ele: «Ai de ti, Corazin! Ai de ti, Betsaidab! Se os milagres que em ti se fizeram tivessem sido efectuados nas cidades de Tiro e Sídonc, há muito que os seus habitantes se tinham arrependido, vestindo-se de luto e com cinza na cabeça. 22 Por isso vos digo: no dia do juízo, Tiro e Sídon serão tratadas com menos dureza do que vocês. 23 E tu, Cafarnaum, querias elevar-te até ao céu? Pois serás rebaixada até ao inferno.
E se os milagres que em ti se fizeram tivessem acontecido em Sodoma, essa cidade ainda hoje existiria. 24 Eu porém vos digo que no dia do juízo os habitantes de Sodoma serão tratados com menos dureza do que tu, Cafarnaum.»
Deus revela-se aos humildes
(Lucas 10,21–22)
25 Naquele momento, Jesus exclamou: «Agradeço-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque revelaste aos simples estas coisas que tinhas escondido aos sábios e entendidos. 26 Sim, Pai, agradeço-te, por ter sido essa a tua vontade. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
28 Venham ter comigo todos os que andam cansados e oprimidos e eu vos darei descanso. 29 Aceitem o meu jugo e aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração. Assim o vosso coração encontrará descanso, 30 pois o meu jugo é agradável e os meus fardos são leves.»
Jesus e o sábado
(Marcos 2,23–28; Lucas 6,1–5)
12 1 Por aquela altura, Jesus atravessava umas searas durante o sábado. E como os discípulos sentiam fome, começaram a arrancar espigas para comer. 2 Os fariseus, ao repararem nisso, chamaram a atenção de Jesus: «Olha que os teus discípulos estão a fazer aquilo que a lei não permite fazer ao sábado.» 3 Jesus respondeu-lhes: «Não leram o que David fez quando ele e os seus companheiros estavam com fome? 4 Entrou na casa de Deus com os seus homens e comeram os pães consagrados. E não lhes era permitido fazer aquilo, mas apenas aos sacerdotes. 5 Não leram também na lei que aos sábados, no templo, os sacerdotes quebram a lei do descanso e, no entanto, ficam sem culpa? 6 Pois eu vos digo: o que está aqui é maior do que o templo. 7 Se percebessem o que significa na Escritura: prefiro misericórdia e não sacrifíciosa, não teriam condenado inocentes. 8 Com efeito, o Filho do Homem é senhor do próprio sábado.»
Um homem com a mão paralítica
(Marcos 3,1–6; Lucas 6,6–11)
9 Jesus saiu dali e entrou na sinagoga deles. 10 Estava lá um homem que tinha uma das mãos paralítica. Alguns, querendo arranjar motivo para acusar Jesus, perguntaram-lhe: «Será que a nossa lei permite curar pessoas ao sábado ou não?» 11 Jesus respondeu assim: «Se um de vós tiver uma ovelha e ela cair num poço ao sábado, não vai logo tirá-la de lá? 12 Quanto mais não vale um homem do que uma ovelha? Por isso é permitido fazer bem ao sábado.» 13 Em seguida dirigiu-se ao homem da mão paralítica: «Estende a tua mão.» Ele estendeu-a e ficou restabelecida e sã como a outra. 14 Então os fariseus saíram dali e foram fazer planos para ver como haviam de o matar.
O escolhido de Deus
15 Quando Jesus teve conhecimento disso, afastou-se dali e muita gente o seguiu. Curou todos os enfermos 16 e deu-lhes ordens para que não fizessem propaganda dele. 17 Assim se cumpriu o que foi dito por meio do profeta Isaías:
18 Este é o meu servo, a quem eu escolhi,
o meu predilecto, no qual tenho a maior satisfação.
Porei nele o meu Espírito
e ele anunciará a minha vontade aos povos.
19 Não criará conflitos, nem gritará,
nem fará ouvir a sua voz nas ruas.
20 Não quebrará a cana pisada,
nem apagará o pavio que ainda fumega,
até fazer com que a justiça alcance a vitória.
21 É nele que os povos hão-de pôr a sua esperançab.
Jesus e Satanás
(Marcos 3,20–30; Lucas 11,14–23; 12,10)
22 Trouxeram a Jesus um possesso cego e mudo. Jesus curou-o e o homem ficou a ver e a falar. 23 Toda a gente perguntava muito admirada: «Não será este o Filho de David?» 24 Mas os fariseus, ao ouvirem isto, afirmavam: «É pelo poder de Belzebuc, chefe dos demónios, que este expulsa os demónios.» 25 Jesus percebendo o que estavam a pensar, disse-lhes: «Um reino dividido em grupos que lutem entre si acaba por se arruinar. Do mesmo modo, uma cidade ou uma família dividida não se mantém de pé. 26 Ora se Satanás expulsa Satanás está em luta contra si mesmo. Como poderá então o seu reino manter-se? 27 Se eu expulso os espíritos maus pelo poder de Belzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Por isso são eles que hão-de acusar-vos do vosso erro. 28 Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os espíritos maus, isto quer dizer que o reino de Deus já aqui chegou.
29 Como pode alguém entrar em casa dum homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar? Só assim lhe poderá roubar a casa.
30 Quem não está comigo está contra mim, e quem comigo não junta, espalha. 31 Portanto, digo-vos: qualquer pecado e palavra ofensiva contra Deus poderão ser perdoados aos homens. Mas a palavra ofensiva contra o Espírito Santo não será perdoada. 32 Quem disser alguma coisa contra o Filho do Homem poderá ser perdoado, mas quem disser alguma coisa ofensiva contra o Espírito Santo, não será perdoado, nem neste mundo nem no outro.»
A árvore e os seus frutos
(Lucas 6,43–45)
33 «Se plantarem uma árvore boa, o seu fruto será bom. Se plantarem uma árvore má, o fruto será mau. Pois é pelo fruto que se conhece a árvore. 34 Raça de víboras! Como poderão vocês dizer coisas boas se são maus? Cada qual fala daquilo que tem no coração. 35 O homem bom tira coisas boas do tesouro da sua bondade e o homem mau tira coisas más da sua maldade. 36 Digo-vos que no dia do juízo cada um terá de dar contas a Deus por toda a palavra inútil que tenha dito. 37 É pelas tuas palavras que no dia do juízo Deus te há-de declarar inocente ou culpado.»
Jesus, sinal de Deus
(Marcos 8,11–12; Lucas 11,29–32)
38 Em dado momento, alguns doutores da lei e fariseus fizeram este pedido a Jesus: «Mestre, queríamos ver-te fazer um sinal milagroso.» 39 Jesus respondeu-lhes: «Esta geração má e infiel procura um sinal milagroso de Deus! Pois bem, não lhe será dado outro sinal senão o do profeta Jonas. 40 Assim como Jonas esteve três dias e três noites dentro do grande peixe, assim o Filho do Homem há-de estar três dias e três noites dentro da terra. 41 No dia do juízo, os habitantes de Nínived hão-de levantar-se contra esta geração para a condenar. É que eles, quando ouviram a pregação de Jonas, arrependeram-se. Ora o que está aqui é maior do que Jonas! 42 Também a rainha do Sul se há-de levantar, no dia do juízo, contra a gente deste tempo para a condenar, porque ela veio lá do fim do mundo para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora o que está aqui é maior do que Salomão!»
Regresso do espírito mau
(Lucas 11,24–26)
43 «Quando um espírito mau sai duma pessoa anda por lugares secos à procura de repouso, mas não o encontra. 44 Então diz: “Volto para a minha casa, donde saí.” Ao chegar lá, encontra a casa vaga, limpa e bem arranjada. 45 Então vai buscar outros sete espíritos piores do que ele e vão todos para lá viver. Deste modo, a situação daquela pessoa torna-se pior do que era antes. É precisamente assim que vai acontecer a esta geração má.»
A família de Jesus
(Marcos 3,31–35; Lucas 8,19–21)
46 Enquanto Jesus estava ainda a falar à multidão, chegaram sua mãe e seus irmãos. Ficaram do lado de fora e procuravam maneira de lhe falar. 47 Então alguém veio dizer: «Olha que a tua mãe e os teus irmãos estão ali fora e querem falar contigoe.» 48 Jesus disse à pessoa que lhe foi dar o recado: «Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?» 49 Depois apontou para os discípulos: «Aqui está a minha mãe e os meus irmãos! 50 Aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»
A parábola do semeador
(Marcos 4,1–9; Lucas 8,4–8)
13 1 Naquele mesmo dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira do lago. 2 A gente que se juntou à volta era tanta que ele subiu para um barco. Sentou-se e toda a multidão se mantinha na praia. 3 E ensinava muitas coisas por meio de parábolas como esta:
«Andava uma vez um homem a semear. 4 Ao lançar a semente, parte dela caiu à beira do caminho e os pássaros vieram e comeram-na. 5 Outra caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. Rompeu depressa porque o terreno era pouco fundo. 6 Mas quando veio o sol queimou as plantas, porque não tinham raízes. 7 Outra parte da semente caiu entre espinhos, que cresceram e abafaram as plantas. 8 Outra parte, porém, caiu em boa terra e deu fruto à razão de cem, de sessenta e de trinta grãos por semente.» 9 Jesus acrescentou: «Quem tem ouvidos, preste atenção!»
Razão das parábolas
(Marcos 4,10–12; Lucas 8,9–10)
10 Então os discípulos foram perguntar a Jesus: «Por que é que lhes falas por meio de parábolas?» 11 Ele respondeu: «Deus concedeu-vos o privilégio de conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não. 12 Àquele que já tem alguma coisa, Deus lhe dará mais até que lhe sobre. Mas àquele que não tem nada, até o pouco que tem lhe será tirado. 13 É por isso que a eles eu falo por meio de parábolas, porque olham mas não vêem, ouvem mas não entendem nem percebem. 14 Deste modo se cumpre neles aquela profecia de Isaías que diz:
Ouçam e tornem a ouvir
que nada conseguirão perceber,
olhem e tornem a olhar
que nada hão-de ver.
15 É que o entendimento desta gente está fechado.
Têm os ouvidos duros e os olhos tapados.
Doutro modo, talvez tivessem olhos para ver
e ouvidos para ouvir.
Talvez o seu entendimento se abrisse
e voltassem para mim
e eu os curariaa.
16 Felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem. 17 Posso garantir-vos que muitos profetas e justos desejaram ver o que vocês vêem e não viram, e ouvir o que vocês ouvem e não ouviram.»
Jesus explica a parábola do semeador
(Marcos 4,13–20; Lucas 8,11–15)
18 «Ouçam agora o que significa a parábola do semeador: 19 Todos aqueles que ouvem a palavra do reino e não entendem são como a semente que caiu à beira do caminho. Vem o Diabo e tira-lhes o que foi semeado no coração. 20 A semente que caiu no terreno pedregoso representa os que ouvem a boa nova e a recebem com alegria. 21 Mas dura pouco porque não têm raízes. Quando vêm os sofrimentos e as perseguições por causa da boa nova, não aguentam. 22 A semente que caiu entre os espinhos representa aqueles que ouvem a boa nova, mas as preocupações desta vida e a ilusão das riquezas sufocam-na logo e o fruto não aparece. 23 Mas a semente que caiu em boa terra representa os que recebem a boa nova e a compreendem. Esses dão realmente fruto, uns à razão de cem, outros de sessenta e outros de trinta por cada grão.»
A parábola do trigo e do joio
24 Jesus apresentou-lhes outra parábola: «O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Mas enquanto toda a gente dormia, veio o inimigo desse homem, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. 26 Quando as plantas cresceram e se começaram a formar as espigas, apareceu também o joio. 27 Então os trabalhadores desse homem foram ter com ele e perguntaram-lhe: “Senhor, não foi boa semente que semeaste no teu campo? Como é que apareceu este joio?” 28 “Foi um inimigo que fez isso”, respondeu ele. Os trabalhadores tornaram a perguntar-lhe: “Queres que vamos lá arrancar o joio?” 29 Mas ele replicou: “Não, porque ao arrancarem o joio são capazes de arrancar também o trigo. 30 Deixem-nos crescer os dois até ao tempo da ceifa. Nessa altura direi aos ceifeiros: Apanhem primeiro o joio e atem-no em feixes para ser queimado no fogo, mas recolham o trigo para o meu celeiro.”»
A parábola do grão de mostarda
(Marcos 4,30–32; Lucas 13,18–19)
31 Apresentou-lhes ainda outra parábola: «O reino dos céus é como um grão de mostarda que alguém semeou no seu campo. 32 Esta é a mais pequena das sementes. Mas quando a planta cresce é a maior de todas. Chega mesmo a ser uma árvore e até os pássaros vão fazer ninho nos seus ramos.»
A parábola do fermento
(Lucas 13,20–21)
33 Jesus expôs-lhes ainda outra parábola: «O reino dos céus é como o fermento que uma mulher misturou em três medidas de farinha e assim fez levedar toda a massa.»
Razão do ensino por parábolas
(Marcos 4,33–34)
34 Jesus serviu-se de parábolas para dizer todas estas coisas à multidão. E só lhes falava por meio de parábolas. 35 Assim se cumpria o que tinha dito o profeta:
Hei-de falar por meio de parábolas,
direi coisas que estavam escondidas
desde o princípio do mundob.
Jesus explica a parábola do trigo e do joio
36 Então Jesus deixou a multidão e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se dele e pediram: «Explica-nos o que significa a parábola do joio no campo.» 37 Jesus esclareceu-os assim: «Aquele que semeou a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são as pessoas que pertencem ao reino de Deus. O joio são os filhos do Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o Diabo. A ceifa é o fim deste mundo e os ceifeiros são os anjos. 40 Ora assim como o joio se junta e se queima no fogo, assim vai ser no fim do mundo: 41 o Filho do Homem mandará os seus anjos e eles retirarão do seu reino todos os que levam os outros a pecar e todos os que praticam o mal, 42 para os lançarem na fornalha. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então os justos de Deus brilharão como o Sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos preste atenção!»
A parábola do tesouro escondido e a pérola preciosa
44 E continuou: «O reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Quando alguém o encontra volta a escondê-lo. E, cheio de alegria, vai vender tudo quanto tem e compra o campo.
45 O reino dos céus pode também comparar-se a um comerciante que anda à procura de pérolas de boa qualidade. 46 Quando encontra uma pérola de muito valor vai vender tudo o que tem e compra-a.»
Rede lançada ao mar
47 «O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que se lança ao mar e apanha toda a espécie de peixes. 48 Quando já está cheia, os pescadores puxam-na para a praia e sentam-se a escolher o peixe: o que é bom deitam-no em cestos, e atiram fora o que não presta. 49 Assim vai acontecer no fim deste mundo: os anjos sairão para separar as pessoas más das boas, 50 lançando as más na fornalha. Ali haverá choro e ranger de dentes.»
Coisas novas e velhas
51 Jesus perguntou então aos discípulos: «Compreenderam todas estas coisas?» Eles responderam: «Compreendemos, sim.» 52 Então Jesus continuou: «Portanto, todo o doutor da lei que aceita a doutrina do reino dos céus é semelhante ao chefe de família que sabe tirar dos tesouros que tem coisas novas e velhas.»
Jesus é mal recebido em Nazaré
(Marcos 6,1–6; Lucas 4,16–30)
53 Quando Jesus acabou de lhes apresentar estas parábolas retirou-se dali. 54 Foi para a sua terra e começou a ensinar o povo na sinagoga deles. Os que o ouviam diziam admirados: «Donde lhe vem a sabedoria e o poder de fazer milagres? 55 Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria a sua mãe? E não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? 56 Não vivem cá também todas as suas irmãs? Donde lhe vem então tudo isto?» 57 Por essa razão não queriam nada com ele. Mas Jesus lembrou-lhes: «Nenhum profeta é desprezado a não ser na sua terra e no meio da sua família.» 58 E por causa da falta de fé deles, Jesus não fez ali muitos milagres.
Morte de João Baptista
(Marcos 6,14–29; Lucas 9,7–9)
14 1 Naquele tempo, Herodes, o governador da Galileia, ouviu falar de Jesus 2 e disse aos subordinados que estavam com ele: «Este homem é João Baptista; ele ressuscitou dos mortos e por isso é que tem poder para fazer os milagres que faz.»
3 De facto, Herodes tinha mandado prender João e tinha-o metido na cadeia. Fez isso por causa de Herodias, esposa de seu irmão Filipe. 4 É que João avisava constantemente Herodes: «Não tens o direito de viver com ela.» 5 Herodes queria matá-lo, mas tinha medo do povo porque todos consideravam João como um profeta. 6 Ora no dia dos anos de Herodes, a filha de Herodias dançou diante de todos e agradou muito a Herodes. 7 Este jurou dar-lhe tudo o que ela pedisse. 8 Então ela, pressionada pela mãe, fez este pedido: «Dá-me agora mesmo, numa bandeja, a cabeça de João Baptista.» 9 O rei ficou triste, mas por causa do juramento e dos convidados ordenou que lhe fosse dada 10 e mandou alguém à cadeia cortar a cabeça de João. 11 Trouxeram-na numa bandeja e deram-na à rapariga, que a foi levar à mãe. 12 Os discípulos de João foram buscar o corpo e sepultaram-no. Depois levaram a notícia a Jesus.
Jesus dá de comer a uma multidão
(Marcos 6,30–44; Lucas 9,10–17; João 6,1–14)
13 Quando Jesus recebeu aquela notícia, retirou-se de barco e foi sozinho para um lugar isolado. Mas a multidão, ao saber disso, deixava as suas povoações e seguia-o por terra. 14 Assim, quando Jesus desembarcou viu uma multidão enorme. Sentiu-se comovido com aquela gente e curou todos os doentes que havia entre eles.
15 Ao entardecer, os discípulos foram ter com ele e disseram-lhe: «Já é muito tarde e este sítio aqui é isolado. Manda esta multidão embora para que vão às aldeias comprar alguma coisa para comer.» 16 Porém, Jesus observou: «Não há necessidade de eles se irem embora. Dêem-lhes vocês de comer!» 17 Os discípulos responderam: «Mas olha que só temos aqui cinco pães e dois peixes!» 18 «Tragam-mos cá», disse Jesus. 19 E deu ordens para que a multidão se sentasse na relva. Depois pegou nos cinco pães e nos dois peixes, levantou os olhos para o céu e deu graças a Deus. Partiu os pães, deu-os aos discípulos e os discípulos distribuíram-nos pela multidão. 20 Todos comeram até ficarem satisfeitos. E, com os bocados que sobejaram, encheram-se doze cestos. 21 O número dos homens que comeram andava por volta de cinco mil, não contando as mulheres e as crianças.
Jesus caminha por cima da água
(Marcos 6,45–52; João 6,16–21)
22 Logo a seguir, Jesus mandou os discípulos entrar no barco e disse-lhes para irem à frente, para a outra banda do lago, enquanto se despedia da multidão. 23 Depois subiu sozinho ao monte para orar. Quando anoiteceu, ainda lá estava sozinho. 24 Entretanto, a embarcação estava já bastante longe da terra e ia sendo batida pelas ondas, porque o vento era contrário. 25 De madrugada, Jesus foi então ter com os discípulos caminhando por cima da água. 26 Quando eles o viram a caminhar p

Rita 16/11/2014 13:27 0 1

EVANGELHO SEGUNDO
MATEUS
Introdução — Desde os tempos mais antigos, a tradição vai no sentido de considerar que o autor deste Evangelho foi um dos primeiros discípulos de Jesus; seria aquele cobrador de impostos, tornado discípulo, que é chamado Mateus em Mateus 9,9 e Levi em Marcos 2,14. Pensa-se que o discípulo Mateus poderia ter recolhido em aramaico alguns ditos e feitos de Jesus, tendo mais tarde escrito o texto actual deste Evangelho, numa altura em que já dispunha de outros Evangelhos, nomeadamente o de Marcos, escrito em grego, que o podem ter ajudado na nova escrita. Este livro terá sido escrito depois do ano 70.
É provável que tenha tido como principais destinatários igrejas de origem judaica com uma forte ligação ao seu património religioso tradicional, mas que já não parecem identificar-se com o judaísmo, uma vez que este se recusou a acolher Jesus com as características de Messias que este Evangelho sublinha.
O Evangelho segundo Mateus caracteriza-se por uma particular sensibilidade a questões que têm a ver com o judaísmo. Os temas tradicionais da religião hebraica bíblica, as suas personagens antigas mais marcantes e os confrontos com vários grupos que representam o judaísmo contemporâneo de Jesus aparecem neste Evangelho com algum destaque. A longa genealogia de antepassados sublinha as raízes de Jesus no interior do povo hebraico, indo até Abraão e sublinhando a maneira como Jesus articula toda a história do povo de Deus, uma vez que quatro ciclos de catorze gerações conduzem directamente de Abraão, por David e pelo exílio da Babilónia até Jesus. Tal como acontece na genealogia, também no resto deste Evangelho são constantes as referências aos temas do Antigo Testamento. A infância de Jesus e outras referências da sua vida pública, nomeadamente o modo como ensina e a autoridade que revela, fazem dele um novo Moisés; a nova Torá é o seu ensino que inaugura o Reino de Deus. Valoriza e interpreta os textos proféticos para demonstrar que Jesus é o Messias esperado pelo povo, aquele que iria realizar as promessas feitas através dos séculos de história hebraica. A autoridade de Jesus tanto assenta na capacidade de declarar verdades novas como na reinterpretação de verdades que vinham da Escritura. Por isso é tão frequente encontrar citações do Antigo Testamento ao longo deste Evangelho.
Os ensinamentos de Jesus são apresentados ao longo da sua vida pública, em cinco secções, sendo cada uma delas dominada por um grande discurso:
— O sermão da montanha: 5—7.
— Instruções aos doze discípulos sobre a sua missão: 10.
— As parábolas do reino: 13.
— Ensinamentos sobre a vida dos cristãos neste mundo: 18.
— O fim da vida presente e a vinda do reino de Deus: 24—25.
Este evangelho pode sintetizar-se no seguinte plano:
— Antepassados e nascimento de Jesus: 1—2.
— Mensagem de João Baptista: 3,1—12.
— Baptismo e tentação de Jesus: 3,13—4,11.
— Actividade de Jesus na Galileia: 4,12—18
— A caminho de Jerusalém: 19—20.
— Actividade de Jesus em Jerusalém: 21—25.
— Paixão, morte e ressurreição: 26—28.

Antepassados de Jesus Cristo
(Lucas 3,23–38)
1 1 Esta é a lista dos antepassados de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão.
2 Abraão foi pai de Isaac, Isaac foi pai de Jacob e Jacob foi pai de Judá e dos seus irmãos. 3 Judá foi pai de Peres e de Zera, sendo a mãe Tamar. Peres foi pai de Hesron e Hesron foi pai de Rame. 4 Rame foi pai de Aminadab, Aminadab foi pai de Nachon e Nachon foi pai de Salmon. 5 Salmon foi pai de Booz, sendo a mãe Raab. Booz foi pai de Obed, sendo a mãe Rute. Obed foi pai de Jessé 6 e Jessé foi pai do rei David.
David foi pai de Salomão, sendo a mãe a que foi mulher de Urias. 7 Salomão foi pai de Roboão, Roboão foi pai de Abias e Abias foi pai de Asa. 8 Asa foi pai de Josafat, Josafat foi pai de Jorão e Jorão foi pai de Uzias. 9 Uzias foi pai de Jotam, Jotam foi pai de Acaz e Acaz foi pai de Ezequias. 10 Ezequias foi pai de Manassés, Manassés foi pai de Amon e Amon foi pai de Josias. 11 Josias foi pai de Jeconias e dos seus irmãos, no tempo do exílio para a Babilónia.
12 Depois do exílio na Babilónia, Jeconias foi pai de Salatiel e Salatiel foi pai de Zorobabel. 13 Zorobabel foi pai de Abiud, Abiud foi pai de Eliaquim e Eliaquim foi pai de Azur. 14 Azur foi pai de Sadoc, Sadoc foi pai de Jaquin e Jaquin foi pai de Eliud. 15 Eliud foi pai de Eleazar, Eleazar foi pai de Matan e Matan foi pai de Jacob.
16 Jacob foi pai de José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Messias.
17 No conjunto são catorze gerações de Abraão até David, outras catorze de David até ao exílio para a Babilónia e mais catorze do exílio até ao Messiasa.
José dá o nome a Jesus
(Lucas 2,1–7)
18 O nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, tinha o casamento tratado com José; mas, antes de casarem, achou-se grávida pelo poder do Espírito Santo. 19 José, o seu noivo, que era justo, não a queria acusar publicamente. Por isso pensou deixá-la sem dizer nada. 20 Andava ele a pensar nisto, quando lhe apareceu num sonho um anjo do Senhor que lhe disse: «José, descendente de David, não tenhas medo de casar com Maria, tua noiva, pois o que nela se gerou foi pelo poder do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho e tu vais pôr-lhe o nome de Jesusb, pois ele salvará o seu povo dos pecados.»
22 Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: 23 A virgem ficará grávida e dará à luz um filho que se há-de chamar Emanuelc.
Emanuel quer dizer: Deus está connosco. 24 Quando José acordou, fez como o anjo do Senhor lhe tinha mandado: recebeu Maria por esposa; 25 sem terem tido antes relações conjugais, Maria deu à luz o menino, a quem José pôs o nome de Jesus.
Sábios do Oriente adoram o Messias
2 1 Jesus nasceu em Belém, na região da Judeia, no tempo do rei Herodes. Depois do seu nascimento, chegaram uns sábios do Oriente a Jerusalém 2 e perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? É que nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.»
3 Quando ouviu isto, o rei Herodes ficou muito perturbado e com ele a população de Jerusalém. 4 Mandou reunir todos os chefes dos sacerdotes mais os doutores da lei e perguntou-lhes onde haveria de nascer o Messias. 5 Responderam: «Em Belém da Judeia, conforme o que o profeta escreveu: 6 Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as terras principais da Judeia, porque de ti é que há-de vir um chefe que será o pastor do meu povo de Israela.»
7 Então Herodes chamou à parte os sábios e perguntou-lhes quando é que exactamente a estrela lhes tinha aparecido. 8 Depois mandou-os a Belém com esta recomendação: «Vão, informem-se cuidadosamente acerca do menino e, quando o encontrarem, venham-me dizer para eu ir também adorá-lo.»
9 Depois de ouvirem o rei, os sábios partiram. Nisto, repararam que a estrela que tinham observado a Oriente ia adiante deles, até que parou por cima do lugar onde se encontrava o menino. 10 Ao verem a estrela, sentiram uma alegria enorme. 11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e inclinaram-se para o adorar. Depois abriram os cofres e fizeram-lhe as suas ofertas de ouro, incenso e mirra. 12 Então Deus avisou-os por meio dum sonho, para não voltarem a encontrar-se com Herodes. E eles partiram para a sua terra por outro caminho.
Fuga para o Egipto
13 Depois de se terem ido embora, um anjo do Senhor apareceu a José, num sonho, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino mais a sua mãe e foge com eles para o Egipto. Deixa-te lá estar até que eu te diga, porque Herodes vai procurar a criança para a matar.» 14 José levantou-se, tomou o menino com a sua mãe e pôs-se a caminho, de noite, para o Egipto. 15 Ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Chamei do Egipto o meu filhob.
Massacre das criancinhas
16 Quando Herodes percebeu que os sábios o tinham enganado, ficou furioso e mandou matar, em Belém e nos arredores, todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo que ele tinha apurado pelas palavras dos sábios. 17 Foi assim que se cumpriu o que o profeta Jeremias tinha dito:
18 Em Ramá se ouviu um grito,
choro amargo, imensa dor.
É Raquel a chorar os filhos;
e não quer ser consolada,
porque eles já não existemc.
Regresso do Egipto
19 Depois da morte de Herodes, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egipto, 20 e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe e volta para a terra de Israel, porque já morreram aqueles que procuravam tirar a vida ao menino.» 21 José levantou-se, tomou o menino com a sua mãe e voltou para a terra de Israel. 22 Mas, quando soube que Arquelaud reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Tendo recebido novas instruções de Deus por meio dum sonho partiu para a região da Galileia. 23 Ali fixou residência numa terra chamada Nazaré. Foi assim que se cumpriu aquilo que foi dito pelos profetas: Ele há-de chamar-se Nazarenoe.
Pregação de João Baptista
(Marcos 1,1–8; Lucas 3,1–18; João 1,19–28)
3 1 Naquele tempo apareceu João Baptista no deserto da Judeia a pregar assim: 2 «Arrependam-se, porque o reino dos céus está próximo.» 3 Foi a respeito dele que o profeta Isaías falou, quando disse: Alguém grita no deserto: preparem o caminho do Senhor e tornem direitas as suas estradasa.
4 João usava uma vestimenta de pêlo de camelo, apertada com uma cintura de couro, e alimentava-se de gafanhotos e de mel apanhado no campo. 5 Os habitantes de Jerusalém e de toda a região da Judeia, assim como do vale do Jordão, iam ter com ele. 6 Confessavam os seus pecados e ele baptizava-os no rio Jordão.
7 Quando João viu que muitos fariseus e saduceus iam ter com ele para serem baptizados, disse-lhes: «Raça de víboras! Quem vos disse que podiam escapar do castigo que se aproxima? 8 Mostrem pelo fruto das vossas acções que estão verdadeiramente arrependidos. 9 E não andem por aí a dizer: “Abraão é nosso pai!” Pois eu garanto-vos que Deus até destas pedras pode suscitar filhos de Abraão. 10 O machado já está prestes a cortar as árvores pela raiz. Toda a árvore que não der bons frutos será abatida e lançada no fogo. 11 Eu baptizo-vos em água como sinal de arrependimento. Mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu; não mereço sequer a honra de lhe levar as sandálias! Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo. 12 Tem nas mãos a pá e vai separar, na sua eira, o trigo da palha. Guardará o trigo no celeiro e queimará a palha numa fogueira que não se apaga.»
Baptismo de Jesus
(Marcos 1,9–11; Lucas 3,21–22)
13 Nessa altura Jesus deslocou-se da Galileia ao rio Jordão para ser baptizado por João Baptista. 14 Este, porém, negava-se a isso exclamando: «Sou eu quem tem necessidade de ser baptizado por ti e tu é que vens ter comigo?» 15 Mas Jesus respondeu: «Deixa lá. É bom cumprirmos deste modo toda a vontade de Deus.» E João concordou em baptizá-lo.
16 Assim que foi baptizado, Jesus saiu da água. Nesse momento, abriram-se os céus e viu o Espírito de Deus a descer do céu por cima de si, como uma pomba. 17 E uma voz do céu dizia: «Este é o meu Filho querido. Tenho nele a maior satisfaçãob!»
Jesus é tentado
(Marcos 1,12–13; Lucas 4,1–13)
4 1 Em seguida, Jesus, conduzido pelo Espírito Santo, retirou-se para o deserto a fim de ser ali tentado pelo Diabo. 2 Depois de passar quarenta dias e quarenta noites sem comer, Jesus teve fome. 3 O tentador aproximou-se dele e disse: «Se és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.» 4 Jesus respondeu: «A Sagrada Escritura diz: Não se vive só de pão, mas também de toda a palavra que vem de Deusa.»
5 Então o Diabo levou-o à cidade santa, colocou-o no ponto mais alto do templo, 6 e disse-lhe: «Se és o filho de Deus, atira-te daqui abaixo, porque diz a Escritura: Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito: eles hão-de segurar-te nas mãos para evitar que magoes os pés contra as pedrasb.»
7 «Mas a Escritura diz também: Não tentarás o Senhor teu Deusc», respondeu Jesus.
8 O Diabo levou-o ainda a um monte muito alto, mostrou-lhe dali todos os países do mundo com as suas grandezas 9 e disse: «Tudo isto te darei se de joelhos me adorares.» 10 Jesus respondeu: «Vai-te, Satanás! A Escritura diz: Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás cultod.»
11 O Diabo então deixou-o e aproximaram-se alguns anjos que começaram a servi-lo.
Jesus inicia a sua actividade na Galileia
(Marcos 1,14–15; Lucas 4,14–15)
12 Quando Jesus soube que João Baptista tinha sido preso, retirou-se para a Galileia. 13 Deixou Nazaré para ir viver em Cafarnaum, uma cidade à beira do lago nos limites de Zabulão e Neftalie. 14 Aconteceu assim para que se cumprissem estas palavras de Isaías:
15 Terras de Zabulão e de Neftali,
da beira-mar e de além do Jordão,
Galileia dos pagãos!
16 O povo mergulhado na escuridão
viu uma grande luz!
Luz que brilhou
para os que estavam na região escura da mortef.
17 Daí em diante Jesus começou a pregar: «Arrependam-se, porque o reino dos céus está a chegar.»
Primeiros companheiros de Jesus
(Marcos 1,16–20; Lucas 5,1–11)
18 Caminhava Jesus junto ao lago da Galileia quando viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e André, que andavam a lançar as redes no lago pois eram pescadores. 19 Jesus disse-lhes: «Venham comigo e eu vos farei pescadores de homens.» 20 Ambos largaram imediatamente as redes e foram com ele. 21 Um pouco mais adiante, Jesus viu outros dois irmãos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, que estavam no barco com o pai, a consertar as redes, e chamou-os. 22 Eles deixando logo o barco e o pai seguiram Jesus.
Jesus percorre a Galileia
(Lucas 6,17–19)
23 Jesus andava por toda a Galileia, ensinava nas sinagogas, pregava a boa nova do reino e curava o povo de todas as doenças e sofrimentos. 24 Ouvia-se falar dele por toda a Síria. Traziam-lhe os que sofriam de várias doenças e males, os que tinham espíritos maus, os epilépticos e os paralíticos. E Jesus curava-os a todos. 25 Acompanhava-o uma enorme multidão que vinha da Galileia, das Dez Cidades, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão.
A verdadeira felicidade
(Lucas 6,20–23)
5 1 Ao ver a multidão, Jesus subiu ao monte. Sentou-se e os seus discípulos foram para junto dele. 2 Jesus começou então a ensiná-los desta maneira:
3 «Felizes os que têm espírito de pobres,
porque é deles o reino dos céus!
4 Felizes os que choram,
porque Deus os consolará!
5 Felizes os humildes,
porque terão como herança a Terra!
6 Felizes os que têm fome e sede de ver cumprida a vontade de Deus,
porque Deus os satisfará!
7 Felizes os que usam de misericórdia para com os outros,
porque Deus os tratará com misericórdia!
8 Felizes os íntegros de coração,
porque hão-de ver Deus!
9 Felizes os que promovem a paz,
porque Deus lhes chamará seus filhos!
10 Felizes os que são perseguidos por procurarem que se cumpra a vontade de Deus,
porque é deles o reino dos céus!
11 Felizes serão quando vos insultarem, perseguirem e caluniarem,
por serem meus discípulos!
12 Alegrem-se e encham-se de satisfação porque é grande a recompensa que vos espera no céu. Pois assim também foram tratados os profetas que vos precederama.»
O sal e a luz
(Marcos 9,50; Lucas 14,34–35)
13 «Vocês são o sal do mundo. Mas se o sal perder as suas qualidades, poderá novamente salgar? Já não presta para nada, senão para se deitar fora e ser pisado por quem passa.
14 Vocês são a luz do mundo. Uma cidade situada no alto de um monte não se pode esconder. 15 Também não se acende um candeeiro para o pôr debaixo duma caixa. Pelo contrário, põe-se mas é num lugar em que alumie bem a todos os que estiverem em casab. 16 Do mesmo modo, façam brilhar a vossa luz diante de toda a gente, para que vejam as vossas boas acções e dêem louvores ao vosso Pai que está nos céus.»
A lei e o reino dos céus
17 «Não pensem que vim anular a Lei de Moisés ou o ensino dos profetas. Não vim para anular mas para dar cumprimento. 18 Saibam que enquanto o Céu e a Terra existirem, nem uma letra, nem sequer um acento se hão-de tirar da lei, sem que tudo se cumpra. 19 Por isso quem desobedecer ainda que seja a um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no reino dos céus. Mas aquele que obedecer à lei e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será tido por grande no reino dos céus. 20 Digo-vos mais: vocês não entrarão de maneira nenhuma no reino dos céus, se não cumprirem a vontade de Deus com mais fidelidade do que os doutores da lei e os fariseus.»
Reconciliação com o semelhante
(Lucas 12,57–59)
21 «Ouviram o que foi dito aos antigos: Não matarásc. E ainda: Aquele que matar alguém terá de responder em julgamento. 22 Mas eu digo-vos: Todo aquele que se irritar contra o seu semelhante terá de responder em julgamento; aquele que insultar o seu semelhante, chamando-lhe “imbecil”, será julgado pelo tribunal; e aquele que lhe chamar “estúpido” merece ir para o fogo do inferno. 23 Por isso, quando fores ao templo levar a tua oferta a Deus, e ali te lembrares que o teu semelhante tem alguma razão de queixa contra ti, 24 deixa a oferta diante do altar e vai primeiro fazer as pazes com o teu semelhante. Depois volta e apresenta a tua oferta.
25 Faz as pazes com o teu adversário enquanto vão os dois a caminho do tribunal. Senão o adversário entrega-te ao juiz, este entrega-te ao oficial de justiça e metem-te na cadeia. 26 Garanto-te que não sais de lá enquanto não pagares o último cêntimo.»
Perigo das más intenções
27 «Ouviram o que foi dito: Não cometerás adultériod. 28 Mas eu digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com más intenções já cometeu adultério no seu coração. 29 Portanto, se o teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e atira-o para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ser todo inteiro lançado no inferno. 30 De igual modo, se a tua mão direita te leva a pecar, corta-a e atira-a para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ir todo inteiro para o inferno.»
Sobre o divórcio
(Mateus 19,9; Marcos 10,11–12; Lucas 16,18)
31 «Também foi dito: Todo o homem que se divorciar da sua mulher deve passar-lhe uma declaraçãoe. 32 Mas eu digo-vos: Todo o homem que se divorciar da sua mulher, excepto no caso de adultériof, é culpado de a expor ao adultério. E o homem que casar com ela também comete adultério.»
Evitar juramentos
33 «Também ouviram o que foi dito aos antigos: Não farás juramentos falsos, mas cumprirás diante do Senhor o que jurasteg. 34 Mas eu digo-vos que não devem jurar de modo nenhum. Não jurem pelo Céu, porque é o trono de Deus; 35 nem pela Terra, porque é o estrado para os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. 36 Nem mesmo pela tua cabeça deves jurar, porque não és capaz de tornar um só dos teus cabelos branco ou preto. 37 Basta que digas sim, quando for sim, e não, quando for não. Tudo o que vai além disso é obra do Malignoh.»
Paciência e generosidade
(Lucas 6,29–30)
38 «Ouviram o que foi dito: Olho por olho e dente por dentei. 39 Mas eu digo-vos: Não resistam a quem vos fizer mal. Se alguém te bater na face direita, apresenta-lhe também a outra. 40 Se alguém te quiser levar a tribunal para te tirar a camisa, dá-lhe também o casaco. 41 Se alguém te obrigar a levar alguma coisa até a um quilómetro de distância, acompanha-o dois quilómetrosj. 42 Se alguém te pedir qualquer coisa, dá-lha; e a quem te pedir emprestado não lhe voltes as costas.»
Amor aos inimigos
(Lucas 6,27–28.32–36)
43 «Ouviram o que foi dito: Amarás o teu próximok e desprezarás o teu inimigo. 44 Mas eu digo-vos: Tenham amor aos vossos inimigos e peçam a Deus por aqueles que vos perseguem. 45 É deste modo que se tornarão filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz brilhar o Sol tanto sobre os bons como sobre os maus, e faz cair a chuva tanto para os justos como para os injustos.
46 Se amarem apenas aqueles que vos amam que recompensa poderão esperar? Não fazem também isso os cobradores de impostos? 47 E se saudarem apenas os vossos amigos, que há nisso de extraordinário? Qualquer pagão faz o mesmo! 48 Portanto, sejam perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito.»
Como dar esmola
6 1 «Quando praticarem o bem, procurem não o fazer diante dos outros para dar nas vistas. Se assim fizerem, já não terão nenhuma recompensa a receber do vosso Pai que está nos céus.
2 Portanto, quando deres esmola, não faças alarde à tua volta, como é costume das pessoas fingidas, nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiadas. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 3 Mas tu, quando deres esmola, procura que a tua mão esquerda nem saiba o que faz a direita. 4 Deste modo, a tua esmola ficará em segredo; e o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há-de recompensar-te.»
Jesus ensina a orar
(Lucas 11,2–4)
5 «Quando orarem, não façam como as pessoas fingidas que gostam de orar de pé, nas sinagogas e às esquinas das ruas, para toda a gente as vera. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 6 Tu, porém, quando quiseres fazer oração, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai que está presente sem ser visto. E o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há-de recompensar-te.
7 Quando orarem, não usem muitas palavras, como fazem os pagãos, que pensam que é por muito falarem que serão mais facilmente ouvidos. 8 Não sejam como eles pois o vosso Pai sabe muito bem do que vocês precisam, antes de lho pedirem. 9 Portanto, devem orar assim:
“Pai nosso que estás nos Céus,
Santificado seja o teu nomeb;
10 venha o teu reino;
seja feita a tua vontade,
assim na Terra como no Céu.
11 Dá-nos hoje o pão de que precisamos.
12 Perdoa-nos as nossas ofensas,
como nós perdoámos aos que nos ofenderam.
13 E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do Maligno.”
14 De facto, se perdoarem aos outros as suas ofensas, o vosso Pai celestial também vos perdoará. 15 Mas se não perdoarem aos outros, o vosso Pai também vos não perdoará.»
Acerca do jejum
16 «Quando jejuarem não andem de cara triste, como as pessoas fingidas, que até desfiguram a cara para toda a gente ver que andam a jejuar. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 17 Mas tu, quando jejuares, lava a cara e penteia-te bem. 18 Deste modo, ninguém saberá que andas a jejuar, a não ser o teu Pai que está presente sem ser visto. Ele, que vê tudo o que se passa em segredo, te dará a recompensa.»
A verdadeira riqueza
(Lucas 12,33–34)
19 «Não se preocupem em juntar riquezas neste mundo, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões assaltam e roubam. 20 Preocupem-se antes em juntar riquezas no céu, onde não há traça nem ferrugem para as destruir, nem ladrões para assaltar e roubar. 21 Onde estiver a vossa riqueza, aí estará o vosso coração.»
Luz e escuridão
(Lucas 11,34–36)
22 «A luz do corpo são os olhos. Por isso, se o teu olhar for bom, todo o teu corpo tem luz. 23 Mas se o teu olhar for mau, todo o teu corpo fica às escuras. Ora se a luz que há em ti não passa de escuridão, que grande será essa escuridão!»
Deus e as riquezas
(Lucas 16,13)
24 «Ninguém pode servir a dois patrões: ou não gosta de um deles e estima o outro, ou há-de ser leal para um e desprezar o outro. Não podem servir a Deus e ao dinheiro.»
Deus cuida dos seus filhos
(Lucas 12,22–31)
25 «É por isso que eu vos digo: Não andem preocupados com o que hão-de comer ou beber, nem com a roupa de que precisam para vestir. Não será que a vida vale mais do que a comida e o corpo mais do que a roupa? 26 Olhem para as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem amontoam grão nos celeiros. E no entanto, o vosso Pai dá-lhes de comer. Não valem vocês muito mais do que as aves? 27 Qual de vós, por mais que se preocupe, poderá prolongar um pouco o tempo da sua vidac?
28 E por que hão-de andar preocupados por causa da roupa? Reparem como crescem os lírios do campo! E eles não trabalham nem fiam. 29 Contudo digo-vos que nem o rei Salomão, com toda a sua riqueza, se vestiu como qualquer deles. 30 Ora se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada, quanto mais vos há-de vestir a vocês, ó gente sem fé?
31 Não andem preocupados a dizer: “Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?” 32 Os pagãos, esses é que se preocupam com todas essas coisas. O vosso Pai celestial sabe muito bem que vocês precisam de tudo isso. 33 Procurem primeiro o reino de Deus e a sua vontade e tudo isso vos será dado. 34 Portanto, não devem andar preocupados com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia a sua dificuldade.»
Não julgar os outros
(Lucas 6,37–38.41–42)
7 1 «Não julguem ninguém e assim Deus não vos julgará!
2 É que Deus há-de julgar-vos do mesmo modo que julgarem os outros, usando a mesma medida que usarem para os outros. 3 Por que reparas tu no cisco que está na vista do teu semelhante, e não vês a trave que está nos teus próprios olhos? 4 Como te atreves a dizer-lhe: “Deixa-me cá tirar-te isso da vista”, quando tens uma trave nos teus olhos? 5 Fingido! Tira primeiro a trave dos teus olhos e depois já vês melhor para tirares o cisco da vista do teu semelhante.
6 Não dêem aos cães o que é santo. Eles são capazes de se virar contra vocês e de vos despedaçar. Não deitem as vossas pérolas aos porcos! Pois eles vão pisá-las.»
Deus ouve a oração
(Lucas 11,9–13)
7 «Peçam e Deus vos dará; procurem e hão-de encontrar; batam à porta e ela há-de abrir-se-vos, 8 pois aquele que pede, recebe; aquele que procura, encontra; e a quem bate, a porta se abrirá. 9 Qual de vocês que seja pai seria capaz de dar uma pedra ao filho, quando este lhe pedisse pão? 10 Ou quem lhe daria uma cobra quando lhe pedisse peixe? 11 Ora se vocês, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está no céu dará coisas boas àqueles que lhas pedirem!
12 Façam aos outros tudo aquilo que desejariam que eles vos fizessem. Aqui está o essencial da lei e do ensino dos profetas.»
O caminho para a vida eterna
(Lucas 13,24)
13 «Entrem pela porta estreita! Pois é larga a porta e espaçoso o caminho que vai dar à perdição e são muitas as pessoas que para ali se encaminham. 14 Mas é estreita a porta e apertado o caminho que vai dar à vida eterna e são poucas as pessoas que o encontram.»
Os falsos profetas
(Lucas 6,43–44)
15 «Cuidado com os falsos profetas! Vêm ter convosco como se fossem ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. 16 É pelos seus frutos que os hão-de reconhecer. Porventura podem colher-se uvas das silvas ou figos dos cardos? 17 Portanto, a árvore boa dá bons frutos e a árvore má dá maus frutos. 18 Assim pois, uma árvore boa não pode dar maus frutos e uma árvore má não pode dar bons frutos. 19 Toda a árvore que não dá bons frutos corta-se e deita-se ao fogo. 20 Portanto, é pelas suas acções que poderão reconhecer os falsos profetas.»
Quem entra no reino dos céus
(Lucas 6,46; 13,25–27)
21 «Nem todos aqueles que me dizem: “Senhor, Senhor!” entrarão no reino dos céus, mas apenas os que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus. 22 Quando aquele dia chegar, haverá muitos que me hão-de dizer: “Senhor, Senhor, não profetizámos nós em teu nome? Não fizemos numerosos milagres em teu nome? Não chegámos a expulsar demónios em teu nome?” 23 Eu então hei-de declarar-lhes: “Nunca vos conheci. Afastem-se de mim, seus malfeitores!”»
Cumprir a palavra de Deus
(Lucas 6,47–49)
24 «Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática pode comparar-se ao homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. 25 Caiu muita chuva, vieram as cheias e os ventos sopraram com força contra aquela casa. Mas ela não caiu, porque os seus alicerces estavam assentes na rocha. 26 Porém, aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática pode comparar-se ao homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia. 27 Caiu muita chuva, vieram as cheias e os ventos sopraram com força contra aquela casa. Ela caiu e ficou arruinada.»
28 Quando Jesus acabou de pronunciar estas palavras, a multidão estava admirada com os seus ensinamentos. 29 É que ele ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da lei.
Cura de um homem com lepra
(Marcos 1,40–45; Lucas 5,12–16)
8 1 Ao descer do monte, Jesus foi seguido por uma grande multidão. 2 Então aproximou-se dele um homem com lepra que se ajoelhou e lhe disse: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me da lepra.» 3 Jesus estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero, fica purificado!» No mesmo instante, o homem ficou purificado da lepra. 4 Jesus então disse-lhe: «Escuta, não fales disto a ninguém. Mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece a Deus o sacrifício que Moisés ordenou, para ficarem a saber que estás curado.»
Cura do criado de um oficial romano
(Lucas 7,1–10)
5 Quando Jesus entrou em Cafarnaum aproximou-se dele um oficial do exército romano e fez-lhe este pedido: 6 «Senhor, o meu criado está de cama e sem se poder mexer, num sofrimento horrível.» 7 «Eu vou lá curá-lo», disse Jesus. 8 Mas o oficial respondeu: «Ó Senhor, eu não mereço que entres na minha casa. Basta que digas uma palavra e o meu criado ficará são. 9 Também eu tenho superiores a quem devo obediência e soldados às minhas ordens. Digo a um que vá, e ele vai. Digo a outro que venha, e ele vem. E digo ao meu criado: “faz isto”, e ele faz.» 10 Ao ouvir aquilo, Jesus ficou admirado e disse para os que o seguiam: «Fiquem sabendo que ainda não encontrei ninguém com tanta fé entre o povo de Israel. 11 Digo-vos mais: hão-de vir muitos do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa no reino dos céus com Abraão, Isaac e Jacob, 12 enquanto os herdeiros do reino serão lançados fora, na escuridão. Ali haverá choro e ranger de dentes.» 13 Em seguida Jesus disse ao oficial: «Podes ir. Seja como acreditaste.» E naquela mesma hora o doente ficou curado.
Jesus cura muitos doentes
(Marcos 1,29–34; Lucas 4,38–41)
14 Quando Jesus chegou a casa de Pedro, viu que a sogra deste estava de cama, com febre. 15 Tocou-lhe na mão e a febre passou-lhe. Ela então levantou-se e começou a servi-lo.
16 Ao cair da tarde, trouxeram a Jesus muitas pessoas com espíritos maus. Com uma palavra Jesus expulsou os espíritos maus e curou todos os que estavam doentes. 17 Assim se cumpria aquilo que disse o profeta Isaías: Ele próprio tomou as nossas fraquezas e suportou o peso das nossas doençasa.
Convite para seguir Jesus
(Lucas 9,57–62)
18 Quando Jesus viu a multidão que o rodeava, deu ordens para passar à outra margem do lago. 19 Foi então que se aproximou um doutor da lei e lhe disse: «Mestre, irei contigo para onde quer que fores.» 20 Jesus porém declarou: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde encostar a cabeça.»
21 Um dos discípulos pediu: «Senhor, deixa-me ir primeiro fazer o enterro ao meu pai.» 22 Contudo Jesus disse-lhe: «Segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus próprios mortos.»
Jesus acalma a tempestade
(Marcos 4,35–41; Lucas 8,22–25)
23 Jesus entrou no barco e os seus discípulos acompanharam-no. 24 Nisto, levantou-se no lago um temporal tão grande que as ondas encobriam o barco. Jesus, porém, dormia. 25 Os discípulos aproximaram-se dele e acordaram-no, gritando: «Senhor, salva-nos, que estamos perdidos!» 26 Jesus disse: «Por que estão com medo, homens sem fé?» Então levantou-se, deu ordens aos ventos e às ondas e fez-se uma grande calma. 27 Eles ficaram espantados e exclamavam: «Quem é este afinal, que até os ventos e as ondas lhe obedecem?!»
Cura de dois homens com espíritos maus
(Marcos 5,1–20; Lucas 8,26–39)
28 Jesus chegou à região dos gadarenos, do outro lado do lagob. Vieram ao seu encontro, saindo dos sepulcros, dois homens possuídos de espíritos maus. Os homens eram tão perigosos que ninguém se atrevia a passar por aquele caminho. 29 De repente, desataram a gritar: «Que é que tu queres de nós, Filho de Deus? Vieste cá para nos atormentar antes do tempo?»
30 Ora a uma certa distância dali, andava a pastar uma grande quantidade de porcosc. 31 Então os espíritos maus fizeram a Jesus este pedido: «Se nos vais expulsar, manda-nos para aquela vara de porcos.» 32 Jesus permitiu: «Vão!» E eles saíram e foram para os porcos que se puseram todos a correr pelo monte abaixo e afogaram-se no lago.
33 Os que andavam a guardar os animais fugiram e foram à cidade contar o que tinha acontecido aos dois homens com espíritos maus. 34 Então toda a gente da cidade foi ter com Jesus. Quando o viram, pediram-lhe para se ir embora daquela região.
Cura de um paralítico
(Marcos 2,1–12; Lucas 5,17–26)
9 1 Jesus entrou num barco, atravessou o lago e foi para a sua cidadea. 2 Trouxeram-lhe então um paralítico deitado numa enxerga. Ao ver a fé daqueles homens disse ao paralítico: «Coragem, meu filho! Os teus pecados estão perdoados.» 3 Nisto, alguns doutores da lei começaram a dizer para consigo: «Este homem está a ofender a Deus!» 4 Jesus percebeu-lhes os pensamentos e questionou-os: «Por que é que estão a pensar mal no vosso íntimo? 5 O que será mais fácil? Dizer: “Os teus pecados estão perdoados”, ou dizer: “Levanta-te e anda?” 6 Ficam pois a saber que o Filho do Homem tem poder na Terra para perdoar pecados.» E disse ao paralítico: «Levanta-te, pega na tua enxerga e vai para casa.» 7 O homem levantou-se e foi para casa. 8 Ao ver aquilo, a multidão ficou impressionada e louvava a Deus que deu tão grande poder aos homens.
Jesus chama Mateus
(Marcos 2,13–17; Lucas 5,27–32)
9 Quando Jesus ia a sair dali, viu um homem sentado no posto de cobrança de impostos. O seu nome era Mateus. Jesus chamou-o: «Segue-me.» Ele levantou-se e foi com Jesus. 10 Jesus estava sentado à mesa em casa de Mateus e vieram muitos outros cobradores de impostos e mais gente pecadora sentar-se à mesa com ele e os discípulos. 11 Ao verem isso, os fariseus perguntavam aos discípulos: «Por que é que o vosso Mestre se senta à mesa com os cobradores de impostos e gente pecadorab?» 12 Jesus ouviu isso e explicou: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os que estão doentes. 13 Vão aprender o que significam estas palavras da Escritura: Prefiro a misericórdia e não os sacrifíciosc. Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores.»
A questão do jejum
(Marcos 2,18–22; Lucas 5,33–39)
14 Naquela ocasião, os discípulos de João Baptista aproximaram-se de Jesus com esta pergunta: «Por que é que nós e os fariseus jejuamos muitas vezes, e os teus discípulos não jejuam?» 15 Jesus esclareceu-os: «Acham que os convidados para um casamento se podem apresentar de luto enquanto o noivo está com eles? Lá virá o tempo em que o noivo lhes será tirado. Nessa altura jejuarão.
16 Ninguém cose um remendo de tecido novo em roupa velha, porque o remendo novo repuxa o tecido velho e fica um rasgão ainda maior. 17 Do mesmo modo, ninguém deita vinho novo em vasilhas velhas, porque o vinho rebenta-as, perdendo-se assim o vinho e as vasilhas. Portanto, o vinho novo deve ser metido em vasilhas novas e assim se conservam ambas as coisas.»
Ressurreição de uma menina e cura de uma doente
(Marcos 5,21–43; Lucas 8,40–56)
18 Ainda Jesus lhes estava a dizer estas coisas, quando chegou um dirigente da sinagoga que se ajoelhou diante dele a pedir: «A minha filha acaba mesmo agora de morrer. Mas vem, põe a tua mão sobre ela, e viverá.» 19 Jesus levantou-se e seguiu-o com os seus discípulos. 20 Nisto, uma mulher, que havia doze anos sofria duma doença que a fazia perder sangue, aproximou-se por detrás de Jesus e tocou-lhe na ponta do manto. 21 Ela pensava consigo: «Se eu conseguir ao menos tocar-lhe na roupa, ficarei curada.» 22 Jesus voltou-se, olhou para ela e disse: «Coragem, minha filha! A tua fé te salvou!» E desde aquele momento a mulher ficou curada.
23 Quando Jesus chegou a casa do dirigente da sinagoga e viu os tocadores de flautad e a multidão que gritava, 24 mandou: «Saiam daqui para fora, que a menina não está morta, está só a dormir.» E começaram a fazer troça dele. 25 Quando aquela gente toda foi posta fora, Jesus entrou, pegou na mão da menina e ela levantou-se. 26 A notícia deste acontecimento espalhou-se por toda a região.
Jesus cura dois cegos
27 Ao sair daquele lugar, houve dois cegos que foram atrás de Jesus, gritando: «Filho de David tem piedade de nós!» 28 Quando Jesus ia a entrar em casa, os dois cegos aproximaram-se dele e Jesus perguntou-lhes: «Vocês acreditam que eu tenho poder para vos fazer isso?» Responderam eles: «Sim, Senhor, acreditamos!» 29 Então Jesus tocou-lhes nos olhos e disse: «Pois seja feito conforme a vossa fé!» 30 E os dois cegos ficaram a ver. Jesus recomendou-lhes em tom severo: «Olhem que ninguém deve saber disto!» 31 Eles, porém, saindo dali começaram a falar dele por toda a região.
Cura de um mudo
32 Na altura em que os dois cegos se foram embora, trouxeram a Jesus um mudo possuído dum espírito mau. 33 Jesus expulsou o espírito mau e o mudo pôs-se a falar. A multidão ficou muito admirada e dizia: «Nunca se viu uma coisa assim em Israel!» 34 Os fariseus, porém, diziam: «É pelo poder do chefe dos demónios que ele expulsa os demónios.»
Poucos trabalhadores para a colheita
35 Jesus andava por todas as cidades e aldeias, ensinava nas sinagogas, anunciava a boa nova do reino de Deus e curava toda a espécie de doenças e males. 36 Ao ver a multidão, Jesus sentiu imensa compaixão, porque andavam desorientados e perdidos como ovelhas que não têm pastor. 37 Disse então aos discípulos: «A colheita é abundante, mas os trabalhadores são poucos. 38 Peçam ao dono da seara que mande mais trabalhadores para a sua colheita.»
Os doze apóstolos
(Marcos 3,13–19; Lucas 6,12–16)
10 1 Chamando para junto de si os seus doze discípulos, Jesus deu-lhes poder para expulsarem espíritos maus e curarem toda a espécie de doenças e males. 2 São estes os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e seu irmão André; Tiago e seu irmão João, filhos de Zebedeu; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, do partido dos Nacionalistas, e Judas Iscariotes, aquele que atraiçoou Jesus.
Jesus envia os apóstolos
(Marcos 6,7–13; Lucas 9,1–6)
5 Jesus enviou estes doze dando-lhes as seguintes instruções: «Não se desviem para o caminho dos pagãos, nem entrem em qualquer cidade dos samaritanosa. 6 Vão antes ter com as ovelhas perdidas do povo de Israel. 7 Pelo caminho anunciem que o reino dos céus está a chegar. 8 Curem os que estão doentes, purifiquem os leprosos, ressuscitem os mortos e expulsem os espíritos maus. Receberam de graça, dêem de graça. 9 Não procurem ouro, prata ou cobre para levar nos bolsos. 10 Não levem saco de viagem, nem muda de roupa, nem calçado, nem cajado. O trabalhador tem direito ao seu sustento.
11 Quando chegarem a qualquer cidade ou aldeia, procurem uma pessoa de confiança e fiquem em sua casa até se irem embora. 12 Ao entrarem numa casa cumprimentem os presentes com saudações de pazb. 13 Se os daquela casa forem dignos dela, que a vossa paz fique com eles; se não forem dignos, que volte para vocês. 14 Se nalguma casa ou cidade não vos receberem, nem derem ouvidos às vossas palavras, quando saírem daquela casa ou daquela cidade sacudam o pó dos vossos pésc. 15 Garanto-vos que no dia do juízo, a gente de Sodoma e Gomorrad será tratada com menos dureza do que o povo dessa terra.»
Sofrimentos e perseguições dos apóstolos
(Marcos 13,9–13; Lucas 21,12–17)
16 «Eu vos envio como ovelhas para o meio dos lobos. Portanto, sejam cautelosos como as serpentes e simples como as pombas. 17 Tenham muito cuidado! Haverá homens que vos levarão aos tribunais e vos hão-de espancar nas suas sinagogas. 18 Vão ter que comparecer diante de governadores e de reis, por minha causa. Aí darão testemunho de mim, a eles e aos pagãos. 19 Quando vos entregarem às autoridades não se preocupem como hão-de falar, nem com o que hão-de dizer. Nessa altura, Deus vos dará as palavras, 20 pois não serão vocês a falar, mas sim o Espírito de Deus, vosso Pai, que falará por vosso intermédio.
21 Haverá irmãos que hão-de entregar os seus próprios irmãos à morte, e pais que hão-de entregar os próprios filhos. E haverá filhos que se hão-de revoltar contra os pais e os hão-de matar. 22 Serão odiados por toda a gente por minha causa, mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.
23 Quando vos perseguirem numa cidade, fujam para outra. Garanto-vos que o Filho do Homem há-de vir antes de terem ido a todas as cidades de Israel.
24 Nenhum discípulo está acima do seu mestre, nem um servo está acima do seu senhor. 25 Basta ao discípulo que venha a ser como o seu mestre e ao servo como o seu senhor. Ora se ao dono da casa já chamaram Belzebu, que nomes não hão-de chamar aos outros membros da família!»
A quem devemos temer
(Lucas 12,2–7)
26 «Não tenham medo deles! Não há nada encoberto que não venha a descobrir-se, nem há nada escondido que não venha a saber-se. 27 O que eu vos digo em segredo, digam-no à luz do dia, e aquilo que vos é dito ao ouvido, apregoem-no em cima nos telhados. 28 Também não devem ter medo dos que matam o corpo mas não podem matar a alma. Temam antes a Deus que pode fazer perder tanto o corpo como a alma no inferno. 29 Não se vendem dois pássaros por uma moeda? No entanto, nem um só deles cai ao chão sem o vosso Pai querer. 30 Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados! 31 Não tenham medo! Vocês valem mais do que muitos pássaros.»
Aceitar ou negar Cristo
(Lucas 12,8–9)
32 «Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu farei o mesmo por ele diante do meu Pai que está nos céus. 33 Mas àquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.»
Jesus, motivo de divisão
(Lucas 12,51–53; 14,26–27)
34 «Não pensem que vim trazer a paz à Terra. Não vim trazer a paz, mas a guerra. 35 Vim, de facto, trazer a divisão entre filho e pai, filha e mãe, nora e sogra: 36 os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria famíliae.
37 Aquele que amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; e o que amar o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. 38 Aquele que não pegar na sua cruz e não me seguir, não é digno de mim. 39 Aquele que pensa que tem a sua vida segura, perde-a, mas aquele que perder a sua vida por minha causa é que a tem segura.»
Recompensas por fazer bem
(Marcos 9,41)
40 «Quem vos receber é a mim que recebe, e quem me receber recebe aquele que me enviou. 41 Quem receber um profeta, por ser profeta, terá uma recompensa de profeta; e quem receber um justo, por ser justo, terá a recompensa de justo. 42 E aquele que der um simples copo de água fresca a um dos mais pequeninos destes meus discípulos, por ser meu discípulo, garanto-vos que não ficará sem a sua recompensa.»
Resposta de Jesus aos discípulos de João Baptista
(Lucas 7,18–23)
11 1 Depois de ter dado estas instruções aos seus doze discípulos, Jesus saiu dali para ir ensinar e pregar nas povoações da região.
2 Quando João Baptista, que estava na prisão, ouviu falar das obras de Cristo, enviou-lhe alguns dos seus discípulos com esta pergunta: 3 «És tu aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?» 4 Jesus deu-lhes esta resposta: «Vão contar a João aquilo que vêem e ouvem: 5 os cegos vêem, os coxos andam, os que têm lepra são curados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres é anunciada a boa nova. 6 Feliz aquele que não achar em mim motivo de escândalo.»
Jesus fala de João Baptista
(Lucas 7,24–35)
7 Depois de os discípulos de João se terem ido embora, Jesus começou a falar a respeito dele ao povo: «O que é que foram ver no deserto? Uma cana abanada pelo vento? 8 Que é que lá foram ver? Um homem vestido de roupas finas? Bem sabem que os que se vestem de roupas finas estão nos palácios dos reis. 9 Mas, afinal, que é que lá foram ver? Um profeta? Sim! E também vos digo: ele é mais do que um profeta. 10 Pois é aquele de quem as Escrituras dizem: Enviarei o meu mensageiro à tua frente para te preparar o caminhoa.
11 E fiquem sabendo isto: entre os homens não houve ninguém maior do que João Baptista. No entanto, o mais pequeno no reino dos céus é maior do que ele. 12 Desde o tempo de João Baptista até hoje, o reino dos céus tem sido assaltado com violência e os violentos procuram apoderar-se dele. 13 Com efeito, até ao tempo de João, tudo isso foi anunciado pela Lei de Moisés e pelos profetas. 14 Podem acreditar que é ele o Elias que havia de vir. 15 Quem tem ouvidos, preste atenção!»
16 Jesus disse ainda: «Com quem hei-de comparar as pessoas desta geração? São semelhantes às crianças que estão na rua e dizem umas para as outras:
17 “Tocámos flauta e vocês não dançaram!
Cantámos coisas tristes e não choraram!”
18 Realmente apareceu João, que jejuava e não bebia vinho, e dizem logo que tinha o Demónio com ele. 19 Depois veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem dele: “Olhem para este homem! Come bem, bebe melhor e é amigo de cobradores de impostos e de outra gente pecadora.” Mas a sabedoria de Deus só se mostra pelas obras que produz.»
As cidades rebeldes
(Lucas 10,13–15)
20 Jesus começou então a censurar as cidades em que tinha realizado a maior parte dos seus milagres, porque os seus habitantes não se tinham arrependido. 21 Dizia ele: «Ai de ti, Corazin! Ai de ti, Betsaidab! Se os milagres que em ti se fizeram tivessem sido efectuados nas cidades de Tiro e Sídonc, há muito que os seus habitantes se tinham arrependido, vestindo-se de luto e com cinza na cabeça. 22 Por isso vos digo: no dia do juízo, Tiro e Sídon serão tratadas com menos dureza do que vocês. 23 E tu, Cafarnaum, querias elevar-te até ao céu? Pois serás rebaixada até ao inferno.
E se os milagres que em ti se fizeram tivessem acontecido em Sodoma, essa cidade ainda hoje existiria. 24 Eu porém vos digo que no dia do juízo os habitantes de Sodoma serão tratados com menos dureza do que tu, Cafarnaum.»
Deus revela-se aos humildes
(Lucas 10,21–22)
25 Naquele momento, Jesus exclamou: «Agradeço-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque revelaste aos simples estas coisas que tinhas escondido aos sábios e entendidos. 26 Sim, Pai, agradeço-te, por ter sido essa a tua vontade. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
28 Venham ter comigo todos os que andam cansados e oprimidos e eu vos darei descanso. 29 Aceitem o meu jugo e aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração. Assim o vosso coração encontrará descanso, 30 pois o meu jugo é agradável e os meus fardos são leves.»
Jesus e o sábado
(Marcos 2,23–28; Lucas 6,1–5)
12 1 Por aquela altura, Jesus atravessava umas searas durante o sábado. E como os discípulos sentiam fome, começaram a arrancar espigas para comer. 2 Os fariseus, ao repararem nisso, chamaram a atenção de Jesus: «Olha que os teus discípulos estão a fazer aquilo que a lei não permite fazer ao sábado.» 3 Jesus respondeu-lhes: «Não leram o que David fez quando ele e os seus companheiros estavam com fome? 4 Entrou na casa de Deus com os seus homens e comeram os pães consagrados. E não lhes era permitido fazer aquilo, mas apenas aos sacerdotes. 5 Não leram também na lei que aos sábados, no templo, os sacerdotes quebram a lei do descanso e, no entanto, ficam sem culpa? 6 Pois eu vos digo: o que está aqui é maior do que o templo. 7 Se percebessem o que significa na Escritura: prefiro misericórdia e não sacrifíciosa, não teriam condenado inocentes. 8 Com efeito, o Filho do Homem é senhor do próprio sábado.»
Um homem com a mão paralítica
(Marcos 3,1–6; Lucas 6,6–11)
9 Jesus saiu dali e entrou na sinagoga deles. 10 Estava lá um homem que tinha uma das mãos paralítica. Alguns, querendo arranjar motivo para acusar Jesus, perguntaram-lhe: «Será que a nossa lei permite curar pessoas ao sábado ou não?» 11 Jesus respondeu assim: «Se um de vós tiver uma ovelha e ela cair num poço ao sábado, não vai logo tirá-la de lá? 12 Quanto mais não vale um homem do que uma ovelha? Por isso é permitido fazer bem ao sábado.» 13 Em seguida dirigiu-se ao homem da mão paralítica: «Estende a tua mão.» Ele estendeu-a e ficou restabelecida e sã como a outra. 14 Então os fariseus saíram dali e foram fazer planos para ver como haviam de o matar.
O escolhido de Deus
15 Quando Jesus teve conhecimento disso, afastou-se dali e muita gente o seguiu. Curou todos os enfermos 16 e deu-lhes ordens para que não fizessem propaganda dele. 17 Assim se cumpriu o que foi dito por meio do profeta Isaías:
18 Este é o meu servo, a quem eu escolhi,
o meu predilecto, no qual tenho a maior satisfação.
Porei nele o meu Espírito
e ele anunciará a minha vontade aos povos.
19 Não criará conflitos, nem gritará,
nem fará ouvir a sua voz nas ruas.
20 Não quebrará a cana pisada,
nem apagará o pavio que ainda fumega,
até fazer com que a justiça alcance a vitória.
21 É nele que os povos hão-de pôr a sua esperançab.
Jesus e Satanás
(Marcos 3,20–30; Lucas 11,14–23; 12,10)
22 Trouxeram a Jesus um possesso cego e mudo. Jesus curou-o e o homem ficou a ver e a falar. 23 Toda a gente perguntava muito admirada: «Não será este o Filho de David?» 24 Mas os fariseus, ao ouvirem isto, afirmavam: «É pelo poder de Belzebuc, chefe dos demónios, que este expulsa os demónios.» 25 Jesus percebendo o que estavam a pensar, disse-lhes: «Um reino dividido em grupos que lutem entre si acaba por se arruinar. Do mesmo modo, uma cidade ou uma família dividida não se mantém de pé. 26 Ora se Satanás expulsa Satanás está em luta contra si mesmo. Como poderá então o seu reino manter-se? 27 Se eu expulso os espíritos maus pelo poder de Belzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Por isso são eles que hão-de acusar-vos do vosso erro. 28 Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os espíritos maus, isto quer dizer que o reino de Deus já aqui chegou.
29 Como pode alguém entrar em casa dum homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar? Só assim lhe poderá roubar a casa.
30 Quem não está comigo está contra mim, e quem comigo não junta, espalha. 31 Portanto, digo-vos: qualquer pecado e palavra ofensiva contra Deus poderão ser perdoados aos homens. Mas a palavra ofensiva contra o Espírito Santo não será perdoada. 32 Quem disser alguma coisa contra o Filho do Homem poderá ser perdoado, mas quem disser alguma coisa ofensiva contra o Espírito Santo, não será perdoado, nem neste mundo nem no outro.»
A árvore e os seus frutos
(Lucas 6,43–45)
33 «Se plantarem uma árvore boa, o seu fruto será bom. Se plantarem uma árvore má, o fruto será mau. Pois é pelo fruto que se conhece a árvore. 34 Raça de víboras! Como poderão vocês dizer coisas boas se são maus? Cada qual fala daquilo que tem no coração. 35 O homem bom tira coisas boas do tesouro da sua bondade e o homem mau tira coisas más da sua maldade. 36 Digo-vos que no dia do juízo cada um terá de dar contas a Deus por toda a palavra inútil que tenha dito. 37 É pelas tuas palavras que no dia do juízo Deus te há-de declarar inocente ou culpado.»
Jesus, sinal de Deus
(Marcos 8,11–12; Lucas 11,29–32)
38 Em dado momento, alguns doutores da lei e fariseus fizeram este pedido a Jesus: «Mestre, queríamos ver-te fazer um sinal milagroso.» 39 Jesus respondeu-lhes: «Esta geração má e infiel procura um sinal milagroso de Deus! Pois bem, não lhe será dado outro sinal senão o do profeta Jonas. 40 Assim como Jonas esteve três dias e três noites dentro do grande peixe, assim o Filho do Homem há-de estar três dias e três noites dentro da terra. 41 No dia do juízo, os habitantes de Nínived hão-de levantar-se contra esta geração para a condenar. É que eles, quando ouviram a pregação de Jonas, arrependeram-se. Ora o que está aqui é maior do que Jonas! 42 Também a rainha do Sul se há-de levantar, no dia do juízo, contra a gente deste tempo para a condenar, porque ela veio lá do fim do mundo para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora o que está aqui é maior do que Salomão!»
Regresso do espírito mau
(Lucas 11,24–26)
43 «Quando um espírito mau sai duma pessoa anda por lugares secos à procura de repouso, mas não o encontra. 44 Então diz: “Volto para a minha casa, donde saí.” Ao chegar lá, encontra a casa vaga, limpa e bem arranjada. 45 Então vai buscar outros sete espíritos piores do que ele e vão todos para lá viver. Deste modo, a situação daquela pessoa torna-se pior do que era antes. É precisamente assim que vai acontecer a esta geração má.»
A família de Jesus
(Marcos 3,31–35; Lucas 8,19–21)
46 Enquanto Jesus estava ainda a falar à multidão, chegaram sua mãe e seus irmãos. Ficaram do lado de fora e procuravam maneira de lhe falar. 47 Então alguém veio dizer: «Olha que a tua mãe e os teus irmãos estão ali fora e querem falar contigoe.» 48 Jesus disse à pessoa que lhe foi dar o recado: «Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?» 49 Depois apontou para os discípulos: «Aqui está a minha mãe e os meus irmãos! 50 Aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»
A parábola do semeador
(Marcos 4,1–9; Lucas 8,4–8)
13 1 Naquele mesmo dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira do lago. 2 A gente que se juntou à volta era tanta que ele subiu para um barco. Sentou-se e toda a multidão se mantinha na praia. 3 E ensinava muitas coisas por meio de parábolas como esta:
«Andava uma vez um homem a semear. 4 Ao lançar a semente, parte dela caiu à beira do caminho e os pássaros vieram e comeram-na. 5 Outra caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. Rompeu depressa porque o terreno era pouco fundo. 6 Mas quando veio o sol queimou as plantas, porque não tinham raízes. 7 Outra parte da semente caiu entre espinhos, que cresceram e abafaram as plantas. 8 Outra parte, porém, caiu em boa terra e deu fruto à razão de cem, de sessenta e de trinta grãos por semente.» 9 Jesus acrescentou: «Quem tem ouvidos, preste atenção!»
Razão das parábolas
(Marcos 4,10–12; Lucas 8,9–10)
10 Então os discípulos foram perguntar a Jesus: «Por que é que lhes falas por meio de parábolas?» 11 Ele respondeu: «Deus concedeu-vos o privilégio de conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não. 12 Àquele que já tem alguma coisa, Deus lhe dará mais até que lhe sobre. Mas àquele que não tem nada, até o pouco que tem lhe será tirado. 13 É por isso que a eles eu falo por meio de parábolas, porque olham mas não vêem, ouvem mas não entendem nem percebem. 14 Deste modo se cumpre neles aquela profecia de Isaías que diz:
Ouçam e tornem a ouvir
que nada conseguirão perceber,
olhem e tornem a olhar
que nada hão-de ver.
15 É que o entendimento desta gente está fechado.
Têm os ouvidos duros e os olhos tapados.
Doutro modo, talvez tivessem olhos para ver
e ouvidos para ouvir.
Talvez o seu entendimento se abrisse
e voltassem para mim
e eu os curariaa.
16 Felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem. 17 Posso garantir-vos que muitos profetas e justos desejaram ver o que vocês vêem e não viram, e ouvir o que vocês ouvem e não ouviram.»
Jesus explica a parábola do semeador
(Marcos 4,13–20; Lucas 8,11–15)
18 «Ouçam agora o que significa a parábola do semeador: 19 Todos aqueles que ouvem a palavra do reino e não entendem são como a semente que caiu à beira do caminho. Vem o Diabo e tira-lhes o que foi semeado no coração. 20 A semente que caiu no terreno pedregoso representa os que ouvem a boa nova e a recebem com alegria. 21 Mas dura pouco porque não têm raízes. Quando vêm os sofrimentos e as perseguições por causa da boa nova, não aguentam. 22 A semente que caiu entre os espinhos representa aqueles que ouvem a boa nova, mas as preocupações desta vida e a ilusão das riquezas sufocam-na logo e o fruto não aparece. 23 Mas a semente que caiu em boa terra representa os que recebem a boa nova e a compreendem. Esses dão realmente fruto, uns à razão de cem, outros de sessenta e outros de trinta por cada grão.»
A parábola do trigo e do joio
24 Jesus apresentou-lhes outra parábola: «O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Mas enquanto toda a gente dormia, veio o inimigo desse homem, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. 26 Quando as plantas cresceram e se começaram a formar as espigas, apareceu também o joio. 27 Então os trabalhadores desse homem foram ter com ele e perguntaram-lhe: “Senhor, não foi boa semente que semeaste no teu campo? Como é que apareceu este joio?” 28 “Foi um inimigo que fez isso”, respondeu ele. Os trabalhadores tornaram a perguntar-lhe: “Queres que vamos lá arrancar o joio?” 29 Mas ele replicou: “Não, porque ao arrancarem o joio são capazes de arrancar também o trigo. 30 Deixem-nos crescer os dois até ao tempo da ceifa. Nessa altura direi aos ceifeiros: Apanhem primeiro o joio e atem-no em feixes para ser queimado no fogo, mas recolham o trigo para o meu celeiro.”»
A parábola do grão de mostarda
(Marcos 4,30–32; Lucas 13,18–19)
31 Apresentou-lhes ainda outra parábola: «O reino dos céus é como um grão de mostarda que alguém semeou no seu campo. 32 Esta é a mais pequena das sementes. Mas quando a planta cresce é a maior de todas. Chega mesmo a ser uma árvore e até os pássaros vão fazer ninho nos seus ramos.»
A parábola do fermento
(Lucas 13,20–21)
33 Jesus expôs-lhes ainda outra parábola: «O reino dos céus é como o fermento que uma mulher misturou em três medidas de farinha e assim fez levedar toda a massa.»
Razão do ensino por parábolas
(Marcos 4,33–34)
34 Jesus serviu-se de parábolas para dizer todas estas coisas à multidão. E só lhes falava por meio de parábolas. 35 Assim se cumpria o que tinha dito o profeta:
Hei-de falar por meio de parábolas,
direi coisas que estavam escondidas
desde o princípio do mundob.
Jesus explica a parábola do trigo e do joio
36 Então Jesus deixou a multidão e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se dele e pediram: «Explica-nos o que significa a parábola do joio no campo.» 37 Jesus esclareceu-os assim: «Aquele que semeou a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são as pessoas que pertencem ao reino de Deus. O joio são os filhos do Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o Diabo. A ceifa é o fim deste mundo e os ceifeiros são os anjos. 40 Ora assim como o joio se junta e se queima no fogo, assim vai ser no fim do mundo: 41 o Filho do Homem mandará os seus anjos e eles retirarão do seu reino todos os que levam os outros a pecar e todos os que praticam o mal, 42 para os lançarem na fornalha. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então os justos de Deus brilharão como o Sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos preste atenção!»
A parábola do tesouro escondido e a pérola preciosa
44 E continuou: «O reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Quando alguém o encontra volta a escondê-lo. E, cheio de alegria, vai vender tudo quanto tem e compra o campo.
45 O reino dos céus pode também comparar-se a um comerciante que anda à procura de pérolas de boa qualidade. 46 Quando encontra uma pérola de muito valor vai vender tudo o que tem e compra-a.»
Rede lançada ao mar
47 «O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que se lança ao mar e apanha toda a espécie de peixes. 48 Quando já está cheia, os pescadores puxam-na para a praia e sentam-se a escolher o peixe: o que é bom deitam-no em cestos, e atiram fora o que não presta. 49 Assim vai acontecer no fim deste mundo: os anjos sairão para separar as pessoas más das boas, 50 lançando as más na fornalha. Ali haverá choro e ranger de dentes.»
Coisas novas e velhas
51 Jesus perguntou então aos discípulos: «Compreenderam todas estas coisas?» Eles responderam: «Compreendemos, sim.» 52 Então Jesus continuou: «Portanto, todo o doutor da lei que aceita a doutrina do reino dos céus é semelhante ao chefe de família que sabe tirar dos tesouros que tem coisas novas e velhas.»
Jesus é mal recebido em Nazaré
(Marcos 6,1–6; Lucas 4,16–30)
53 Quando Jesus acabou de lhes apresentar estas parábolas retirou-se dali. 54 Foi para a sua terra e começou a ensinar o povo na sinagoga deles. Os que o ouviam diziam admirados: «Donde lhe vem a sabedoria e o poder de fazer milagres? 55 Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria a sua mãe? E não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? 56 Não vivem cá também todas as suas irmãs? Donde lhe vem então tudo isto?» 57 Por essa razão não queriam nada com ele. Mas Jesus lembrou-lhes: «Nenhum profeta é desprezado a não ser na sua terra e no meio da sua família.» 58 E por causa da falta de fé deles, Jesus não fez ali muitos milagres.
Morte de João Baptista
(Marcos 6,14–29; Lucas 9,7–9)
14 1 Naquele tempo, Herodes, o governador da Galileia, ouviu falar de Jesus 2 e disse aos subordinados que estavam com ele: «Este homem é João Baptista; ele ressuscitou dos mortos e por isso é que tem poder para fazer os milagres que faz.»
3 De facto, Herodes tinha mandado prender João e tinha-o metido na cadeia. Fez isso por causa de Herodias, esposa de seu irmão Filipe. 4 É que João avisava constantemente Herodes: «Não tens o direito de viver com ela.» 5 Herodes queria matá-lo, mas tinha medo do povo porque todos consideravam João como um profeta. 6 Ora no dia dos anos de Herodes, a filha de Herodias dançou diante de todos e agradou muito a Herodes. 7 Este jurou dar-lhe tudo o que ela pedisse. 8 Então ela, pressionada pela mãe, fez este pedido: «Dá-me agora mesmo, numa bandeja, a cabeça de João Baptista.» 9 O rei ficou triste, mas por causa do juramento e dos convidados ordenou que lhe fosse dada 10 e mandou alguém à cadeia cortar a cabeça de João. 11 Trouxeram-na numa bandeja e deram-na à rapariga, que a foi levar à mãe. 12 Os discípulos de João foram buscar o corpo e sepultaram-no. Depois levaram a notícia a Jesus.
Jesus dá de comer a uma multidão
(Marcos 6,30–44; Lucas 9,10–17; João 6,1–14)
13 Quando Jesus recebeu aquela notícia, retirou-se de barco e foi sozinho para um lugar isolado. Mas a multidão, ao saber disso, deixava as suas povoações e seguia-o por terra. 14 Assim, quando Jesus desembarcou viu uma multidão enorme. Sentiu-se comovido com aquela gente e curou todos os doentes que havia entre eles.
15 Ao entardecer, os discípulos foram ter com ele e disseram-lhe: «Já é muito tarde e este sítio aqui é isolado. Manda esta multidão embora para que vão às aldeias comprar alguma coisa para comer.» 16 Porém, Jesus observou: «Não há necessidade de eles se irem embora. Dêem-lhes vocês de comer!» 17 Os discípulos responderam: «Mas olha que só temos aqui cinco pães e dois peixes!» 18 «Tragam-mos cá», disse Jesus. 19 E deu ordens para que a multidão se sentasse na relva. Depois pegou nos cinco pães e nos dois peixes, levantou os olhos para o céu e deu graças a Deus. Partiu os pães, deu-os aos discípulos e os discípulos distribuíram-nos pela multidão. 20 Todos comeram até ficarem satisfeitos. E, com os bocados que sobejaram, encheram-se doze cestos. 21 O número dos homens que comeram andava por volta de cinco mil, não contando as mulheres e as crianças.
Jesus caminha por cima da água
(Marcos 6,45–52; João 6,16–21)
22 Logo a seguir, Jesus mandou os discípulos entrar no barco e disse-lhes para irem à frente, para a outra banda do lago, enquanto se despedia da multidão. 23 Depois subiu sozinho ao monte para orar. Quando anoiteceu, ainda lá estava sozinho. 24 Entretanto, a embarcação estava já bastante longe da terra e ia sendo batida pelas ondas, porque o vento era contrário. 25 De madrugada, Jesus foi então ter com os discípulos caminhando por cima da água. 26 Quando eles o viram a caminhar p

Rita 16/11/2014 13:28 0 0

EVANGELHO SEGUNDO
MATEUS
Introdução — Desde os tempos mais antigos, a tradição vai no sentido de considerar que o autor deste Evangelho foi um dos primeiros discípulos de Jesus; seria aquele cobrador de impostos, tornado discípulo, que é chamado Mateus em Mateus 9,9 e Levi em Marcos 2,14. Pensa-se que o discípulo Mateus poderia ter recolhido em aramaico alguns ditos e feitos de Jesus, tendo mais tarde escrito o texto actual deste Evangelho, numa altura em que já dispunha de outros Evangelhos, nomeadamente o de Marcos, escrito em grego, que o podem ter ajudado na nova escrita. Este livro terá sido escrito depois do ano 70.
É provável que tenha tido como principais destinatários igrejas de origem judaica com uma forte ligação ao seu património religioso tradicional, mas que já não parecem identificar-se com o judaísmo, uma vez que este se recusou a acolher Jesus com as características de Messias que este Evangelho sublinha.
O Evangelho segundo Mateus caracteriza-se por uma particular sensibilidade a questões que têm a ver com o judaísmo. Os temas tradicionais da religião hebraica bíblica, as suas personagens antigas mais marcantes e os confrontos com vários grupos que representam o judaísmo contemporâneo de Jesus aparecem neste Evangelho com algum destaque. A longa genealogia de antepassados sublinha as raízes de Jesus no interior do povo hebraico, indo até Abraão e sublinhando a maneira como Jesus articula toda a história do povo de Deus, uma vez que quatro ciclos de catorze gerações conduzem directamente de Abraão, por David e pelo exílio da Babilónia até Jesus. Tal como acontece na genealogia, também no resto deste Evangelho são constantes as referências aos temas do Antigo Testamento. A infância de Jesus e outras referências da sua vida pública, nomeadamente o modo como ensina e a autoridade que revela, fazem dele um novo Moisés; a nova Torá é o seu ensino que inaugura o Reino de Deus. Valoriza e interpreta os textos proféticos para demonstrar que Jesus é o Messias esperado pelo povo, aquele que iria realizar as promessas feitas através dos séculos de história hebraica. A autoridade de Jesus tanto assenta na capacidade de declarar verdades novas como na reinterpretação de verdades que vinham da Escritura. Por isso é tão frequente encontrar citações do Antigo Testamento ao longo deste Evangelho.
Os ensinamentos de Jesus são apresentados ao longo da sua vida pública, em cinco secções, sendo cada uma delas dominada por um grande discurso:
— O sermão da montanha: 5—7.
— Instruções aos doze discípulos sobre a sua missão: 10.
— As parábolas do reino: 13.
— Ensinamentos sobre a vida dos cristãos neste mundo: 18.
— O fim da vida presente e a vinda do reino de Deus: 24—25.
Este evangelho pode sintetizar-se no seguinte plano:
— Antepassados e nascimento de Jesus: 1—2.
— Mensagem de João Baptista: 3,1—12.
— Baptismo e tentação de Jesus: 3,13—4,11.
— Actividade de Jesus na Galileia: 4,12—18
— A caminho de Jerusalém: 19—20.
— Actividade de Jesus em Jerusalém: 21—25.
— Paixão, morte e ressurreição: 26—28.

Antepassados de Jesus Cristo
(Lucas 3,23–38)
1 1 Esta é a lista dos antepassados de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão.
2 Abraão foi pai de Isaac, Isaac foi pai de Jacob e Jacob foi pai de Judá e dos seus irmãos. 3 Judá foi pai de Peres e de Zera, sendo a mãe Tamar. Peres foi pai de Hesron e Hesron foi pai de Rame. 4 Rame foi pai de Aminadab, Aminadab foi pai de Nachon e Nachon foi pai de Salmon. 5 Salmon foi pai de Booz, sendo a mãe Raab. Booz foi pai de Obed, sendo a mãe Rute. Obed foi pai de Jessé 6 e Jessé foi pai do rei David.
David foi pai de Salomão, sendo a mãe a que foi mulher de Urias. 7 Salomão foi pai de Roboão, Roboão foi pai de Abias e Abias foi pai de Asa. 8 Asa foi pai de Josafat, Josafat foi pai de Jorão e Jorão foi pai de Uzias. 9 Uzias foi pai de Jotam, Jotam foi pai de Acaz e Acaz foi pai de Ezequias. 10 Ezequias foi pai de Manassés, Manassés foi pai de Amon e Amon foi pai de Josias. 11 Josias foi pai de Jeconias e dos seus irmãos, no tempo do exílio para a Babilónia.
12 Depois do exílio na Babilónia, Jeconias foi pai de Salatiel e Salatiel foi pai de Zorobabel. 13 Zorobabel foi pai de Abiud, Abiud foi pai de Eliaquim e Eliaquim foi pai de Azur. 14 Azur foi pai de Sadoc, Sadoc foi pai de Jaquin e Jaquin foi pai de Eliud. 15 Eliud foi pai de Eleazar, Eleazar foi pai de Matan e Matan foi pai de Jacob.
16 Jacob foi pai de José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Messias.
17 No conjunto são catorze gerações de Abraão até David, outras catorze de David até ao exílio para a Babilónia e mais catorze do exílio até ao Messiasa.
José dá o nome a Jesus
(Lucas 2,1–7)
18 O nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, tinha o casamento tratado com José; mas, antes de casarem, achou-se grávida pelo poder do Espírito Santo. 19 José, o seu noivo, que era justo, não a queria acusar publicamente. Por isso pensou deixá-la sem dizer nada. 20 Andava ele a pensar nisto, quando lhe apareceu num sonho um anjo do Senhor que lhe disse: «José, descendente de David, não tenhas medo de casar com Maria, tua noiva, pois o que nela se gerou foi pelo poder do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho e tu vais pôr-lhe o nome de Jesusb, pois ele salvará o seu povo dos pecados.»
22 Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: 23 A virgem ficará grávida e dará à luz um filho que se há-de chamar Emanuelc.
Emanuel quer dizer: Deus está connosco. 24 Quando José acordou, fez como o anjo do Senhor lhe tinha mandado: recebeu Maria por esposa; 25 sem terem tido antes relações conjugais, Maria deu à luz o menino, a quem José pôs o nome de Jesus.
Sábios do Oriente adoram o Messias
2 1 Jesus nasceu em Belém, na região da Judeia, no tempo do rei Herodes. Depois do seu nascimento, chegaram uns sábios do Oriente a Jerusalém 2 e perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? É que nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.»
3 Quando ouviu isto, o rei Herodes ficou muito perturbado e com ele a população de Jerusalém. 4 Mandou reunir todos os chefes dos sacerdotes mais os doutores da lei e perguntou-lhes onde haveria de nascer o Messias. 5 Responderam: «Em Belém da Judeia, conforme o que o profeta escreveu: 6 Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as terras principais da Judeia, porque de ti é que há-de vir um chefe que será o pastor do meu povo de Israela.»
7 Então Herodes chamou à parte os sábios e perguntou-lhes quando é que exactamente a estrela lhes tinha aparecido. 8 Depois mandou-os a Belém com esta recomendação: «Vão, informem-se cuidadosamente acerca do menino e, quando o encontrarem, venham-me dizer para eu ir também adorá-lo.»
9 Depois de ouvirem o rei, os sábios partiram. Nisto, repararam que a estrela que tinham observado a Oriente ia adiante deles, até que parou por cima do lugar onde se encontrava o menino. 10 Ao verem a estrela, sentiram uma alegria enorme. 11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e inclinaram-se para o adorar. Depois abriram os cofres e fizeram-lhe as suas ofertas de ouro, incenso e mirra. 12 Então Deus avisou-os por meio dum sonho, para não voltarem a encontrar-se com Herodes. E eles partiram para a sua terra por outro caminho.
Fuga para o Egipto
13 Depois de se terem ido embora, um anjo do Senhor apareceu a José, num sonho, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino mais a sua mãe e foge com eles para o Egipto. Deixa-te lá estar até que eu te diga, porque Herodes vai procurar a criança para a matar.» 14 José levantou-se, tomou o menino com a sua mãe e pôs-se a caminho, de noite, para o Egipto. 15 Ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Chamei do Egipto o meu filhob.
Massacre das criancinhas
16 Quando Herodes percebeu que os sábios o tinham enganado, ficou furioso e mandou matar, em Belém e nos arredores, todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo que ele tinha apurado pelas palavras dos sábios. 17 Foi assim que se cumpriu o que o profeta Jeremias tinha dito:
18 Em Ramá se ouviu um grito,
choro amargo, imensa dor.
É Raquel a chorar os filhos;
e não quer ser consolada,
porque eles já não existemc.
Regresso do Egipto
19 Depois da morte de Herodes, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egipto, 20 e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe e volta para a terra de Israel, porque já morreram aqueles que procuravam tirar a vida ao menino.» 21 José levantou-se, tomou o menino com a sua mãe e voltou para a terra de Israel. 22 Mas, quando soube que Arquelaud reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Tendo recebido novas instruções de Deus por meio dum sonho partiu para a região da Galileia. 23 Ali fixou residência numa terra chamada Nazaré. Foi assim que se cumpriu aquilo que foi dito pelos profetas: Ele há-de chamar-se Nazarenoe.
Pregação de João Baptista
(Marcos 1,1–8; Lucas 3,1–18; João 1,19–28)
3 1 Naquele tempo apareceu João Baptista no deserto da Judeia a pregar assim: 2 «Arrependam-se, porque o reino dos céus está próximo.» 3 Foi a respeito dele que o profeta Isaías falou, quando disse: Alguém grita no deserto: preparem o caminho do Senhor e tornem direitas as suas estradasa.
4 João usava uma vestimenta de pêlo de camelo, apertada com uma cintura de couro, e alimentava-se de gafanhotos e de mel apanhado no campo. 5 Os habitantes de Jerusalém e de toda a região da Judeia, assim como do vale do Jordão, iam ter com ele. 6 Confessavam os seus pecados e ele baptizava-os no rio Jordão.
7 Quando João viu que muitos fariseus e saduceus iam ter com ele para serem baptizados, disse-lhes: «Raça de víboras! Quem vos disse que podiam escapar do castigo que se aproxima? 8 Mostrem pelo fruto das vossas acções que estão verdadeiramente arrependidos. 9 E não andem por aí a dizer: “Abraão é nosso pai!” Pois eu garanto-vos que Deus até destas pedras pode suscitar filhos de Abraão. 10 O machado já está prestes a cortar as árvores pela raiz. Toda a árvore que não der bons frutos será abatida e lançada no fogo. 11 Eu baptizo-vos em água como sinal de arrependimento. Mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu; não mereço sequer a honra de lhe levar as sandálias! Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo. 12 Tem nas mãos a pá e vai separar, na sua eira, o trigo da palha. Guardará o trigo no celeiro e queimará a palha numa fogueira que não se apaga.»
Baptismo de Jesus
(Marcos 1,9–11; Lucas 3,21–22)
13 Nessa altura Jesus deslocou-se da Galileia ao rio Jordão para ser baptizado por João Baptista. 14 Este, porém, negava-se a isso exclamando: «Sou eu quem tem necessidade de ser baptizado por ti e tu é que vens ter comigo?» 15 Mas Jesus respondeu: «Deixa lá. É bom cumprirmos deste modo toda a vontade de Deus.» E João concordou em baptizá-lo.
16 Assim que foi baptizado, Jesus saiu da água. Nesse momento, abriram-se os céus e viu o Espírito de Deus a descer do céu por cima de si, como uma pomba. 17 E uma voz do céu dizia: «Este é o meu Filho querido. Tenho nele a maior satisfaçãob!»
Jesus é tentado
(Marcos 1,12–13; Lucas 4,1–13)
4 1 Em seguida, Jesus, conduzido pelo Espírito Santo, retirou-se para o deserto a fim de ser ali tentado pelo Diabo. 2 Depois de passar quarenta dias e quarenta noites sem comer, Jesus teve fome. 3 O tentador aproximou-se dele e disse: «Se és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.» 4 Jesus respondeu: «A Sagrada Escritura diz: Não se vive só de pão, mas também de toda a palavra que vem de Deusa.»
5 Então o Diabo levou-o à cidade santa, colocou-o no ponto mais alto do templo, 6 e disse-lhe: «Se és o filho de Deus, atira-te daqui abaixo, porque diz a Escritura: Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito: eles hão-de segurar-te nas mãos para evitar que magoes os pés contra as pedrasb.»
7 «Mas a Escritura diz também: Não tentarás o Senhor teu Deusc», respondeu Jesus.
8 O Diabo levou-o ainda a um monte muito alto, mostrou-lhe dali todos os países do mundo com as suas grandezas 9 e disse: «Tudo isto te darei se de joelhos me adorares.» 10 Jesus respondeu: «Vai-te, Satanás! A Escritura diz: Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás cultod.»
11 O Diabo então deixou-o e aproximaram-se alguns anjos que começaram a servi-lo.
Jesus inicia a sua actividade na Galileia
(Marcos 1,14–15; Lucas 4,14–15)
12 Quando Jesus soube que João Baptista tinha sido preso, retirou-se para a Galileia. 13 Deixou Nazaré para ir viver em Cafarnaum, uma cidade à beira do lago nos limites de Zabulão e Neftalie. 14 Aconteceu assim para que se cumprissem estas palavras de Isaías:
15 Terras de Zabulão e de Neftali,
da beira-mar e de além do Jordão,
Galileia dos pagãos!
16 O povo mergulhado na escuridão
viu uma grande luz!
Luz que brilhou
para os que estavam na região escura da mortef.
17 Daí em diante Jesus começou a pregar: «Arrependam-se, porque o reino dos céus está a chegar.»
Primeiros companheiros de Jesus
(Marcos 1,16–20; Lucas 5,1–11)
18 Caminhava Jesus junto ao lago da Galileia quando viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e André, que andavam a lançar as redes no lago pois eram pescadores. 19 Jesus disse-lhes: «Venham comigo e eu vos farei pescadores de homens.» 20 Ambos largaram imediatamente as redes e foram com ele. 21 Um pouco mais adiante, Jesus viu outros dois irmãos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, que estavam no barco com o pai, a consertar as redes, e chamou-os. 22 Eles deixando logo o barco e o pai seguiram Jesus.
Jesus percorre a Galileia
(Lucas 6,17–19)
23 Jesus andava por toda a Galileia, ensinava nas sinagogas, pregava a boa nova do reino e curava o povo de todas as doenças e sofrimentos. 24 Ouvia-se falar dele por toda a Síria. Traziam-lhe os que sofriam de várias doenças e males, os que tinham espíritos maus, os epilépticos e os paralíticos. E Jesus curava-os a todos. 25 Acompanhava-o uma enorme multidão que vinha da Galileia, das Dez Cidades, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão.
A verdadeira felicidade
(Lucas 6,20–23)
5 1 Ao ver a multidão, Jesus subiu ao monte. Sentou-se e os seus discípulos foram para junto dele. 2 Jesus começou então a ensiná-los desta maneira:
3 «Felizes os que têm espírito de pobres,
porque é deles o reino dos céus!
4 Felizes os que choram,
porque Deus os consolará!
5 Felizes os humildes,
porque terão como herança a Terra!
6 Felizes os que têm fome e sede de ver cumprida a vontade de Deus,
porque Deus os satisfará!
7 Felizes os que usam de misericórdia para com os outros,
porque Deus os tratará com misericórdia!
8 Felizes os íntegros de coração,
porque hão-de ver Deus!
9 Felizes os que promovem a paz,
porque Deus lhes chamará seus filhos!
10 Felizes os que são perseguidos por procurarem que se cumpra a vontade de Deus,
porque é deles o reino dos céus!
11 Felizes serão quando vos insultarem, perseguirem e caluniarem,
por serem meus discípulos!
12 Alegrem-se e encham-se de satisfação porque é grande a recompensa que vos espera no céu. Pois assim também foram tratados os profetas que vos precederama.»
O sal e a luz
(Marcos 9,50; Lucas 14,34–35)
13 «Vocês são o sal do mundo. Mas se o sal perder as suas qualidades, poderá novamente salgar? Já não presta para nada, senão para se deitar fora e ser pisado por quem passa.
14 Vocês são a luz do mundo. Uma cidade situada no alto de um monte não se pode esconder. 15 Também não se acende um candeeiro para o pôr debaixo duma caixa. Pelo contrário, põe-se mas é num lugar em que alumie bem a todos os que estiverem em casab. 16 Do mesmo modo, façam brilhar a vossa luz diante de toda a gente, para que vejam as vossas boas acções e dêem louvores ao vosso Pai que está nos céus.»
A lei e o reino dos céus
17 «Não pensem que vim anular a Lei de Moisés ou o ensino dos profetas. Não vim para anular mas para dar cumprimento. 18 Saibam que enquanto o Céu e a Terra existirem, nem uma letra, nem sequer um acento se hão-de tirar da lei, sem que tudo se cumpra. 19 Por isso quem desobedecer ainda que seja a um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no reino dos céus. Mas aquele que obedecer à lei e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será tido por grande no reino dos céus. 20 Digo-vos mais: vocês não entrarão de maneira nenhuma no reino dos céus, se não cumprirem a vontade de Deus com mais fidelidade do que os doutores da lei e os fariseus.»
Reconciliação com o semelhante
(Lucas 12,57–59)
21 «Ouviram o que foi dito aos antigos: Não matarásc. E ainda: Aquele que matar alguém terá de responder em julgamento. 22 Mas eu digo-vos: Todo aquele que se irritar contra o seu semelhante terá de responder em julgamento; aquele que insultar o seu semelhante, chamando-lhe “imbecil”, será julgado pelo tribunal; e aquele que lhe chamar “estúpido” merece ir para o fogo do inferno. 23 Por isso, quando fores ao templo levar a tua oferta a Deus, e ali te lembrares que o teu semelhante tem alguma razão de queixa contra ti, 24 deixa a oferta diante do altar e vai primeiro fazer as pazes com o teu semelhante. Depois volta e apresenta a tua oferta.
25 Faz as pazes com o teu adversário enquanto vão os dois a caminho do tribunal. Senão o adversário entrega-te ao juiz, este entrega-te ao oficial de justiça e metem-te na cadeia. 26 Garanto-te que não sais de lá enquanto não pagares o último cêntimo.»
Perigo das más intenções
27 «Ouviram o que foi dito: Não cometerás adultériod. 28 Mas eu digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com más intenções já cometeu adultério no seu coração. 29 Portanto, se o teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e atira-o para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ser todo inteiro lançado no inferno. 30 De igual modo, se a tua mão direita te leva a pecar, corta-a e atira-a para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ir todo inteiro para o inferno.»
Sobre o divórcio
(Mateus 19,9; Marcos 10,11–12; Lucas 16,18)
31 «Também foi dito: Todo o homem que se divorciar da sua mulher deve passar-lhe uma declaraçãoe. 32 Mas eu digo-vos: Todo o homem que se divorciar da sua mulher, excepto no caso de adultériof, é culpado de a expor ao adultério. E o homem que casar com ela também comete adultério.»
Evitar juramentos
33 «Também ouviram o que foi dito aos antigos: Não farás juramentos falsos, mas cumprirás diante do Senhor o que jurasteg. 34 Mas eu digo-vos que não devem jurar de modo nenhum. Não jurem pelo Céu, porque é o trono de Deus; 35 nem pela Terra, porque é o estrado para os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. 36 Nem mesmo pela tua cabeça deves jurar, porque não és capaz de tornar um só dos teus cabelos branco ou preto. 37 Basta que digas sim, quando for sim, e não, quando for não. Tudo o que vai além disso é obra do Malignoh.»
Paciência e generosidade
(Lucas 6,29–30)
38 «Ouviram o que foi dito: Olho por olho e dente por dentei. 39 Mas eu digo-vos: Não resistam a quem vos fizer mal. Se alguém te bater na face direita, apresenta-lhe também a outra. 40 Se alguém te quiser levar a tribunal para te tirar a camisa, dá-lhe também o casaco. 41 Se alguém te obrigar a levar alguma coisa até a um quilómetro de distância, acompanha-o dois quilómetrosj. 42 Se alguém te pedir qualquer coisa, dá-lha; e a quem te pedir emprestado não lhe voltes as costas.»
Amor aos inimigos
(Lucas 6,27–28.32–36)
43 «Ouviram o que foi dito: Amarás o teu próximok e desprezarás o teu inimigo. 44 Mas eu digo-vos: Tenham amor aos vossos inimigos e peçam a Deus por aqueles que vos perseguem. 45 É deste modo que se tornarão filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz brilhar o Sol tanto sobre os bons como sobre os maus, e faz cair a chuva tanto para os justos como para os injustos.
46 Se amarem apenas aqueles que vos amam que recompensa poderão esperar? Não fazem também isso os cobradores de impostos? 47 E se saudarem apenas os vossos amigos, que há nisso de extraordinário? Qualquer pagão faz o mesmo! 48 Portanto, sejam perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito.»
Como dar esmola
6 1 «Quando praticarem o bem, procurem não o fazer diante dos outros para dar nas vistas. Se assim fizerem, já não terão nenhuma recompensa a receber do vosso Pai que está nos céus.
2 Portanto, quando deres esmola, não faças alarde à tua volta, como é costume das pessoas fingidas, nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiadas. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 3 Mas tu, quando deres esmola, procura que a tua mão esquerda nem saiba o que faz a direita. 4 Deste modo, a tua esmola ficará em segredo; e o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há-de recompensar-te.»
Jesus ensina a orar
(Lucas 11,2–4)
5 «Quando orarem, não façam como as pessoas fingidas que gostam de orar de pé, nas sinagogas e às esquinas das ruas, para toda a gente as vera. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 6 Tu, porém, quando quiseres fazer oração, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai que está presente sem ser visto. E o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há-de recompensar-te.
7 Quando orarem, não usem muitas palavras, como fazem os pagãos, que pensam que é por muito falarem que serão mais facilmente ouvidos. 8 Não sejam como eles pois o vosso Pai sabe muito bem do que vocês precisam, antes de lho pedirem. 9 Portanto, devem orar assim:
“Pai nosso que estás nos Céus,
Santificado seja o teu nomeb;
10 venha o teu reino;
seja feita a tua vontade,
assim na Terra como no Céu.
11 Dá-nos hoje o pão de que precisamos.
12 Perdoa-nos as nossas ofensas,
como nós perdoámos aos que nos ofenderam.
13 E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do Maligno.”
14 De facto, se perdoarem aos outros as suas ofensas, o vosso Pai celestial também vos perdoará. 15 Mas se não perdoarem aos outros, o vosso Pai também vos não perdoará.»
Acerca do jejum
16 «Quando jejuarem não andem de cara triste, como as pessoas fingidas, que até desfiguram a cara para toda a gente ver que andam a jejuar. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 17 Mas tu, quando jejuares, lava a cara e penteia-te bem. 18 Deste modo, ninguém saberá que andas a jejuar, a não ser o teu Pai que está presente sem ser visto. Ele, que vê tudo o que se passa em segredo, te dará a recompensa.»
A verdadeira riqueza
(Lucas 12,33–34)
19 «Não se preocupem em juntar riquezas neste mundo, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões assaltam e roubam. 20 Preocupem-se antes em juntar riquezas no céu, onde não há traça nem ferrugem para as destruir, nem ladrões para assaltar e roubar. 21 Onde estiver a vossa riqueza, aí estará o vosso coração.»
Luz e escuridão
(Lucas 11,34–36)
22 «A luz do corpo são os olhos. Por isso, se o teu olhar for bom, todo o teu corpo tem luz. 23 Mas se o teu olhar for mau, todo o teu corpo fica às escuras. Ora se a luz que há em ti não passa de escuridão, que grande será essa escuridão!»
Deus e as riquezas
(Lucas 16,13)
24 «Ninguém pode servir a dois patrões: ou não gosta de um deles e estima o outro, ou há-de ser leal para um e desprezar o outro. Não podem servir a Deus e ao dinheiro.»
Deus cuida dos seus filhos
(Lucas 12,22–31)
25 «É por isso que eu vos digo: Não andem preocupados com o que hão-de comer ou beber, nem com a roupa de que precisam para vestir. Não será que a vida vale mais do que a comida e o corpo mais do que a roupa? 26 Olhem para as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem amontoam grão nos celeiros. E no entanto, o vosso Pai dá-lhes de comer. Não valem vocês muito mais do que as aves? 27 Qual de vós, por mais que se preocupe, poderá prolongar um pouco o tempo da sua vidac?
28 E por que hão-de andar preocupados por causa da roupa? Reparem como crescem os lírios do campo! E eles não trabalham nem fiam. 29 Contudo digo-vos que nem o rei Salomão, com toda a sua riqueza, se vestiu como qualquer deles. 30 Ora se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada, quanto mais vos há-de vestir a vocês, ó gente sem fé?
31 Não andem preocupados a dizer: “Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?” 32 Os pagãos, esses é que se preocupam com todas essas coisas. O vosso Pai celestial sabe muito bem que vocês precisam de tudo isso. 33 Procurem primeiro o reino de Deus e a sua vontade e tudo isso vos será dado. 34 Portanto, não devem andar preocupados com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia a sua dificuldade.»
Não julgar os outros
(Lucas 6,37–38.41–42)
7 1 «Não julguem ninguém e assim Deus não vos julgará!
2 É que Deus há-de julgar-vos do mesmo modo que julgarem os outros, usando a mesma medida que usarem para os outros. 3 Por que reparas tu no cisco que está na vista do teu semelhante, e não vês a trave que está nos teus próprios olhos? 4 Como te atreves a dizer-lhe: “Deixa-me cá tirar-te isso da vista”, quando tens uma trave nos teus olhos? 5 Fingido! Tira primeiro a trave dos teus olhos e depois já vês melhor para tirares o cisco da vista do teu semelhante.
6 Não dêem aos cães o que é santo. Eles são capazes de se virar contra vocês e de vos despedaçar. Não deitem as vossas pérolas aos porcos! Pois eles vão pisá-las.»
Deus ouve a oração
(Lucas 11,9–13)
7 «Peçam e Deus vos dará; procurem e hão-de encontrar; batam à porta e ela há-de abrir-se-vos, 8 pois aquele que pede, recebe; aquele que procura, encontra; e a quem bate, a porta se abrirá. 9 Qual de vocês que seja pai seria capaz de dar uma pedra ao filho, quando este lhe pedisse pão? 10 Ou quem lhe daria uma cobra quando lhe pedisse peixe? 11 Ora se vocês, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está no céu dará coisas boas àqueles que lhas pedirem!
12 Façam aos outros tudo aquilo que desejariam que eles vos fizessem. Aqui está o essencial da lei e do ensino dos profetas.»
O caminho para a vida eterna
(Lucas 13,24)
13 «Entrem pela porta estreita! Pois é larga a porta e espaçoso o caminho que vai dar à perdição e são muitas as pessoas que para ali se encaminham. 14 Mas é estreita a porta e apertado o caminho que vai dar à vida eterna e são poucas as pessoas que o encontram.»
Os falsos profetas
(Lucas 6,43–44)
15 «Cuidado com os falsos profetas! Vêm ter convosco como se fossem ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. 16 É pelos seus frutos que os hão-de reconhecer. Porventura podem colher-se uvas das silvas ou figos dos cardos? 17 Portanto, a árvore boa dá bons frutos e a árvore má dá maus frutos. 18 Assim pois, uma árvore boa não pode dar maus frutos e uma árvore má não pode dar bons frutos. 19 Toda a árvore que não dá bons frutos corta-se e deita-se ao fogo. 20 Portanto, é pelas suas acções que poderão reconhecer os falsos profetas.»
Quem entra no reino dos céus
(Lucas 6,46; 13,25–27)
21 «Nem todos aqueles que me dizem: “Senhor, Senhor!” entrarão no reino dos céus, mas apenas os que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus. 22 Quando aquele dia chegar, haverá muitos que me hão-de dizer: “Senhor, Senhor, não profetizámos nós em teu nome? Não fizemos numerosos milagres em teu nome? Não chegámos a expulsar demónios em teu nome?” 23 Eu então hei-de declarar-lhes: “Nunca vos conheci. Afastem-se de mim, seus malfeitores!”»
Cumprir a palavra de Deus
(Lucas 6,47–49)
24 «Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática pode comparar-se ao homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. 25 Caiu muita chuva, vieram as cheias e os ventos sopraram com força contra aquela casa. Mas ela não caiu, porque os seus alicerces estavam assentes na rocha. 26 Porém, aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática pode comparar-se ao homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia. 27 Caiu muita chuva, vieram as cheias e os ventos sopraram com força contra aquela casa. Ela caiu e ficou arruinada.»
28 Quando Jesus acabou de pronunciar estas palavras, a multidão estava admirada com os seus ensinamentos. 29 É que ele ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da lei.
Cura de um homem com lepra
(Marcos 1,40–45; Lucas 5,12–16)
8 1 Ao descer do monte, Jesus foi seguido por uma grande multidão. 2 Então aproximou-se dele um homem com lepra que se ajoelhou e lhe disse: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me da lepra.» 3 Jesus estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero, fica purificado!» No mesmo instante, o homem ficou purificado da lepra. 4 Jesus então disse-lhe: «Escuta, não fales disto a ninguém. Mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece a Deus o sacrifício que Moisés ordenou, para ficarem a saber que estás curado.»
Cura do criado de um oficial romano
(Lucas 7,1–10)
5 Quando Jesus entrou em Cafarnaum aproximou-se dele um oficial do exército romano e fez-lhe este pedido: 6 «Senhor, o meu criado está de cama e sem se poder mexer, num sofrimento horrível.» 7 «Eu vou lá curá-lo», disse Jesus. 8 Mas o oficial respondeu: «Ó Senhor, eu não mereço que entres na minha casa. Basta que digas uma palavra e o meu criado ficará são. 9 Também eu tenho superiores a quem devo obediência e soldados às minhas ordens. Digo a um que vá, e ele vai. Digo a outro que venha, e ele vem. E digo ao meu criado: “faz isto”, e ele faz.» 10 Ao ouvir aquilo, Jesus ficou admirado e disse para os que o seguiam: «Fiquem sabendo que ainda não encontrei ninguém com tanta fé entre o povo de Israel. 11 Digo-vos mais: hão-de vir muitos do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa no reino dos céus com Abraão, Isaac e Jacob, 12 enquanto os herdeiros do reino serão lançados fora, na escuridão. Ali haverá choro e ranger de dentes.» 13 Em seguida Jesus disse ao oficial: «Podes ir. Seja como acreditaste.» E naquela mesma hora o doente ficou curado.
Jesus cura muitos doentes
(Marcos 1,29–34; Lucas 4,38–41)
14 Quando Jesus chegou a casa de Pedro, viu que a sogra deste estava de cama, com febre. 15 Tocou-lhe na mão e a febre passou-lhe. Ela então levantou-se e começou a servi-lo.
16 Ao cair da tarde, trouxeram a Jesus muitas pessoas com espíritos maus. Com uma palavra Jesus expulsou os espíritos maus e curou todos os que estavam doentes. 17 Assim se cumpria aquilo que disse o profeta Isaías: Ele próprio tomou as nossas fraquezas e suportou o peso das nossas doençasa.
Convite para seguir Jesus
(Lucas 9,57–62)
18 Quando Jesus viu a multidão que o rodeava, deu ordens para passar à outra margem do lago. 19 Foi então que se aproximou um doutor da lei e lhe disse: «Mestre, irei contigo para onde quer que fores.» 20 Jesus porém declarou: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde encostar a cabeça.»
21 Um dos discípulos pediu: «Senhor, deixa-me ir primeiro fazer o enterro ao meu pai.» 22 Contudo Jesus disse-lhe: «Segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus próprios mortos.»
Jesus acalma a tempestade
(Marcos 4,35–41; Lucas 8,22–25)
23 Jesus entrou no barco e os seus discípulos acompanharam-no. 24 Nisto, levantou-se no lago um temporal tão grande que as ondas encobriam o barco. Jesus, porém, dormia. 25 Os discípulos aproximaram-se dele e acordaram-no, gritando: «Senhor, salva-nos, que estamos perdidos!» 26 Jesus disse: «Por que estão com medo, homens sem fé?» Então levantou-se, deu ordens aos ventos e às ondas e fez-se uma grande calma. 27 Eles ficaram espantados e exclamavam: «Quem é este afinal, que até os ventos e as ondas lhe obedecem?!»
Cura de dois homens com espíritos maus
(Marcos 5,1–20; Lucas 8,26–39)
28 Jesus chegou à região dos gadarenos, do outro lado do lagob. Vieram ao seu encontro, saindo dos sepulcros, dois homens possuídos de espíritos maus. Os homens eram tão perigosos que ninguém se atrevia a passar por aquele caminho. 29 De repente, desataram a gritar: «Que é que tu queres de nós, Filho de Deus? Vieste cá para nos atormentar antes do tempo?»
30 Ora a uma certa distância dali, andava a pastar uma grande quantidade de porcosc. 31 Então os espíritos maus fizeram a Jesus este pedido: «Se nos vais expulsar, manda-nos para aquela vara de porcos.» 32 Jesus permitiu: «Vão!» E eles saíram e foram para os porcos que se puseram todos a correr pelo monte abaixo e afogaram-se no lago.
33 Os que andavam a guardar os animais fugiram e foram à cidade contar o que tinha acontecido aos dois homens com espíritos maus. 34 Então toda a gente da cidade foi ter com Jesus. Quando o viram, pediram-lhe para se ir embora daquela região.
Cura de um paralítico
(Marcos 2,1–12; Lucas 5,17–26)
9 1 Jesus entrou num barco, atravessou o lago e foi para a sua cidadea. 2 Trouxeram-lhe então um paralítico deitado numa enxerga. Ao ver a fé daqueles homens disse ao paralítico: «Coragem, meu filho! Os teus pecados estão perdoados.» 3 Nisto, alguns doutores da lei começaram a dizer para consigo: «Este homem está a ofender a Deus!» 4 Jesus percebeu-lhes os pensamentos e questionou-os: «Por que é que estão a pensar mal no vosso íntimo? 5 O que será mais fácil? Dizer: “Os teus pecados estão perdoados”, ou dizer: “Levanta-te e anda?” 6 Ficam pois a saber que o Filho do Homem tem poder na Terra para perdoar pecados.» E disse ao paralítico: «Levanta-te, pega na tua enxerga e vai para casa.» 7 O homem levantou-se e foi para casa. 8 Ao ver aquilo, a multidão ficou impressionada e louvava a Deus que deu tão grande poder aos homens.
Jesus chama Mateus
(Marcos 2,13–17; Lucas 5,27–32)
9 Quando Jesus ia a sair dali, viu um homem sentado no posto de cobrança de impostos. O seu nome era Mateus. Jesus chamou-o: «Segue-me.» Ele levantou-se e foi com Jesus. 10 Jesus estava sentado à mesa em casa de Mateus e vieram muitos outros cobradores de impostos e mais gente pecadora sentar-se à mesa com ele e os discípulos. 11 Ao verem isso, os fariseus perguntavam aos discípulos: «Por que é que o vosso Mestre se senta à mesa com os cobradores de impostos e gente pecadorab?» 12 Jesus ouviu isso e explicou: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os que estão doentes. 13 Vão aprender o que significam estas palavras da Escritura: Prefiro a misericórdia e não os sacrifíciosc. Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores.»
A questão do jejum
(Marcos 2,18–22; Lucas 5,33–39)
14 Naquela ocasião, os discípulos de João Baptista aproximaram-se de Jesus com esta pergunta: «Por que é que nós e os fariseus jejuamos muitas vezes, e os teus discípulos não jejuam?» 15 Jesus esclareceu-os: «Acham que os convidados para um casamento se podem apresentar de luto enquanto o noivo está com eles? Lá virá o tempo em que o noivo lhes será tirado. Nessa altura jejuarão.
16 Ninguém cose um remendo de tecido novo em roupa velha, porque o remendo novo repuxa o tecido velho e fica um rasgão ainda maior. 17 Do mesmo modo, ninguém deita vinho novo em vasilhas velhas, porque o vinho rebenta-as, perdendo-se assim o vinho e as vasilhas. Portanto, o vinho novo deve ser metido em vasilhas novas e assim se conservam ambas as coisas.»
Ressurreição de uma menina e cura de uma doente
(Marcos 5,21–43; Lucas 8,40–56)
18 Ainda Jesus lhes estava a dizer estas coisas, quando chegou um dirigente da sinagoga que se ajoelhou diante dele a pedir: «A minha filha acaba mesmo agora de morrer. Mas vem, põe a tua mão sobre ela, e viverá.» 19 Jesus levantou-se e seguiu-o com os seus discípulos. 20 Nisto, uma mulher, que havia doze anos sofria duma doença que a fazia perder sangue, aproximou-se por detrás de Jesus e tocou-lhe na ponta do manto. 21 Ela pensava consigo: «Se eu conseguir ao menos tocar-lhe na roupa, ficarei curada.» 22 Jesus voltou-se, olhou para ela e disse: «Coragem, minha filha! A tua fé te salvou!» E desde aquele momento a mulher ficou curada.
23 Quando Jesus chegou a casa do dirigente da sinagoga e viu os tocadores de flautad e a multidão que gritava, 24 mandou: «Saiam daqui para fora, que a menina não está morta, está só a dormir.» E começaram a fazer troça dele. 25 Quando aquela gente toda foi posta fora, Jesus entrou, pegou na mão da menina e ela levantou-se. 26 A notícia deste acontecimento espalhou-se por toda a região.
Jesus cura dois cegos
27 Ao sair daquele lugar, houve dois cegos que foram atrás de Jesus, gritando: «Filho de David tem piedade de nós!» 28 Quando Jesus ia a entrar em casa, os dois cegos aproximaram-se dele e Jesus perguntou-lhes: «Vocês acreditam que eu tenho poder para vos fazer isso?» Responderam eles: «Sim, Senhor, acreditamos!» 29 Então Jesus tocou-lhes nos olhos e disse: «Pois seja feito conforme a vossa fé!» 30 E os dois cegos ficaram a ver. Jesus recomendou-lhes em tom severo: «Olhem que ninguém deve saber disto!» 31 Eles, porém, saindo dali começaram a falar dele por toda a região.
Cura de um mudo
32 Na altura em que os dois cegos se foram embora, trouxeram a Jesus um mudo possuído dum espírito mau. 33 Jesus expulsou o espírito mau e o mudo pôs-se a falar. A multidão ficou muito admirada e dizia: «Nunca se viu uma coisa assim em Israel!» 34 Os fariseus, porém, diziam: «É pelo poder do chefe dos demónios que ele expulsa os demónios.»
Poucos trabalhadores para a colheita
35 Jesus andava por todas as cidades e aldeias, ensinava nas sinagogas, anunciava a boa nova do reino de Deus e curava toda a espécie de doenças e males. 36 Ao ver a multidão, Jesus sentiu imensa compaixão, porque andavam desorientados e perdidos como ovelhas que não têm pastor. 37 Disse então aos discípulos: «A colheita é abundante, mas os trabalhadores são poucos. 38 Peçam ao dono da seara que mande mais trabalhadores para a sua colheita.»
Os doze apóstolos
(Marcos 3,13–19; Lucas 6,12–16)
10 1 Chamando para junto de si os seus doze discípulos, Jesus deu-lhes poder para expulsarem espíritos maus e curarem toda a espécie de doenças e males. 2 São estes os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e seu irmão André; Tiago e seu irmão João, filhos de Zebedeu; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, do partido dos Nacionalistas, e Judas Iscariotes, aquele que atraiçoou Jesus.
Jesus envia os apóstolos
(Marcos 6,7–13; Lucas 9,1–6)
5 Jesus enviou estes doze dando-lhes as seguintes instruções: «Não se desviem para o caminho dos pagãos, nem entrem em qualquer cidade dos samaritanosa. 6 Vão antes ter com as ovelhas perdidas do povo de Israel. 7 Pelo caminho anunciem que o reino dos céus está a chegar. 8 Curem os que estão doentes, purifiquem os leprosos, ressuscitem os mortos e expulsem os espíritos maus. Receberam de graça, dêem de graça. 9 Não procurem ouro, prata ou cobre para levar nos bolsos. 10 Não levem saco de viagem, nem muda de roupa, nem calçado, nem cajado. O trabalhador tem direito ao seu sustento.
11 Quando chegarem a qualquer cidade ou aldeia, procurem uma pessoa de confiança e fiquem em sua casa até se irem embora. 12 Ao entrarem numa casa cumprimentem os presentes com saudações de pazb. 13 Se os daquela casa forem dignos dela, que a vossa paz fique com eles; se não forem dignos, que volte para vocês. 14 Se nalguma casa ou cidade não vos receberem, nem derem ouvidos às vossas palavras, quando saírem daquela casa ou daquela cidade sacudam o pó dos vossos pésc. 15 Garanto-vos que no dia do juízo, a gente de Sodoma e Gomorrad será tratada com menos dureza do que o povo dessa terra.»
Sofrimentos e perseguições dos apóstolos
(Marcos 13,9–13; Lucas 21,12–17)
16 «Eu vos envio como ovelhas para o meio dos lobos. Portanto, sejam cautelosos como as serpentes e simples como as pombas. 17 Tenham muito cuidado! Haverá homens que vos levarão aos tribunais e vos hão-de espancar nas suas sinagogas. 18 Vão ter que comparecer diante de governadores e de reis, por minha causa. Aí darão testemunho de mim, a eles e aos pagãos. 19 Quando vos entregarem às autoridades não se preocupem como hão-de falar, nem com o que hão-de dizer. Nessa altura, Deus vos dará as palavras, 20 pois não serão vocês a falar, mas sim o Espírito de Deus, vosso Pai, que falará por vosso intermédio.
21 Haverá irmãos que hão-de entregar os seus próprios irmãos à morte, e pais que hão-de entregar os próprios filhos. E haverá filhos que se hão-de revoltar contra os pais e os hão-de matar. 22 Serão odiados por toda a gente por minha causa, mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.
23 Quando vos perseguirem numa cidade, fujam para outra. Garanto-vos que o Filho do Homem há-de vir antes de terem ido a todas as cidades de Israel.
24 Nenhum discípulo está acima do seu mestre, nem um servo está acima do seu senhor. 25 Basta ao discípulo que venha a ser como o seu mestre e ao servo como o seu senhor. Ora se ao dono da casa já chamaram Belzebu, que nomes não hão-de chamar aos outros membros da família!»
A quem devemos temer
(Lucas 12,2–7)
26 «Não tenham medo deles! Não há nada encoberto que não venha a descobrir-se, nem há nada escondido que não venha a saber-se. 27 O que eu vos digo em segredo, digam-no à luz do dia, e aquilo que vos é dito ao ouvido, apregoem-no em cima nos telhados. 28 Também não devem ter medo dos que matam o corpo mas não podem matar a alma. Temam antes a Deus que pode fazer perder tanto o corpo como a alma no inferno. 29 Não se vendem dois pássaros por uma moeda? No entanto, nem um só deles cai ao chão sem o vosso Pai querer. 30 Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados! 31 Não tenham medo! Vocês valem mais do que muitos pássaros.»
Aceitar ou negar Cristo
(Lucas 12,8–9)
32 «Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu farei o mesmo por ele diante do meu Pai que está nos céus. 33 Mas àquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.»
Jesus, motivo de divisão
(Lucas 12,51–53; 14,26–27)
34 «Não pensem que vim trazer a paz à Terra. Não vim trazer a paz, mas a guerra. 35 Vim, de facto, trazer a divisão entre filho e pai, filha e mãe, nora e sogra: 36 os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria famíliae.
37 Aquele que amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; e o que amar o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. 38 Aquele que não pegar na sua cruz e não me seguir, não é digno de mim. 39 Aquele que pensa que tem a sua vida segura, perde-a, mas aquele que perder a sua vida por minha causa é que a tem segura.»
Recompensas por fazer bem
(Marcos 9,41)
40 «Quem vos receber é a mim que recebe, e quem me receber recebe aquele que me enviou. 41 Quem receber um profeta, por ser profeta, terá uma recompensa de profeta; e quem receber um justo, por ser justo, terá a recompensa de justo. 42 E aquele que der um simples copo de água fresca a um dos mais pequeninos destes meus discípulos, por ser meu discípulo, garanto-vos que não ficará sem a sua recompensa.»
Resposta de Jesus aos discípulos de João Baptista
(Lucas 7,18–23)
11 1 Depois de ter dado estas instruções aos seus doze discípulos, Jesus saiu dali para ir ensinar e pregar nas povoações da região.
2 Quando João Baptista, que estava na prisão, ouviu falar das obras de Cristo, enviou-lhe alguns dos seus discípulos com esta pergunta: 3 «És tu aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?» 4 Jesus deu-lhes esta resposta: «Vão contar a João aquilo que vêem e ouvem: 5 os cegos vêem, os coxos andam, os que têm lepra são curados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres é anunciada a boa nova. 6 Feliz aquele que não achar em mim motivo de escândalo.»
Jesus fala de João Baptista
(Lucas 7,24–35)
7 Depois de os discípulos de João se terem ido embora, Jesus começou a falar a respeito dele ao povo: «O que é que foram ver no deserto? Uma cana abanada pelo vento? 8 Que é que lá foram ver? Um homem vestido de roupas finas? Bem sabem que os que se vestem de roupas finas estão nos palácios dos reis. 9 Mas, afinal, que é que lá foram ver? Um profeta? Sim! E também vos digo: ele é mais do que um profeta. 10 Pois é aquele de quem as Escrituras dizem: Enviarei o meu mensageiro à tua frente para te preparar o caminhoa.
11 E fiquem sabendo isto: entre os homens não houve ninguém maior do que João Baptista. No entanto, o mais pequeno no reino dos céus é maior do que ele. 12 Desde o tempo de João Baptista até hoje, o reino dos céus tem sido assaltado com violência e os violentos procuram apoderar-se dele. 13 Com efeito, até ao tempo de João, tudo isso foi anunciado pela Lei de Moisés e pelos profetas. 14 Podem acreditar que é ele o Elias que havia de vir. 15 Quem tem ouvidos, preste atenção!»
16 Jesus disse ainda: «Com quem hei-de comparar as pessoas desta geração? São semelhantes às crianças que estão na rua e dizem umas para as outras:
17 “Tocámos flauta e vocês não dançaram!
Cantámos coisas tristes e não choraram!”
18 Realmente apareceu João, que jejuava e não bebia vinho, e dizem logo que tinha o Demónio com ele. 19 Depois veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem dele: “Olhem para este homem! Come bem, bebe melhor e é amigo de cobradores de impostos e de outra gente pecadora.” Mas a sabedoria de Deus só se mostra pelas obras que produz.»
As cidades rebeldes
(Lucas 10,13–15)
20 Jesus começou então a censurar as cidades em que tinha realizado a maior parte dos seus milagres, porque os seus habitantes não se tinham arrependido. 21 Dizia ele: «Ai de ti, Corazin! Ai de ti, Betsaidab! Se os milagres que em ti se fizeram tivessem sido efectuados nas cidades de Tiro e Sídonc, há muito que os seus habitantes se tinham arrependido, vestindo-se de luto e com cinza na cabeça. 22 Por isso vos digo: no dia do juízo, Tiro e Sídon serão tratadas com menos dureza do que vocês. 23 E tu, Cafarnaum, querias elevar-te até ao céu? Pois serás rebaixada até ao inferno.
E se os milagres que em ti se fizeram tivessem acontecido em Sodoma, essa cidade ainda hoje existiria. 24 Eu porém vos digo que no dia do juízo os habitantes de Sodoma serão tratados com menos dureza do que tu, Cafarnaum.»
Deus revela-se aos humildes
(Lucas 10,21–22)
25 Naquele momento, Jesus exclamou: «Agradeço-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque revelaste aos simples estas coisas que tinhas escondido aos sábios e entendidos. 26 Sim, Pai, agradeço-te, por ter sido essa a tua vontade. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
28 Venham ter comigo todos os que andam cansados e oprimidos e eu vos darei descanso. 29 Aceitem o meu jugo e aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração. Assim o vosso coração encontrará descanso, 30 pois o meu jugo é agradável e os meus fardos são leves.»
Jesus e o sábado
(Marcos 2,23–28; Lucas 6,1–5)
12 1 Por aquela altura, Jesus atravessava umas searas durante o sábado. E como os discípulos sentiam fome, começaram a arrancar espigas para comer. 2 Os fariseus, ao repararem nisso, chamaram a atenção de Jesus: «Olha que os teus discípulos estão a fazer aquilo que a lei não permite fazer ao sábado.» 3 Jesus respondeu-lhes: «Não leram o que David fez quando ele e os seus companheiros estavam com fome? 4 Entrou na casa de Deus com os seus homens e comeram os pães consagrados. E não lhes era permitido fazer aquilo, mas apenas aos sacerdotes. 5 Não leram também na lei que aos sábados, no templo, os sacerdotes quebram a lei do descanso e, no entanto, ficam sem culpa? 6 Pois eu vos digo: o que está aqui é maior do que o templo. 7 Se percebessem o que significa na Escritura: prefiro misericórdia e não sacrifíciosa, não teriam condenado inocentes. 8 Com efeito, o Filho do Homem é senhor do próprio sábado.»
Um homem com a mão paralítica
(Marcos 3,1–6; Lucas 6,6–11)
9 Jesus saiu dali e entrou na sinagoga deles. 10 Estava lá um homem que tinha uma das mãos paralítica. Alguns, querendo arranjar motivo para acusar Jesus, perguntaram-lhe: «Será que a nossa lei permite curar pessoas ao sábado ou não?» 11 Jesus respondeu assim: «Se um de vós tiver uma ovelha e ela cair num poço ao sábado, não vai logo tirá-la de lá? 12 Quanto mais não vale um homem do que uma ovelha? Por isso é permitido fazer bem ao sábado.» 13 Em seguida dirigiu-se ao homem da mão paralítica: «Estende a tua mão.» Ele estendeu-a e ficou restabelecida e sã como a outra. 14 Então os fariseus saíram dali e foram fazer planos para ver como haviam de o matar.
O escolhido de Deus
15 Quando Jesus teve conhecimento disso, afastou-se dali e muita gente o seguiu. Curou todos os enfermos 16 e deu-lhes ordens para que não fizessem propaganda dele. 17 Assim se cumpriu o que foi dito por meio do profeta Isaías:
18 Este é o meu servo, a quem eu escolhi,
o meu predilecto, no qual tenho a maior satisfação.
Porei nele o meu Espírito
e ele anunciará a minha vontade aos povos.
19 Não criará conflitos, nem gritará,
nem fará ouvir a sua voz nas ruas.
20 Não quebrará a cana pisada,
nem apagará o pavio que ainda fumega,
até fazer com que a justiça alcance a vitória.
21 É nele que os povos hão-de pôr a sua esperançab.
Jesus e Satanás
(Marcos 3,20–30; Lucas 11,14–23; 12,10)
22 Trouxeram a Jesus um possesso cego e mudo. Jesus curou-o e o homem ficou a ver e a falar. 23 Toda a gente perguntava muito admirada: «Não será este o Filho de David?» 24 Mas os fariseus, ao ouvirem isto, afirmavam: «É pelo poder de Belzebuc, chefe dos demónios, que este expulsa os demónios.» 25 Jesus percebendo o que estavam a pensar, disse-lhes: «Um reino dividido em grupos que lutem entre si acaba por se arruinar. Do mesmo modo, uma cidade ou uma família dividida não se mantém de pé. 26 Ora se Satanás expulsa Satanás está em luta contra si mesmo. Como poderá então o seu reino manter-se? 27 Se eu expulso os espíritos maus pelo poder de Belzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Por isso são eles que hão-de acusar-vos do vosso erro. 28 Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os espíritos maus, isto quer dizer que o reino de Deus já aqui chegou.
29 Como pode alguém entrar em casa dum homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar? Só assim lhe poderá roubar a casa.
30 Quem não está comigo está contra mim, e quem comigo não junta, espalha. 31 Portanto, digo-vos: qualquer pecado e palavra ofensiva contra Deus poderão ser perdoados aos homens. Mas a palavra ofensiva contra o Espírito Santo não será perdoada. 32 Quem disser alguma coisa contra o Filho do Homem poderá ser perdoado, mas quem disser alguma coisa ofensiva contra o Espírito Santo, não será perdoado, nem neste mundo nem no outro.»
A árvore e os seus frutos
(Lucas 6,43–45)
33 «Se plantarem uma árvore boa, o seu fruto será bom. Se plantarem uma árvore má, o fruto será mau. Pois é pelo fruto que se conhece a árvore. 34 Raça de víboras! Como poderão vocês dizer coisas boas se são maus? Cada qual fala daquilo que tem no coração. 35 O homem bom tira coisas boas do tesouro da sua bondade e o homem mau tira coisas más da sua maldade. 36 Digo-vos que no dia do juízo cada um terá de dar contas a Deus por toda a palavra inútil que tenha dito. 37 É pelas tuas palavras que no dia do juízo Deus te há-de declarar inocente ou culpado.»
Jesus, sinal de Deus
(Marcos 8,11–12; Lucas 11,29–32)
38 Em dado momento, alguns doutores da lei e fariseus fizeram este pedido a Jesus: «Mestre, queríamos ver-te fazer um sinal milagroso.» 39 Jesus respondeu-lhes: «Esta geração má e infiel procura um sinal milagroso de Deus! Pois bem, não lhe será dado outro sinal senão o do profeta Jonas. 40 Assim como Jonas esteve três dias e três noites dentro do grande peixe, assim o Filho do Homem há-de estar três dias e três noites dentro da terra. 41 No dia do juízo, os habitantes de Nínived hão-de levantar-se contra esta geração para a condenar. É que eles, quando ouviram a pregação de Jonas, arrependeram-se. Ora o que está aqui é maior do que Jonas! 42 Também a rainha do Sul se há-de levantar, no dia do juízo, contra a gente deste tempo para a condenar, porque ela veio lá do fim do mundo para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora o que está aqui é maior do que Salomão!»
Regresso do espírito mau
(Lucas 11,24–26)
43 «Quando um espírito mau sai duma pessoa anda por lugares secos à procura de repouso, mas não o encontra. 44 Então diz: “Volto para a minha casa, donde saí.” Ao chegar lá, encontra a casa vaga, limpa e bem arranjada. 45 Então vai buscar outros sete espíritos piores do que ele e vão todos para lá viver. Deste modo, a situação daquela pessoa torna-se pior do que era antes. É precisamente assim que vai acontecer a esta geração má.»
A família de Jesus
(Marcos 3,31–35; Lucas 8,19–21)
46 Enquanto Jesus estava ainda a falar à multidão, chegaram sua mãe e seus irmãos. Ficaram do lado de fora e procuravam maneira de lhe falar. 47 Então alguém veio dizer: «Olha que a tua mãe e os teus irmãos estão ali fora e querem falar contigoe.» 48 Jesus disse à pessoa que lhe foi dar o recado: «Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?» 49 Depois apontou para os discípulos: «Aqui está a minha mãe e os meus irmãos! 50 Aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»
A parábola do semeador
(Marcos 4,1–9; Lucas 8,4–8)
13 1 Naquele mesmo dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira do lago. 2 A gente que se juntou à volta era tanta que ele subiu para um barco. Sentou-se e toda a multidão se mantinha na praia. 3 E ensinava muitas coisas por meio de parábolas como esta:
«Andava uma vez um homem a semear. 4 Ao lançar a semente, parte dela caiu à beira do caminho e os pássaros vieram e comeram-na. 5 Outra caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. Rompeu depressa porque o terreno era pouco fundo. 6 Mas quando veio o sol queimou as plantas, porque não tinham raízes. 7 Outra parte da semente caiu entre espinhos, que cresceram e abafaram as plantas. 8 Outra parte, porém, caiu em boa terra e deu fruto à razão de cem, de sessenta e de trinta grãos por semente.» 9 Jesus acrescentou: «Quem tem ouvidos, preste atenção!»
Razão das parábolas
(Marcos 4,10–12; Lucas 8,9–10)
10 Então os discípulos foram perguntar a Jesus: «Por que é que lhes falas por meio de parábolas?» 11 Ele respondeu: «Deus concedeu-vos o privilégio de conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não. 12 Àquele que já tem alguma coisa, Deus lhe dará mais até que lhe sobre. Mas àquele que não tem nada, até o pouco que tem lhe será tirado. 13 É por isso que a eles eu falo por meio de parábolas, porque olham mas não vêem, ouvem mas não entendem nem percebem. 14 Deste modo se cumpre neles aquela profecia de Isaías que diz:
Ouçam e tornem a ouvir
que nada conseguirão perceber,
olhem e tornem a olhar
que nada hão-de ver.
15 É que o entendimento desta gente está fechado.
Têm os ouvidos duros e os olhos tapados.
Doutro modo, talvez tivessem olhos para ver
e ouvidos para ouvir.
Talvez o seu entendimento se abrisse
e voltassem para mim
e eu os curariaa.
16 Felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem. 17 Posso garantir-vos que muitos profetas e justos desejaram ver o que vocês vêem e não viram, e ouvir o que vocês ouvem e não ouviram.»
Jesus explica a parábola do semeador
(Marcos 4,13–20; Lucas 8,11–15)
18 «Ouçam agora o que significa a parábola do semeador: 19 Todos aqueles que ouvem a palavra do reino e não entendem são como a semente que caiu à beira do caminho. Vem o Diabo e tira-lhes o que foi semeado no coração. 20 A semente que caiu no terreno pedregoso representa os que ouvem a boa nova e a recebem com alegria. 21 Mas dura pouco porque não têm raízes. Quando vêm os sofrimentos e as perseguições por causa da boa nova, não aguentam. 22 A semente que caiu entre os espinhos representa aqueles que ouvem a boa nova, mas as preocupações desta vida e a ilusão das riquezas sufocam-na logo e o fruto não aparece. 23 Mas a semente que caiu em boa terra representa os que recebem a boa nova e a compreendem. Esses dão realmente fruto, uns à razão de cem, outros de sessenta e outros de trinta por cada grão.»
A parábola do trigo e do joio
24 Jesus apresentou-lhes outra parábola: «O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Mas enquanto toda a gente dormia, veio o inimigo desse homem, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. 26 Quando as plantas cresceram e se começaram a formar as espigas, apareceu também o joio. 27 Então os trabalhadores desse homem foram ter com ele e perguntaram-lhe: “Senhor, não foi boa semente que semeaste no teu campo? Como é que apareceu este joio?” 28 “Foi um inimigo que fez isso”, respondeu ele. Os trabalhadores tornaram a perguntar-lhe: “Queres que vamos lá arrancar o joio?” 29 Mas ele replicou: “Não, porque ao arrancarem o joio são capazes de arrancar também o trigo. 30 Deixem-nos crescer os dois até ao tempo da ceifa. Nessa altura direi aos ceifeiros: Apanhem primeiro o joio e atem-no em feixes para ser queimado no fogo, mas recolham o trigo para o meu celeiro.”»
A parábola do grão de mostarda
(Marcos 4,30–32; Lucas 13,18–19)
31 Apresentou-lhes ainda outra parábola: «O reino dos céus é como um grão de mostarda que alguém semeou no seu campo. 32 Esta é a mais pequena das sementes. Mas quando a planta cresce é a maior de todas. Chega mesmo a ser uma árvore e até os pássaros vão fazer ninho nos seus ramos.»
A parábola do fermento
(Lucas 13,20–21)
33 Jesus expôs-lhes ainda outra parábola: «O reino dos céus é como o fermento que uma mulher misturou em três medidas de farinha e assim fez levedar toda a massa.»
Razão do ensino por parábolas
(Marcos 4,33–34)
34 Jesus serviu-se de parábolas para dizer todas estas coisas à multidão. E só lhes falava por meio de parábolas. 35 Assim se cumpria o que tinha dito o profeta:
Hei-de falar por meio de parábolas,
direi coisas que estavam escondidas
desde o princípio do mundob.
Jesus explica a parábola do trigo e do joio
36 Então Jesus deixou a multidão e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se dele e pediram: «Explica-nos o que significa a parábola do joio no campo.» 37 Jesus esclareceu-os assim: «Aquele que semeou a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são as pessoas que pertencem ao reino de Deus. O joio são os filhos do Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o Diabo. A ceifa é o fim deste mundo e os ceifeiros são os anjos. 40 Ora assim como o joio se junta e se queima no fogo, assim vai ser no fim do mundo: 41 o Filho do Homem mandará os seus anjos e eles retirarão do seu reino todos os que levam os outros a pecar e todos os que praticam o mal, 42 para os lançarem na fornalha. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então os justos de Deus brilharão como o Sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos preste atenção!»
A parábola do tesouro escondido e a pérola preciosa
44 E continuou: «O reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Quando alguém o encontra volta a escondê-lo. E, cheio de alegria, vai vender tudo quanto tem e compra o campo.
45 O reino dos céus pode também comparar-se a um comerciante que anda à procura de pérolas de boa qualidade. 46 Quando encontra uma pérola de muito valor vai vender tudo o que tem e compra-a.»
Rede lançada ao mar
47 «O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que se lança ao mar e apanha toda a espécie de peixes. 48 Quando já está cheia, os pescadores puxam-na para a praia e sentam-se a escolher o peixe: o que é bom deitam-no em cestos, e atiram fora o que não presta. 49 Assim vai acontecer no fim deste mundo: os anjos sairão para separar as pessoas más das boas, 50 lançando as más na fornalha. Ali haverá choro e ranger de dentes.»
Coisas novas e velhas
51 Jesus perguntou então aos discípulos: «Compreenderam todas estas coisas?» Eles responderam: «Compreendemos, sim.» 52 Então Jesus continuou: «Portanto, todo o doutor da lei que aceita a doutrina do reino dos céus é semelhante ao chefe de família que sabe tirar dos tesouros que tem coisas novas e velhas.»
Jesus é mal recebido em Nazaré
(Marcos 6,1–6; Lucas 4,16–30)
53 Quando Jesus acabou de lhes apresentar estas parábolas retirou-se dali. 54 Foi para a sua terra e começou a ensinar o povo na sinagoga deles. Os que o ouviam diziam admirados: «Donde lhe vem a sabedoria e o poder de fazer milagres? 55 Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria a sua mãe? E não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? 56 Não vivem cá também todas as suas irmãs? Donde lhe vem então tudo isto?» 57 Por essa razão não queriam nada com ele. Mas Jesus lembrou-lhes: «Nenhum profeta é desprezado a não ser na sua terra e no meio da sua família.» 58 E por causa da falta de fé deles, Jesus não fez ali muitos milagres.
Morte de João Baptista
(Marcos 6,14–29; Lucas 9,7–9)
14 1 Naquele tempo, Herodes, o governador da Galileia, ouviu falar de Jesus 2 e disse aos subordinados que estavam com ele: «Este homem é João Baptista; ele ressuscitou dos mortos e por isso é que tem poder para fazer os milagres que faz.»
3 De facto, Herodes tinha mandado prender João e tinha-o metido na cadeia. Fez isso por causa de Herodias, esposa de seu irmão Filipe. 4 É que João avisava constantemente Herodes: «Não tens o direito de viver com ela.» 5 Herodes queria matá-lo, mas tinha medo do povo porque todos consideravam João como um profeta. 6 Ora no dia dos anos de Herodes, a filha de Herodias dançou diante de todos e agradou muito a Herodes. 7 Este jurou dar-lhe tudo o que ela pedisse. 8 Então ela, pressionada pela mãe, fez este pedido: «Dá-me agora mesmo, numa bandeja, a cabeça de João Baptista.» 9 O rei ficou triste, mas por causa do juramento e dos convidados ordenou que lhe fosse dada 10 e mandou alguém à cadeia cortar a cabeça de João. 11 Trouxeram-na numa bandeja e deram-na à rapariga, que a foi levar à mãe. 12 Os discípulos de João foram buscar o corpo e sepultaram-no. Depois levaram a notícia a Jesus.
Jesus dá de comer a uma multidão
(Marcos 6,30–44; Lucas 9,10–17; João 6,1–14)
13 Quando Jesus recebeu aquela notícia, retirou-se de barco e foi sozinho para um lugar isolado. Mas a multidão, ao saber disso, deixava as suas povoações e seguia-o por terra. 14 Assim, quando Jesus desembarcou viu uma multidão enorme. Sentiu-se comovido com aquela gente e curou todos os doentes que havia entre eles.
15 Ao entardecer, os discípulos foram ter com ele e disseram-lhe: «Já é muito tarde e este sítio aqui é isolado. Manda esta multidão embora para que vão às aldeias comprar alguma coisa para comer.» 16 Porém, Jesus observou: «Não há necessidade de eles se irem embora. Dêem-lhes vocês de comer!» 17 Os discípulos responderam: «Mas olha que só temos aqui cinco pães e dois peixes!» 18 «Tragam-mos cá», disse Jesus. 19 E deu ordens para que a multidão se sentasse na relva. Depois pegou nos cinco pães e nos dois peixes, levantou os olhos para o céu e deu graças a Deus. Partiu os pães, deu-os aos discípulos e os discípulos distribuíram-nos pela multidão. 20 Todos comeram até ficarem satisfeitos. E, com os bocados que sobejaram, encheram-se doze cestos. 21 O número dos homens que comeram andava por volta de cinco mil, não contando as mulheres e as crianças.
Jesus caminha por cima da água
(Marcos 6,45–52; João 6,16–21)
22 Logo a seguir, Jesus mandou os discípulos entrar no barco e disse-lhes para irem à frente, para a outra banda do lago, enquanto se despedia da multidão. 23 Depois subiu sozinho ao monte para orar. Quando anoiteceu, ainda lá estava sozinho. 24 Entretanto, a embarcação estava já bastante longe da terra e ia sendo batida pelas ondas, porque o vento era contrário. 25 De madrugada, Jesus foi então ter com os discípulos caminhando por cima da água. 26 Quando eles o viram a caminhar p

Paloma 16/11/2014 13:34 0 0

Introdução — Desde os tempos mais antigos, a tradição vai no sentido de considerar que o autor deste Evangelho foi um dos primeiros discípulos de Jesus; seria aquele cobrador de impostos, tornado discípulo, que é chamado Mateus em Mateus 9,9 e Levi em Marcos 2,14. Pensa-se que o discípulo Mateus poderia ter recolhido em aramaico alguns ditos e feitos de Jesus, tendo mais tarde escrito o texto actual deste Evangelho, numa altura em que já dispunha de outros Evangelhos, nomeadamente o de Marcos, escrito em grego, que o podem ter ajudado na nova escrita. Este livro terá sido escrito depois do ano 70.
É provável que tenha tido como principais destinatários igrejas de origem judaica com uma forte ligação ao seu património religioso tradicional, mas que já não parecem identificar-se com o judaísmo, uma vez que este se recusou a acolher Jesus com as características de Messias que este Evangelho sublinha.
O Evangelho segundo Mateus caracteriza-se por uma particular sensibilidade a questões que têm a ver com o judaísmo. Os temas tradicionais da religião hebraica bíblica, as suas personagens antigas mais marcantes e os confrontos com vários grupos que representam o judaísmo contemporâneo de Jesus aparecem neste Evangelho com algum destaque. A longa genealogia de antepassados sublinha as raízes de Jesus no interior do povo hebraico, indo até Abraão e sublinhando a maneira como Jesus articula toda a história do povo de Deus, uma vez que quatro ciclos de catorze gerações conduzem directamente de Abraão, por David e pelo exílio da Babilónia até Jesus. Tal como acontece na genealogia, também no resto deste Evangelho são constantes as referências aos temas do Antigo Testamento. A infância de Jesus e outras referências da sua vida pública, nomeadamente o modo como ensina e a autoridade que revela, fazem dele um novo Moisés; a nova Torá é o seu ensino que inaugura o Reino de Deus. Valoriza e interpreta os textos proféticos para demonstrar que Jesus é o Messias esperado pelo povo, aquele que iria realizar as promessas feitas através dos séculos de história hebraica. A autoridade de Jesus tanto assenta na capacidade de declarar verdades novas como na reinterpretação de verdades que vinham da Escritura. Por isso é tão frequente encontrar citações do Antigo Testamento ao longo deste Evangelho.
Os ensinamentos de Jesus são apresentados ao longo da sua vida pública, em cinco secções, sendo cada uma delas dominada por um grande discurso:
— O sermão da montanha: 5—7.
— Instruções aos doze discípulos sobre a sua missão: 10.
— As parábolas do reino: 13.
— Ensinamentos sobre a vida dos cristãos neste mundo: 18.
— O fim da vida presente e a vinda do reino de Deus: 24—25.
Este evangelho pode sintetizar-se no seguinte plano:
— Antepassados e nascimento de Jesus: 1—2.
— Mensagem de João Baptista: 3,1—12.
— Baptismo e tentação de Jesus: 3,13—4,11.
— Actividade de Jesus na Galileia: 4,12—18
— A caminho de Jerusalém: 19—20.
— Actividade de Jesus em Jerusalém: 21—25.
— Paixão, morte e ressurreição: 26—28.

Antepassados de Jesus Cristo
(Lucas 3,23–38)
1 1 Esta é a lista dos antepassados de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão.
2 Abraão foi pai de Isaac, Isaac foi pai de Jacob e Jacob foi pai de Judá e dos seus irmãos. 3 Judá foi pai de Peres e de Zera, sendo a mãe Tamar. Peres foi pai de Hesron e Hesron foi pai de Rame. 4 Rame foi pai de Aminadab, Aminadab foi pai de Nachon e Nachon foi pai de Salmon. 5 Salmon foi pai de Booz, sendo a mãe Raab. Booz foi pai de Obed, sendo a mãe Rute. Obed foi pai de Jessé 6 e Jessé foi pai do rei David.
David foi pai de Salomão, sendo a mãe a que foi mulher de Urias. 7 Salomão foi pai de Roboão, Roboão foi pai de Abias e Abias foi pai de Asa. 8 Asa foi pai de Josafat, Josafat foi pai de Jorão e Jorão foi pai de Uzias. 9 Uzias foi pai de Jotam, Jotam foi pai de Acaz e Acaz foi pai de Ezequias. 10 Ezequias foi pai de Manassés, Manassés foi pai de Amon e Amon foi pai de Josias. 11 Josias foi pai de Jeconias e dos seus irmãos, no tempo do exílio para a Babilónia.
12 Depois do exílio na Babilónia, Jeconias foi pai de Salatiel e Salatiel foi pai de Zorobabel. 13 Zorobabel foi pai de Abiud, Abiud foi pai de Eliaquim e Eliaquim foi pai de Azur. 14 Azur foi pai de Sadoc, Sadoc foi pai de Jaquin e Jaquin foi pai de Eliud. 15 Eliud foi pai de Eleazar, Eleazar foi pai de Matan e Matan foi pai de Jacob.
16 Jacob foi pai de José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Messias.
17 No conjunto são catorze gerações de Abraão até David, outras catorze de David até ao exílio para a Babilónia e mais catorze do exílio até ao Messiasa.
José dá o nome a Jesus
(Lucas 2,1–7)
18 O nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, tinha o casamento tratado com José; mas, antes de casarem, achou-se grávida pelo poder do Espírito Santo. 19 José, o seu noivo, que era justo, não a queria acusar publicamente. Por isso pensou deixá-la sem dizer nada. 20 Andava ele a pensar nisto, quando lhe apareceu num sonho um anjo do Senhor que lhe disse: «José, descendente de David, não tenhas medo de casar com Maria, tua noiva, pois o que nela se gerou foi pelo poder do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho e tu vais pôr-lhe o nome de Jesusb, pois ele salvará o seu povo dos pecados.»
22 Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: 23 A virgem ficará grávida e dará à luz um filho que se há-de chamar Emanuelc.
Emanuel quer dizer: Deus está connosco. 24 Quando José acordou, fez como o anjo do Senhor lhe tinha mandado: recebeu Maria por esposa; 25 sem terem tido antes relações conjugais, Maria deu à luz o menino, a quem José pôs o nome de Jesus.
Sábios do Oriente adoram o Messias
2 1 Jesus nasceu em Belém, na região da Judeia, no tempo do rei Herodes. Depois do seu nascimento, chegaram uns sábios do Oriente a Jerusalém 2 e perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? É que nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.»
3 Quando ouviu isto, o rei Herodes ficou muito perturbado e com ele a população de Jerusalém. 4 Mandou reunir todos os chefes dos sacerdotes mais os doutores da lei e perguntou-lhes onde haveria de nascer o Messias. 5 Responderam: «Em Belém da Judeia, conforme o que o profeta escreveu: 6 Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as terras principais da Judeia, porque de ti é que há-de vir um chefe que será o pastor do meu povo de Israela.»
7 Então Herodes chamou à parte os sábios e perguntou-lhes quando é que exactamente a estrela lhes tinha aparecido. 8 Depois mandou-os a Belém com esta recomendação: «Vão, informem-se cuidadosamente acerca do menino e, quando o encontrarem, venham-me dizer para eu ir também adorá-lo.»
9 Depois de ouvirem o rei, os sábios partiram. Nisto, repararam que a estrela que tinham observado a Oriente ia adiante deles, até que parou por cima do lugar onde se encontrava o menino. 10 Ao verem a estrela, sentiram uma alegria enorme. 11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e inclinaram-se para o adorar. Depois abriram os cofres e fizeram-lhe as suas ofertas de ouro, incenso e mirra. 12 Então Deus avisou-os por meio dum sonho, para não voltarem a encontrar-se com Herodes. E eles partiram para a sua terra por outro caminho.
Fuga para o Egipto
13 Depois de se terem ido embora, um anjo do Senhor apareceu a José, num sonho, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino mais a sua mãe e foge com eles para o Egipto. Deixa-te lá estar até que eu te diga, porque Herodes vai procurar a criança para a matar.» 14 José levantou-se, tomou o menino com a sua mãe e pôs-se a caminho, de noite, para o Egipto. 15 Ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Chamei do Egipto o meu filhob.
Massacre das criancinhas
16 Quando Herodes percebeu que os sábios o tinham enganado, ficou furioso e mandou matar, em Belém e nos arredores, todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo que ele tinha apurado pelas palavras dos sábios. 17 Foi assim que se cumpriu o que o profeta Jeremias tinha dito:
18 Em Ramá se ouviu um grito,
choro amargo, imensa dor.
É Raquel a chorar os filhos;
e não quer ser consolada,
porque eles já não existemc.
Regresso do Egipto
19 Depois da morte de Herodes, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egipto, 20 e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe e volta para a terra de Israel, porque já morreram aqueles que procuravam tirar a vida ao menino.» 21 José levantou-se, tomou o menino com a sua mãe e voltou para a terra de Israel. 22 Mas, quando soube que Arquelaud reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Tendo recebido novas instruções de Deus por meio dum sonho partiu para a região da Galileia. 23 Ali fixou residência numa terra chamada Nazaré. Foi assim que se cumpriu aquilo que foi dito pelos profetas: Ele há-de chamar-se Nazarenoe.
Pregação de João Baptista
(Marcos 1,1–8; Lucas 3,1–18; João 1,19–28)
3 1 Naquele tempo apareceu João Baptista no deserto da Judeia a pregar assim: 2 «Arrependam-se, porque o reino dos céus está próximo.» 3 Foi a respeito dele que o profeta Isaías falou, quando disse: Alguém grita no deserto: preparem o caminho do Senhor e tornem direitas as suas estradasa.
4 João usava uma vestimenta de pêlo de camelo, apertada com uma cintura de couro, e alimentava-se de gafanhotos e de mel apanhado no campo. 5 Os habitantes de Jerusalém e de toda a região da Judeia, assim como do vale do Jordão, iam ter com ele. 6 Confessavam os seus pecados e ele baptizava-os no rio Jordão.
7 Quando João viu que muitos fariseus e saduceus iam ter com ele para serem baptizados, disse-lhes: «Raça de víboras! Quem vos disse que podiam escapar do castigo que se aproxima? 8 Mostrem pelo fruto das vossas acções que estão verdadeiramente arrependidos. 9 E não andem por aí a dizer: “Abraão é nosso pai!” Pois eu garanto-vos que Deus até destas pedras pode suscitar filhos de Abraão. 10 O machado já está prestes a cortar as árvores pela raiz. Toda a árvore que não der bons frutos será abatida e lançada no fogo. 11 Eu baptizo-vos em água como sinal de arrependimento. Mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu; não mereço sequer a honra de lhe levar as sandálias! Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo. 12 Tem nas mãos a pá e vai separar, na sua eira, o trigo da palha. Guardará o trigo no celeiro e queimará a palha numa fogueira que não se apaga.»
Baptismo de Jesus
(Marcos 1,9–11; Lucas 3,21–22)
13 Nessa altura Jesus deslocou-se da Galileia ao rio Jordão para ser baptizado por João Baptista. 14 Este, porém, negava-se a isso exclamando: «Sou eu quem tem necessidade de ser baptizado por ti e tu é que vens ter comigo?» 15 Mas Jesus respondeu: «Deixa lá. É bom cumprirmos deste modo toda a vontade de Deus.» E João concordou em baptizá-lo.
16 Assim que foi baptizado, Jesus saiu da água. Nesse momento, abriram-se os céus e viu o Espírito de Deus a descer do céu por cima de si, como uma pomba. 17 E uma voz do céu dizia: «Este é o meu Filho querido. Tenho nele a maior satisfaçãob!»
Jesus é tentado
(Marcos 1,12–13; Lucas 4,1–13)
4 1 Em seguida, Jesus, conduzido pelo Espírito Santo, retirou-se para o deserto a fim de ser ali tentado pelo Diabo. 2 Depois de passar quarenta dias e quarenta noites sem comer, Jesus teve fome. 3 O tentador aproximou-se dele e disse: «Se és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.» 4 Jesus respondeu: «A Sagrada Escritura diz: Não se vive só de pão, mas também de toda a palavra que vem de Deusa.»
5 Então o Diabo levou-o à cidade santa, colocou-o no ponto mais alto do templo, 6 e disse-lhe: «Se és o filho de Deus, atira-te daqui abaixo, porque diz a Escritura: Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito: eles hão-de segurar-te nas mãos para evitar que magoes os pés contra as pedrasb.»
7 «Mas a Escritura diz também: Não tentarás o Senhor teu Deusc», respondeu Jesus.
8 O Diabo levou-o ainda a um monte muito alto, mostrou-lhe dali todos os países do mundo com as suas grandezas 9 e disse: «Tudo isto te darei se de joelhos me adorares.» 10 Jesus respondeu: «Vai-te, Satanás! A Escritura diz: Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás cultod.»
11 O Diabo então deixou-o e aproximaram-se alguns anjos que começaram a servi-lo.
Jesus inicia a sua actividade na Galileia
(Marcos 1,14–15; Lucas 4,14–15)
12 Quando Jesus soube que João Baptista tinha sido preso, retirou-se para a Galileia. 13 Deixou Nazaré para ir viver em Cafarnaum, uma cidade à beira do lago nos limites de Zabulão e Neftalie. 14 Aconteceu assim para que se cumprissem estas palavras de Isaías:
15 Terras de Zabulão e de Neftali,
da beira-mar e de além do Jordão,
Galileia dos pagãos!
16 O povo mergulhado na escuridão
viu uma grande luz!
Luz que brilhou
para os que estavam na região escura da mortef.
17 Daí em diante Jesus começou a pregar: «Arrependam-se, porque o reino dos céus está a chegar.»
Primeiros companheiros de Jesus
(Marcos 1,16–20; Lucas 5,1–11)
18 Caminhava Jesus junto ao lago da Galileia quando viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e André, que andavam a lançar as redes no lago pois eram pescadores. 19 Jesus disse-lhes: «Venham comigo e eu vos farei pescadores de homens.» 20 Ambos largaram imediatamente as redes e foram com ele. 21 Um pouco mais adiante, Jesus viu outros dois irmãos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, que estavam no barco com o pai, a consertar as redes, e chamou-os. 22 Eles deixando logo o barco e o pai seguiram Jesus.
Jesus percorre a Galileia
(Lucas 6,17–19)
23 Jesus andava por toda a Galileia, ensinava nas sinagogas, pregava a boa nova do reino e curava o povo de todas as doenças e sofrimentos. 24 Ouvia-se falar dele por toda a Síria. Traziam-lhe os que sofriam de várias doenças e males, os que tinham espíritos maus, os epilépticos e os paralíticos. E Jesus curava-os a todos. 25 Acompanhava-o uma enorme multidão que vinha da Galileia, das Dez Cidades, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão.
A verdadeira felicidade
(Lucas 6,20–23)
5 1 Ao ver a multidão, Jesus subiu ao monte. Sentou-se e os seus discípulos foram para junto dele. 2 Jesus começou então a ensiná-los desta maneira:
3 «Felizes os que têm espírito de pobres,
porque é deles o reino dos céus!
4 Felizes os que choram,
porque Deus os consolará!
5 Felizes os humildes,
porque terão como herança a Terra!
6 Felizes os que têm fome e sede de ver cumprida a vontade de Deus,
porque Deus os satisfará!
7 Felizes os que usam de misericórdia para com os outros,
porque Deus os tratará com misericórdia!
8 Felizes os íntegros de coração,
porque hão-de ver Deus!
9 Felizes os que promovem a paz,
porque Deus lhes chamará seus filhos!
10 Felizes os que são perseguidos por procurarem que se cumpra a vontade de Deus,
porque é deles o reino dos céus!
11 Felizes serão quando vos insultarem, perseguirem e caluniarem,
por serem meus discípulos!
12 Alegrem-se e encham-se de satisfação porque é grande a recompensa que vos espera no céu. Pois assim também foram tratados os profetas que vos precederama.»
O sal e a luz
(Marcos 9,50; Lucas 14,34–35)
13 «Vocês são o sal do mundo. Mas se o sal perder as suas qualidades, poderá novamente salgar? Já não presta para nada, senão para se deitar fora e ser pisado por quem passa.
14 Vocês são a luz do mundo. Uma cidade situada no alto de um monte não se pode esconder. 15 Também não se acende um candeeiro para o pôr debaixo duma caixa. Pelo contrário, põe-se mas é num lugar em que alumie bem a todos os que estiverem em casab. 16 Do mesmo modo, façam brilhar a vossa luz diante de toda a gente, para que vejam as vossas boas acções e dêem louvores ao vosso Pai que está nos céus.»
A lei e o reino dos céus
17 «Não pensem que vim anular a Lei de Moisés ou o ensino dos profetas. Não vim para anular mas para dar cumprimento. 18 Saibam que enquanto o Céu e a Terra existirem, nem uma letra, nem sequer um acento se hão-de tirar da lei, sem que tudo se cumpra. 19 Por isso quem desobedecer ainda que seja a um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no reino dos céus. Mas aquele que obedecer à lei e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será tido por grande no reino dos céus. 20 Digo-vos mais: vocês não entrarão de maneira nenhuma no reino dos céus, se não cumprirem a vontade de Deus com mais fidelidade do que os doutores da lei e os fariseus.»
Reconciliação com o semelhante
(Lucas 12,57–59)
21 «Ouviram o que foi dito aos antigos: Não matarásc. E ainda: Aquele que matar alguém terá de responder em julgamento. 22 Mas eu digo-vos: Todo aquele que se irritar contra o seu semelhante terá de responder em julgamento; aquele que insultar o seu semelhante, chamando-lhe “imbecil”, será julgado pelo tribunal; e aquele que lhe chamar “estúpido” merece ir para o fogo do inferno. 23 Por isso, quando fores ao templo levar a tua oferta a Deus, e ali te lembrares que o teu semelhante tem alguma razão de queixa contra ti, 24 deixa a oferta diante do altar e vai primeiro fazer as pazes com o teu semelhante. Depois volta e apresenta a tua oferta.
25 Faz as pazes com o teu adversário enquanto vão os dois a caminho do tribunal. Senão o adversário entrega-te ao juiz, este entrega-te ao oficial de justiça e metem-te na cadeia. 26 Garanto-te que não sais de lá enquanto não pagares o último cêntimo.»
Perigo das más intenções
27 «Ouviram o que foi dito: Não cometerás adultériod. 28 Mas eu digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com más intenções já cometeu adultério no seu coração. 29 Portanto, se o teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e atira-o para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ser todo inteiro lançado no inferno. 30 De igual modo, se a tua mão direita te leva a pecar, corta-a e atira-a para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ir todo inteiro para o inferno.»
Sobre o divórcio
(Mateus 19,9; Marcos 10,11–12; Lucas 16,18)
31 «Também foi dito: Todo o homem que se divorciar da sua mulher deve passar-lhe uma declaraçãoe. 32 Mas eu digo-vos: Todo o homem que se divorciar da sua mulher, excepto no caso de adultériof, é culpado de a expor ao adultério. E o homem que casar com ela também comete adultério.»
Evitar juramentos
33 «Também ouviram o que foi dito aos antigos: Não farás juramentos falsos, mas cumprirás diante do Senhor o que jurasteg. 34 Mas eu digo-vos que não devem jurar de modo nenhum. Não jurem pelo Céu, porque é o trono de Deus; 35 nem pela Terra, porque é o estrado para os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. 36 Nem mesmo pela tua cabeça deves jurar, porque não és capaz de tornar um só dos teus cabelos branco ou preto. 37 Basta que digas sim, quando for sim, e não, quando for não. Tudo o que vai além disso é obra do Malignoh.»
Paciência e generosidade
(Lucas 6,29–30)
38 «Ouviram o que foi dito: Olho por olho e dente por dentei. 39 Mas eu digo-vos: Não resistam a quem vos fizer mal. Se alguém te bater na face direita, apresenta-lhe também a outra. 40 Se alguém te quiser levar a tribunal para te tirar a camisa, dá-lhe também o casaco. 41 Se alguém te obrigar a levar alguma coisa até a um quilómetro de distância, acompanha-o dois quilómetrosj. 42 Se alguém te pedir qualquer coisa, dá-lha; e a quem te pedir emprestado não lhe voltes as costas.»
Amor aos inimigos
(Lucas 6,27–28.32–36)
43 «Ouviram o que foi dito: Amarás o teu próximok e desprezarás o teu inimigo. 44 Mas eu digo-vos: Tenham amor aos vossos inimigos e peçam a Deus por aqueles que vos perseguem. 45 É deste modo que se tornarão filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz brilhar o Sol tanto sobre os bons como sobre os maus, e faz cair a chuva tanto para os justos como para os injustos.
46 Se amarem apenas aqueles que vos amam que recompensa poderão esperar? Não fazem também isso os cobradores de impostos? 47 E se saudarem apenas os vossos amigos, que há nisso de extraordinário? Qualquer pagão faz o mesmo! 48 Portanto, sejam perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito.»
Como dar esmola
6 1 «Quando praticarem o bem, procurem não o fazer diante dos outros para dar nas vistas. Se assim fizerem, já não terão nenhuma recompensa a receber do vosso Pai que está nos céus.
2 Portanto, quando deres esmola, não faças alarde à tua volta, como é costume das pessoas fingidas, nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiadas. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 3 Mas tu, quando deres esmola, procura que a tua mão esquerda nem saiba o que faz a direita. 4 Deste modo, a tua esmola ficará em segredo; e o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há-de recompensar-te.»
Jesus ensina a orar
(Lucas 11,2–4)
5 «Quando orarem, não façam como as pessoas fingidas que gostam de orar de pé, nas sinagogas e às esquinas das ruas, para toda a gente as vera. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 6 Tu, porém, quando quiseres fazer oração, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai que está presente sem ser visto. E o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há-de recompensar-te.
7 Quando orarem, não usem muitas palavras, como fazem os pagãos, que pensam que é por muito falarem que serão mais facilmente ouvidos. 8 Não sejam como eles pois o vosso Pai sabe muito bem do que vocês precisam, antes de lho pedirem. 9 Portanto, devem orar assim:
“Pai nosso que estás nos Céus,
Santificado seja o teu nomeb;
10 venha o teu reino;
seja feita a tua vontade,
assim na Terra como no Céu.
11 Dá-nos hoje o pão de que precisamos.
12 Perdoa-nos as nossas ofensas,
como nós perdoámos aos que nos ofenderam.
13 E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do Maligno.”
14 De facto, se perdoarem aos outros as suas ofensas, o vosso Pai celestial também vos perdoará. 15 Mas se não perdoarem aos outros, o vosso Pai também vos não perdoará.»
Acerca do jejum
16 «Quando jejuarem não andem de cara triste, como as pessoas fingidas, que até desfiguram a cara para toda a gente ver que andam a jejuar. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 17 Mas tu, quando jejuares, lava a cara e penteia-te bem. 18 Deste modo, ninguém saberá que andas a jejuar, a não ser o teu Pai que está presente sem ser visto. Ele, que vê tudo o que se passa em segredo, te dará a recompensa.»
A verdadeira riqueza
(Lucas 12,33–34)
19 «Não se preocupem em juntar riquezas neste mundo, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões assaltam e roubam. 20 Preocupem-se antes em juntar riquezas no céu, onde não há traça nem ferrugem para as destruir, nem ladrões para assaltar e roubar. 21 Onde estiver a vossa riqueza, aí estará o vosso coração.»
Luz e escuridão
(Lucas 11,34–36)
22 «A luz do corpo são os olhos. Por isso, se o teu olhar for bom, todo o teu corpo tem luz. 23 Mas se o teu olhar for mau, todo o teu corpo fica às escuras. Ora se a luz que há em ti não passa de escuridão, que grande será essa escuridão!»
Deus e as riquezas
(Lucas 16,13)
24 «Ninguém pode servir a dois patrões: ou não gosta de um deles e estima o outro, ou há-de ser leal para um e desprezar o outro. Não podem servir a Deus e ao dinheiro.»
Deus cuida dos seus filhos
(Lucas 12,22–31)
25 «É por isso que eu vos digo: Não andem preocupados com o que hão-de comer ou beber, nem com a roupa de que precisam para vestir. Não será que a vida vale mais do que a comida e o corpo mais do que a roupa? 26 Olhem para as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem amontoam grão nos celeiros. E no entanto, o vosso Pai dá-lhes de comer. Não valem vocês muito mais do que as aves? 27 Qual de vós, por mais que se preocupe, poderá prolongar um pouco o tempo da sua vidac?
28 E por que hão-de andar preocupados por causa da roupa? Reparem como crescem os lírios do campo! E eles não trabalham nem fiam. 29 Contudo digo-vos que nem o rei Salomão, com toda a sua riqueza, se vestiu como qualquer deles. 30 Ora se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada, quanto mais vos há-de vestir a vocês, ó gente sem fé?
31 Não andem preocupados a dizer: “Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?” 32 Os pagãos, esses é que se preocupam com todas essas coisas. O vosso Pai celestial sabe muito bem que vocês precisam de tudo isso. 33 Procurem primeiro o reino de Deus e a sua vontade e tudo isso vos será dado. 34 Portanto, não devem andar preocupados com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia a sua dificuldade.»
Não julgar os outros
(Lucas 6,37–38.41–42)
7 1 «Não julguem ninguém e assim Deus não vos julgará!
2 É que Deus há-de julgar-vos do mesmo modo que julgarem os outros, usando a mesma medida que usarem para os outros. 3 Por que reparas tu no cisco que está na vista do teu semelhante, e não vês a trave que está nos teus próprios olhos? 4 Como te atreves a dizer-lhe: “Deixa-me cá tirar-te isso da vista”, quando tens uma trave nos teus olhos? 5 Fingido! Tira primeiro a trave dos teus olhos e depois já vês melhor para tirares o cisco da vista do teu semelhante.
6 Não dêem aos cães o que é santo. Eles são capazes de se virar contra vocês e de vos despedaçar. Não deitem as vossas pérolas aos porcos! Pois eles vão pisá-las.»
Deus ouve a oração
(Lucas 11,9–13)
7 «Peçam e Deus vos dará; procurem e hão-de encontrar; batam à porta e ela há-de abrir-se-vos, 8 pois aquele que pede, recebe; aquele que procura, encontra; e a quem bate, a porta se abrirá. 9 Qual de vocês que seja pai seria capaz de dar uma pedra ao filho, quando este lhe pedisse pão? 10 Ou quem lhe daria uma cobra quando lhe pedisse peixe? 11 Ora se vocês, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está no céu dará coisas boas àqueles que lhas pedirem!
12 Façam aos outros tudo aquilo que desejariam que eles vos fizessem. Aqui está o essencial da lei e do ensino dos profetas.»
O caminho para a vida eterna
(Lucas 13,24)
13 «Entrem pela porta estreita! Pois é larga a porta e espaçoso o caminho que vai dar à perdição e são muitas as pessoas que para ali se encaminham. 14 Mas é estreita a porta e apertado o caminho que vai dar à vida eterna e são poucas as pessoas que o encontram.»
Os falsos profetas
(Lucas 6,43–44)
15 «Cuidado com os falsos profetas! Vêm ter convosco como se fossem ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. 16 É pelos seus frutos que os hão-de reconhecer. Porventura podem colher-se uvas das silvas ou figos dos cardos? 17 Portanto, a árvore boa dá bons frutos e a árvore má dá maus frutos. 18 Assim pois, uma árvore boa não pode dar maus frutos e uma árvore má não pode dar bons frutos. 19 Toda a árvore que não dá bons frutos corta-se e deita-se ao fogo. 20 Portanto, é pelas suas acções que poderão reconhecer os falsos profetas.»
Quem entra no reino dos céus
(Lucas 6,46; 13,25–27)
21 «Nem todos aqueles que me dizem: “Senhor, Senhor!” entrarão no reino dos céus, mas apenas os que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus. 22 Quando aquele dia chegar, haverá muitos que me hão-de dizer: “Senhor, Senhor, não profetizámos nós em teu nome? Não fizemos numerosos milagres em teu nome? Não chegámos a expulsar demónios em teu nome?” 23 Eu então hei-de declarar-lhes: “Nunca vos conheci. Afastem-se de mim, seus malfeitores!”»
Cumprir a palavra de Deus
(Lucas 6,47–49)
24 «Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática pode comparar-se ao homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. 25 Caiu muita chuva, vieram as cheias e os ventos sopraram com força contra aquela casa. Mas ela não caiu, porque os seus alicerces estavam assentes na rocha. 26 Porém, aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática pode comparar-se ao homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia. 27 Caiu muita chuva, vieram as cheias e os ventos sopraram com força contra aquela casa. Ela caiu e ficou arruinada.»
28 Quando Jesus acabou de pronunciar estas palavras, a multidão estava admirada com os seus ensinamentos. 29 É que ele ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da lei.
Cura de um homem com lepra
(Marcos 1,40–45; Lucas 5,12–16)
8 1 Ao descer do monte, Jesus foi seguido por uma grande multidão. 2 Então aproximou-se dele um homem com lepra que se ajoelhou e lhe disse: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me da lepra.» 3 Jesus estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero, fica purificado!» No mesmo instante, o homem ficou purificado da lepra. 4 Jesus então disse-lhe: «Escuta, não fales disto a ninguém. Mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece a Deus o sacrifício que Moisés ordenou, para ficarem a saber que estás curado.»
Cura do criado de um oficial romano
(Lucas 7,1–10)
5 Quando Jesus entrou em Cafarnaum aproximou-se dele um oficial do exército romano e fez-lhe este pedido: 6 «Senhor, o meu criado está de cama e sem se poder mexer, num sofrimento horrível.» 7 «Eu vou lá curá-lo», disse Jesus. 8 Mas o oficial respondeu: «Ó Senhor, eu não mereço que entres na minha casa. Basta que digas uma palavra e o meu criado ficará são. 9 Também eu tenho superiores a quem devo obediência e soldados às minhas ordens. Digo a um que vá, e ele vai. Digo a outro que venha, e ele vem. E digo ao meu criado: “faz isto”, e ele faz.» 10 Ao ouvir aquilo, Jesus ficou admirado e disse para os que o seguiam: «Fiquem sabendo que ainda não encontrei ninguém com tanta fé entre o povo de Israel. 11 Digo-vos mais: hão-de vir muitos do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa no reino dos céus com Abraão, Isaac e Jacob, 12 enquanto os herdeiros do reino serão lançados fora, na escuridão. Ali haverá choro e ranger de dentes.» 13 Em seguida Jesus disse ao oficial: «Podes ir. Seja como acreditaste.» E naquela mesma hora o doente ficou curado.
Jesus cura muitos doentes
(Marcos 1,29–34; Lucas 4,38–41)
14 Quando Jesus chegou a casa de Pedro, viu que a sogra deste estava de cama, com febre. 15 Tocou-lhe na mão e a febre passou-lhe. Ela então levantou-se e começou a servi-lo.
16 Ao cair da tarde, trouxeram a Jesus muitas pessoas com espíritos maus. Com uma palavra Jesus expulsou os espíritos maus e curou todos os que estavam doentes. 17 Assim se cumpria aquilo que disse o profeta Isaías: Ele próprio tomou as nossas fraquezas e suportou o peso das nossas doençasa.
Convite para seguir Jesus
(Lucas 9,57–62)
18 Quando Jesus viu a multidão que o rodeava, deu ordens para passar à outra margem do lago. 19 Foi então que se aproximou um doutor da lei e lhe disse: «Mestre, irei contigo para onde quer que fores.» 20 Jesus porém declarou: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde encostar a cabeça.»
21 Um dos discípulos pediu: «Senhor, deixa-me ir primeiro fazer o enterro ao meu pai.» 22 Contudo Jesus disse-lhe: «Segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus próprios mortos.»
Jesus acalma a tempestade
(Marcos 4,35–41; Lucas 8,22–25)
23 Jesus entrou no barco e os seus discípulos acompanharam-no. 24 Nisto, levantou-se no lago um temporal tão grande que as ondas encobriam o barco. Jesus, porém, dormia. 25 Os discípulos aproximaram-se dele e acordaram-no, gritando: «Senhor, salva-nos, que estamos perdidos!» 26 Jesus disse: «Por que estão com medo, homens sem fé?» Então levantou-se, deu ordens aos ventos e às ondas e fez-se uma grande calma. 27 Eles ficaram espantados e exclamavam: «Quem é este afinal, que até os ventos e as ondas lhe obedecem?!»
Cura de dois homens com espíritos maus
(Marcos 5,1–20; Lucas 8,26–39)
28 Jesus chegou à região dos gadarenos, do outro lado do lagob. Vieram ao seu encontro, saindo dos sepulcros, dois homens possuídos de espíritos maus. Os homens eram tão perigosos que ninguém se atrevia a passar por aquele caminho. 29 De repente, desataram a gritar: «Que é que tu queres de nós, Filho de Deus? Vieste cá para nos atormentar antes do tempo?»
30 Ora a uma certa distância dali, andava a pastar uma grande quantidade de porcosc. 31 Então os espíritos maus fizeram a Jesus este pedido: «Se nos vais expulsar, manda-nos para aquela vara de porcos.» 32 Jesus permitiu: «Vão!» E eles saíram e foram para os porcos que se puseram todos a correr pelo monte abaixo e afogaram-se no lago.
33 Os que andavam a guardar os animais fugiram e foram à cidade contar o que tinha acontecido aos dois homens com espíritos maus. 34 Então toda a gente da cidade foi ter com Jesus. Quando o viram, pediram-lhe para se ir embora daquela região.
Cura de um paralítico
(Marcos 2,1–12; Lucas 5,17–26)
9 1 Jesus entrou num barco, atravessou o lago e foi para a sua cidadea. 2 Trouxeram-lhe então um paralítico deitado numa enxerga. Ao ver a fé daqueles homens disse ao paralítico: «Coragem, meu filho! Os teus pecados estão perdoados.» 3 Nisto, alguns doutores da lei começaram a dizer para consigo: «Este homem está a ofender a Deus!» 4 Jesus percebeu-lhes os pensamentos e questionou-os: «Por que é que estão a pensar mal no vosso íntimo? 5 O que será mais fácil? Dizer: “Os teus pecados estão perdoados”, ou dizer: “Levanta-te e anda?” 6 Ficam pois a saber que o Filho do Homem tem poder na Terra para perdoar pecados.» E disse ao paralítico: «Levanta-te, pega na tua enxerga e vai para casa.» 7 O homem levantou-se e foi para casa. 8 Ao ver aquilo, a multidão ficou impressionada e louvava a Deus que deu tão grande poder aos homens.
Jesus chama Mateus
(Marcos 2,13–17; Lucas 5,27–32)
9 Quando Jesus ia a sair dali, viu um homem sentado no posto de cobrança de impostos. O seu nome era Mateus. Jesus chamou-o: «Segue-me.» Ele levantou-se e foi com Jesus. 10 Jesus estava sentado à mesa em casa de Mateus e vieram muitos outros cobradores de impostos e mais gente pecadora sentar-se à mesa com ele e os discípulos. 11 Ao verem isso, os fariseus perguntavam aos discípulos: «Por que é que o vosso Mestre se senta à mesa com os cobradores de impostos e gente pecadorab?» 12 Jesus ouviu isso e explicou: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os que estão doentes. 13 Vão aprender o que significam estas palavras da Escritura: Prefiro a misericórdia e não os sacrifíciosc. Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores.»
A questão do jejum
(Marcos 2,18–22; Lucas 5,33–39)
14 Naquela ocasião, os discípulos de João Baptista aproximaram-se de Jesus com esta pergunta: «Por que é que nós e os fariseus jejuamos muitas vezes, e os teus discípulos não jejuam?» 15 Jesus esclareceu-os: «Acham que os convidados para um casamento se podem apresentar de luto enquanto o noivo está com eles? Lá virá o tempo em que o noivo lhes será tirado. Nessa altura jejuarão.
16 Ninguém cose um remendo de tecido novo em roupa velha, porque o remendo novo repuxa o tecido velho e fica um rasgão ainda maior. 17 Do mesmo modo, ninguém deita vinho novo em vasilhas velhas, porque o vinho rebenta-as, perdendo-se assim o vinho e as vasilhas. Portanto, o vinho novo deve ser metido em vasilhas novas e assim se conservam ambas as coisas.»
Ressurreição de uma menina e cura de uma doente
(Marcos 5,21–43; Lucas 8,40–56)
18 Ainda Jesus lhes estava a dizer estas coisas, quando chegou um dirigente da sinagoga que se ajoelhou diante dele a pedir: «A minha filha acaba mesmo agora de morrer. Mas vem, põe a tua mão sobre ela, e viverá.» 19 Jesus levantou-se e seguiu-o com os seus discípulos. 20 Nisto, uma mulher, que havia doze anos sofria duma doença que a fazia perder sangue, aproximou-se por detrás de Jesus e tocou-lhe na ponta do manto. 21 Ela pensava consigo: «Se eu conseguir ao menos tocar-lhe na roupa, ficarei curada.» 22 Jesus voltou-se, olhou para ela e disse: «Coragem, minha filha! A tua fé te salvou!» E desde aquele momento a mulher ficou curada.
23 Quando Jesus chegou a casa do dirigente da sinagoga e viu os tocadores de flautad e a multidão que gritava, 24 mandou: «Saiam daqui para fora, que a menina não está morta, está só a dormir.» E começaram a fazer troça dele. 25 Quando aquela gente toda foi posta fora, Jesus entrou, pegou na mão da menina e ela levantou-se. 26 A notícia deste acontecimento espalhou-se por toda a região.
Jesus cura dois cegos
27 Ao sair daquele lugar, houve dois cegos que foram atrás de Jesus, gritando: «Filho de David tem piedade de nós!» 28 Quando Jesus ia a entrar em casa, os dois cegos aproximaram-se dele e Jesus perguntou-lhes: «Vocês acreditam que eu tenho poder para vos fazer isso?» Responderam eles: «Sim, Senhor, acreditamos!» 29 Então Jesus tocou-lhes nos olhos e disse: «Pois seja feito conforme a vossa fé!» 30 E os dois cegos ficaram a ver. Jesus recomendou-lhes em tom severo: «Olhem que ninguém deve saber disto!» 31 Eles, porém, saindo dali começaram a falar dele por toda a região.
Cura de um mudo
32 Na altura em que os dois cegos se foram embora, trouxeram a Jesus um mudo possuído dum espírito mau. 33 Jesus expulsou o espírito mau e o mudo pôs-se a falar. A multidão ficou muito admirada e dizia: «Nunca se viu uma coisa assim em Israel!» 34 Os fariseus, porém, diziam: «É pelo poder do chefe dos demónios que ele expulsa os demónios.»
Poucos trabalhadores para a colheita
35 Jesus andava por todas as cidades e aldeias, ensinava nas sinagogas, anunciava a boa nova do reino de Deus e curava toda a espécie de doenças e males. 36 Ao ver a multidão, Jesus sentiu imensa compaixão, porque andavam desorientados e perdidos como ovelhas que não têm pastor. 37 Disse então aos discípulos: «A colheita é abundante, mas os trabalhadores são poucos. 38 Peçam ao dono da seara que mande mais trabalhadores para a sua colheita.»
Os doze apóstolos
(Marcos 3,13–19; Lucas 6,12–16)
10 1 Chamando para junto de si os seus doze discípulos, Jesus deu-lhes poder para expulsarem espíritos maus e curarem toda a espécie de doenças e males. 2 São estes os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e seu irmão André; Tiago e seu irmão João, filhos de Zebedeu; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, do partido dos Nacionalistas, e Judas Iscariotes, aquele que atraiçoou Jesus.
Jesus envia os apóstolos
(Marcos 6,7–13; Lucas 9,1–6)
5 Jesus enviou estes doze dando-lhes as seguintes instruções: «Não se desviem para o caminho dos pagãos, nem entrem em qualquer cidade dos samaritanosa. 6 Vão antes ter com as ovelhas perdidas do povo de Israel. 7 Pelo caminho anunciem que o reino dos céus está a chegar. 8 Curem os que estão doentes, purifiquem os leprosos, ressuscitem os mortos e expulsem os espíritos maus. Receberam de graça, dêem de graça. 9 Não procurem ouro, prata ou cobre para levar nos bolsos. 10 Não levem saco de viagem, nem muda de roupa, nem calçado, nem cajado. O trabalhador tem direito ao seu sustento.
11 Quando chegarem a qualquer cidade ou aldeia, procurem uma pessoa de confiança e fiquem em sua casa até se irem embora. 12 Ao entrarem numa casa cumprimentem os presentes com saudações de pazb. 13 Se os daquela casa forem dignos dela, que a vossa paz fique com eles; se não forem dignos, que volte para vocês. 14 Se nalguma casa ou cidade não vos receberem, nem derem ouvidos às vossas palavras, quando saírem daquela casa ou daquela cidade sacudam o pó dos vossos pésc. 15 Garanto-vos que no dia do juízo, a gente de Sodoma e Gomorrad será tratada com menos dureza do que o povo dessa terra.»
Sofrimentos e perseguições dos apóstolos
(Marcos 13,9–13; Lucas 21,12–17)
16 «Eu vos envio como ovelhas para o meio dos lobos. Portanto, sejam cautelosos como as serpentes e simples como as pombas. 17 Tenham muito cuidado! Haverá homens que vos levarão aos tribunais e vos hão-de espancar nas suas sinagogas. 18 Vão ter que comparecer diante de governadores e de reis, por minha causa. Aí darão testemunho de mim, a eles e aos pagãos. 19 Quando vos entregarem às autoridades não se preocupem como hão-de falar, nem com o que hão-de dizer. Nessa altura, Deus vos dará as palavras, 20 pois não serão vocês a falar, mas sim o Espírito de Deus, vosso Pai, que falará por vosso intermédio.
21 Haverá irmãos que hão-de entregar os seus próprios irmãos à morte, e pais que hão-de entregar os próprios filhos. E haverá filhos que se hão-de revoltar contra os pais e os hão-de matar. 22 Serão odiados por toda a gente por minha causa, mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.
23 Quando vos perseguirem numa cidade, fujam para outra. Garanto-vos que o Filho do Homem há-de vir antes de terem ido a todas as cidades de Israel.
24 Nenhum discípulo está acima do seu mestre, nem um servo está acima do seu senhor. 25 Basta ao discípulo que venha a ser como o seu mestre e ao servo como o seu senhor. Ora se ao dono da casa já chamaram Belzebu, que nomes não hão-de chamar aos outros membros da família!»
A quem devemos temer
(Lucas 12,2–7)
26 «Não tenham medo deles! Não há nada encoberto que não venha a descobrir-se, nem há nada escondido que não venha a saber-se. 27 O que eu vos digo em segredo, digam-no à luz do dia, e aquilo que vos é dito ao ouvido, apregoem-no em cima nos telhados. 28 Também não devem ter medo dos que matam o corpo mas não podem matar a alma. Temam antes a Deus que pode fazer perder tanto o corpo como a alma no inferno. 29 Não se vendem dois pássaros por uma moeda? No entanto, nem um só deles cai ao chão sem o vosso Pai querer. 30 Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados! 31 Não tenham medo! Vocês valem mais do que muitos pássaros.»
Aceitar ou negar Cristo
(Lucas 12,8–9)
32 «Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu farei o mesmo por ele diante do meu Pai que está nos céus. 33 Mas àquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.»
Jesus, motivo de divisão
(Lucas 12,51–53; 14,26–27)
34 «Não pensem que vim trazer a paz à Terra. Não vim trazer a paz, mas a guerra. 35 Vim, de facto, trazer a divisão entre filho e pai, filha e mãe, nora e sogra: 36 os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria famíliae.
37 Aquele que amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; e o que amar o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. 38 Aquele que não pegar na sua cruz e não me seguir, não é digno de mim. 39 Aquele que pensa que tem a sua vida segura, perde-a, mas aquele que perder a sua vida por minha causa é que a tem segura.»
Recompensas por fazer bem
(Marcos 9,41)
40 «Quem vos receber é a mim que recebe, e quem me receber recebe aquele que me enviou. 41 Quem receber um profeta, por ser profeta, terá uma recompensa de profeta; e quem receber um justo, por ser justo, terá a recompensa de justo. 42 E aquele que der um simples copo de água fresca a um dos mais pequeninos destes meus discípulos, por ser meu discípulo, garanto-vos que não ficará sem a sua recompensa.»
Resposta de Jesus aos discípulos de João Baptista
(Lucas 7,18–23)
11 1 Depois de ter dado estas instruções aos seus doze discípulos, Jesus saiu dali para ir ensinar e pregar nas povoações da região.
2 Quando João Baptista, que estava na prisão, ouviu falar das obras de Cristo, enviou-lhe alguns dos seus discípulos com esta pergunta: 3 «És tu aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?» 4 Jesus deu-lhes esta resposta: «Vão contar a João aquilo que vêem e ouvem: 5 os cegos vêem, os coxos andam, os que têm lepra são curados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres é anunciada a boa nova. 6 Feliz aquele que não achar em mim motivo de escândalo.»
Jesus fala de João Baptista
(Lucas 7,24–35)
7 Depois de os discípulos de João se terem ido embora, Jesus começou a falar a respeito dele ao povo: «O que é que foram ver no deserto? Uma cana abanada pelo vento? 8 Que é que lá foram ver? Um homem vestido de roupas finas? Bem sabem que os que se vestem de roupas finas estão nos palácios dos reis. 9 Mas, afinal, que é que lá foram ver? Um profeta? Sim! E também vos digo: ele é mais do que um profeta. 10 Pois é aquele de quem as Escrituras dizem: Enviarei o meu mensageiro à tua frente para te preparar o caminhoa.
11 E fiquem sabendo isto: entre os homens não houve ninguém maior do que João Baptista. No entanto, o mais pequeno no reino dos céus é maior do que ele. 12 Desde o tempo de João Baptista até hoje, o reino dos céus tem sido assaltado com violência e os violentos procuram apoderar-se dele. 13 Com efeito, até ao tempo de João, tudo isso foi anunciado pela Lei de Moisés e pelos profetas. 14 Podem acreditar que é ele o Elias que havia de vir. 15 Quem tem ouvidos, preste atenção!»
16 Jesus disse ainda: «Com quem hei-de comparar as pessoas desta geração? São semelhantes às crianças que estão na rua e dizem umas para as outras:
17 “Tocámos flauta e vocês não dançaram!
Cantámos coisas tristes e não choraram!”
18 Realmente apareceu João, que jejuava e não bebia vinho, e dizem logo que tinha o Demónio com ele. 19 Depois veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem dele: “Olhem para este homem! Come bem, bebe melhor e é amigo de cobradores de impostos e de outra gente pecadora.” Mas a sabedoria de Deus só se mostra pelas obras que produz.»
As cidades rebeldes
(Lucas 10,13–15)
20 Jesus começou então a censurar as cidades em que tinha realizado a maior parte dos seus milagres, porque os seus habitantes não se tinham arrependido. 21 Dizia ele: «Ai de ti, Corazin! Ai de ti, Betsaidab! Se os milagres que em ti se fizeram tivessem sido efectuados nas cidades de Tiro e Sídonc, há muito que os seus habitantes se tinham arrependido, vestindo-se de luto e com cinza na cabeça. 22 Por isso vos digo: no dia do juízo, Tiro e Sídon serão tratadas com menos dureza do que vocês. 23 E tu, Cafarnaum, querias elevar-te até ao céu? Pois serás rebaixada até ao inferno.
E se os milagres que em ti se fizeram tivessem acontecido em Sodoma, essa cidade ainda hoje existiria. 24 Eu porém vos digo que no dia do juízo os habitantes de Sodoma serão tratados com menos dureza do que tu, Cafarnaum.»
Deus revela-se aos humildes
(Lucas 10,21–22)
25 Naquele momento, Jesus exclamou: «Agradeço-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque revelaste aos simples estas coisas que tinhas escondido aos sábios e entendidos. 26 Sim, Pai, agradeço-te, por ter sido essa a tua vontade. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
28 Venham ter comigo todos os que andam cansados e oprimidos e eu vos darei descanso. 29 Aceitem o meu jugo e aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração. Assim o vosso coração encontrará descanso, 30 pois o meu jugo é agradável e os meus fardos são leves.»
Jesus e o sábado
(Marcos 2,23–28; Lucas 6,1–5)
12 1 Por aquela altura, Jesus atravessava umas searas durante o sábado. E como os discípulos sentiam fome, começaram a arrancar espigas para comer. 2 Os fariseus, ao repararem nisso, chamaram a atenção de Jesus: «Olha que os teus discípulos estão a fazer aquilo que a lei não permite fazer ao sábado.» 3 Jesus respondeu-lhes: «Não leram o que David fez quando ele e os seus companheiros estavam com fome? 4 Entrou na casa de Deus com os seus homens e comeram os pães consagrados. E não lhes era permitido fazer aquilo, mas apenas aos sacerdotes. 5 Não leram também na lei que aos sábados, no templo, os sacerdotes quebram a lei do descanso e, no entanto, ficam sem culpa? 6 Pois eu vos digo: o que está aqui é maior do que o templo. 7 Se percebessem o que significa na Escritura: prefiro misericórdia e não sacrifíciosa, não teriam condenado inocentes. 8 Com efeito, o Filho do Homem é senhor do próprio sábado.»
Um homem com a mão paralítica
(Marcos 3,1–6; Lucas 6,6–11)
9 Jesus saiu dali e entrou na sinagoga deles. 10 Estava lá um homem que tinha uma das mãos paralítica. Alguns, querendo arranjar motivo para acusar Jesus, perguntaram-lhe: «Será que a nossa lei permite curar pessoas ao sábado ou não?» 11 Jesus respondeu assim: «Se um de vós tiver uma ovelha e ela cair num poço ao sábado, não vai logo tirá-la de lá? 12 Quanto mais não vale um homem do que uma ovelha? Por isso é permitido fazer bem ao sábado.» 13 Em seguida dirigiu-se ao homem da mão paralítica: «Estende a tua mão.» Ele estendeu-a e ficou restabelecida e sã como a outra. 14 Então os fariseus saíram dali e foram fazer planos para ver como haviam de o matar.
O escolhido de Deus
15 Quando Jesus teve conhecimento disso, afastou-se dali e muita gente o seguiu. Curou todos os enfermos 16 e deu-lhes ordens para que não fizessem propaganda dele. 17 Assim se cumpriu o que foi dito por meio do profeta Isaías:
18 Este é o meu servo, a quem eu escolhi,
o meu predilecto, no qual tenho a maior satisfação.
Porei nele o meu Espírito
e ele anunciará a minha vontade aos povos.
19 Não criará conflitos, nem gritará,
nem fará ouvir a sua voz nas ruas.
20 Não quebrará a cana pisada,
nem apagará o pavio que ainda fumega,
até fazer com que a justiça alcance a vitória.
21 É nele que os povos hão-de pôr a sua esperançab.
Jesus e Satanás
(Marcos 3,20–30; Lucas 11,14–23; 12,10)
22 Trouxeram a Jesus um possesso cego e mudo. Jesus curou-o e o homem ficou a ver e a falar. 23 Toda a gente perguntava muito admirada: «Não será este o Filho de David?» 24 Mas os fariseus, ao ouvirem isto, afirmavam: «É pelo poder de Belzebuc, chefe dos demónios, que este expulsa os demónios.» 25 Jesus percebendo o que estavam a pensar, disse-lhes: «Um reino dividido em grupos que lutem entre si acaba por se arruinar. Do mesmo modo, uma cidade ou uma família dividida não se mantém de pé. 26 Ora se Satanás expulsa Satanás está em luta contra si mesmo. Como poderá então o seu reino manter-se? 27 Se eu expulso os espíritos maus pelo poder de Belzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Por isso são eles que hão-de acusar-vos do vosso erro. 28 Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os espíritos maus, isto quer dizer que o reino de Deus já aqui chegou.
29 Como pode alguém entrar em casa dum homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar? Só assim lhe poderá roubar a casa.
30 Quem não está comigo está contra mim, e quem comigo não junta, espalha. 31 Portanto, digo-vos: qualquer pecado e palavra ofensiva contra Deus poderão ser perdoados aos homens. Mas a palavra ofensiva contra o Espírito Santo não será perdoada. 32 Quem disser alguma coisa contra o Filho do Homem poderá ser perdoado, mas quem disser alguma coisa ofensiva contra o Espírito Santo, não será perdoado, nem neste mundo nem no outro.»
A árvore e os seus frutos
(Lucas 6,43–45)
33 «Se plantarem uma árvore boa, o seu fruto será bom. Se plantarem uma árvore má, o fruto será mau. Pois é pelo fruto que se conhece a árvore. 34 Raça de víboras! Como poderão vocês dizer coisas boas se são maus? Cada qual fala daquilo que tem no coração. 35 O homem bom tira coisas boas do tesouro da sua bondade e o homem mau tira coisas más da sua maldade. 36 Digo-vos que no dia do juízo cada um terá de dar contas a Deus por toda a palavra inútil que tenha dito. 37 É pelas tuas palavras que no dia do juízo Deus te há-de declarar inocente ou culpado.»
Jesus, sinal de Deus
(Marcos 8,11–12; Lucas 11,29–32)
38 Em dado momento, alguns doutores da lei e fariseus fizeram este pedido a Jesus: «Mestre, queríamos ver-te fazer um sinal milagroso.» 39 Jesus respondeu-lhes: «Esta geração má e infiel procura um sinal milagroso de Deus! Pois bem, não lhe será dado outro sinal senão o do profeta Jonas. 40 Assim como Jonas esteve três dias e três noites dentro do grande peixe, assim o Filho do Homem há-de estar três dias e três noites dentro da terra. 41 No dia do juízo, os habitantes de Nínived hão-de levantar-se contra esta geração para a condenar. É que eles, quando ouviram a pregação de Jonas, arrependeram-se. Ora o que está aqui é maior do que Jonas! 42 Também a rainha do Sul se há-de levantar, no dia do juízo, contra a gente deste tempo para a condenar, porque ela veio lá do fim do mundo para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora o que está aqui é maior do que Salomão!»
Regresso do espírito mau
(Lucas 11,24–26)
43 «Quando um espírito mau sai duma pessoa anda por lugares secos à procura de repouso, mas não o encontra. 44 Então diz: “Volto para a minha casa, donde saí.” Ao chegar lá, encontra a casa vaga, limpa e bem arranjada. 45 Então vai buscar outros sete espíritos piores do que ele e vão todos para lá viver. Deste modo, a situação daquela pessoa torna-se pior do que era antes. É precisamente assim que vai acontecer a esta geração má.»
A família de Jesus
(Marcos 3,31–35; Lucas 8,19–21)
46 Enquanto Jesus estava ainda a falar à multidão, chegaram sua mãe e seus irmãos. Ficaram do lado de fora e procuravam maneira de lhe falar. 47 Então alguém veio dizer: «Olha que a tua mãe e os teus irmãos estão ali fora e querem falar contigoe.» 48 Jesus disse à pessoa que lhe foi dar o recado: «Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?» 49 Depois apontou para os discípulos: «Aqui está a minha mãe e os meus irmãos! 50 Aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»
A parábola do semeador
(Marcos 4,1–9; Lucas 8,4–8)
13 1 Naquele mesmo dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira do lago. 2 A gente que se juntou à volta era tanta que ele subiu para um barco. Sentou-se e toda a multidão se mantinha na praia. 3 E ensinava muitas coisas por meio de parábolas como esta:
«Andava uma vez um homem a semear. 4 Ao lançar a semente, parte dela caiu à beira do caminho e os pássaros vieram e comeram-na. 5 Outra caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. Rompeu depressa porque o terreno era pouco fundo. 6 Mas quando veio o sol queimou as plantas, porque não tinham raízes. 7 Outra parte da semente caiu entre espinhos, que cresceram e abafaram as plantas. 8 Outra parte, porém, caiu em boa terra e deu fruto à razão de cem, de sessenta e de trinta grãos por semente.» 9 Jesus acrescentou: «Quem tem ouvidos, preste atenção!»
Razão das parábolas
(Marcos 4,10–12; Lucas 8,9–10)
10 Então os discípulos foram perguntar a Jesus: «Por que é que lhes falas por meio de parábolas?» 11 Ele respondeu: «Deus concedeu-vos o privilégio de conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não. 12 Àquele que já tem alguma coisa, Deus lhe dará mais até que lhe sobre. Mas àquele que não tem nada, até o pouco que tem lhe será tirado. 13 É por isso que a eles eu falo por meio de parábolas, porque olham mas não vêem, ouvem mas não entendem nem percebem. 14 Deste modo se cumpre neles aquela profecia de Isaías que diz:
Ouçam e tornem a ouvir
que nada conseguirão perceber,
olhem e tornem a olhar
que nada hão-de ver.
15 É que o entendimento desta gente está fechado.
Têm os ouvidos duros e os olhos tapados.
Doutro modo, talvez tivessem olhos para ver
e ouvidos para ouvir.
Talvez o seu entendimento se abrisse
e voltassem para mim
e eu os curariaa.
16 Felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem. 17 Posso garantir-vos que muitos profetas e justos desejaram ver o que vocês vêem e não viram, e ouvir o que vocês ouvem e não ouviram.»
Jesus explica a parábola do semeador
(Marcos 4,13–20; Lucas 8,11–15)
18 «Ouçam agora o que significa a parábola do semeador: 19 Todos aqueles que ouvem a palavra do reino e não entendem são como a semente que caiu à beira do caminho. Vem o Diabo e tira-lhes o que foi semeado no coração. 20 A semente que caiu no terreno pedregoso representa os que ouvem a boa nova e a recebem com alegria. 21 Mas dura pouco porque não têm raízes. Quando vêm os sofrimentos e as perseguições por causa da boa nova, não aguentam. 22 A semente que caiu entre os espinhos representa aqueles que ouvem a boa nova, mas as preocupações desta vida e a ilusão das riquezas sufocam-na logo e o fruto não aparece. 23 Mas a semente que caiu em boa terra representa os que recebem a boa nova e a compreendem. Esses dão realmente fruto, uns à razão de cem, outros de sessenta e outros de trinta por cada grão.»
A parábola do trigo e do joio
24 Jesus apresentou-lhes outra parábola: «O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Mas enquanto toda a gente dormia, veio o inimigo desse homem, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. 26 Quando as plantas cresceram e se começaram a formar as espigas, apareceu também o joio. 27 Então os trabalhadores desse homem foram ter com ele e perguntaram-lhe: “Senhor, não foi boa semente que semeaste no teu campo? Como é que apareceu este joio?” 28 “Foi um inimigo que fez isso”, respondeu ele. Os trabalhadores tornaram a perguntar-lhe: “Queres que vamos lá arrancar o joio?” 29 Mas ele replicou: “Não, porque ao arrancarem o joio são capazes de arrancar também o trigo. 30 Deixem-nos crescer os dois até ao tempo da ceifa. Nessa altura direi aos ceifeiros: Apanhem primeiro o joio e atem-no em feixes para ser queimado no fogo, mas recolham o trigo para o meu celeiro.”»
A parábola do grão de mostarda
(Marcos 4,30–32; Lucas 13,18–19)
31 Apresentou-lhes ainda outra parábola: «O reino dos céus é como um grão de mostarda que alguém semeou no seu campo. 32 Esta é a mais pequena das sementes. Mas quando a planta cresce é a maior de todas. Chega mesmo a ser uma árvore e até os pássaros vão fazer ninho nos seus ramos.»
A parábola do fermento
(Lucas 13,20–21)
33 Jesus expôs-lhes ainda outra parábola: «O reino dos céus é como o fermento que uma mulher misturou em três medidas de farinha e assim fez levedar toda a massa.»
Razão do ensino por parábolas
(Marcos 4,33–34)
34 Jesus serviu-se de parábolas para dizer todas estas coisas à multidão. E só lhes falava por meio de parábolas. 35 Assim se cumpria o que tinha dito o profeta:
Hei-de falar por meio de parábolas,
direi coisas que estavam escondidas
desde o princípio do mundob.
Jesus explica a parábola do trigo e do joio
36 Então Jesus deixou a multidão e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se dele e pediram: «Explica-nos o que significa a parábola do joio no campo.» 37 Jesus esclareceu-os assim: «Aquele que semeou a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são as pessoas que pertencem ao reino de Deus. O joio são os filhos do Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o Diabo. A ceifa é o fim deste mundo e os ceifeiros são os anjos. 40 Ora assim como o joio se junta e se queima no fogo, assim vai ser no fim do mundo: 41 o Filho do Homem mandará os seus anjos e eles retirarão do seu reino todos os que levam os outros a pecar e todos os que praticam o mal, 42 para os lançarem na fornalha. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então os justos de Deus brilharão como o Sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos preste atenção!»
A parábola do tesouro escondido e a pérola preciosa
44 E continuou: «O reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Quando alguém o encontra volta a escondê-lo. E, cheio de alegria, vai vender tudo quanto tem e compra o campo.
45 O reino dos céus pode também comparar-se a um comerciante que anda à procura de pérolas de boa qualidade. 46 Quando encontra uma pérola de muito valor vai vender tudo o que tem e compra-a.»
Rede lançada ao mar
47 «O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que se lança ao mar e apanha toda a espécie de peixes. 48 Quando já está cheia, os pescadores puxam-na para a praia e sentam-se a escolher o peixe: o que é bom deitam-no em cestos, e atiram fora o que não presta. 49 Assim vai acontecer no fim deste mundo: os anjos sairão para separar as pessoas más das boas, 50 lançando as más na fornalha. Ali haverá choro e ranger de dentes.»
Coisas novas e velhas
51 Jesus perguntou então aos discípulos: «Compreenderam todas estas coisas?» Eles responderam: «Compreendemos, sim.» 52 Então Jesus continuou: «Portanto, todo o doutor da lei que aceita a doutrina do reino dos céus é semelhante ao chefe de família que sabe tirar dos tesouros que tem coisas novas e velhas.»
Jesus é mal recebido em Nazaré
(Marcos 6,1–6; Lucas 4,16–30)
53 Quando Jesus acabou de lhes apresentar estas parábolas retirou-se dali. 54 Foi para a sua terra e começou a ensinar o povo na sinagoga deles. Os que o ouviam diziam admirados: «Donde lhe vem a sabedoria e o poder de fazer milagres? 55 Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria a sua mãe? E não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? 56 Não vivem cá também todas as suas irmãs? Donde lhe vem então tudo isto?» 57 Por essa razão não queriam nada com ele. Mas Jesus lembrou-lhes: «Nenhum profeta é desprezado a não ser na sua terra e no meio da sua família.» 58 E por causa da falta de fé deles, Jesus não fez ali muitos milagres.
Morte de João Baptista
(Marcos 6,14–29; Lucas 9,7–9)
14 1 Naquele tempo, Herodes, o governador da Galileia, ouviu falar de Jesus 2 e disse aos subordinados que estavam com ele: «Este homem é João Baptista; ele ressuscitou dos mortos e por isso é que tem poder para fazer os milagres que faz.»
3 De facto, Herodes tinha mandado prender João e tinha-o metido na cadeia. Fez isso por causa de Herodias, esposa de seu irmão Filipe. 4 É que João avisava constantemente Herodes: «Não tens o direito de viver com ela.» 5 Herodes queria matá-lo, mas tinha medo do povo porque todos consideravam João como um profeta. 6 Ora no dia dos anos de Herodes, a filha de Herodias dançou diante de todos e agradou muito a Herodes. 7 Este jurou dar-lhe tudo o que ela pedisse. 8 Então ela, pressionada pela mãe, fez este pedido: «Dá-me agora mesmo, numa bandeja, a cabeça de João Baptista.» 9 O rei ficou triste, mas por causa do juramento e dos convidados ordenou que lhe fosse dada 10 e mandou alguém à cadeia cortar a cabeça de João. 11 Trouxeram-na numa bandeja e deram-na à rapariga, que a foi levar à mãe. 12 Os discípulos de João foram buscar o corpo e sepultaram-no. Depois levaram a notícia a Jesus.
Jesus dá de comer a uma multidão
(Marcos 6,30–44; Lucas 9,10–17; João 6,1–14)
13 Quando Jesus recebeu aquela notícia, retirou-se de barco e foi sozinho para um lugar isolado. Mas a multidão, ao saber disso, deixava as suas povoações e seguia-o por terra. 14 Assim, quando Jesus desembarcou viu uma multidão enorme. Sentiu-se comovido com aquela gente e curou todos os doentes que havia entre eles.
15 Ao entardecer, os discípulos foram ter com ele e disseram-lhe: «Já é muito tarde e este sítio aqui é isolado. Manda esta multidão embora para que vão às aldeias comprar alguma coisa para comer.» 16 Porém, Jesus observou: «Não há necessidade de eles se irem embora. Dêem-lhes vocês de comer!» 17 Os discípulos responderam: «Mas olha que só temos aqui cinco pães e dois peixes!» 18 «Tragam-mos cá», disse Jesus. 19 E deu ordens para que a multidão se sentasse na relva. Depois pegou nos cinco pães e nos dois peixes, levantou os olhos para o céu e deu graças a Deus. Partiu os pães, deu-os aos discípulos e os discípulos distribuíram-nos pela multidão. 20 Todos comeram até ficarem satisfeitos. E, com os bocados que sobejaram, encheram-se doze cestos. 21 O número dos homens que comeram andava por volta de cinco mil, não contando as mulheres e as crianças.
Jesus caminha por cima da água
(Marcos 6,45–52; João 6,16–21)
22 Logo a seguir, Jesus mandou os discípulos entrar no barco e disse-lhes para irem à frente, para a outra banda do lago, enquanto se despedia da multidão. 23 Depois subiu sozinho ao monte para orar. Quando anoiteceu, ainda lá estava sozinho. 24 Entretanto, a embarcação estava já bastante longe da terra e ia sendo batida pelas ondas, porque o vento era contrário. 25 De madrugada, Jesus foi então ter com os discípulos caminhando por cima da água. 26 Quando eles o viram a caminhar por cima da água, ficaram

Paloma 16/11/2014 13:35 0 0

Introdução — Desde os tempos mais antigos, a tradição vai no sentido de considerar que o autor deste Evangelho foi um dos primeiros discípulos de Jesus; seria aquele cobrador de impostos, tornado discípulo, que é chamado Mateus em Mateus 9,9 e Levi em Marcos 2,14. Pensa-se que o discípulo Mateus poderia ter recolhido em aramaico alguns ditos e feitos de Jesus, tendo mais tarde escrito o texto actual deste Evangelho, numa altura em que já dispunha de outros Evangelhos, nomeadamente o de Marcos, escrito em grego, que o podem ter ajudado na nova escrita. Este livro terá sido escrito depois do ano 70.
É provável que tenha tido como principais destinatários igrejas de origem judaica com uma forte ligação ao seu património religioso tradicional, mas que já não parecem identificar-se com o judaísmo, uma vez que este se recusou a acolher Jesus com as características de Messias que este Evangelho sublinha.
O Evangelho segundo Mateus caracteriza-se por uma particular sensibilidade a questões que têm a ver com o judaísmo. Os temas tradicionais da religião hebraica bíblica, as suas personagens antigas mais marcantes e os confrontos com vários grupos que representam o judaísmo contemporâneo de Jesus aparecem neste Evangelho com algum destaque. A longa genealogia de antepassados sublinha as raízes de Jesus no interior do povo hebraico, indo até Abraão e sublinhando a maneira como Jesus articula toda a história do povo de Deus, uma vez que quatro ciclos de catorze gerações conduzem directamente de Abraão, por David e pelo exílio da Babilónia até Jesus. Tal como acontece na genealogia, também no resto deste Evangelho são constantes as referências aos temas do Antigo Testamento. A infância de Jesus e outras referências da sua vida pública, nomeadamente o modo como ensina e a autoridade que revela, fazem dele um novo Moisés; a nova Torá é o seu ensino que inaugura o Reino de Deus. Valoriza e interpreta os textos proféticos para demonstrar que Jesus é o Messias esperado pelo povo, aquele que iria realizar as promessas feitas através dos séculos de história hebraica. A autoridade de Jesus tanto assenta na capacidade de declarar verdades novas como na reinterpretação de verdades que vinham da Escritura. Por isso é tão frequente encontrar citações do Antigo Testamento ao longo deste Evangelho.
Os ensinamentos de Jesus são apresentados ao longo da sua vida pública, em cinco secções, sendo cada uma delas dominada por um grande discurso:
— O sermão da montanha: 5—7.
— Instruções aos doze discípulos sobre a sua missão: 10.
— As parábolas do reino: 13.
— Ensinamentos sobre a vida dos cristãos neste mundo: 18.
— O fim da vida presente e a vinda do reino de Deus: 24—25.
Este evangelho pode sintetizar-se no seguinte plano:
— Antepassados e nascimento de Jesus: 1—2.
— Mensagem de João Baptista: 3,1—12.
— Baptismo e tentação de Jesus: 3,13—4,11.
— Actividade de Jesus na Galileia: 4,12—18
— A caminho de Jerusalém: 19—20.
— Actividade de Jesus em Jerusalém: 21—25.
— Paixão, morte e ressurreição: 26—28.

Antepassados de Jesus Cristo
(Lucas 3,23–38)
1 1 Esta é a lista dos antepassados de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão.
2 Abraão foi pai de Isaac, Isaac foi pai de Jacob e Jacob foi pai de Judá e dos seus irmãos. 3 Judá foi pai de Peres e de Zera, sendo a mãe Tamar. Peres foi pai de Hesron e Hesron foi pai de Rame. 4 Rame foi pai de Aminadab, Aminadab foi pai de Nachon e Nachon foi pai de Salmon. 5 Salmon foi pai de Booz, sendo a mãe Raab. Booz foi pai de Obed, sendo a mãe Rute. Obed foi pai de Jessé 6 e Jessé foi pai do rei David.
David foi pai de Salomão, sendo a mãe a que foi mulher de Urias. 7 Salomão foi pai de Roboão, Roboão foi pai de Abias e Abias foi pai de Asa. 8 Asa foi pai de Josafat, Josafat foi pai de Jorão e Jorão foi pai de Uzias. 9 Uzias foi pai de Jotam, Jotam foi pai de Acaz e Acaz foi pai de Ezequias. 10 Ezequias foi pai de Manassés, Manassés foi pai de Amon e Amon foi pai de Josias. 11 Josias foi pai de Jeconias e dos seus irmãos, no tempo do exílio para a Babilónia.
12 Depois do exílio na Babilónia, Jeconias foi pai de Salatiel e Salatiel foi pai de Zorobabel. 13 Zorobabel foi pai de Abiud, Abiud foi pai de Eliaquim e Eliaquim foi pai de Azur. 14 Azur foi pai de Sadoc, Sadoc foi pai de Jaquin e Jaquin foi pai de Eliud. 15 Eliud foi pai de Eleazar, Eleazar foi pai de Matan e Matan foi pai de Jacob.
16 Jacob foi pai de José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Messias.
17 No conjunto são catorze gerações de Abraão até David, outras catorze de David até ao exílio para a Babilónia e mais catorze do exílio até ao Messiasa.
José dá o nome a Jesus
(Lucas 2,1–7)
18 O nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, tinha o casamento tratado com José; mas, antes de casarem, achou-se grávida pelo poder do Espírito Santo. 19 José, o seu noivo, que era justo, não a queria acusar publicamente. Por isso pensou deixá-la sem dizer nada. 20 Andava ele a pensar nisto, quando lhe apareceu num sonho um anjo do Senhor que lhe disse: «José, descendente de David, não tenhas medo de casar com Maria, tua noiva, pois o que nela se gerou foi pelo poder do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho e tu vais pôr-lhe o nome de Jesusb, pois ele salvará o seu povo dos pecados.»
22 Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: 23 A virgem ficará grávida e dará à luz um filho que se há-de chamar Emanuelc.
Emanuel quer dizer: Deus está connosco. 24 Quando José acordou, fez como o anjo do Senhor lhe tinha mandado: recebeu Maria por esposa; 25 sem terem tido antes relações conjugais, Maria deu à luz o menino, a quem José pôs o nome de Jesus.
Sábios do Oriente adoram o Messias
2 1 Jesus nasceu em Belém, na região da Judeia, no tempo do rei Herodes. Depois do seu nascimento, chegaram uns sábios do Oriente a Jerusalém 2 e perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? É que nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.»
3 Quando ouviu isto, o rei Herodes ficou muito perturbado e com ele a população de Jerusalém. 4 Mandou reunir todos os chefes dos sacerdotes mais os doutores da lei e perguntou-lhes onde haveria de nascer o Messias. 5 Responderam: «Em Belém da Judeia, conforme o que o profeta escreveu: 6 Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as terras principais da Judeia, porque de ti é que há-de vir um chefe que será o pastor do meu povo de Israela.»
7 Então Herodes chamou à parte os sábios e perguntou-lhes quando é que exactamente a estrela lhes tinha aparecido. 8 Depois mandou-os a Belém com esta recomendação: «Vão, informem-se cuidadosamente acerca do menino e, quando o encontrarem, venham-me dizer para eu ir também adorá-lo.»
9 Depois de ouvirem o rei, os sábios partiram. Nisto, repararam que a estrela que tinham observado a Oriente ia adiante deles, até que parou por cima do lugar onde se encontrava o menino. 10 Ao verem a estrela, sentiram uma alegria enorme. 11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e inclinaram-se para o adorar. Depois abriram os cofres e fizeram-lhe as suas ofertas de ouro, incenso e mirra. 12 Então Deus avisou-os por meio dum sonho, para não voltarem a encontrar-se com Herodes. E eles partiram para a sua terra por outro caminho.
Fuga para o Egipto
13 Depois de se terem ido embora, um anjo do Senhor apareceu a José, num sonho, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino mais a sua mãe e foge com eles para o Egipto. Deixa-te lá estar até que eu te diga, porque Herodes vai procurar a criança para a matar.» 14 José levantou-se, tomou o menino com a sua mãe e pôs-se a caminho, de noite, para o Egipto. 15 Ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Chamei do Egipto o meu filhob.
Massacre das criancinhas
16 Quando Herodes percebeu que os sábios o tinham enganado, ficou furioso e mandou matar, em Belém e nos arredores, todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo que ele tinha apurado pelas palavras dos sábios. 17 Foi assim que se cumpriu o que o profeta Jeremias tinha dito:
18 Em Ramá se ouviu um grito,
choro amargo, imensa dor.
É Raquel a chorar os filhos;
e não quer ser consolada,
porque eles já não existemc.
Regresso do Egipto
19 Depois da morte de Herodes, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egipto, 20 e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe e volta para a terra de Israel, porque já morreram aqueles que procuravam tirar a vida ao menino.» 21 José levantou-se, tomou o menino com a sua mãe e voltou para a terra de Israel. 22 Mas, quando soube que Arquelaud reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Tendo recebido novas instruções de Deus por meio dum sonho partiu para a região da Galileia. 23 Ali fixou residência numa terra chamada Nazaré. Foi assim que se cumpriu aquilo que foi dito pelos profetas: Ele há-de chamar-se Nazarenoe.
Pregação de João Baptista
(Marcos 1,1–8; Lucas 3,1–18; João 1,19–28)
3 1 Naquele tempo apareceu João Baptista no deserto da Judeia a pregar assim: 2 «Arrependam-se, porque o reino dos céus está próximo.» 3 Foi a respeito dele que o profeta Isaías falou, quando disse: Alguém grita no deserto: preparem o caminho do Senhor e tornem direitas as suas estradasa.
4 João usava uma vestimenta de pêlo de camelo, apertada com uma cintura de couro, e alimentava-se de gafanhotos e de mel apanhado no campo. 5 Os habitantes de Jerusalém e de toda a região da Judeia, assim como do vale do Jordão, iam ter com ele. 6 Confessavam os seus pecados e ele baptizava-os no rio Jordão.
7 Quando João viu que muitos fariseus e saduceus iam ter com ele para serem baptizados, disse-lhes: «Raça de víboras! Quem vos disse que podiam escapar do castigo que se aproxima? 8 Mostrem pelo fruto das vossas acções que estão verdadeiramente arrependidos. 9 E não andem por aí a dizer: “Abraão é nosso pai!” Pois eu garanto-vos que Deus até destas pedras pode suscitar filhos de Abraão. 10 O machado já está prestes a cortar as árvores pela raiz. Toda a árvore que não der bons frutos será abatida e lançada no fogo. 11 Eu baptizo-vos em água como sinal de arrependimento. Mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu; não mereço sequer a honra de lhe levar as sandálias! Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo. 12 Tem nas mãos a pá e vai separar, na sua eira, o trigo da palha. Guardará o trigo no celeiro e queimará a palha numa fogueira que não se apaga.»
Baptismo de Jesus
(Marcos 1,9–11; Lucas 3,21–22)
13 Nessa altura Jesus deslocou-se da Galileia ao rio Jordão para ser baptizado por João Baptista. 14 Este, porém, negava-se a isso exclamando: «Sou eu quem tem necessidade de ser baptizado por ti e tu é que vens ter comigo?» 15 Mas Jesus respondeu: «Deixa lá. É bom cumprirmos deste modo toda a vontade de Deus.» E João concordou em baptizá-lo.
16 Assim que foi baptizado, Jesus saiu da água. Nesse momento, abriram-se os céus e viu o Espírito de Deus a descer do céu por cima de si, como uma pomba. 17 E uma voz do céu dizia: «Este é o meu Filho querido. Tenho nele a maior satisfaçãob!»
Jesus é tentado
(Marcos 1,12–13; Lucas 4,1–13)
4 1 Em seguida, Jesus, conduzido pelo Espírito Santo, retirou-se para o deserto a fim de ser ali tentado pelo Diabo. 2 Depois de passar quarenta dias e quarenta noites sem comer, Jesus teve fome. 3 O tentador aproximou-se dele e disse: «Se és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.» 4 Jesus respondeu: «A Sagrada Escritura diz: Não se vive só de pão, mas também de toda a palavra que vem de Deusa.»
5 Então o Diabo levou-o à cidade santa, colocou-o no ponto mais alto do templo, 6 e disse-lhe: «Se és o filho de Deus, atira-te daqui abaixo, porque diz a Escritura: Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito: eles hão-de segurar-te nas mãos para evitar que magoes os pés contra as pedrasb.»
7 «Mas a Escritura diz também: Não tentarás o Senhor teu Deusc», respondeu Jesus.
8 O Diabo levou-o ainda a um monte muito alto, mostrou-lhe dali todos os países do mundo com as suas grandezas 9 e disse: «Tudo isto te darei se de joelhos me adorares.» 10 Jesus respondeu: «Vai-te, Satanás! A Escritura diz: Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás cultod.»
11 O Diabo então deixou-o e aproximaram-se alguns anjos que começaram a servi-lo.
Jesus inicia a sua actividade na Galileia
(Marcos 1,14–15; Lucas 4,14–15)
12 Quando Jesus soube que João Baptista tinha sido preso, retirou-se para a Galileia. 13 Deixou Nazaré para ir viver em Cafarnaum, uma cidade à beira do lago nos limites de Zabulão e Neftalie. 14 Aconteceu assim para que se cumprissem estas palavras de Isaías:
15 Terras de Zabulão e de Neftali,
da beira-mar e de além do Jordão,
Galileia dos pagãos!
16 O povo mergulhado na escuridão
viu uma grande luz!
Luz que brilhou
para os que estavam na região escura da mortef.
17 Daí em diante Jesus começou a pregar: «Arrependam-se, porque o reino dos céus está a chegar.»
Primeiros companheiros de Jesus
(Marcos 1,16–20; Lucas 5,1–11)
18 Caminhava Jesus junto ao lago da Galileia quando viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e André, que andavam a lançar as redes no lago pois eram pescadores. 19 Jesus disse-lhes: «Venham comigo e eu vos farei pescadores de homens.» 20 Ambos largaram imediatamente as redes e foram com ele. 21 Um pouco mais adiante, Jesus viu outros dois irmãos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, que estavam no barco com o pai, a consertar as redes, e chamou-os. 22 Eles deixando logo o barco e o pai seguiram Jesus.
Jesus percorre a Galileia
(Lucas 6,17–19)
23 Jesus andava por toda a Galileia, ensinava nas sinagogas, pregava a boa nova do reino e curava o povo de todas as doenças e sofrimentos. 24 Ouvia-se falar dele por toda a Síria. Traziam-lhe os que sofriam de várias doenças e males, os que tinham espíritos maus, os epilépticos e os paralíticos. E Jesus curava-os a todos. 25 Acompanhava-o uma enorme multidão que vinha da Galileia, das Dez Cidades, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão.
A verdadeira felicidade
(Lucas 6,20–23)
5 1 Ao ver a multidão, Jesus subiu ao monte. Sentou-se e os seus discípulos foram para junto dele. 2 Jesus começou então a ensiná-los desta maneira:
3 «Felizes os que têm espírito de pobres,
porque é deles o reino dos céus!
4 Felizes os que choram,
porque Deus os consolará!
5 Felizes os humildes,
porque terão como herança a Terra!
6 Felizes os que têm fome e sede de ver cumprida a vontade de Deus,
porque Deus os satisfará!
7 Felizes os que usam de misericórdia para com os outros,
porque Deus os tratará com misericórdia!
8 Felizes os íntegros de coração,
porque hão-de ver Deus!
9 Felizes os que promovem a paz,
porque Deus lhes chamará seus filhos!
10 Felizes os que são perseguidos por procurarem que se cumpra a vontade de Deus,
porque é deles o reino dos céus!
11 Felizes serão quando vos insultarem, perseguirem e caluniarem,
por serem meus discípulos!
12 Alegrem-se e encham-se de satisfação porque é grande a recompensa que vos espera no céu. Pois assim também foram tratados os profetas que vos precederama.»
O sal e a luz
(Marcos 9,50; Lucas 14,34–35)
13 «Vocês são o sal do mundo. Mas se o sal perder as suas qualidades, poderá novamente salgar? Já não presta para nada, senão para se deitar fora e ser pisado por quem passa.
14 Vocês são a luz do mundo. Uma cidade situada no alto de um monte não se pode esconder. 15 Também não se acende um candeeiro para o pôr debaixo duma caixa. Pelo contrário, põe-se mas é num lugar em que alumie bem a todos os que estiverem em casab. 16 Do mesmo modo, façam brilhar a vossa luz diante de toda a gente, para que vejam as vossas boas acções e dêem louvores ao vosso Pai que está nos céus.»
A lei e o reino dos céus
17 «Não pensem que vim anular a Lei de Moisés ou o ensino dos profetas. Não vim para anular mas para dar cumprimento. 18 Saibam que enquanto o Céu e a Terra existirem, nem uma letra, nem sequer um acento se hão-de tirar da lei, sem que tudo se cumpra. 19 Por isso quem desobedecer ainda que seja a um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no reino dos céus. Mas aquele que obedecer à lei e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será tido por grande no reino dos céus. 20 Digo-vos mais: vocês não entrarão de maneira nenhuma no reino dos céus, se não cumprirem a vontade de Deus com mais fidelidade do que os doutores da lei e os fariseus.»
Reconciliação com o semelhante
(Lucas 12,57–59)
21 «Ouviram o que foi dito aos antigos: Não matarásc. E ainda: Aquele que matar alguém terá de responder em julgamento. 22 Mas eu digo-vos: Todo aquele que se irritar contra o seu semelhante terá de responder em julgamento; aquele que insultar o seu semelhante, chamando-lhe “imbecil”, será julgado pelo tribunal; e aquele que lhe chamar “estúpido” merece ir para o fogo do inferno. 23 Por isso, quando fores ao templo levar a tua oferta a Deus, e ali te lembrares que o teu semelhante tem alguma razão de queixa contra ti, 24 deixa a oferta diante do altar e vai primeiro fazer as pazes com o teu semelhante. Depois volta e apresenta a tua oferta.
25 Faz as pazes com o teu adversário enquanto vão os dois a caminho do tribunal. Senão o adversário entrega-te ao juiz, este entrega-te ao oficial de justiça e metem-te na cadeia. 26 Garanto-te que não sais de lá enquanto não pagares o último cêntimo.»
Perigo das más intenções
27 «Ouviram o que foi dito: Não cometerás adultériod. 28 Mas eu digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com más intenções já cometeu adultério no seu coração. 29 Portanto, se o teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e atira-o para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ser todo inteiro lançado no inferno. 30 De igual modo, se a tua mão direita te leva a pecar, corta-a e atira-a para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ir todo inteiro para o inferno.»
Sobre o divórcio
(Mateus 19,9; Marcos 10,11–12; Lucas 16,18)
31 «Também foi dito: Todo o homem que se divorciar da sua mulher deve passar-lhe uma declaraçãoe. 32 Mas eu digo-vos: Todo o homem que se divorciar da sua mulher, excepto no caso de adultériof, é culpado de a expor ao adultério. E o homem que casar com ela também comete adultério.»
Evitar juramentos
33 «Também ouviram o que foi dito aos antigos: Não farás juramentos falsos, mas cumprirás diante do Senhor o que jurasteg. 34 Mas eu digo-vos que não devem jurar de modo nenhum. Não jurem pelo Céu, porque é o trono de Deus; 35 nem pela Terra, porque é o estrado para os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. 36 Nem mesmo pela tua cabeça deves jurar, porque não és capaz de tornar um só dos teus cabelos branco ou preto. 37 Basta que digas sim, quando for sim, e não, quando for não. Tudo o que vai além disso é obra do Malignoh.»
Paciência e generosidade
(Lucas 6,29–30)
38 «Ouviram o que foi dito: Olho por olho e dente por dentei. 39 Mas eu digo-vos: Não resistam a quem vos fizer mal. Se alguém te bater na face direita, apresenta-lhe também a outra. 40 Se alguém te quiser levar a tribunal para te tirar a camisa, dá-lhe também o casaco. 41 Se alguém te obrigar a levar alguma coisa até a um quilómetro de distância, acompanha-o dois quilómetrosj. 42 Se alguém te pedir qualquer coisa, dá-lha; e a quem te pedir emprestado não lhe voltes as costas.»
Amor aos inimigos
(Lucas 6,27–28.32–36)
43 «Ouviram o que foi dito: Amarás o teu próximok e desprezarás o teu inimigo. 44 Mas eu digo-vos: Tenham amor aos vossos inimigos e peçam a Deus por aqueles que vos perseguem. 45 É deste modo que se tornarão filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz brilhar o Sol tanto sobre os bons como sobre os maus, e faz cair a chuva tanto para os justos como para os injustos.
46 Se amarem apenas aqueles que vos amam que recompensa poderão esperar? Não fazem também isso os cobradores de impostos? 47 E se saudarem apenas os vossos amigos, que há nisso de extraordinário? Qualquer pagão faz o mesmo! 48 Portanto, sejam perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito.»
Como dar esmola
6 1 «Quando praticarem o bem, procurem não o fazer diante dos outros para dar nas vistas. Se assim fizerem, já não terão nenhuma recompensa a receber do vosso Pai que está nos céus.
2 Portanto, quando deres esmola, não faças alarde à tua volta, como é costume das pessoas fingidas, nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiadas. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 3 Mas tu, quando deres esmola, procura que a tua mão esquerda nem saiba o que faz a direita. 4 Deste modo, a tua esmola ficará em segredo; e o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há-de recompensar-te.»
Jesus ensina a orar
(Lucas 11,2–4)
5 «Quando orarem, não façam como as pessoas fingidas que gostam de orar de pé, nas sinagogas e às esquinas das ruas, para toda a gente as vera. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 6 Tu, porém, quando quiseres fazer oração, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai que está presente sem ser visto. E o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há-de recompensar-te.
7 Quando orarem, não usem muitas palavras, como fazem os pagãos, que pensam que é por muito falarem que serão mais facilmente ouvidos. 8 Não sejam como eles pois o vosso Pai sabe muito bem do que vocês precisam, antes de lho pedirem. 9 Portanto, devem orar assim:
“Pai nosso que estás nos Céus,
Santificado seja o teu nomeb;
10 venha o teu reino;
seja feita a tua vontade,
assim na Terra como no Céu.
11 Dá-nos hoje o pão de que precisamos.
12 Perdoa-nos as nossas ofensas,
como nós perdoámos aos que nos ofenderam.
13 E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do Maligno.”
14 De facto, se perdoarem aos outros as suas ofensas, o vosso Pai celestial também vos perdoará. 15 Mas se não perdoarem aos outros, o vosso Pai também vos não perdoará.»
Acerca do jejum
16 «Quando jejuarem não andem de cara triste, como as pessoas fingidas, que até desfiguram a cara para toda a gente ver que andam a jejuar. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 17 Mas tu, quando jejuares, lava a cara e penteia-te bem. 18 Deste modo, ninguém saberá que andas a jejuar, a não ser o teu Pai que está presente sem ser visto. Ele, que vê tudo o que se passa em segredo, te dará a recompensa.»
A verdadeira riqueza
(Lucas 12,33–34)
19 «Não se preocupem em juntar riquezas neste mundo, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões assaltam e roubam. 20 Preocupem-se antes em juntar riquezas no céu, onde não há traça nem ferrugem para as destruir, nem ladrões para assaltar e roubar. 21 Onde estiver a vossa riqueza, aí estará o vosso coração.»
Luz e escuridão
(Lucas 11,34–36)
22 «A luz do corpo são os olhos. Por isso, se o teu olhar for bom, todo o teu corpo tem luz. 23 Mas se o teu olhar for mau, todo o teu corpo fica às escuras. Ora se a luz que há em ti não passa de escuridão, que grande será essa escuridão!»
Deus e as riquezas
(Lucas 16,13)
24 «Ninguém pode servir a dois patrões: ou não gosta de um deles e estima o outro, ou há-de ser leal para um e desprezar o outro. Não podem servir a Deus e ao dinheiro.»
Deus cuida dos seus filhos
(Lucas 12,22–31)
25 «É por isso que eu vos digo: Não andem preocupados com o que hão-de comer ou beber, nem com a roupa de que precisam para vestir. Não será que a vida vale mais do que a comida e o corpo mais do que a roupa? 26 Olhem para as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem amontoam grão nos celeiros. E no entanto, o vosso Pai dá-lhes de comer. Não valem vocês muito mais do que as aves? 27 Qual de vós, por mais que se preocupe, poderá prolongar um pouco o tempo da sua vidac?
28 E por que hão-de andar preocupados por causa da roupa? Reparem como crescem os lírios do campo! E eles não trabalham nem fiam. 29 Contudo digo-vos que nem o rei Salomão, com toda a sua riqueza, se vestiu como qualquer deles. 30 Ora se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada, quanto mais vos há-de vestir a vocês, ó gente sem fé?
31 Não andem preocupados a dizer: “Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?” 32 Os pagãos, esses é que se preocupam com todas essas coisas. O vosso Pai celestial sabe muito bem que vocês precisam de tudo isso. 33 Procurem primeiro o reino de Deus e a sua vontade e tudo isso vos será dado. 34 Portanto, não devem andar preocupados com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia a sua dificuldade.»
Não julgar os outros
(Lucas 6,37–38.41–42)
7 1 «Não julguem ninguém e assim Deus não vos julgará!
2 É que Deus há-de julgar-vos do mesmo modo que julgarem os outros, usando a mesma medida que usarem para os outros. 3 Por que reparas tu no cisco que está na vista do teu semelhante, e não vês a trave que está nos teus próprios olhos? 4 Como te atreves a dizer-lhe: “Deixa-me cá tirar-te isso da vista”, quando tens uma trave nos teus olhos? 5 Fingido! Tira primeiro a trave dos teus olhos e depois já vês melhor para tirares o cisco da vista do teu semelhante.
6 Não dêem aos cães o que é santo. Eles são capazes de se virar contra vocês e de vos despedaçar. Não deitem as vossas pérolas aos porcos! Pois eles vão pisá-las.»
Deus ouve a oração
(Lucas 11,9–13)
7 «Peçam e Deus vos dará; procurem e hão-de encontrar; batam à porta e ela há-de abrir-se-vos, 8 pois aquele que pede, recebe; aquele que procura, encontra; e a quem bate, a porta se abrirá. 9 Qual de vocês que seja pai seria capaz de dar uma pedra ao filho, quando este lhe pedisse pão? 10 Ou quem lhe daria uma cobra quando lhe pedisse peixe? 11 Ora se vocês, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está no céu dará coisas boas àqueles que lhas pedirem!
12 Façam aos outros tudo aquilo que desejariam que eles vos fizessem. Aqui está o essencial da lei e do ensino dos profetas.»
O caminho para a vida eterna
(Lucas 13,24)
13 «Entrem pela porta estreita! Pois é larga a porta e espaçoso o caminho que vai dar à perdição e são muitas as pessoas que para ali se encaminham. 14 Mas é estreita a porta e apertado o caminho que vai dar à vida eterna e são poucas as pessoas que o encontram.»
Os falsos profetas
(Lucas 6,43–44)
15 «Cuidado com os falsos profetas! Vêm ter convosco como se fossem ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. 16 É pelos seus frutos que os hão-de reconhecer. Porventura podem colher-se uvas das silvas ou figos dos cardos? 17 Portanto, a árvore boa dá bons frutos e a árvore má dá maus frutos. 18 Assim pois, uma árvore boa não pode dar maus frutos e uma árvore má não pode dar bons frutos. 19 Toda a árvore que não dá bons frutos corta-se e deita-se ao fogo. 20 Portanto, é pelas suas acções que poderão reconhecer os falsos profetas.»
Quem entra no reino dos céus
(Lucas 6,46; 13,25–27)
21 «Nem todos aqueles que me dizem: “Senhor, Senhor!” entrarão no reino dos céus, mas apenas os que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus. 22 Quando aquele dia chegar, haverá muitos que me hão-de dizer: “Senhor, Senhor, não profetizámos nós em teu nome? Não fizemos numerosos milagres em teu nome? Não chegámos a expulsar demónios em teu nome?” 23 Eu então hei-de declarar-lhes: “Nunca vos conheci. Afastem-se de mim, seus malfeitores!”»
Cumprir a palavra de Deus
(Lucas 6,47–49)
24 «Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática pode comparar-se ao homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. 25 Caiu muita chuva, vieram as cheias e os ventos sopraram com força contra aquela casa. Mas ela não caiu, porque os seus alicerces estavam assentes na rocha. 26 Porém, aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática pode comparar-se ao homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia. 27 Caiu muita chuva, vieram as cheias e os ventos sopraram com força contra aquela casa. Ela caiu e ficou arruinada.»
28 Quando Jesus acabou de pronunciar estas palavras, a multidão estava admirada com os seus ensinamentos. 29 É que ele ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da lei.
Cura de um homem com lepra
(Marcos 1,40–45; Lucas 5,12–16)
8 1 Ao descer do monte, Jesus foi seguido por uma grande multidão. 2 Então aproximou-se dele um homem com lepra que se ajoelhou e lhe disse: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me da lepra.» 3 Jesus estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero, fica purificado!» No mesmo instante, o homem ficou purificado da lepra. 4 Jesus então disse-lhe: «Escuta, não fales disto a ninguém. Mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece a Deus o sacrifício que Moisés ordenou, para ficarem a saber que estás curado.»
Cura do criado de um oficial romano
(Lucas 7,1–10)
5 Quando Jesus entrou em Cafarnaum aproximou-se dele um oficial do exército romano e fez-lhe este pedido: 6 «Senhor, o meu criado está de cama e sem se poder mexer, num sofrimento horrível.» 7 «Eu vou lá curá-lo», disse Jesus. 8 Mas o oficial respondeu: «Ó Senhor, eu não mereço que entres na minha casa. Basta que digas uma palavra e o meu criado ficará são. 9 Também eu tenho superiores a quem devo obediência e soldados às minhas ordens. Digo a um que vá, e ele vai. Digo a outro que venha, e ele vem. E digo ao meu criado: “faz isto”, e ele faz.» 10 Ao ouvir aquilo, Jesus ficou admirado e disse para os que o seguiam: «Fiquem sabendo que ainda não encontrei ninguém com tanta fé entre o povo de Israel. 11 Digo-vos mais: hão-de vir muitos do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa no reino dos céus com Abraão, Isaac e Jacob, 12 enquanto os herdeiros do reino serão lançados fora, na escuridão. Ali haverá choro e ranger de dentes.» 13 Em seguida Jesus disse ao oficial: «Podes ir. Seja como acreditaste.» E naquela mesma hora o doente ficou curado.
Jesus cura muitos doentes
(Marcos 1,29–34; Lucas 4,38–41)
14 Quando Jesus chegou a casa de Pedro, viu que a sogra deste estava de cama, com febre. 15 Tocou-lhe na mão e a febre passou-lhe. Ela então levantou-se e começou a servi-lo.
16 Ao cair da tarde, trouxeram a Jesus muitas pessoas com espíritos maus. Com uma palavra Jesus expulsou os espíritos maus e curou todos os que estavam doentes. 17 Assim se cumpria aquilo que disse o profeta Isaías: Ele próprio tomou as nossas fraquezas e suportou o peso das nossas doençasa.
Convite para seguir Jesus
(Lucas 9,57–62)
18 Quando Jesus viu a multidão que o rodeava, deu ordens para passar à outra margem do lago. 19 Foi então que se aproximou um doutor da lei e lhe disse: «Mestre, irei contigo para onde quer que fores.» 20 Jesus porém declarou: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde encostar a cabeça.»
21 Um dos discípulos pediu: «Senhor, deixa-me ir primeiro fazer o enterro ao meu pai.» 22 Contudo Jesus disse-lhe: «Segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus próprios mortos.»
Jesus acalma a tempestade
(Marcos 4,35–41; Lucas 8,22–25)
23 Jesus entrou no barco e os seus discípulos acompanharam-no. 24 Nisto, levantou-se no lago um temporal tão grande que as ondas encobriam o barco. Jesus, porém, dormia. 25 Os discípulos aproximaram-se dele e acordaram-no, gritando: «Senhor, salva-nos, que estamos perdidos!» 26 Jesus disse: «Por que estão com medo, homens sem fé?» Então levantou-se, deu ordens aos ventos e às ondas e fez-se uma grande calma. 27 Eles ficaram espantados e exclamavam: «Quem é este afinal, que até os ventos e as ondas lhe obedecem?!»
Cura de dois homens com espíritos maus
(Marcos 5,1–20; Lucas 8,26–39)
28 Jesus chegou à região dos gadarenos, do outro lado do lagob. Vieram ao seu encontro, saindo dos sepulcros, dois homens possuídos de espíritos maus. Os homens eram tão perigosos que ninguém se atrevia a passar por aquele caminho. 29 De repente, desataram a gritar: «Que é que tu queres de nós, Filho de Deus? Vieste cá para nos atormentar antes do tempo?»
30 Ora a uma certa distância dali, andava a pastar uma grande quantidade de porcosc. 31 Então os espíritos maus fizeram a Jesus este pedido: «Se nos vais expulsar, manda-nos para aquela vara de porcos.» 32 Jesus permitiu: «Vão!» E eles saíram e foram para os porcos que se puseram todos a correr pelo monte abaixo e afogaram-se no lago.
33 Os que andavam a guardar os animais fugiram e foram à cidade contar o que tinha acontecido aos dois homens com espíritos maus. 34 Então toda a gente da cidade foi ter com Jesus. Quando o viram, pediram-lhe para se ir embora daquela região.
Cura de um paralítico
(Marcos 2,1–12; Lucas 5,17–26)
9 1 Jesus entrou num barco, atravessou o lago e foi para a sua cidadea. 2 Trouxeram-lhe então um paralítico deitado numa enxerga. Ao ver a fé daqueles homens disse ao paralítico: «Coragem, meu filho! Os teus pecados estão perdoados.» 3 Nisto, alguns doutores da lei começaram a dizer para consigo: «Este homem está a ofender a Deus!» 4 Jesus percebeu-lhes os pensamentos e questionou-os: «Por que é que estão a pensar mal no vosso íntimo? 5 O que será mais fácil? Dizer: “Os teus pecados estão perdoados”, ou dizer: “Levanta-te e anda?” 6 Ficam pois a saber que o Filho do Homem tem poder na Terra para perdoar pecados.» E disse ao paralítico: «Levanta-te, pega na tua enxerga e vai para casa.» 7 O homem levantou-se e foi para casa. 8 Ao ver aquilo, a multidão ficou impressionada e louvava a Deus que deu tão grande poder aos homens.
Jesus chama Mateus
(Marcos 2,13–17; Lucas 5,27–32)
9 Quando Jesus ia a sair dali, viu um homem sentado no posto de cobrança de impostos. O seu nome era Mateus. Jesus chamou-o: «Segue-me.» Ele levantou-se e foi com Jesus. 10 Jesus estava sentado à mesa em casa de Mateus e vieram muitos outros cobradores de impostos e mais gente pecadora sentar-se à mesa com ele e os discípulos. 11 Ao verem isso, os fariseus perguntavam aos discípulos: «Por que é que o vosso Mestre se senta à mesa com os cobradores de impostos e gente pecadorab?» 12 Jesus ouviu isso e explicou: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os que estão doentes. 13 Vão aprender o que significam estas palavras da Escritura: Prefiro a misericórdia e não os sacrifíciosc. Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores.»
A questão do jejum
(Marcos 2,18–22; Lucas 5,33–39)
14 Naquela ocasião, os discípulos de João Baptista aproximaram-se de Jesus com esta pergunta: «Por que é que nós e os fariseus jejuamos muitas vezes, e os teus discípulos não jejuam?» 15 Jesus esclareceu-os: «Acham que os convidados para um casamento se podem apresentar de luto enquanto o noivo está com eles? Lá virá o tempo em que o noivo lhes será tirado. Nessa altura jejuarão.
16 Ninguém cose um remendo de tecido novo em roupa velha, porque o remendo novo repuxa o tecido velho e fica um rasgão ainda maior. 17 Do mesmo modo, ninguém deita vinho novo em vasilhas velhas, porque o vinho rebenta-as, perdendo-se assim o vinho e as vasilhas. Portanto, o vinho novo deve ser metido em vasilhas novas e assim se conservam ambas as coisas.»
Ressurreição de uma menina e cura de uma doente
(Marcos 5,21–43; Lucas 8,40–56)
18 Ainda Jesus lhes estava a dizer estas coisas, quando chegou um dirigente da sinagoga que se ajoelhou diante dele a pedir: «A minha filha acaba mesmo agora de morrer. Mas vem, põe a tua mão sobre ela, e viverá.» 19 Jesus levantou-se e seguiu-o com os seus discípulos. 20 Nisto, uma mulher, que havia doze anos sofria duma doença que a fazia perder sangue, aproximou-se por detrás de Jesus e tocou-lhe na ponta do manto. 21 Ela pensava consigo: «Se eu conseguir ao menos tocar-lhe na roupa, ficarei curada.» 22 Jesus voltou-se, olhou para ela e disse: «Coragem, minha filha! A tua fé te salvou!» E desde aquele momento a mulher ficou curada.
23 Quando Jesus chegou a casa do dirigente da sinagoga e viu os tocadores de flautad e a multidão que gritava, 24 mandou: «Saiam daqui para fora, que a menina não está morta, está só a dormir.» E começaram a fazer troça dele. 25 Quando aquela gente toda foi posta fora, Jesus entrou, pegou na mão da menina e ela levantou-se. 26 A notícia deste acontecimento espalhou-se por toda a região.
Jesus cura dois cegos
27 Ao sair daquele lugar, houve dois cegos que foram atrás de Jesus, gritando: «Filho de David tem piedade de nós!» 28 Quando Jesus ia a entrar em casa, os dois cegos aproximaram-se dele e Jesus perguntou-lhes: «Vocês acreditam que eu tenho poder para vos fazer isso?» Responderam eles: «Sim, Senhor, acreditamos!» 29 Então Jesus tocou-lhes nos olhos e disse: «Pois seja feito conforme a vossa fé!» 30 E os dois cegos ficaram a ver. Jesus recomendou-lhes em tom severo: «Olhem que ninguém deve saber disto!» 31 Eles, porém, saindo dali começaram a falar dele por toda a região.
Cura de um mudo
32 Na altura em que os dois cegos se foram embora, trouxeram a Jesus um mudo possuído dum espírito mau. 33 Jesus expulsou o espírito mau e o mudo pôs-se a falar. A multidão ficou muito admirada e dizia: «Nunca se viu uma coisa assim em Israel!» 34 Os fariseus, porém, diziam: «É pelo poder do chefe dos demónios que ele expulsa os demónios.»
Poucos trabalhadores para a colheita
35 Jesus andava por todas as cidades e aldeias, ensinava nas sinagogas, anunciava a boa nova do reino de Deus e curava toda a espécie de doenças e males. 36 Ao ver a multidão, Jesus sentiu imensa compaixão, porque andavam desorientados e perdidos como ovelhas que não têm pastor. 37 Disse então aos discípulos: «A colheita é abundante, mas os trabalhadores são poucos. 38 Peçam ao dono da seara que mande mais trabalhadores para a sua colheita.»
Os doze apóstolos
(Marcos 3,13–19; Lucas 6,12–16)
10 1 Chamando para junto de si os seus doze discípulos, Jesus deu-lhes poder para expulsarem espíritos maus e curarem toda a espécie de doenças e males. 2 São estes os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e seu irmão André; Tiago e seu irmão João, filhos de Zebedeu; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, do partido dos Nacionalistas, e Judas Iscariotes, aquele que atraiçoou Jesus.
Jesus envia os apóstolos
(Marcos 6,7–13; Lucas 9,1–6)
5 Jesus enviou estes doze dando-lhes as seguintes instruções: «Não se desviem para o caminho dos pagãos, nem entrem em qualquer cidade dos samaritanosa. 6 Vão antes ter com as ovelhas perdidas do povo de Israel. 7 Pelo caminho anunciem que o reino dos céus está a chegar. 8 Curem os que estão doentes, purifiquem os leprosos, ressuscitem os mortos e expulsem os espíritos maus. Receberam de graça, dêem de graça. 9 Não procurem ouro, prata ou cobre para levar nos bolsos. 10 Não levem saco de viagem, nem muda de roupa, nem calçado, nem cajado. O trabalhador tem direito ao seu sustento.
11 Quando chegarem a qualquer cidade ou aldeia, procurem uma pessoa de confiança e fiquem em sua casa até se irem embora. 12 Ao entrarem numa casa cumprimentem os presentes com saudações de pazb. 13 Se os daquela casa forem dignos dela, que a vossa paz fique com eles; se não forem dignos, que volte para vocês. 14 Se nalguma casa ou cidade não vos receberem, nem derem ouvidos às vossas palavras, quando saírem daquela casa ou daquela cidade sacudam o pó dos vossos pésc. 15 Garanto-vos que no dia do juízo, a gente de Sodoma e Gomorrad será tratada com menos dureza do que o povo dessa terra.»
Sofrimentos e perseguições dos apóstolos
(Marcos 13,9–13; Lucas 21,12–17)
16 «Eu vos envio como ovelhas para o meio dos lobos. Portanto, sejam cautelosos como as serpentes e simples como as pombas. 17 Tenham muito cuidado! Haverá homens que vos levarão aos tribunais e vos hão-de espancar nas suas sinagogas. 18 Vão ter que comparecer diante de governadores e de reis, por minha causa. Aí darão testemunho de mim, a eles e aos pagãos. 19 Quando vos entregarem às autoridades não se preocupem como hão-de falar, nem com o que hão-de dizer. Nessa altura, Deus vos dará as palavras, 20 pois não serão vocês a falar, mas sim o Espírito de Deus, vosso Pai, que falará por vosso intermédio.
21 Haverá irmãos que hão-de entregar os seus próprios irmãos à morte, e pais que hão-de entregar os próprios filhos. E haverá filhos que se hão-de revoltar contra os pais e os hão-de matar. 22 Serão odiados por toda a gente por minha causa, mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.
23 Quando vos perseguirem numa cidade, fujam para outra. Garanto-vos que o Filho do Homem há-de vir antes de terem ido a todas as cidades de Israel.
24 Nenhum discípulo está acima do seu mestre, nem um servo está acima do seu senhor. 25 Basta ao discípulo que venha a ser como o seu mestre e ao servo como o seu senhor. Ora se ao dono da casa já chamaram Belzebu, que nomes não hão-de chamar aos outros membros da família!»
A quem devemos temer
(Lucas 12,2–7)
26 «Não tenham medo deles! Não há nada encoberto que não venha a descobrir-se, nem há nada escondido que não venha a saber-se. 27 O que eu vos digo em segredo, digam-no à luz do dia, e aquilo que vos é dito ao ouvido, apregoem-no em cima nos telhados. 28 Também não devem ter medo dos que matam o corpo mas não podem matar a alma. Temam antes a Deus que pode fazer perder tanto o corpo como a alma no inferno. 29 Não se vendem dois pássaros por uma moeda? No entanto, nem um só deles cai ao chão sem o vosso Pai querer. 30 Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados! 31 Não tenham medo! Vocês valem mais do que muitos pássaros.»
Aceitar ou negar Cristo
(Lucas 12,8–9)
32 «Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu farei o mesmo por ele diante do meu Pai que está nos céus. 33 Mas àquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.»
Jesus, motivo de divisão
(Lucas 12,51–53; 14,26–27)
34 «Não pensem que vim trazer a paz à Terra. Não vim trazer a paz, mas a guerra. 35 Vim, de facto, trazer a divisão entre filho e pai, filha e mãe, nora e sogra: 36 os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria famíliae.
37 Aquele que amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; e o que amar o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. 38 Aquele que não pegar na sua cruz e não me seguir, não é digno de mim. 39 Aquele que pensa que tem a sua vida segura, perde-a, mas aquele que perder a sua vida por minha causa é que a tem segura.»
Recompensas por fazer bem
(Marcos 9,41)
40 «Quem vos receber é a mim que recebe, e quem me receber recebe aquele que me enviou. 41 Quem receber um profeta, por ser profeta, terá uma recompensa de profeta; e quem receber um justo, por ser justo, terá a recompensa de justo. 42 E aquele que der um simples copo de água fresca a um dos mais pequeninos destes meus discípulos, por ser meu discípulo, garanto-vos que não ficará sem a sua recompensa.»
Resposta de Jesus aos discípulos de João Baptista
(Lucas 7,18–23)
11 1 Depois de ter dado estas instruções aos seus doze discípulos, Jesus saiu dali para ir ensinar e pregar nas povoações da região.
2 Quando João Baptista, que estava na prisão, ouviu falar das obras de Cristo, enviou-lhe alguns dos seus discípulos com esta pergunta: 3 «És tu aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?» 4 Jesus deu-lhes esta resposta: «Vão contar a João aquilo que vêem e ouvem: 5 os cegos vêem, os coxos andam, os que têm lepra são curados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres é anunciada a boa nova. 6 Feliz aquele que não achar em mim motivo de escândalo.»
Jesus fala de João Baptista
(Lucas 7,24–35)
7 Depois de os discípulos de João se terem ido embora, Jesus começou a falar a respeito dele ao povo: «O que é que foram ver no deserto? Uma cana abanada pelo vento? 8 Que é que lá foram ver? Um homem vestido de roupas finas? Bem sabem que os que se vestem de roupas finas estão nos palácios dos reis. 9 Mas, afinal, que é que lá foram ver? Um profeta? Sim! E também vos digo: ele é mais do que um profeta. 10 Pois é aquele de quem as Escrituras dizem: Enviarei o meu mensageiro à tua frente para te preparar o caminhoa.
11 E fiquem sabendo isto: entre os homens não houve ninguém maior do que João Baptista. No entanto, o mais pequeno no reino dos céus é maior do que ele. 12 Desde o tempo de João Baptista até hoje, o reino dos céus tem sido assaltado com violência e os violentos procuram apoderar-se dele. 13 Com efeito, até ao tempo de João, tudo isso foi anunciado pela Lei de Moisés e pelos profetas. 14 Podem acreditar que é ele o Elias que havia de vir. 15 Quem tem ouvidos, preste atenção!»
16 Jesus disse ainda: «Com quem hei-de comparar as pessoas desta geração? São semelhantes às crianças que estão na rua e dizem umas para as outras:
17 “Tocámos flauta e vocês não dançaram!
Cantámos coisas tristes e não choraram!”
18 Realmente apareceu João, que jejuava e não bebia vinho, e dizem logo que tinha o Demónio com ele. 19 Depois veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem dele: “Olhem para este homem! Come bem, bebe melhor e é amigo de cobradores de impostos e de outra gente pecadora.” Mas a sabedoria de Deus só se mostra pelas obras que produz.»
As cidades rebeldes
(Lucas 10,13–15)
20 Jesus começou então a censurar as cidades em que tinha realizado a maior parte dos seus milagres, porque os seus habitantes não se tinham arrependido. 21 Dizia ele: «Ai de ti, Corazin! Ai de ti, Betsaidab! Se os milagres que em ti se fizeram tivessem sido efectuados nas cidades de Tiro e Sídonc, há muito que os seus habitantes se tinham arrependido, vestindo-se de luto e com cinza na cabeça. 22 Por isso vos digo: no dia do juízo, Tiro e Sídon serão tratadas com menos dureza do que vocês. 23 E tu, Cafarnaum, querias elevar-te até ao céu? Pois serás rebaixada até ao inferno.
E se os milagres que em ti se fizeram tivessem acontecido em Sodoma, essa cidade ainda hoje existiria. 24 Eu porém vos digo que no dia do juízo os habitantes de Sodoma serão tratados com menos dureza do que tu, Cafarnaum.»
Deus revela-se aos humildes
(Lucas 10,21–22)
25 Naquele momento, Jesus exclamou: «Agradeço-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque revelaste aos simples estas coisas que tinhas escondido aos sábios e entendidos. 26 Sim, Pai, agradeço-te, por ter sido essa a tua vontade. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
28 Venham ter comigo todos os que andam cansados e oprimidos e eu vos darei descanso. 29 Aceitem o meu jugo e aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração. Assim o vosso coração encontrará descanso, 30 pois o meu jugo é agradável e os meus fardos são leves.»
Jesus e o sábado
(Marcos 2,23–28; Lucas 6,1–5)
12 1 Por aquela altura, Jesus atravessava umas searas durante o sábado. E como os discípulos sentiam fome, começaram a arrancar espigas para comer. 2 Os fariseus, ao repararem nisso, chamaram a atenção de Jesus: «Olha que os teus discípulos estão a fazer aquilo que a lei não permite fazer ao sábado.» 3 Jesus respondeu-lhes: «Não leram o que David fez quando ele e os seus companheiros estavam com fome? 4 Entrou na casa de Deus com os seus homens e comeram os pães consagrados. E não lhes era permitido fazer aquilo, mas apenas aos sacerdotes. 5 Não leram também na lei que aos sábados, no templo, os sacerdotes quebram a lei do descanso e, no entanto, ficam sem culpa? 6 Pois eu vos digo: o que está aqui é maior do que o templo. 7 Se percebessem o que significa na Escritura: prefiro misericórdia e não sacrifíciosa, não teriam condenado inocentes. 8 Com efeito, o Filho do Homem é senhor do próprio sábado.»
Um homem com a mão paralítica
(Marcos 3,1–6; Lucas 6,6–11)
9 Jesus saiu dali e entrou na sinagoga deles. 10 Estava lá um homem que tinha uma das mãos paralítica. Alguns, querendo arranjar motivo para acusar Jesus, perguntaram-lhe: «Será que a nossa lei permite curar pessoas ao sábado ou não?» 11 Jesus respondeu assim: «Se um de vós tiver uma ovelha e ela cair num poço ao sábado, não vai logo tirá-la de lá? 12 Quanto mais não vale um homem do que uma ovelha? Por isso é permitido fazer bem ao sábado.» 13 Em seguida dirigiu-se ao homem da mão paralítica: «Estende a tua mão.» Ele estendeu-a e ficou restabelecida e sã como a outra. 14 Então os fariseus saíram dali e foram fazer planos para ver como haviam de o matar.
O escolhido de Deus
15 Quando Jesus teve conhecimento disso, afastou-se dali e muita gente o seguiu. Curou todos os enfermos 16 e deu-lhes ordens para que não fizessem propaganda dele. 17 Assim se cumpriu o que foi dito por meio do profeta Isaías:
18 Este é o meu servo, a quem eu escolhi,
o meu predilecto, no qual tenho a maior satisfação.
Porei nele o meu Espírito
e ele anunciará a minha vontade aos povos.
19 Não criará conflitos, nem gritará,
nem fará ouvir a sua voz nas ruas.
20 Não quebrará a cana pisada,
nem apagará o pavio que ainda fumega,
até fazer com que a justiça alcance a vitória.
21 É nele que os povos hão-de pôr a sua esperançab.
Jesus e Satanás
(Marcos 3,20–30; Lucas 11,14–23; 12,10)
22 Trouxeram a Jesus um possesso cego e mudo. Jesus curou-o e o homem ficou a ver e a falar. 23 Toda a gente perguntava muito admirada: «Não será este o Filho de David?» 24 Mas os fariseus, ao ouvirem isto, afirmavam: «É pelo poder de Belzebuc, chefe dos demónios, que este expulsa os demónios.» 25 Jesus percebendo o que estavam a pensar, disse-lhes: «Um reino dividido em grupos que lutem entre si acaba por se arruinar. Do mesmo modo, uma cidade ou uma família dividida não se mantém de pé. 26 Ora se Satanás expulsa Satanás está em luta contra si mesmo. Como poderá então o seu reino manter-se? 27 Se eu expulso os espíritos maus pelo poder de Belzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Por isso são eles que hão-de acusar-vos do vosso erro. 28 Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os espíritos maus, isto quer dizer que o reino de Deus já aqui chegou.
29 Como pode alguém entrar em casa dum homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar? Só assim lhe poderá roubar a casa.
30 Quem não está comigo está contra mim, e quem comigo não junta, espalha. 31 Portanto, digo-vos: qualquer pecado e palavra ofensiva contra Deus poderão ser perdoados aos homens. Mas a palavra ofensiva contra o Espírito Santo não será perdoada. 32 Quem disser alguma coisa contra o Filho do Homem poderá ser perdoado, mas quem disser alguma coisa ofensiva contra o Espírito Santo, não será perdoado, nem neste mundo nem no outro.»
A árvore e os seus frutos
(Lucas 6,43–45)
33 «Se plantarem uma árvore boa, o seu fruto será bom. Se plantarem uma árvore má, o fruto será mau. Pois é pelo fruto que se conhece a árvore. 34 Raça de víboras! Como poderão vocês dizer coisas boas se são maus? Cada qual fala daquilo que tem no coração. 35 O homem bom tira coisas boas do tesouro da sua bondade e o homem mau tira coisas más da sua maldade. 36 Digo-vos que no dia do juízo cada um terá de dar contas a Deus por toda a palavra inútil que tenha dito. 37 É pelas tuas palavras que no dia do juízo Deus te há-de declarar inocente ou culpado.»
Jesus, sinal de Deus
(Marcos 8,11–12; Lucas 11,29–32)
38 Em dado momento, alguns doutores da lei e fariseus fizeram este pedido a Jesus: «Mestre, queríamos ver-te fazer um sinal milagroso.» 39 Jesus respondeu-lhes: «Esta geração má e infiel procura um sinal milagroso de Deus! Pois bem, não lhe será dado outro sinal senão o do profeta Jonas. 40 Assim como Jonas esteve três dias e três noites dentro do grande peixe, assim o Filho do Homem há-de estar três dias e três noites dentro da terra. 41 No dia do juízo, os habitantes de Nínived hão-de levantar-se contra esta geração para a condenar. É que eles, quando ouviram a pregação de Jonas, arrependeram-se. Ora o que está aqui é maior do que Jonas! 42 Também a rainha do Sul se há-de levantar, no dia do juízo, contra a gente deste tempo para a condenar, porque ela veio lá do fim do mundo para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora o que está aqui é maior do que Salomão!»
Regresso do espírito mau
(Lucas 11,24–26)
43 «Quando um espírito mau sai duma pessoa anda por lugares secos à procura de repouso, mas não o encontra. 44 Então diz: “Volto para a minha casa, donde saí.” Ao chegar lá, encontra a casa vaga, limpa e bem arranjada. 45 Então vai buscar outros sete espíritos piores do que ele e vão todos para lá viver. Deste modo, a situação daquela pessoa torna-se pior do que era antes. É precisamente assim que vai acontecer a esta geração má.»
A família de Jesus
(Marcos 3,31–35; Lucas 8,19–21)
46 Enquanto Jesus estava ainda a falar à multidão, chegaram sua mãe e seus irmãos. Ficaram do lado de fora e procuravam maneira de lhe falar. 47 Então alguém veio dizer: «Olha que a tua mãe e os teus irmãos estão ali fora e querem falar contigoe.» 48 Jesus disse à pessoa que lhe foi dar o recado: «Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?» 49 Depois apontou para os discípulos: «Aqui está a minha mãe e os meus irmãos! 50 Aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»
A parábola do semeador
(Marcos 4,1–9; Lucas 8,4–8)
13 1 Naquele mesmo dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira do lago. 2 A gente que se juntou à volta era tanta que ele subiu para um barco. Sentou-se e toda a multidão se mantinha na praia. 3 E ensinava muitas coisas por meio de parábolas como esta:
«Andava uma vez um homem a semear. 4 Ao lançar a semente, parte dela caiu à beira do caminho e os pássaros vieram e comeram-na. 5 Outra caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. Rompeu depressa porque o terreno era pouco fundo. 6 Mas quando veio o sol queimou as plantas, porque não tinham raízes. 7 Outra parte da semente caiu entre espinhos, que cresceram e abafaram as plantas. 8 Outra parte, porém, caiu em boa terra e deu fruto à razão de cem, de sessenta e de trinta grãos por semente.» 9 Jesus acrescentou: «Quem tem ouvidos, preste atenção!»
Razão das parábolas
(Marcos 4,10–12; Lucas 8,9–10)
10 Então os discípulos foram perguntar a Jesus: «Por que é que lhes falas por meio de parábolas?» 11 Ele respondeu: «Deus concedeu-vos o privilégio de conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não. 12 Àquele que já tem alguma coisa, Deus lhe dará mais até que lhe sobre. Mas àquele que não tem nada, até o pouco que tem lhe será tirado. 13 É por isso que a eles eu falo por meio de parábolas, porque olham mas não vêem, ouvem mas não entendem nem percebem. 14 Deste modo se cumpre neles aquela profecia de Isaías que diz:
Ouçam e tornem a ouvir
que nada conseguirão perceber,
olhem e tornem a olhar
que nada hão-de ver.
15 É que o entendimento desta gente está fechado.
Têm os ouvidos duros e os olhos tapados.
Doutro modo, talvez tivessem olhos para ver
e ouvidos para ouvir.
Talvez o seu entendimento se abrisse
e voltassem para mim
e eu os curariaa.
16 Felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem. 17 Posso garantir-vos que muitos profetas e justos desejaram ver o que vocês vêem e não viram, e ouvir o que vocês ouvem e não ouviram.»
Jesus explica a parábola do semeador
(Marcos 4,13–20; Lucas 8,11–15)
18 «Ouçam agora o que significa a parábola do semeador: 19 Todos aqueles que ouvem a palavra do reino e não entendem são como a semente que caiu à beira do caminho. Vem o Diabo e tira-lhes o que foi semeado no coração. 20 A semente que caiu no terreno pedregoso representa os que ouvem a boa nova e a recebem com alegria. 21 Mas dura pouco porque não têm raízes. Quando vêm os sofrimentos e as perseguições por causa da boa nova, não aguentam. 22 A semente que caiu entre os espinhos representa aqueles que ouvem a boa nova, mas as preocupações desta vida e a ilusão das riquezas sufocam-na logo e o fruto não aparece. 23 Mas a semente que caiu em boa terra representa os que recebem a boa nova e a compreendem. Esses dão realmente fruto, uns à razão de cem, outros de sessenta e outros de trinta por cada grão.»
A parábola do trigo e do joio
24 Jesus apresentou-lhes outra parábola: «O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Mas enquanto toda a gente dormia, veio o inimigo desse homem, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. 26 Quando as plantas cresceram e se começaram a formar as espigas, apareceu também o joio. 27 Então os trabalhadores desse homem foram ter com ele e perguntaram-lhe: “Senhor, não foi boa semente que semeaste no teu campo? Como é que apareceu este joio?” 28 “Foi um inimigo que fez isso”, respondeu ele. Os trabalhadores tornaram a perguntar-lhe: “Queres que vamos lá arrancar o joio?” 29 Mas ele replicou: “Não, porque ao arrancarem o joio são capazes de arrancar também o trigo. 30 Deixem-nos crescer os dois até ao tempo da ceifa. Nessa altura direi aos ceifeiros: Apanhem primeiro o joio e atem-no em feixes para ser queimado no fogo, mas recolham o trigo para o meu celeiro.”»
A parábola do grão de mostarda
(Marcos 4,30–32; Lucas 13,18–19)
31 Apresentou-lhes ainda outra parábola: «O reino dos céus é como um grão de mostarda que alguém semeou no seu campo. 32 Esta é a mais pequena das sementes. Mas quando a planta cresce é a maior de todas. Chega mesmo a ser uma árvore e até os pássaros vão fazer ninho nos seus ramos.»
A parábola do fermento
(Lucas 13,20–21)
33 Jesus expôs-lhes ainda outra parábola: «O reino dos céus é como o fermento que uma mulher misturou em três medidas de farinha e assim fez levedar toda a massa.»
Razão do ensino por parábolas
(Marcos 4,33–34)
34 Jesus serviu-se de parábolas para dizer todas estas coisas à multidão. E só lhes falava por meio de parábolas. 35 Assim se cumpria o que tinha dito o profeta:
Hei-de falar por meio de parábolas,
direi coisas que estavam escondidas
desde o princípio do mundob.
Jesus explica a parábola do trigo e do joio
36 Então Jesus deixou a multidão e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se dele e pediram: «Explica-nos o que significa a parábola do joio no campo.» 37 Jesus esclareceu-os assim: «Aquele que semeou a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são as pessoas que pertencem ao reino de Deus. O joio são os filhos do Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o Diabo. A ceifa é o fim deste mundo e os ceifeiros são os anjos. 40 Ora assim como o joio se junta e se queima no fogo, assim vai ser no fim do mundo: 41 o Filho do Homem mandará os seus anjos e eles retirarão do seu reino todos os que levam os outros a pecar e todos os que praticam o mal, 42 para os lançarem na fornalha. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então os justos de Deus brilharão como o Sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos preste atenção!»
A parábola do tesouro escondido e a pérola preciosa
44 E continuou: «O reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Quando alguém o encontra volta a escondê-lo. E, cheio de alegria, vai vender tudo quanto tem e compra o campo.
45 O reino dos céus pode também comparar-se a um comerciante que anda à procura de pérolas de boa qualidade. 46 Quando encontra uma pérola de muito valor vai vender tudo o que tem e compra-a.»
Rede lançada ao mar
47 «O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que se lança ao mar e apanha toda a espécie de peixes. 48 Quando já está cheia, os pescadores puxam-na para a praia e sentam-se a escolher o peixe: o que é bom deitam-no em cestos, e atiram fora o que não presta. 49 Assim vai acontecer no fim deste mundo: os anjos sairão para separar as pessoas más das boas, 50 lançando as más na fornalha. Ali haverá choro e ranger de dentes.»
Coisas novas e velhas
51 Jesus perguntou então aos discípulos: «Compreenderam todas estas coisas?» Eles responderam: «Compreendemos, sim.» 52 Então Jesus continuou: «Portanto, todo o doutor da lei que aceita a doutrina do reino dos céus é semelhante ao chefe de família que sabe tirar dos tesouros que tem coisas novas e velhas.»
Jesus é mal recebido em Nazaré
(Marcos 6,1–6; Lucas 4,16–30)
53 Quando Jesus acabou de lhes apresentar estas parábolas retirou-se dali. 54 Foi para a sua terra e começou a ensinar o povo na sinagoga deles. Os que o ouviam diziam admirados: «Donde lhe vem a sabedoria e o poder de fazer milagres? 55 Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria a sua mãe? E não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? 56 Não vivem cá também todas as suas irmãs? Donde lhe vem então tudo isto?» 57 Por essa razão não queriam nada com ele. Mas Jesus lembrou-lhes: «Nenhum profeta é desprezado a não ser na sua terra e no meio da sua família.» 58 E por causa da falta de fé deles, Jesus não fez ali muitos milagres.
Morte de João Baptista
(Marcos 6,14–29; Lucas 9,7–9)
14 1 Naquele tempo, Herodes, o governador da Galileia, ouviu falar de Jesus 2 e disse aos subordinados que estavam com ele: «Este homem é João Baptista; ele ressuscitou dos mortos e por isso é que tem poder para fazer os milagres que faz.»
3 De facto, Herodes tinha mandado prender João e tinha-o metido na cadeia. Fez isso por causa de Herodias, esposa de seu irmão Filipe. 4 É que João avisava constantemente Herodes: «Não tens o direito de viver com ela.» 5 Herodes queria matá-lo, mas tinha medo do povo porque todos consideravam João como um profeta. 6 Ora no dia dos anos de Herodes, a filha de Herodias dançou diante de todos e agradou muito a Herodes. 7 Este jurou dar-lhe tudo o que ela pedisse. 8 Então ela, pressionada pela mãe, fez este pedido: «Dá-me agora mesmo, numa bandeja, a cabeça de João Baptista.» 9 O rei ficou triste, mas por causa do juramento e dos convidados ordenou que lhe fosse dada 10 e mandou alguém à cadeia cortar a cabeça de João. 11 Trouxeram-na numa bandeja e deram-na à rapariga, que a foi levar à mãe. 12 Os discípulos de João foram buscar o corpo e sepultaram-no. Depois levaram a notícia a Jesus.
Jesus dá de comer a uma multidão
(Marcos 6,30–44; Lucas 9,10–17; João 6,1–14)
13 Quando Jesus recebeu aquela notícia, retirou-se de barco e foi sozinho para um lugar isolado. Mas a multidão, ao saber disso, deixava as suas povoações e seguia-o por terra. 14 Assim, quando Jesus desembarcou viu uma multidão enorme. Sentiu-se comovido com aquela gente e curou todos os doentes que havia entre eles.
15 Ao entardecer, os discípulos foram ter com ele e disseram-lhe: «Já é muito tarde e este sítio aqui é isolado. Manda esta multidão embora para que vão às aldeias comprar alguma coisa para comer.» 16 Porém, Jesus observou: «Não há necessidade de eles se irem embora. Dêem-lhes vocês de comer!» 17 Os discípulos responderam: «Mas olha que só temos aqui cinco pães e dois peixes!» 18 «Tragam-mos cá», disse Jesus. 19 E deu ordens para que a multidão se sentasse na relva. Depois pegou nos cinco pães e nos dois peixes, levantou os olhos para o céu e deu graças a Deus. Partiu os pães, deu-os aos discípulos e os discípulos distribuíram-nos pela multidão. 20 Todos comeram até ficarem satisfeitos. E, com os bocados que sobejaram, encheram-se doze cestos. 21 O número dos homens que comeram andava por volta de cinco mil, não contando as mulheres e as crianças.
Jesus caminha por cima da água
(Marcos 6,45–52; João 6,16–21)
22 Logo a seguir, Jesus mandou os discípulos entrar no barco e disse-lhes para irem à frente, para a outra banda do lago, enquanto se despedia da multidão. 23 Depois subiu sozinho ao monte para orar. Quando anoiteceu, ainda lá estava sozinho. 24 Entretanto, a embarcação estava já bastante longe da terra e ia sendo batida pelas ondas, porque o vento era contrário. 25 De madrugada, Jesus foi então ter com os discípulos caminhando por cima da água. 26 Quando eles o viram a caminhar por cima da água, ficaram

Paloma 16/11/2014 13:35 0 0

Introdução — Desde os tempos mais antigos, a tradição vai no sentido de considerar que o autor deste Evangelho foi um dos primeiros discípulos de Jesus; seria aquele cobrador de impostos, tornado discípulo, que é chamado Mateus em Mateus 9,9 e Levi em Marcos 2,14. Pensa-se que o discípulo Mateus poderia ter recolhido em aramaico alguns ditos e feitos de Jesus, tendo mais tarde escrito o texto actual deste Evangelho, numa altura em que já dispunha de outros Evangelhos, nomeadamente o de Marcos, escrito em grego, que o podem ter ajudado na nova escrita. Este livro terá sido escrito depois do ano 70.
É provável que tenha tido como principais destinatários igrejas de origem judaica com uma forte ligação ao seu património religioso tradicional, mas que já não parecem identificar-se com o judaísmo, uma vez que este se recusou a acolher Jesus com as características de Messias que este Evangelho sublinha.
O Evangelho segundo Mateus caracteriza-se por uma particular sensibilidade a questões que têm a ver com o judaísmo. Os temas tradicionais da religião hebraica bíblica, as suas personagens antigas mais marcantes e os confrontos com vários grupos que representam o judaísmo contemporâneo de Jesus aparecem neste Evangelho com algum destaque. A longa genealogia de antepassados sublinha as raízes de Jesus no interior do povo hebraico, indo até Abraão e sublinhando a maneira como Jesus articula toda a história do povo de Deus, uma vez que quatro ciclos de catorze gerações conduzem directamente de Abraão, por David e pelo exílio da Babilónia até Jesus. Tal como acontece na genealogia, também no resto deste Evangelho são constantes as referências aos temas do Antigo Testamento. A infância de Jesus e outras referências da sua vida pública, nomeadamente o modo como ensina e a autoridade que revela, fazem dele um novo Moisés; a nova Torá é o seu ensino que inaugura o Reino de Deus. Valoriza e interpreta os textos proféticos para demonstrar que Jesus é o Messias esperado pelo povo, aquele que iria realizar as promessas feitas através dos séculos de história hebraica. A autoridade de Jesus tanto assenta na capacidade de declarar verdades novas como na reinterpretação de verdades que vinham da Escritura. Por isso é tão frequente encontrar citações do Antigo Testamento ao longo deste Evangelho.
Os ensinamentos de Jesus são apresentados ao longo da sua vida pública, em cinco secções, sendo cada uma delas dominada por um grande discurso:
— O sermão da montanha: 5—7.
— Instruções aos doze discípulos sobre a sua missão: 10.
— As parábolas do reino: 13.
— Ensinamentos sobre a vida dos cristãos neste mundo: 18.
— O fim da vida presente e a vinda do reino de Deus: 24—25.
Este evangelho pode sintetizar-se no seguinte plano:
— Antepassados e nascimento de Jesus: 1—2.
— Mensagem de João Baptista: 3,1—12.
— Baptismo e tentação de Jesus: 3,13—4,11.
— Actividade de Jesus na Galileia: 4,12—18
— A caminho de Jerusalém: 19—20.
— Actividade de Jesus em Jerusalém: 21—25.
— Paixão, morte e ressurreição: 26—28.

Antepassados de Jesus Cristo
(Lucas 3,23–38)
1 1 Esta é a lista dos antepassados de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão.
2 Abraão foi pai de Isaac, Isaac foi pai de Jacob e Jacob foi pai de Judá e dos seus irmãos. 3 Judá foi pai de Peres e de Zera, sendo a mãe Tamar. Peres foi pai de Hesron e Hesron foi pai de Rame. 4 Rame foi pai de Aminadab, Aminadab foi pai de Nachon e Nachon foi pai de Salmon. 5 Salmon foi pai de Booz, sendo a mãe Raab. Booz foi pai de Obed, sendo a mãe Rute. Obed foi pai de Jessé 6 e Jessé foi pai do rei David.
David foi pai de Salomão, sendo a mãe a que foi mulher de Urias. 7 Salomão foi pai de Roboão, Roboão foi pai de Abias e Abias foi pai de Asa. 8 Asa foi pai de Josafat, Josafat foi pai de Jorão e Jorão foi pai de Uzias. 9 Uzias foi pai de Jotam, Jotam foi pai de Acaz e Acaz foi pai de Ezequias. 10 Ezequias foi pai de Manassés, Manassés foi pai de Amon e Amon foi pai de Josias. 11 Josias foi pai de Jeconias e dos seus irmãos, no tempo do exílio para a Babilónia.
12 Depois do exílio na Babilónia, Jeconias foi pai de Salatiel e Salatiel foi pai de Zorobabel. 13 Zorobabel foi pai de Abiud, Abiud foi pai de Eliaquim e Eliaquim foi pai de Azur. 14 Azur foi pai de Sadoc, Sadoc foi pai de Jaquin e Jaquin foi pai de Eliud. 15 Eliud foi pai de Eleazar, Eleazar foi pai de Matan e Matan foi pai de Jacob.
16 Jacob foi pai de José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Messias.
17 No conjunto são catorze gerações de Abraão até David, outras catorze de David até ao exílio para a Babilónia e mais catorze do exílio até ao Messiasa.
José dá o nome a Jesus
(Lucas 2,1–7)
18 O nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, tinha o casamento tratado com José; mas, antes de casarem, achou-se grávida pelo poder do Espírito Santo. 19 José, o seu noivo, que era justo, não a queria acusar publicamente. Por isso pensou deixá-la sem dizer nada. 20 Andava ele a pensar nisto, quando lhe apareceu num sonho um anjo do Senhor que lhe disse: «José, descendente de David, não tenhas medo de casar com Maria, tua noiva, pois o que nela se gerou foi pelo poder do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho e tu vais pôr-lhe o nome de Jesusb, pois ele salvará o seu povo dos pecados.»
22 Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: 23 A virgem ficará grávida e dará à luz um filho que se há-de chamar Emanuelc.
Emanuel quer dizer: Deus está connosco. 24 Quando José acordou, fez como o anjo do Senhor lhe tinha mandado: recebeu Maria por esposa; 25 sem terem tido antes relações conjugais, Maria deu à luz o menino, a quem José pôs o nome de Jesus.
Sábios do Oriente adoram o Messias
2 1 Jesus nasceu em Belém, na região da Judeia, no tempo do rei Herodes. Depois do seu nascimento, chegaram uns sábios do Oriente a Jerusalém 2 e perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? É que nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.»
3 Quando ouviu isto, o rei Herodes ficou muito perturbado e com ele a população de Jerusalém. 4 Mandou reunir todos os chefes dos sacerdotes mais os doutores da lei e perguntou-lhes onde haveria de nascer o Messias. 5 Responderam: «Em Belém da Judeia, conforme o que o profeta escreveu: 6 Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as terras principais da Judeia, porque de ti é que há-de vir um chefe que será o pastor do meu povo de Israela.»
7 Então Herodes chamou à parte os sábios e perguntou-lhes quando é que exactamente a estrela lhes tinha aparecido. 8 Depois mandou-os a Belém com esta recomendação: «Vão, informem-se cuidadosamente acerca do menino e, quando o encontrarem, venham-me dizer para eu ir também adorá-lo.»
9 Depois de ouvirem o rei, os sábios partiram. Nisto, repararam que a estrela que tinham observado a Oriente ia adiante deles, até que parou por cima do lugar onde se encontrava o menino. 10 Ao verem a estrela, sentiram uma alegria enorme. 11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e inclinaram-se para o adorar. Depois abriram os cofres e fizeram-lhe as suas ofertas de ouro, incenso e mirra. 12 Então Deus avisou-os por meio dum sonho, para não voltarem a encontrar-se com Herodes. E eles partiram para a sua terra por outro caminho.
Fuga para o Egipto
13 Depois de se terem ido embora, um anjo do Senhor apareceu a José, num sonho, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino mais a sua mãe e foge com eles para o Egipto. Deixa-te lá estar até que eu te diga, porque Herodes vai procurar a criança para a matar.» 14 José levantou-se, tomou o menino com a sua mãe e pôs-se a caminho, de noite, para o Egipto. 15 Ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Chamei do Egipto o meu filhob.
Massacre das criancinhas
16 Quando Herodes percebeu que os sábios o tinham enganado, ficou furioso e mandou matar, em Belém e nos arredores, todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo que ele tinha apurado pelas palavras dos sábios. 17 Foi assim que se cumpriu o que o profeta Jeremias tinha dito:
18 Em Ramá se ouviu um grito,
choro amargo, imensa dor.
É Raquel a chorar os filhos;
e não quer ser consolada,
porque eles já não existemc.
Regresso do Egipto
19 Depois da morte de Herodes, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egipto, 20 e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe e volta para a terra de Israel, porque já morreram aqueles que procuravam tirar a vida ao menino.» 21 José levantou-se, tomou o menino com a sua mãe e voltou para a terra de Israel. 22 Mas, quando soube que Arquelaud reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Tendo recebido novas instruções de Deus por meio dum sonho partiu para a região da Galileia. 23 Ali fixou residência numa terra chamada Nazaré. Foi assim que se cumpriu aquilo que foi dito pelos profetas: Ele há-de chamar-se Nazarenoe.
Pregação de João Baptista
(Marcos 1,1–8; Lucas 3,1–18; João 1,19–28)
3 1 Naquele tempo apareceu João Baptista no deserto da Judeia a pregar assim: 2 «Arrependam-se, porque o reino dos céus está próximo.» 3 Foi a respeito dele que o profeta Isaías falou, quando disse: Alguém grita no deserto: preparem o caminho do Senhor e tornem direitas as suas estradasa.
4 João usava uma vestimenta de pêlo de camelo, apertada com uma cintura de couro, e alimentava-se de gafanhotos e de mel apanhado no campo. 5 Os habitantes de Jerusalém e de toda a região da Judeia, assim como do vale do Jordão, iam ter com ele. 6 Confessavam os seus pecados e ele baptizava-os no rio Jordão.
7 Quando João viu que muitos fariseus e saduceus iam ter com ele para serem baptizados, disse-lhes: «Raça de víboras! Quem vos disse que podiam escapar do castigo que se aproxima? 8 Mostrem pelo fruto das vossas acções que estão verdadeiramente arrependidos. 9 E não andem por aí a dizer: “Abraão é nosso pai!” Pois eu garanto-vos que Deus até destas pedras pode suscitar filhos de Abraão. 10 O machado já está prestes a cortar as árvores pela raiz. Toda a árvore que não der bons frutos será abatida e lançada no fogo. 11 Eu baptizo-vos em água como sinal de arrependimento. Mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu; não mereço sequer a honra de lhe levar as sandálias! Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo. 12 Tem nas mãos a pá e vai separar, na sua eira, o trigo da palha. Guardará o trigo no celeiro e queimará a palha numa fogueira que não se apaga.»
Baptismo de Jesus
(Marcos 1,9–11; Lucas 3,21–22)
13 Nessa altura Jesus deslocou-se da Galileia ao rio Jordão para ser baptizado por João Baptista. 14 Este, porém, negava-se a isso exclamando: «Sou eu quem tem necessidade de ser baptizado por ti e tu é que vens ter comigo?» 15 Mas Jesus respondeu: «Deixa lá. É bom cumprirmos deste modo toda a vontade de Deus.» E João concordou em baptizá-lo.
16 Assim que foi baptizado, Jesus saiu da água. Nesse momento, abriram-se os céus e viu o Espírito de Deus a descer do céu por cima de si, como uma pomba. 17 E uma voz do céu dizia: «Este é o meu Filho querido. Tenho nele a maior satisfaçãob!»
Jesus é tentado
(Marcos 1,12–13; Lucas 4,1–13)
4 1 Em seguida, Jesus, conduzido pelo Espírito Santo, retirou-se para o deserto a fim de ser ali tentado pelo Diabo. 2 Depois de passar quarenta dias e quarenta noites sem comer, Jesus teve fome. 3 O tentador aproximou-se dele e disse: «Se és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.» 4 Jesus respondeu: «A Sagrada Escritura diz: Não se vive só de pão, mas também de toda a palavra que vem de Deusa.»
5 Então o Diabo levou-o à cidade santa, colocou-o no ponto mais alto do templo, 6 e disse-lhe: «Se és o filho de Deus, atira-te daqui abaixo, porque diz a Escritura: Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito: eles hão-de segurar-te nas mãos para evitar que magoes os pés contra as pedrasb.»
7 «Mas a Escritura diz também: Não tentarás o Senhor teu Deusc», respondeu Jesus.
8 O Diabo levou-o ainda a um monte muito alto, mostrou-lhe dali todos os países do mundo com as suas grandezas 9 e disse: «Tudo isto te darei se de joelhos me adorares.» 10 Jesus respondeu: «Vai-te, Satanás! A Escritura diz: Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás cultod.»
11 O Diabo então deixou-o e aproximaram-se alguns anjos que começaram a servi-lo.
Jesus inicia a sua actividade na Galileia
(Marcos 1,14–15; Lucas 4,14–15)
12 Quando Jesus soube que João Baptista tinha sido preso, retirou-se para a Galileia. 13 Deixou Nazaré para ir viver em Cafarnaum, uma cidade à beira do lago nos limites de Zabulão e Neftalie. 14 Aconteceu assim para que se cumprissem estas palavras de Isaías:
15 Terras de Zabulão e de Neftali,
da beira-mar e de além do Jordão,
Galileia dos pagãos!
16 O povo mergulhado na escuridão
viu uma grande luz!
Luz que brilhou
para os que estavam na região escura da mortef.
17 Daí em diante Jesus começou a pregar: «Arrependam-se, porque o reino dos céus está a chegar.»
Primeiros companheiros de Jesus
(Marcos 1,16–20; Lucas 5,1–11)
18 Caminhava Jesus junto ao lago da Galileia quando viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e André, que andavam a lançar as redes no lago pois eram pescadores. 19 Jesus disse-lhes: «Venham comigo e eu vos farei pescadores de homens.» 20 Ambos largaram imediatamente as redes e foram com ele. 21 Um pouco mais adiante, Jesus viu outros dois irmãos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, que estavam no barco com o pai, a consertar as redes, e chamou-os. 22 Eles deixando logo o barco e o pai seguiram Jesus.
Jesus percorre a Galileia
(Lucas 6,17–19)
23 Jesus andava por toda a Galileia, ensinava nas sinagogas, pregava a boa nova do reino e curava o povo de todas as doenças e sofrimentos. 24 Ouvia-se falar dele por toda a Síria. Traziam-lhe os que sofriam de várias doenças e males, os que tinham espíritos maus, os epilépticos e os paralíticos. E Jesus curava-os a todos. 25 Acompanhava-o uma enorme multidão que vinha da Galileia, das Dez Cidades, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão.
A verdadeira felicidade
(Lucas 6,20–23)
5 1 Ao ver a multidão, Jesus subiu ao monte. Sentou-se e os seus discípulos foram para junto dele. 2 Jesus começou então a ensiná-los desta maneira:
3 «Felizes os que têm espírito de pobres,
porque é deles o reino dos céus!
4 Felizes os que choram,
porque Deus os consolará!
5 Felizes os humildes,
porque terão como herança a Terra!
6 Felizes os que têm fome e sede de ver cumprida a vontade de Deus,
porque Deus os satisfará!
7 Felizes os que usam de misericórdia para com os outros,
porque Deus os tratará com misericórdia!
8 Felizes os íntegros de coração,
porque hão-de ver Deus!
9 Felizes os que promovem a paz,
porque Deus lhes chamará seus filhos!
10 Felizes os que são perseguidos por procurarem que se cumpra a vontade de Deus,
porque é deles o reino dos céus!
11 Felizes serão quando vos insultarem, perseguirem e caluniarem,
por serem meus discípulos!
12 Alegrem-se e encham-se de satisfação porque é grande a recompensa que vos espera no céu. Pois assim também foram tratados os profetas que vos precederama.»
O sal e a luz
(Marcos 9,50; Lucas 14,34–35)
13 «Vocês são o sal do mundo. Mas se o sal perder as suas qualidades, poderá novamente salgar? Já não presta para nada, senão para se deitar fora e ser pisado por quem passa.
14 Vocês são a luz do mundo. Uma cidade situada no alto de um monte não se pode esconder. 15 Também não se acende um candeeiro para o pôr debaixo duma caixa. Pelo contrário, põe-se mas é num lugar em que alumie bem a todos os que estiverem em casab. 16 Do mesmo modo, façam brilhar a vossa luz diante de toda a gente, para que vejam as vossas boas acções e dêem louvores ao vosso Pai que está nos céus.»
A lei e o reino dos céus
17 «Não pensem que vim anular a Lei de Moisés ou o ensino dos profetas. Não vim para anular mas para dar cumprimento. 18 Saibam que enquanto o Céu e a Terra existirem, nem uma letra, nem sequer um acento se hão-de tirar da lei, sem que tudo se cumpra. 19 Por isso quem desobedecer ainda que seja a um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no reino dos céus. Mas aquele que obedecer à lei e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será tido por grande no reino dos céus. 20 Digo-vos mais: vocês não entrarão de maneira nenhuma no reino dos céus, se não cumprirem a vontade de Deus com mais fidelidade do que os doutores da lei e os fariseus.»
Reconciliação com o semelhante
(Lucas 12,57–59)
21 «Ouviram o que foi dito aos antigos: Não matarásc. E ainda: Aquele que matar alguém terá de responder em julgamento. 22 Mas eu digo-vos: Todo aquele que se irritar contra o seu semelhante terá de responder em julgamento; aquele que insultar o seu semelhante, chamando-lhe “imbecil”, será julgado pelo tribunal; e aquele que lhe chamar “estúpido” merece ir para o fogo do inferno. 23 Por isso, quando fores ao templo levar a tua oferta a Deus, e ali te lembrares que o teu semelhante tem alguma razão de queixa contra ti, 24 deixa a oferta diante do altar e vai primeiro fazer as pazes com o teu semelhante. Depois volta e apresenta a tua oferta.
25 Faz as pazes com o teu adversário enquanto vão os dois a caminho do tribunal. Senão o adversário entrega-te ao juiz, este entrega-te ao oficial de justiça e metem-te na cadeia. 26 Garanto-te que não sais de lá enquanto não pagares o último cêntimo.»
Perigo das más intenções
27 «Ouviram o que foi dito: Não cometerás adultériod. 28 Mas eu digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com más intenções já cometeu adultério no seu coração. 29 Portanto, se o teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e atira-o para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ser todo inteiro lançado no inferno. 30 De igual modo, se a tua mão direita te leva a pecar, corta-a e atira-a para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ir todo inteiro para o inferno.»
Sobre o divórcio
(Mateus 19,9; Marcos 10,11–12; Lucas 16,18)
31 «Também foi dito: Todo o homem que se divorciar da sua mulher deve passar-lhe uma declaraçãoe. 32 Mas eu digo-vos: Todo o homem que se divorciar da sua mulher, excepto no caso de adultériof, é culpado de a expor ao adultério. E o homem que casar com ela também comete adultério.»
Evitar juramentos
33 «Também ouviram o que foi dito aos antigos: Não farás juramentos falsos, mas cumprirás diante do Senhor o que jurasteg. 34 Mas eu digo-vos que não devem jurar de modo nenhum. Não jurem pelo Céu, porque é o trono de Deus; 35 nem pela Terra, porque é o estrado para os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. 36 Nem mesmo pela tua cabeça deves jurar, porque não és capaz de tornar um só dos teus cabelos branco ou preto. 37 Basta que digas sim, quando for sim, e não, quando for não. Tudo o que vai além disso é obra do Malignoh.»
Paciência e generosidade
(Lucas 6,29–30)
38 «Ouviram o que foi dito: Olho por olho e dente por dentei. 39 Mas eu digo-vos: Não resistam a quem vos fizer mal. Se alguém te bater na face direita, apresenta-lhe também a outra. 40 Se alguém te quiser levar a tribunal para te tirar a camisa, dá-lhe também o casaco. 41 Se alguém te obrigar a levar alguma coisa até a um quilómetro de distância, acompanha-o dois quilómetrosj. 42 Se alguém te pedir qualquer coisa, dá-lha; e a quem te pedir emprestado não lhe voltes as costas.»
Amor aos inimigos
(Lucas 6,27–28.32–36)
43 «Ouviram o que foi dito: Amarás o teu próximok e desprezarás o teu inimigo. 44 Mas eu digo-vos: Tenham amor aos vossos inimigos e peçam a Deus por aqueles que vos perseguem. 45 É deste modo que se tornarão filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz brilhar o Sol tanto sobre os bons como sobre os maus, e faz cair a chuva tanto para os justos como para os injustos.
46 Se amarem apenas aqueles que vos amam que recompensa poderão esperar? Não fazem também isso os cobradores de impostos? 47 E se saudarem apenas os vossos amigos, que há nisso de extraordinário? Qualquer pagão faz o mesmo! 48 Portanto, sejam perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito.»
Como dar esmola
6 1 «Quando praticarem o bem, procurem não o fazer diante dos outros para dar nas vistas. Se assim fizerem, já não terão nenhuma recompensa a receber do vosso Pai que está nos céus.
2 Portanto, quando deres esmola, não faças alarde à tua volta, como é costume das pessoas fingidas, nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiadas. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 3 Mas tu, quando deres esmola, procura que a tua mão esquerda nem saiba o que faz a direita. 4 Deste modo, a tua esmola ficará em segredo; e o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há-de recompensar-te.»
Jesus ensina a orar
(Lucas 11,2–4)
5 «Quando orarem, não façam como as pessoas fingidas que gostam de orar de pé, nas sinagogas e às esquinas das ruas, para toda a gente as vera. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 6 Tu, porém, quando quiseres fazer oração, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai que está presente sem ser visto. E o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há-de recompensar-te.
7 Quando orarem, não usem muitas palavras, como fazem os pagãos, que pensam que é por muito falarem que serão mais facilmente ouvidos. 8 Não sejam como eles pois o vosso Pai sabe muito bem do que vocês precisam, antes de lho pedirem. 9 Portanto, devem orar assim:
“Pai nosso que estás nos Céus,
Santificado seja o teu nomeb;
10 venha o teu reino;
seja feita a tua vontade,
assim na Terra como no Céu.
11 Dá-nos hoje o pão de que precisamos.
12 Perdoa-nos as nossas ofensas,
como nós perdoámos aos que nos ofenderam.
13 E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do Maligno.”
14 De facto, se perdoarem aos outros as suas ofensas, o vosso Pai celestial também vos perdoará. 15 Mas se não perdoarem aos outros, o vosso Pai também vos não perdoará.»
Acerca do jejum
16 «Quando jejuarem não andem de cara triste, como as pessoas fingidas, que até desfiguram a cara para toda a gente ver que andam a jejuar. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 17 Mas tu, quando jejuares, lava a cara e penteia-te bem. 18 Deste modo, ninguém saberá que andas a jejuar, a não ser o teu Pai que está presente sem ser visto. Ele, que vê tudo o que se passa em segredo, te dará a recompensa.»
A verdadeira riqueza
(Lucas 12,33–34)
19 «Não se preocupem em juntar riquezas neste mundo, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões assaltam e roubam. 20 Preocupem-se antes em juntar riquezas no céu, onde não há traça nem ferrugem para as destruir, nem ladrões para assaltar e roubar. 21 Onde estiver a vossa riqueza, aí estará o vosso coração.»
Luz e escuridão
(Lucas 11,34–36)
22 «A luz do corpo são os olhos. Por isso, se o teu olhar for bom, todo o teu corpo tem luz. 23 Mas se o teu olhar for mau, todo o teu corpo fica às escuras. Ora se a luz que há em ti não passa de escuridão, que grande será essa escuridão!»
Deus e as riquezas
(Lucas 16,13)
24 «Ninguém pode servir a dois patrões: ou não gosta de um deles e estima o outro, ou há-de ser leal para um e desprezar o outro. Não podem servir a Deus e ao dinheiro.»
Deus cuida dos seus filhos
(Lucas 12,22–31)
25 «É por isso que eu vos digo: Não andem preocupados com o que hão-de comer ou beber, nem com a roupa de que precisam para vestir. Não será que a vida vale mais do que a comida e o corpo mais do que a roupa? 26 Olhem para as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem amontoam grão nos celeiros. E no entanto, o vosso Pai dá-lhes de comer. Não valem vocês muito mais do que as aves? 27 Qual de vós, por mais que se preocupe, poderá prolongar um pouco o tempo da sua vidac?
28 E por que hão-de andar preocupados por causa da roupa? Reparem como crescem os lírios do campo! E eles não trabalham nem fiam. 29 Contudo digo-vos que nem o rei Salomão, com toda a sua riqueza, se vestiu como qualquer deles. 30 Ora se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada, quanto mais vos há-de vestir a vocês, ó gente sem fé?
31 Não andem preocupados a dizer: “Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?” 32 Os pagãos, esses é que se preocupam com todas essas coisas. O vosso Pai celestial sabe muito bem que vocês precisam de tudo isso. 33 Procurem primeiro o reino de Deus e a sua vontade e tudo isso vos será dado. 34 Portanto, não devem andar preocupados com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia a sua dificuldade.»
Não julgar os outros
(Lucas 6,37–38.41–42)
7 1 «Não julguem ninguém e assim Deus não vos julgará!
2 É que Deus há-de julgar-vos do mesmo modo que julgarem os outros, usando a mesma medida que usarem para os outros. 3 Por que reparas tu no cisco que está na vista do teu semelhante, e não vês a trave que está nos teus próprios olhos? 4 Como te atreves a dizer-lhe: “Deixa-me cá tirar-te isso da vista”, quando tens uma trave nos teus olhos? 5 Fingido! Tira primeiro a trave dos teus olhos e depois já vês melhor para tirares o cisco da vista do teu semelhante.
6 Não dêem aos cães o que é santo. Eles são capazes de se virar contra vocês e de vos despedaçar. Não deitem as vossas pérolas aos porcos! Pois eles vão pisá-las.»
Deus ouve a oração
(Lucas 11,9–13)
7 «Peçam e Deus vos dará; procurem e hão-de encontrar; batam à porta e ela há-de abrir-se-vos, 8 pois aquele que pede, recebe; aquele que procura, encontra; e a quem bate, a porta se abrirá. 9 Qual de vocês que seja pai seria capaz de dar uma pedra ao filho, quando este lhe pedisse pão? 10 Ou quem lhe daria uma cobra quando lhe pedisse peixe? 11 Ora se vocês, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está no céu dará coisas boas àqueles que lhas pedirem!
12 Façam aos outros tudo aquilo que desejariam que eles vos fizessem. Aqui está o essencial da lei e do ensino dos profetas.»
O caminho para a vida eterna
(Lucas 13,24)
13 «Entrem pela porta estreita! Pois é larga a porta e espaçoso o caminho que vai dar à perdição e são muitas as pessoas que para ali se encaminham. 14 Mas é estreita a porta e apertado o caminho que vai dar à vida eterna e são poucas as pessoas que o encontram.»
Os falsos profetas
(Lucas 6,43–44)
15 «Cuidado com os falsos profetas! Vêm ter convosco como se fossem ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. 16 É pelos seus frutos que os hão-de reconhecer. Porventura podem colher-se uvas das silvas ou figos dos cardos? 17 Portanto, a árvore boa dá bons frutos e a árvore má dá maus frutos. 18 Assim pois, uma árvore boa não pode dar maus frutos e uma árvore má não pode dar bons frutos. 19 Toda a árvore que não dá bons frutos corta-se e deita-se ao fogo. 20 Portanto, é pelas suas acções que poderão reconhecer os falsos profetas.»
Quem entra no reino dos céus
(Lucas 6,46; 13,25–27)
21 «Nem todos aqueles que me dizem: “Senhor, Senhor!” entrarão no reino dos céus, mas apenas os que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus. 22 Quando aquele dia chegar, haverá muitos que me hão-de dizer: “Senhor, Senhor, não profetizámos nós em teu nome? Não fizemos numerosos milagres em teu nome? Não chegámos a expulsar demónios em teu nome?” 23 Eu então hei-de declarar-lhes: “Nunca vos conheci. Afastem-se de mim, seus malfeitores!”»
Cumprir a palavra de Deus
(Lucas 6,47–49)
24 «Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática pode comparar-se ao homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. 25 Caiu muita chuva, vieram as cheias e os ventos sopraram com força contra aquela casa. Mas ela não caiu, porque os seus alicerces estavam assentes na rocha. 26 Porém, aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática pode comparar-se ao homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia. 27 Caiu muita chuva, vieram as cheias e os ventos sopraram com força contra aquela casa. Ela caiu e ficou arruinada.»
28 Quando Jesus acabou de pronunciar estas palavras, a multidão estava admirada com os seus ensinamentos. 29 É que ele ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da lei.
Cura de um homem com lepra
(Marcos 1,40–45; Lucas 5,12–16)
8 1 Ao descer do monte, Jesus foi seguido por uma grande multidão. 2 Então aproximou-se dele um homem com lepra que se ajoelhou e lhe disse: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me da lepra.» 3 Jesus estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero, fica purificado!» No mesmo instante, o homem ficou purificado da lepra. 4 Jesus então disse-lhe: «Escuta, não fales disto a ninguém. Mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece a Deus o sacrifício que Moisés ordenou, para ficarem a saber que estás curado.»
Cura do criado de um oficial romano
(Lucas 7,1–10)
5 Quando Jesus entrou em Cafarnaum aproximou-se dele um oficial do exército romano e fez-lhe este pedido: 6 «Senhor, o meu criado está de cama e sem se poder mexer, num sofrimento horrível.» 7 «Eu vou lá curá-lo», disse Jesus. 8 Mas o oficial respondeu: «Ó Senhor, eu não mereço que entres na minha casa. Basta que digas uma palavra e o meu criado ficará são. 9 Também eu tenho superiores a quem devo obediência e soldados às minhas ordens. Digo a um que vá, e ele vai. Digo a outro que venha, e ele vem. E digo ao meu criado: “faz isto”, e ele faz.» 10 Ao ouvir aquilo, Jesus ficou admirado e disse para os que o seguiam: «Fiquem sabendo que ainda não encontrei ninguém com tanta fé entre o povo de Israel. 11 Digo-vos mais: hão-de vir muitos do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa no reino dos céus com Abraão, Isaac e Jacob, 12 enquanto os herdeiros do reino serão lançados fora, na escuridão. Ali haverá choro e ranger de dentes.» 13 Em seguida Jesus disse ao oficial: «Podes ir. Seja como acreditaste.» E naquela mesma hora o doente ficou curado.
Jesus cura muitos doentes
(Marcos 1,29–34; Lucas 4,38–41)
14 Quando Jesus chegou a casa de Pedro, viu que a sogra deste estava de cama, com febre. 15 Tocou-lhe na mão e a febre passou-lhe. Ela então levantou-se e começou a servi-lo.
16 Ao cair da tarde, trouxeram a Jesus muitas pessoas com espíritos maus. Com uma palavra Jesus expulsou os espíritos maus e curou todos os que estavam doentes. 17 Assim se cumpria aquilo que disse o profeta Isaías: Ele próprio tomou as nossas fraquezas e suportou o peso das nossas doençasa.
Convite para seguir Jesus
(Lucas 9,57–62)
18 Quando Jesus viu a multidão que o rodeava, deu ordens para passar à outra margem do lago. 19 Foi então que se aproximou um doutor da lei e lhe disse: «Mestre, irei contigo para onde quer que fores.» 20 Jesus porém declarou: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde encostar a cabeça.»
21 Um dos discípulos pediu: «Senhor, deixa-me ir primeiro fazer o enterro ao meu pai.» 22 Contudo Jesus disse-lhe: «Segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus próprios mortos.»
Jesus acalma a tempestade
(Marcos 4,35–41; Lucas 8,22–25)
23 Jesus entrou no barco e os seus discípulos acompanharam-no. 24 Nisto, levantou-se no lago um temporal tão grande que as ondas encobriam o barco. Jesus, porém, dormia. 25 Os discípulos aproximaram-se dele e acordaram-no, gritando: «Senhor, salva-nos, que estamos perdidos!» 26 Jesus disse: «Por que estão com medo, homens sem fé?» Então levantou-se, deu ordens aos ventos e às ondas e fez-se uma grande calma. 27 Eles ficaram espantados e exclamavam: «Quem é este afinal, que até os ventos e as ondas lhe obedecem?!»
Cura de dois homens com espíritos maus
(Marcos 5,1–20; Lucas 8,26–39)
28 Jesus chegou à região dos gadarenos, do outro lado do lagob. Vieram ao seu encontro, saindo dos sepulcros, dois homens possuídos de espíritos maus. Os homens eram tão perigosos que ninguém se atrevia a passar por aquele caminho. 29 De repente, desataram a gritar: «Que é que tu queres de nós, Filho de Deus? Vieste cá para nos atormentar antes do tempo?»
30 Ora a uma certa distância dali, andava a pastar uma grande quantidade de porcosc. 31 Então os espíritos maus fizeram a Jesus este pedido: «Se nos vais expulsar, manda-nos para aquela vara de porcos.» 32 Jesus permitiu: «Vão!» E eles saíram e foram para os porcos que se puseram todos a correr pelo monte abaixo e afogaram-se no lago.
33 Os que andavam a guardar os animais fugiram e foram à cidade contar o que tinha acontecido aos dois homens com espíritos maus. 34 Então toda a gente da cidade foi ter com Jesus. Quando o viram, pediram-lhe para se ir embora daquela região.
Cura de um paralítico
(Marcos 2,1–12; Lucas 5,17–26)
9 1 Jesus entrou num barco, atravessou o lago e foi para a sua cidadea. 2 Trouxeram-lhe então um paralítico deitado numa enxerga. Ao ver a fé daqueles homens disse ao paralítico: «Coragem, meu filho! Os teus pecados estão perdoados.» 3 Nisto, alguns doutores da lei começaram a dizer para consigo: «Este homem está a ofender a Deus!» 4 Jesus percebeu-lhes os pensamentos e questionou-os: «Por que é que estão a pensar mal no vosso íntimo? 5 O que será mais fácil? Dizer: “Os teus pecados estão perdoados”, ou dizer: “Levanta-te e anda?” 6 Ficam pois a saber que o Filho do Homem tem poder na Terra para perdoar pecados.» E disse ao paralítico: «Levanta-te, pega na tua enxerga e vai para casa.» 7 O homem levantou-se e foi para casa. 8 Ao ver aquilo, a multidão ficou impressionada e louvava a Deus que deu tão grande poder aos homens.
Jesus chama Mateus
(Marcos 2,13–17; Lucas 5,27–32)
9 Quando Jesus ia a sair dali, viu um homem sentado no posto de cobrança de impostos. O seu nome era Mateus. Jesus chamou-o: «Segue-me.» Ele levantou-se e foi com Jesus. 10 Jesus estava sentado à mesa em casa de Mateus e vieram muitos outros cobradores de impostos e mais gente pecadora sentar-se à mesa com ele e os discípulos. 11 Ao verem isso, os fariseus perguntavam aos discípulos: «Por que é que o vosso Mestre se senta à mesa com os cobradores de impostos e gente pecadorab?» 12 Jesus ouviu isso e explicou: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os que estão doentes. 13 Vão aprender o que significam estas palavras da Escritura: Prefiro a misericórdia e não os sacrifíciosc. Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores.»
A questão do jejum
(Marcos 2,18–22; Lucas 5,33–39)
14 Naquela ocasião, os discípulos de João Baptista aproximaram-se de Jesus com esta pergunta: «Por que é que nós e os fariseus jejuamos muitas vezes, e os teus discípulos não jejuam?» 15 Jesus esclareceu-os: «Acham que os convidados para um casamento se podem apresentar de luto enquanto o noivo está com eles? Lá virá o tempo em que o noivo lhes será tirado. Nessa altura jejuarão.
16 Ninguém cose um remendo de tecido novo em roupa velha, porque o remendo novo repuxa o tecido velho e fica um rasgão ainda maior. 17 Do mesmo modo, ninguém deita vinho novo em vasilhas velhas, porque o vinho rebenta-as, perdendo-se assim o vinho e as vasilhas. Portanto, o vinho novo deve ser metido em vasilhas novas e assim se conservam ambas as coisas.»
Ressurreição de uma menina e cura de uma doente
(Marcos 5,21–43; Lucas 8,40–56)
18 Ainda Jesus lhes estava a dizer estas coisas, quando chegou um dirigente da sinagoga que se ajoelhou diante dele a pedir: «A minha filha acaba mesmo agora de morrer. Mas vem, põe a tua mão sobre ela, e viverá.» 19 Jesus levantou-se e seguiu-o com os seus discípulos. 20 Nisto, uma mulher, que havia doze anos sofria duma doença que a fazia perder sangue, aproximou-se por detrás de Jesus e tocou-lhe na ponta do manto. 21 Ela pensava consigo: «Se eu conseguir ao menos tocar-lhe na roupa, ficarei curada.» 22 Jesus voltou-se, olhou para ela e disse: «Coragem, minha filha! A tua fé te salvou!» E desde aquele momento a mulher ficou curada.
23 Quando Jesus chegou a casa do dirigente da sinagoga e viu os tocadores de flautad e a multidão que gritava, 24 mandou: «Saiam daqui para fora, que a menina não está morta, está só a dormir.» E começaram a fazer troça dele. 25 Quando aquela gente toda foi posta fora, Jesus entrou, pegou na mão da menina e ela levantou-se. 26 A notícia deste acontecimento espalhou-se por toda a região.
Jesus cura dois cegos
27 Ao sair daquele lugar, houve dois cegos que foram atrás de Jesus, gritando: «Filho de David tem piedade de nós!» 28 Quando Jesus ia a entrar em casa, os dois cegos aproximaram-se dele e Jesus perguntou-lhes: «Vocês acreditam que eu tenho poder para vos fazer isso?» Responderam eles: «Sim, Senhor, acreditamos!» 29 Então Jesus tocou-lhes nos olhos e disse: «Pois seja feito conforme a vossa fé!» 30 E os dois cegos ficaram a ver. Jesus recomendou-lhes em tom severo: «Olhem que ninguém deve saber disto!» 31 Eles, porém, saindo dali começaram a falar dele por toda a região.
Cura de um mudo
32 Na altura em que os dois cegos se foram embora, trouxeram a Jesus um mudo possuído dum espírito mau. 33 Jesus expulsou o espírito mau e o mudo pôs-se a falar. A multidão ficou muito admirada e dizia: «Nunca se viu uma coisa assim em Israel!» 34 Os fariseus, porém, diziam: «É pelo poder do chefe dos demónios que ele expulsa os demónios.»
Poucos trabalhadores para a colheita
35 Jesus andava por todas as cidades e aldeias, ensinava nas sinagogas, anunciava a boa nova do reino de Deus e curava toda a espécie de doenças e males. 36 Ao ver a multidão, Jesus sentiu imensa compaixão, porque andavam desorientados e perdidos como ovelhas que não têm pastor. 37 Disse então aos discípulos: «A colheita é abundante, mas os trabalhadores são poucos. 38 Peçam ao dono da seara que mande mais trabalhadores para a sua colheita.»
Os doze apóstolos
(Marcos 3,13–19; Lucas 6,12–16)
10 1 Chamando para junto de si os seus doze discípulos, Jesus deu-lhes poder para expulsarem espíritos maus e curarem toda a espécie de doenças e males. 2 São estes os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e seu irmão André; Tiago e seu irmão João, filhos de Zebedeu; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, do partido dos Nacionalistas, e Judas Iscariotes, aquele que atraiçoou Jesus.
Jesus envia os apóstolos
(Marcos 6,7–13; Lucas 9,1–6)
5 Jesus enviou estes doze dando-lhes as seguintes instruções: «Não se desviem para o caminho dos pagãos, nem entrem em qualquer cidade dos samaritanosa. 6 Vão antes ter com as ovelhas perdidas do povo de Israel. 7 Pelo caminho anunciem que o reino dos céus está a chegar. 8 Curem os que estão doentes, purifiquem os leprosos, ressuscitem os mortos e expulsem os espíritos maus. Receberam de graça, dêem de graça. 9 Não procurem ouro, prata ou cobre para levar nos bolsos. 10 Não levem saco de viagem, nem muda de roupa, nem calçado, nem cajado. O trabalhador tem direito ao seu sustento.
11 Quando chegarem a qualquer cidade ou aldeia, procurem uma pessoa de confiança e fiquem em sua casa até se irem embora. 12 Ao entrarem numa casa cumprimentem os presentes com saudações de pazb. 13 Se os daquela casa forem dignos dela, que a vossa paz fique com eles; se não forem dignos, que volte para vocês. 14 Se nalguma casa ou cidade não vos receberem, nem derem ouvidos às vossas palavras, quando saírem daquela casa ou daquela cidade sacudam o pó dos vossos pésc. 15 Garanto-vos que no dia do juízo, a gente de Sodoma e Gomorrad será tratada com menos dureza do que o povo dessa terra.»
Sofrimentos e perseguições dos apóstolos
(Marcos 13,9–13; Lucas 21,12–17)
16 «Eu vos envio como ovelhas para o meio dos lobos. Portanto, sejam cautelosos como as serpentes e simples como as pombas. 17 Tenham muito cuidado! Haverá homens que vos levarão aos tribunais e vos hão-de espancar nas suas sinagogas. 18 Vão ter que comparecer diante de governadores e de reis, por minha causa. Aí darão testemunho de mim, a eles e aos pagãos. 19 Quando vos entregarem às autoridades não se preocupem como hão-de falar, nem com o que hão-de dizer. Nessa altura, Deus vos dará as palavras, 20 pois não serão vocês a falar, mas sim o Espírito de Deus, vosso Pai, que falará por vosso intermédio.
21 Haverá irmãos que hão-de entregar os seus próprios irmãos à morte, e pais que hão-de entregar os próprios filhos. E haverá filhos que se hão-de revoltar contra os pais e os hão-de matar. 22 Serão odiados por toda a gente por minha causa, mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.
23 Quando vos perseguirem numa cidade, fujam para outra. Garanto-vos que o Filho do Homem há-de vir antes de terem ido a todas as cidades de Israel.
24 Nenhum discípulo está acima do seu mestre, nem um servo está acima do seu senhor. 25 Basta ao discípulo que venha a ser como o seu mestre e ao servo como o seu senhor. Ora se ao dono da casa já chamaram Belzebu, que nomes não hão-de chamar aos outros membros da família!»
A quem devemos temer
(Lucas 12,2–7)
26 «Não tenham medo deles! Não há nada encoberto que não venha a descobrir-se, nem há nada escondido que não venha a saber-se. 27 O que eu vos digo em segredo, digam-no à luz do dia, e aquilo que vos é dito ao ouvido, apregoem-no em cima nos telhados. 28 Também não devem ter medo dos que matam o corpo mas não podem matar a alma. Temam antes a Deus que pode fazer perder tanto o corpo como a alma no inferno. 29 Não se vendem dois pássaros por uma moeda? No entanto, nem um só deles cai ao chão sem o vosso Pai querer. 30 Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados! 31 Não tenham medo! Vocês valem mais do que muitos pássaros.»
Aceitar ou negar Cristo
(Lucas 12,8–9)
32 «Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu farei o mesmo por ele diante do meu Pai que está nos céus. 33 Mas àquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.»
Jesus, motivo de divisão
(Lucas 12,51–53; 14,26–27)
34 «Não pensem que vim trazer a paz à Terra. Não vim trazer a paz, mas a guerra. 35 Vim, de facto, trazer a divisão entre filho e pai, filha e mãe, nora e sogra: 36 os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria famíliae.
37 Aquele que amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; e o que amar o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. 38 Aquele que não pegar na sua cruz e não me seguir, não é digno de mim. 39 Aquele que pensa que tem a sua vida segura, perde-a, mas aquele que perder a sua vida por minha causa é que a tem segura.»
Recompensas por fazer bem
(Marcos 9,41)
40 «Quem vos receber é a mim que recebe, e quem me receber recebe aquele que me enviou. 41 Quem receber um profeta, por ser profeta, terá uma recompensa de profeta; e quem receber um justo, por ser justo, terá a recompensa de justo. 42 E aquele que der um simples copo de água fresca a um dos mais pequeninos destes meus discípulos, por ser meu discípulo, garanto-vos que não ficará sem a sua recompensa.»
Resposta de Jesus aos discípulos de João Baptista
(Lucas 7,18–23)
11 1 Depois de ter dado estas instruções aos seus doze discípulos, Jesus saiu dali para ir ensinar e pregar nas povoações da região.
2 Quando João Baptista, que estava na prisão, ouviu falar das obras de Cristo, enviou-lhe alguns dos seus discípulos com esta pergunta: 3 «És tu aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?» 4 Jesus deu-lhes esta resposta: «Vão contar a João aquilo que vêem e ouvem: 5 os cegos vêem, os coxos andam, os que têm lepra são curados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres é anunciada a boa nova. 6 Feliz aquele que não achar em mim motivo de escândalo.»
Jesus fala de João Baptista
(Lucas 7,24–35)
7 Depois de os discípulos de João se terem ido embora, Jesus começou a falar a respeito dele ao povo: «O que é que foram ver no deserto? Uma cana abanada pelo vento? 8 Que é que lá foram ver? Um homem vestido de roupas finas? Bem sabem que os que se vestem de roupas finas estão nos palácios dos reis. 9 Mas, afinal, que é que lá foram ver? Um profeta? Sim! E também vos digo: ele é mais do que um profeta. 10 Pois é aquele de quem as Escrituras dizem: Enviarei o meu mensageiro à tua frente para te preparar o caminhoa.
11 E fiquem sabendo isto: entre os homens não houve ninguém maior do que João Baptista. No entanto, o mais pequeno no reino dos céus é maior do que ele. 12 Desde o tempo de João Baptista até hoje, o reino dos céus tem sido assaltado com violência e os violentos procuram apoderar-se dele. 13 Com efeito, até ao tempo de João, tudo isso foi anunciado pela Lei de Moisés e pelos profetas. 14 Podem acreditar que é ele o Elias que havia de vir. 15 Quem tem ouvidos, preste atenção!»
16 Jesus disse ainda: «Com quem hei-de comparar as pessoas desta geração? São semelhantes às crianças que estão na rua e dizem umas para as outras:
17 “Tocámos flauta e vocês não dançaram!
Cantámos coisas tristes e não choraram!”
18 Realmente apareceu João, que jejuava e não bebia vinho, e dizem logo que tinha o Demónio com ele. 19 Depois veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem dele: “Olhem para este homem! Come bem, bebe melhor e é amigo de cobradores de impostos e de outra gente pecadora.” Mas a sabedoria de Deus só se mostra pelas obras que produz.»
As cidades rebeldes
(Lucas 10,13–15)
20 Jesus começou então a censurar as cidades em que tinha realizado a maior parte dos seus milagres, porque os seus habitantes não se tinham arrependido. 21 Dizia ele: «Ai de ti, Corazin! Ai de ti, Betsaidab! Se os milagres que em ti se fizeram tivessem sido efectuados nas cidades de Tiro e Sídonc, há muito que os seus habitantes se tinham arrependido, vestindo-se de luto e com cinza na cabeça. 22 Por isso vos digo: no dia do juízo, Tiro e Sídon serão tratadas com menos dureza do que vocês. 23 E tu, Cafarnaum, querias elevar-te até ao céu? Pois serás rebaixada até ao inferno.
E se os milagres que em ti se fizeram tivessem acontecido em Sodoma, essa cidade ainda hoje existiria. 24 Eu porém vos digo que no dia do juízo os habitantes de Sodoma serão tratados com menos dureza do que tu, Cafarnaum.»
Deus revela-se aos humildes
(Lucas 10,21–22)
25 Naquele momento, Jesus exclamou: «Agradeço-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque revelaste aos simples estas coisas que tinhas escondido aos sábios e entendidos. 26 Sim, Pai, agradeço-te, por ter sido essa a tua vontade. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
28 Venham ter comigo todos os que andam cansados e oprimidos e eu vos darei descanso. 29 Aceitem o meu jugo e aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração. Assim o vosso coração encontrará descanso, 30 pois o meu jugo é agradável e os meus fardos são leves.»
Jesus e o sábado
(Marcos 2,23–28; Lucas 6,1–5)
12 1 Por aquela altura, Jesus atravessava umas searas durante o sábado. E como os discípulos sentiam fome, começaram a arrancar espigas para comer. 2 Os fariseus, ao repararem nisso, chamaram a atenção de Jesus: «Olha que os teus discípulos estão a fazer aquilo que a lei não permite fazer ao sábado.» 3 Jesus respondeu-lhes: «Não leram o que David fez quando ele e os seus companheiros estavam com fome? 4 Entrou na casa de Deus com os seus homens e comeram os pães consagrados. E não lhes era permitido fazer aquilo, mas apenas aos sacerdotes. 5 Não leram também na lei que aos sábados, no templo, os sacerdotes quebram a lei do descanso e, no entanto, ficam sem culpa? 6 Pois eu vos digo: o que está aqui é maior do que o templo. 7 Se percebessem o que significa na Escritura: prefiro misericórdia e não sacrifíciosa, não teriam condenado inocentes. 8 Com efeito, o Filho do Homem é senhor do próprio sábado.»
Um homem com a mão paralítica
(Marcos 3,1–6; Lucas 6,6–11)
9 Jesus saiu dali e entrou na sinagoga deles. 10 Estava lá um homem que tinha uma das mãos paralítica. Alguns, querendo arranjar motivo para acusar Jesus, perguntaram-lhe: «Será que a nossa lei permite curar pessoas ao sábado ou não?» 11 Jesus respondeu assim: «Se um de vós tiver uma ovelha e ela cair num poço ao sábado, não vai logo tirá-la de lá? 12 Quanto mais não vale um homem do que uma ovelha? Por isso é permitido fazer bem ao sábado.» 13 Em seguida dirigiu-se ao homem da mão paralítica: «Estende a tua mão.» Ele estendeu-a e ficou restabelecida e sã como a outra. 14 Então os fariseus saíram dali e foram fazer planos para ver como haviam de o matar.
O escolhido de Deus
15 Quando Jesus teve conhecimento disso, afastou-se dali e muita gente o seguiu. Curou todos os enfermos 16 e deu-lhes ordens para que não fizessem propaganda dele. 17 Assim se cumpriu o que foi dito por meio do profeta Isaías:
18 Este é o meu servo, a quem eu escolhi,
o meu predilecto, no qual tenho a maior satisfação.
Porei nele o meu Espírito
e ele anunciará a minha vontade aos povos.
19 Não criará conflitos, nem gritará,
nem fará ouvir a sua voz nas ruas.
20 Não quebrará a cana pisada,
nem apagará o pavio que ainda fumega,
até fazer com que a justiça alcance a vitória.
21 É nele que os povos hão-de pôr a sua esperançab.
Jesus e Satanás
(Marcos 3,20–30; Lucas 11,14–23; 12,10)
22 Trouxeram a Jesus um possesso cego e mudo. Jesus curou-o e o homem ficou a ver e a falar. 23 Toda a gente perguntava muito admirada: «Não será este o Filho de David?» 24 Mas os fariseus, ao ouvirem isto, afirmavam: «É pelo poder de Belzebuc, chefe dos demónios, que este expulsa os demónios.» 25 Jesus percebendo o que estavam a pensar, disse-lhes: «Um reino dividido em grupos que lutem entre si acaba por se arruinar. Do mesmo modo, uma cidade ou uma família dividida não se mantém de pé. 26 Ora se Satanás expulsa Satanás está em luta contra si mesmo. Como poderá então o seu reino manter-se? 27 Se eu expulso os espíritos maus pelo poder de Belzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Por isso são eles que hão-de acusar-vos do vosso erro. 28 Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os espíritos maus, isto quer dizer que o reino de Deus já aqui chegou.
29 Como pode alguém entrar em casa dum homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar? Só assim lhe poderá roubar a casa.
30 Quem não está comigo está contra mim, e quem comigo não junta, espalha. 31 Portanto, digo-vos: qualquer pecado e palavra ofensiva contra Deus poderão ser perdoados aos homens. Mas a palavra ofensiva contra o Espírito Santo não será perdoada. 32 Quem disser alguma coisa contra o Filho do Homem poderá ser perdoado, mas quem disser alguma coisa ofensiva contra o Espírito Santo, não será perdoado, nem neste mundo nem no outro.»
A árvore e os seus frutos
(Lucas 6,43–45)
33 «Se plantarem uma árvore boa, o seu fruto será bom. Se plantarem uma árvore má, o fruto será mau. Pois é pelo fruto que se conhece a árvore. 34 Raça de víboras! Como poderão vocês dizer coisas boas se são maus? Cada qual fala daquilo que tem no coração. 35 O homem bom tira coisas boas do tesouro da sua bondade e o homem mau tira coisas más da sua maldade. 36 Digo-vos que no dia do juízo cada um terá de dar contas a Deus por toda a palavra inútil que tenha dito. 37 É pelas tuas palavras que no dia do juízo Deus te há-de declarar inocente ou culpado.»
Jesus, sinal de Deus
(Marcos 8,11–12; Lucas 11,29–32)
38 Em dado momento, alguns doutores da lei e fariseus fizeram este pedido a Jesus: «Mestre, queríamos ver-te fazer um sinal milagroso.» 39 Jesus respondeu-lhes: «Esta geração má e infiel procura um sinal milagroso de Deus! Pois bem, não lhe será dado outro sinal senão o do profeta Jonas. 40 Assim como Jonas esteve três dias e três noites dentro do grande peixe, assim o Filho do Homem há-de estar três dias e três noites dentro da terra. 41 No dia do juízo, os habitantes de Nínived hão-de levantar-se contra esta geração para a condenar. É que eles, quando ouviram a pregação de Jonas, arrependeram-se. Ora o que está aqui é maior do que Jonas! 42 Também a rainha do Sul se há-de levantar, no dia do juízo, contra a gente deste tempo para a condenar, porque ela veio lá do fim do mundo para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora o que está aqui é maior do que Salomão!»
Regresso do espírito mau
(Lucas 11,24–26)
43 «Quando um espírito mau sai duma pessoa anda por lugares secos à procura de repouso, mas não o encontra. 44 Então diz: “Volto para a minha casa, donde saí.” Ao chegar lá, encontra a casa vaga, limpa e bem arranjada. 45 Então vai buscar outros sete espíritos piores do que ele e vão todos para lá viver. Deste modo, a situação daquela pessoa torna-se pior do que era antes. É precisamente assim que vai acontecer a esta geração má.»
A família de Jesus
(Marcos 3,31–35; Lucas 8,19–21)
46 Enquanto Jesus estava ainda a falar à multidão, chegaram sua mãe e seus irmãos. Ficaram do lado de fora e procuravam maneira de lhe falar. 47 Então alguém veio dizer: «Olha que a tua mãe e os teus irmãos estão ali fora e querem falar contigoe.» 48 Jesus disse à pessoa que lhe foi dar o recado: «Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?» 49 Depois apontou para os discípulos: «Aqui está a minha mãe e os meus irmãos! 50 Aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»
A parábola do semeador
(Marcos 4,1–9; Lucas 8,4–8)
13 1 Naquele mesmo dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira do lago. 2 A gente que se juntou à volta era tanta que ele subiu para um barco. Sentou-se e toda a multidão se mantinha na praia. 3 E ensinava muitas coisas por meio de parábolas como esta:
«Andava uma vez um homem a semear. 4 Ao lançar a semente, parte dela caiu à beira do caminho e os pássaros vieram e comeram-na. 5 Outra caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. Rompeu depressa porque o terreno era pouco fundo. 6 Mas quando veio o sol queimou as plantas, porque não tinham raízes. 7 Outra parte da semente caiu entre espinhos, que cresceram e abafaram as plantas. 8 Outra parte, porém, caiu em boa terra e deu fruto à razão de cem, de sessenta e de trinta grãos por semente.» 9 Jesus acrescentou: «Quem tem ouvidos, preste atenção!»
Razão das parábolas
(Marcos 4,10–12; Lucas 8,9–10)
10 Então os discípulos foram perguntar a Jesus: «Por que é que lhes falas por meio de parábolas?» 11 Ele respondeu: «Deus concedeu-vos o privilégio de conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não. 12 Àquele que já tem alguma coisa, Deus lhe dará mais até que lhe sobre. Mas àquele que não tem nada, até o pouco que tem lhe será tirado. 13 É por isso que a eles eu falo por meio de parábolas, porque olham mas não vêem, ouvem mas não entendem nem percebem. 14 Deste modo se cumpre neles aquela profecia de Isaías que diz:
Ouçam e tornem a ouvir
que nada conseguirão perceber,
olhem e tornem a olhar
que nada hão-de ver.
15 É que o entendimento desta gente está fechado.
Têm os ouvidos duros e os olhos tapados.
Doutro modo, talvez tivessem olhos para ver
e ouvidos para ouvir.
Talvez o seu entendimento se abrisse
e voltassem para mim
e eu os curariaa.
16 Felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem. 17 Posso garantir-vos que muitos profetas e justos desejaram ver o que vocês vêem e não viram, e ouvir o que vocês ouvem e não ouviram.»
Jesus explica a parábola do semeador
(Marcos 4,13–20; Lucas 8,11–15)
18 «Ouçam agora o que significa a parábola do semeador: 19 Todos aqueles que ouvem a palavra do reino e não entendem são como a semente que caiu à beira do caminho. Vem o Diabo e tira-lhes o que foi semeado no coração. 20 A semente que caiu no terreno pedregoso representa os que ouvem a boa nova e a recebem com alegria. 21 Mas dura pouco porque não têm raízes. Quando vêm os sofrimentos e as perseguições por causa da boa nova, não aguentam. 22 A semente que caiu entre os espinhos representa aqueles que ouvem a boa nova, mas as preocupações desta vida e a ilusão das riquezas sufocam-na logo e o fruto não aparece. 23 Mas a semente que caiu em boa terra representa os que recebem a boa nova e a compreendem. Esses dão realmente fruto, uns à razão de cem, outros de sessenta e outros de trinta por cada grão.»
A parábola do trigo e do joio
24 Jesus apresentou-lhes outra parábola: «O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Mas enquanto toda a gente dormia, veio o inimigo desse homem, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. 26 Quando as plantas cresceram e se começaram a formar as espigas, apareceu também o joio. 27 Então os trabalhadores desse homem foram ter com ele e perguntaram-lhe: “Senhor, não foi boa semente que semeaste no teu campo? Como é que apareceu este joio?” 28 “Foi um inimigo que fez isso”, respondeu ele. Os trabalhadores tornaram a perguntar-lhe: “Queres que vamos lá arrancar o joio?” 29 Mas ele replicou: “Não, porque ao arrancarem o joio são capazes de arrancar também o trigo. 30 Deixem-nos crescer os dois até ao tempo da ceifa. Nessa altura direi aos ceifeiros: Apanhem primeiro o joio e atem-no em feixes para ser queimado no fogo, mas recolham o trigo para o meu celeiro.”»
A parábola do grão de mostarda
(Marcos 4,30–32; Lucas 13,18–19)
31 Apresentou-lhes ainda outra parábola: «O reino dos céus é como um grão de mostarda que alguém semeou no seu campo. 32 Esta é a mais pequena das sementes. Mas quando a planta cresce é a maior de todas. Chega mesmo a ser uma árvore e até os pássaros vão fazer ninho nos seus ramos.»
A parábola do fermento
(Lucas 13,20–21)
33 Jesus expôs-lhes ainda outra parábola: «O reino dos céus é como o fermento que uma mulher misturou em três medidas de farinha e assim fez levedar toda a massa.»
Razão do ensino por parábolas
(Marcos 4,33–34)
34 Jesus serviu-se de parábolas para dizer todas estas coisas à multidão. E só lhes falava por meio de parábolas. 35 Assim se cumpria o que tinha dito o profeta:
Hei-de falar por meio de parábolas,
direi coisas que estavam escondidas
desde o princípio do mundob.
Jesus explica a parábola do trigo e do joio
36 Então Jesus deixou a multidão e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se dele e pediram: «Explica-nos o que significa a parábola do joio no campo.» 37 Jesus esclareceu-os assim: «Aquele que semeou a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são as pessoas que pertencem ao reino de Deus. O joio são os filhos do Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o Diabo. A ceifa é o fim deste mundo e os ceifeiros são os anjos. 40 Ora assim como o joio se junta e se queima no fogo, assim vai ser no fim do mundo: 41 o Filho do Homem mandará os seus anjos e eles retirarão do seu reino todos os que levam os outros a pecar e todos os que praticam o mal, 42 para os lançarem na fornalha. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então os justos de Deus brilharão como o Sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos preste atenção!»
A parábola do tesouro escondido e a pérola preciosa
44 E continuou: «O reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Quando alguém o encontra volta a escondê-lo. E, cheio de alegria, vai vender tudo quanto tem e compra o campo.
45 O reino dos céus pode também comparar-se a um comerciante que anda à procura de pérolas de boa qualidade. 46 Quando encontra uma pérola de muito valor vai vender tudo o que tem e compra-a.»
Rede lançada ao mar
47 «O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que se lança ao mar e apanha toda a espécie de peixes. 48 Quando já está cheia, os pescadores puxam-na para a praia e sentam-se a escolher o peixe: o que é bom deitam-no em cestos, e atiram fora o que não presta. 49 Assim vai acontecer no fim deste mundo: os anjos sairão para separar as pessoas más das boas, 50 lançando as más na fornalha. Ali haverá choro e ranger de dentes.»
Coisas novas e velhas
51 Jesus perguntou então aos discípulos: «Compreenderam todas estas coisas?» Eles responderam: «Compreendemos, sim.» 52 Então Jesus continuou: «Portanto, todo o doutor da lei que aceita a doutrina do reino dos céus é semelhante ao chefe de família que sabe tirar dos tesouros que tem coisas novas e velhas.»
Jesus é mal recebido em Nazaré
(Marcos 6,1–6; Lucas 4,16–30)
53 Quando Jesus acabou de lhes apresentar estas parábolas retirou-se dali. 54 Foi para a sua terra e começou a ensinar o povo na sinagoga deles. Os que o ouviam diziam admirados: «Donde lhe vem a sabedoria e o poder de fazer milagres? 55 Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria a sua mãe? E não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? 56 Não vivem cá também todas as suas irmãs? Donde lhe vem então tudo isto?» 57 Por essa razão não queriam nada com ele. Mas Jesus lembrou-lhes: «Nenhum profeta é desprezado a não ser na sua terra e no meio da sua família.» 58 E por causa da falta de fé deles, Jesus não fez ali muitos milagres.
Morte de João Baptista
(Marcos 6,14–29; Lucas 9,7–9)
14 1 Naquele tempo, Herodes, o governador da Galileia, ouviu falar de Jesus 2 e disse aos subordinados que estavam com ele: «Este homem é João Baptista; ele ressuscitou dos mortos e por isso é que tem poder para fazer os milagres que faz.»
3 De facto, Herodes tinha mandado prender João e tinha-o metido na cadeia. Fez isso por causa de Herodias, esposa de seu irmão Filipe. 4 É que João avisava constantemente Herodes: «Não tens o direito de viver com ela.» 5 Herodes queria matá-lo, mas tinha medo do povo porque todos consideravam João como um profeta. 6 Ora no dia dos anos de Herodes, a filha de Herodias dançou diante de todos e agradou muito a Herodes. 7 Este jurou dar-lhe tudo o que ela pedisse. 8 Então ela, pressionada pela mãe, fez este pedido: «Dá-me agora mesmo, numa bandeja, a cabeça de João Baptista.» 9 O rei ficou triste, mas por causa do juramento e dos convidados ordenou que lhe fosse dada 10 e mandou alguém à cadeia cortar a cabeça de João. 11 Trouxeram-na numa bandeja e deram-na à rapariga, que a foi levar à mãe. 12 Os discípulos de João foram buscar o corpo e sepultaram-no. Depois levaram a notícia a Jesus.
Jesus dá de comer a uma multidão
(Marcos 6,30–44; Lucas 9,10–17; João 6,1–14)
13 Quando Jesus recebeu aquela notícia, retirou-se de barco e foi sozinho para um lugar isolado. Mas a multidão, ao saber disso, deixava as suas povoações e seguia-o por terra. 14 Assim, quando Jesus desembarcou viu uma multidão enorme. Sentiu-se comovido com aquela gente e curou todos os doentes que havia entre eles.
15 Ao entardecer, os discípulos foram ter com ele e disseram-lhe: «Já é muito tarde e este sítio aqui é isolado. Manda esta multidão embora para que vão às aldeias comprar alguma coisa para comer.» 16 Porém, Jesus observou: «Não há necessidade de eles se irem embora. Dêem-lhes vocês de comer!» 17 Os discípulos responderam: «Mas olha que só temos aqui cinco pães e dois peixes!» 18 «Tragam-mos cá», disse Jesus. 19 E deu ordens para que a multidão se sentasse na relva. Depois pegou nos cinco pães e nos dois peixes, levantou os olhos para o céu e deu graças a Deus. Partiu os pães, deu-os aos discípulos e os discípulos distribuíram-nos pela multidão. 20 Todos comeram até ficarem satisfeitos. E, com os bocados que sobejaram, encheram-se doze cestos. 21 O número dos homens que comeram andava por volta de cinco mil, não contando as mulheres e as crianças.
Jesus caminha por cima da água
(Marcos 6,45–52; João 6,16–21)
22 Logo a seguir, Jesus mandou os discípulos entrar no barco e disse-lhes para irem à frente, para a outra banda do lago, enquanto se despedia da multidão. 23 Depois subiu sozinho ao monte para orar. Quando anoiteceu, ainda lá estava sozinho. 24 Entretanto, a embarcação estava já bastante longe da terra e ia sendo batida pelas ondas, porque o vento era contrário. 25 De madrugada, Jesus foi então ter com os discípulos caminhando por cima da água. 26 Quando eles o viram a caminhar por cima da água, ficaram

Jussara 16/11/2014 13:36 0 0

Introdução — Desde os tempos mais antigos, a tradição vai no sentido de considerar que o autor deste Evangelho foi um dos primeiros discípulos de Jesus; seria aquele cobrador de impostos, tornado discípulo, que é chamado Mateus em Mateus 9,9 e Levi em Marcos 2,14. Pensa-se que o discípulo Mateus poderia ter recolhido em aramaico alguns ditos e feitos de Jesus, tendo mais tarde escrito o texto actual deste Evangelho, numa altura em que já dispunha de outros Evangelhos, nomeadamente o de Marcos, escrito em grego, que o podem ter ajudado na nova escrita. Este livro terá sido escrito depois do ano 70.
É provável que tenha tido como principais destinatários igrejas de origem judaica com uma forte ligação ao seu património religioso tradicional, mas que já não parecem identificar-se com o judaísmo, uma vez que este se recusou a acolher Jesus com as características de Messias que este Evangelho sublinha.
O Evangelho segundo Mateus caracteriza-se por uma particular sensibilidade a questões que têm a ver com o judaísmo. Os temas tradicionais da religião hebraica bíblica, as suas personagens antigas mais marcantes e os confrontos com vários grupos que representam o judaísmo contemporâneo de Jesus aparecem neste Evangelho com algum destaque. A longa genealogia de antepassados sublinha as raízes de Jesus no interior do povo hebraico, indo até Abraão e sublinhando a maneira como Jesus articula toda a história do povo de Deus, uma vez que quatro ciclos de catorze gerações conduzem directamente de Abraão, por David e pelo exílio da Babilónia até Jesus. Tal como acontece na genealogia, também no resto deste Evangelho são constantes as referências aos temas do Antigo Testamento. A infância de Jesus e outras referências da sua vida pública, nomeadamente o modo como ensina e a autoridade que revela, fazem dele um novo Moisés; a nova Torá é o seu ensino que inaugura o Reino de Deus. Valoriza e interpreta os textos proféticos para demonstrar que Jesus é o Messias esperado pelo povo, aquele que iria realizar as promessas feitas através dos séculos de história hebraica. A autoridade de Jesus tanto assenta na capacidade de declarar verdades novas como na reinterpretação de verdades que vinham da Escritura. Por isso é tão frequente encontrar citações do Antigo Testamento ao longo deste Evangelho.
Os ensinamentos de Jesus são apresentados ao longo da sua vida pública, em cinco secções, sendo cada uma delas dominada por um grande discurso:
— O sermão da montanha: 5—7.
— Instruções aos doze discípulos sobre a sua missão: 10.
— As parábolas do reino: 13.
— Ensinamentos sobre a vida dos cristãos neste mundo: 18.
— O fim da vida presente e a vinda do reino de Deus: 24—25.
Este evangelho pode sintetizar-se no seguinte plano:
— Antepassados e nascimento de Jesus: 1—2.
— Mensagem de João Baptista: 3,1—12.
— Baptismo e tentação de Jesus: 3,13—4,11.
— Actividade de Jesus na Galileia: 4,12—18
— A caminho de Jerusalém: 19—20.
— Actividade de Jesus em Jerusalém: 21—25.
— Paixão, morte e ressurreição: 26—28.

Antepassados de Jesus Cristo
(Lucas 3,23–38)
1 1 Esta é a lista dos antepassados de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão.
2 Abraão foi pai de Isaac, Isaac foi pai de Jacob e Jacob foi pai de Judá e dos seus irmãos. 3 Judá foi pai de Peres e de Zera, sendo a mãe Tamar. Peres foi pai de Hesron e Hesron foi pai de Rame. 4 Rame foi pai de Aminadab, Aminadab foi pai de Nachon e Nachon foi pai de Salmon. 5 Salmon foi pai de Booz, sendo a mãe Raab. Booz foi pai de Obed, sendo a mãe Rute. Obed foi pai de Jessé 6 e Jessé foi pai do rei David.
David foi pai de Salomão, sendo a mãe a que foi mulher de Urias. 7 Salomão foi pai de Roboão, Roboão foi pai de Abias e Abias foi pai de Asa. 8 Asa foi pai de Josafat, Josafat foi pai de Jorão e Jorão foi pai de Uzias. 9 Uzias foi pai de Jotam, Jotam foi pai de Acaz e Acaz foi pai de Ezequias. 10 Ezequias foi pai de Manassés, Manassés foi pai de Amon e Amon foi pai de Josias. 11 Josias foi pai de Jeconias e dos seus irmãos, no tempo do exílio para a Babilónia.
12 Depois do exílio na Babilónia, Jeconias foi pai de Salatiel e Salatiel foi pai de Zorobabel. 13 Zorobabel foi pai de Abiud, Abiud foi pai de Eliaquim e Eliaquim foi pai de Azur. 14 Azur foi pai de Sadoc, Sadoc foi pai de Jaquin e Jaquin foi pai de Eliud. 15 Eliud foi pai de Eleazar, Eleazar foi pai de Matan e Matan foi pai de Jacob.
16 Jacob foi pai de José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Messias.
17 No conjunto são catorze gerações de Abraão até David, outras catorze de David até ao exílio para a Babilónia e mais catorze do exílio até ao Messiasa.
José dá o nome a Jesus
(Lucas 2,1–7)
18 O nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, tinha o casamento tratado com José; mas, antes de casarem, achou-se grávida pelo poder do Espírito Santo. 19 José, o seu noivo, que era justo, não a queria acusar publicamente. Por isso pensou deixá-la sem dizer nada. 20 Andava ele a pensar nisto, quando lhe apareceu num sonho um anjo do Senhor que lhe disse: «José, descendente de David, não tenhas medo de casar com Maria, tua noiva, pois o que nela se gerou foi pelo poder do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho e tu vais pôr-lhe o nome de Jesusb, pois ele salvará o seu povo dos pecados.»
22 Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: 23 A virgem ficará grávida e dará à luz um filho que se há-de chamar Emanuelc.
Emanuel quer dizer: Deus está connosco. 24 Quando José acordou, fez como o anjo do Senhor lhe tinha mandado: recebeu Maria por esposa; 25 sem terem tido antes relações conjugais, Maria deu à luz o menino, a quem José pôs o nome de Jesus.
Sábios do Oriente adoram o Messias
2 1 Jesus nasceu em Belém, na região da Judeia, no tempo do rei Herodes. Depois do seu nascimento, chegaram uns sábios do Oriente a Jerusalém 2 e perguntaram: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? É que nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo.»
3 Quando ouviu isto, o rei Herodes ficou muito perturbado e com ele a população de Jerusalém. 4 Mandou reunir todos os chefes dos sacerdotes mais os doutores da lei e perguntou-lhes onde haveria de nascer o Messias. 5 Responderam: «Em Belém da Judeia, conforme o que o profeta escreveu: 6 Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as terras principais da Judeia, porque de ti é que há-de vir um chefe que será o pastor do meu povo de Israela.»
7 Então Herodes chamou à parte os sábios e perguntou-lhes quando é que exactamente a estrela lhes tinha aparecido. 8 Depois mandou-os a Belém com esta recomendação: «Vão, informem-se cuidadosamente acerca do menino e, quando o encontrarem, venham-me dizer para eu ir também adorá-lo.»
9 Depois de ouvirem o rei, os sábios partiram. Nisto, repararam que a estrela que tinham observado a Oriente ia adiante deles, até que parou por cima do lugar onde se encontrava o menino. 10 Ao verem a estrela, sentiram uma alegria enorme. 11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e inclinaram-se para o adorar. Depois abriram os cofres e fizeram-lhe as suas ofertas de ouro, incenso e mirra. 12 Então Deus avisou-os por meio dum sonho, para não voltarem a encontrar-se com Herodes. E eles partiram para a sua terra por outro caminho.
Fuga para o Egipto
13 Depois de se terem ido embora, um anjo do Senhor apareceu a José, num sonho, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino mais a sua mãe e foge com eles para o Egipto. Deixa-te lá estar até que eu te diga, porque Herodes vai procurar a criança para a matar.» 14 José levantou-se, tomou o menino com a sua mãe e pôs-se a caminho, de noite, para o Egipto. 15 Ficou lá até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Chamei do Egipto o meu filhob.
Massacre das criancinhas
16 Quando Herodes percebeu que os sábios o tinham enganado, ficou furioso e mandou matar, em Belém e nos arredores, todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo que ele tinha apurado pelas palavras dos sábios. 17 Foi assim que se cumpriu o que o profeta Jeremias tinha dito:
18 Em Ramá se ouviu um grito,
choro amargo, imensa dor.
É Raquel a chorar os filhos;
e não quer ser consolada,
porque eles já não existemc.
Regresso do Egipto
19 Depois da morte de Herodes, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egipto, 20 e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe e volta para a terra de Israel, porque já morreram aqueles que procuravam tirar a vida ao menino.» 21 José levantou-se, tomou o menino com a sua mãe e voltou para a terra de Israel. 22 Mas, quando soube que Arquelaud reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Tendo recebido novas instruções de Deus por meio dum sonho partiu para a região da Galileia. 23 Ali fixou residência numa terra chamada Nazaré. Foi assim que se cumpriu aquilo que foi dito pelos profetas: Ele há-de chamar-se Nazarenoe.
Pregação de João Baptista
(Marcos 1,1–8; Lucas 3,1–18; João 1,19–28)
3 1 Naquele tempo apareceu João Baptista no deserto da Judeia a pregar assim: 2 «Arrependam-se, porque o reino dos céus está próximo.» 3 Foi a respeito dele que o profeta Isaías falou, quando disse: Alguém grita no deserto: preparem o caminho do Senhor e tornem direitas as suas estradasa.
4 João usava uma vestimenta de pêlo de camelo, apertada com uma cintura de couro, e alimentava-se de gafanhotos e de mel apanhado no campo. 5 Os habitantes de Jerusalém e de toda a região da Judeia, assim como do vale do Jordão, iam ter com ele. 6 Confessavam os seus pecados e ele baptizava-os no rio Jordão.
7 Quando João viu que muitos fariseus e saduceus iam ter com ele para serem baptizados, disse-lhes: «Raça de víboras! Quem vos disse que podiam escapar do castigo que se aproxima? 8 Mostrem pelo fruto das vossas acções que estão verdadeiramente arrependidos. 9 E não andem por aí a dizer: “Abraão é nosso pai!” Pois eu garanto-vos que Deus até destas pedras pode suscitar filhos de Abraão. 10 O machado já está prestes a cortar as árvores pela raiz. Toda a árvore que não der bons frutos será abatida e lançada no fogo. 11 Eu baptizo-vos em água como sinal de arrependimento. Mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu; não mereço sequer a honra de lhe levar as sandálias! Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e no fogo. 12 Tem nas mãos a pá e vai separar, na sua eira, o trigo da palha. Guardará o trigo no celeiro e queimará a palha numa fogueira que não se apaga.»
Baptismo de Jesus
(Marcos 1,9–11; Lucas 3,21–22)
13 Nessa altura Jesus deslocou-se da Galileia ao rio Jordão para ser baptizado por João Baptista. 14 Este, porém, negava-se a isso exclamando: «Sou eu quem tem necessidade de ser baptizado por ti e tu é que vens ter comigo?» 15 Mas Jesus respondeu: «Deixa lá. É bom cumprirmos deste modo toda a vontade de Deus.» E João concordou em baptizá-lo.
16 Assim que foi baptizado, Jesus saiu da água. Nesse momento, abriram-se os céus e viu o Espírito de Deus a descer do céu por cima de si, como uma pomba. 17 E uma voz do céu dizia: «Este é o meu Filho querido. Tenho nele a maior satisfaçãob!»
Jesus é tentado
(Marcos 1,12–13; Lucas 4,1–13)
4 1 Em seguida, Jesus, conduzido pelo Espírito Santo, retirou-se para o deserto a fim de ser ali tentado pelo Diabo. 2 Depois de passar quarenta dias e quarenta noites sem comer, Jesus teve fome. 3 O tentador aproximou-se dele e disse: «Se és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.» 4 Jesus respondeu: «A Sagrada Escritura diz: Não se vive só de pão, mas também de toda a palavra que vem de Deusa.»
5 Então o Diabo levou-o à cidade santa, colocou-o no ponto mais alto do templo, 6 e disse-lhe: «Se és o filho de Deus, atira-te daqui abaixo, porque diz a Escritura: Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito: eles hão-de segurar-te nas mãos para evitar que magoes os pés contra as pedrasb.»
7 «Mas a Escritura diz também: Não tentarás o Senhor teu Deusc», respondeu Jesus.
8 O Diabo levou-o ainda a um monte muito alto, mostrou-lhe dali todos os países do mundo com as suas grandezas 9 e disse: «Tudo isto te darei se de joelhos me adorares.» 10 Jesus respondeu: «Vai-te, Satanás! A Escritura diz: Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele prestarás cultod.»
11 O Diabo então deixou-o e aproximaram-se alguns anjos que começaram a servi-lo.
Jesus inicia a sua actividade na Galileia
(Marcos 1,14–15; Lucas 4,14–15)
12 Quando Jesus soube que João Baptista tinha sido preso, retirou-se para a Galileia. 13 Deixou Nazaré para ir viver em Cafarnaum, uma cidade à beira do lago nos limites de Zabulão e Neftalie. 14 Aconteceu assim para que se cumprissem estas palavras de Isaías:
15 Terras de Zabulão e de Neftali,
da beira-mar e de além do Jordão,
Galileia dos pagãos!
16 O povo mergulhado na escuridão
viu uma grande luz!
Luz que brilhou
para os que estavam na região escura da mortef.
17 Daí em diante Jesus começou a pregar: «Arrependam-se, porque o reino dos céus está a chegar.»
Primeiros companheiros de Jesus
(Marcos 1,16–20; Lucas 5,1–11)
18 Caminhava Jesus junto ao lago da Galileia quando viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e André, que andavam a lançar as redes no lago pois eram pescadores. 19 Jesus disse-lhes: «Venham comigo e eu vos farei pescadores de homens.» 20 Ambos largaram imediatamente as redes e foram com ele. 21 Um pouco mais adiante, Jesus viu outros dois irmãos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, que estavam no barco com o pai, a consertar as redes, e chamou-os. 22 Eles deixando logo o barco e o pai seguiram Jesus.
Jesus percorre a Galileia
(Lucas 6,17–19)
23 Jesus andava por toda a Galileia, ensinava nas sinagogas, pregava a boa nova do reino e curava o povo de todas as doenças e sofrimentos. 24 Ouvia-se falar dele por toda a Síria. Traziam-lhe os que sofriam de várias doenças e males, os que tinham espíritos maus, os epilépticos e os paralíticos. E Jesus curava-os a todos. 25 Acompanhava-o uma enorme multidão que vinha da Galileia, das Dez Cidades, de Jerusalém, da Judeia e de além do Jordão.
A verdadeira felicidade
(Lucas 6,20–23)
5 1 Ao ver a multidão, Jesus subiu ao monte. Sentou-se e os seus discípulos foram para junto dele. 2 Jesus começou então a ensiná-los desta maneira:
3 «Felizes os que têm espírito de pobres,
porque é deles o reino dos céus!
4 Felizes os que choram,
porque Deus os consolará!
5 Felizes os humildes,
porque terão como herança a Terra!
6 Felizes os que têm fome e sede de ver cumprida a vontade de Deus,
porque Deus os satisfará!
7 Felizes os que usam de misericórdia para com os outros,
porque Deus os tratará com misericórdia!
8 Felizes os íntegros de coração,
porque hão-de ver Deus!
9 Felizes os que promovem a paz,
porque Deus lhes chamará seus filhos!
10 Felizes os que são perseguidos por procurarem que se cumpra a vontade de Deus,
porque é deles o reino dos céus!
11 Felizes serão quando vos insultarem, perseguirem e caluniarem,
por serem meus discípulos!
12 Alegrem-se e encham-se de satisfação porque é grande a recompensa que vos espera no céu. Pois assim também foram tratados os profetas que vos precederama.»
O sal e a luz
(Marcos 9,50; Lucas 14,34–35)
13 «Vocês são o sal do mundo. Mas se o sal perder as suas qualidades, poderá novamente salgar? Já não presta para nada, senão para se deitar fora e ser pisado por quem passa.
14 Vocês são a luz do mundo. Uma cidade situada no alto de um monte não se pode esconder. 15 Também não se acende um candeeiro para o pôr debaixo duma caixa. Pelo contrário, põe-se mas é num lugar em que alumie bem a todos os que estiverem em casab. 16 Do mesmo modo, façam brilhar a vossa luz diante de toda a gente, para que vejam as vossas boas acções e dêem louvores ao vosso Pai que está nos céus.»
A lei e o reino dos céus
17 «Não pensem que vim anular a Lei de Moisés ou o ensino dos profetas. Não vim para anular mas para dar cumprimento. 18 Saibam que enquanto o Céu e a Terra existirem, nem uma letra, nem sequer um acento se hão-de tirar da lei, sem que tudo se cumpra. 19 Por isso quem desobedecer ainda que seja a um só destes mandamentos mais pequenos e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no reino dos céus. Mas aquele que obedecer à lei e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será tido por grande no reino dos céus. 20 Digo-vos mais: vocês não entrarão de maneira nenhuma no reino dos céus, se não cumprirem a vontade de Deus com mais fidelidade do que os doutores da lei e os fariseus.»
Reconciliação com o semelhante
(Lucas 12,57–59)
21 «Ouviram o que foi dito aos antigos: Não matarásc. E ainda: Aquele que matar alguém terá de responder em julgamento. 22 Mas eu digo-vos: Todo aquele que se irritar contra o seu semelhante terá de responder em julgamento; aquele que insultar o seu semelhante, chamando-lhe “imbecil”, será julgado pelo tribunal; e aquele que lhe chamar “estúpido” merece ir para o fogo do inferno. 23 Por isso, quando fores ao templo levar a tua oferta a Deus, e ali te lembrares que o teu semelhante tem alguma razão de queixa contra ti, 24 deixa a oferta diante do altar e vai primeiro fazer as pazes com o teu semelhante. Depois volta e apresenta a tua oferta.
25 Faz as pazes com o teu adversário enquanto vão os dois a caminho do tribunal. Senão o adversário entrega-te ao juiz, este entrega-te ao oficial de justiça e metem-te na cadeia. 26 Garanto-te que não sais de lá enquanto não pagares o último cêntimo.»
Perigo das más intenções
27 «Ouviram o que foi dito: Não cometerás adultériod. 28 Mas eu digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com más intenções já cometeu adultério no seu coração. 29 Portanto, se o teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e atira-o para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ser todo inteiro lançado no inferno. 30 De igual modo, se a tua mão direita te leva a pecar, corta-a e atira-a para longe de ti. Mais vale perderes uma parte do teu corpo do que ele ir todo inteiro para o inferno.»
Sobre o divórcio
(Mateus 19,9; Marcos 10,11–12; Lucas 16,18)
31 «Também foi dito: Todo o homem que se divorciar da sua mulher deve passar-lhe uma declaraçãoe. 32 Mas eu digo-vos: Todo o homem que se divorciar da sua mulher, excepto no caso de adultériof, é culpado de a expor ao adultério. E o homem que casar com ela também comete adultério.»
Evitar juramentos
33 «Também ouviram o que foi dito aos antigos: Não farás juramentos falsos, mas cumprirás diante do Senhor o que jurasteg. 34 Mas eu digo-vos que não devem jurar de modo nenhum. Não jurem pelo Céu, porque é o trono de Deus; 35 nem pela Terra, porque é o estrado para os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. 36 Nem mesmo pela tua cabeça deves jurar, porque não és capaz de tornar um só dos teus cabelos branco ou preto. 37 Basta que digas sim, quando for sim, e não, quando for não. Tudo o que vai além disso é obra do Malignoh.»
Paciência e generosidade
(Lucas 6,29–30)
38 «Ouviram o que foi dito: Olho por olho e dente por dentei. 39 Mas eu digo-vos: Não resistam a quem vos fizer mal. Se alguém te bater na face direita, apresenta-lhe também a outra. 40 Se alguém te quiser levar a tribunal para te tirar a camisa, dá-lhe também o casaco. 41 Se alguém te obrigar a levar alguma coisa até a um quilómetro de distância, acompanha-o dois quilómetrosj. 42 Se alguém te pedir qualquer coisa, dá-lha; e a quem te pedir emprestado não lhe voltes as costas.»
Amor aos inimigos
(Lucas 6,27–28.32–36)
43 «Ouviram o que foi dito: Amarás o teu próximok e desprezarás o teu inimigo. 44 Mas eu digo-vos: Tenham amor aos vossos inimigos e peçam a Deus por aqueles que vos perseguem. 45 É deste modo que se tornarão filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz brilhar o Sol tanto sobre os bons como sobre os maus, e faz cair a chuva tanto para os justos como para os injustos.
46 Se amarem apenas aqueles que vos amam que recompensa poderão esperar? Não fazem também isso os cobradores de impostos? 47 E se saudarem apenas os vossos amigos, que há nisso de extraordinário? Qualquer pagão faz o mesmo! 48 Portanto, sejam perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito.»
Como dar esmola
6 1 «Quando praticarem o bem, procurem não o fazer diante dos outros para dar nas vistas. Se assim fizerem, já não terão nenhuma recompensa a receber do vosso Pai que está nos céus.
2 Portanto, quando deres esmola, não faças alarde à tua volta, como é costume das pessoas fingidas, nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiadas. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 3 Mas tu, quando deres esmola, procura que a tua mão esquerda nem saiba o que faz a direita. 4 Deste modo, a tua esmola ficará em segredo; e o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há-de recompensar-te.»
Jesus ensina a orar
(Lucas 11,2–4)
5 «Quando orarem, não façam como as pessoas fingidas que gostam de orar de pé, nas sinagogas e às esquinas das ruas, para toda a gente as vera. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 6 Tu, porém, quando quiseres fazer oração, entra no teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai que está presente sem ser visto. E o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, há-de recompensar-te.
7 Quando orarem, não usem muitas palavras, como fazem os pagãos, que pensam que é por muito falarem que serão mais facilmente ouvidos. 8 Não sejam como eles pois o vosso Pai sabe muito bem do que vocês precisam, antes de lho pedirem. 9 Portanto, devem orar assim:
“Pai nosso que estás nos Céus,
Santificado seja o teu nomeb;
10 venha o teu reino;
seja feita a tua vontade,
assim na Terra como no Céu.
11 Dá-nos hoje o pão de que precisamos.
12 Perdoa-nos as nossas ofensas,
como nós perdoámos aos que nos ofenderam.
13 E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do Maligno.”
14 De facto, se perdoarem aos outros as suas ofensas, o vosso Pai celestial também vos perdoará. 15 Mas se não perdoarem aos outros, o vosso Pai também vos não perdoará.»
Acerca do jejum
16 «Quando jejuarem não andem de cara triste, como as pessoas fingidas, que até desfiguram a cara para toda a gente ver que andam a jejuar. Garanto-vos que essas pessoas já receberam a sua recompensa. 17 Mas tu, quando jejuares, lava a cara e penteia-te bem. 18 Deste modo, ninguém saberá que andas a jejuar, a não ser o teu Pai que está presente sem ser visto. Ele, que vê tudo o que se passa em segredo, te dará a recompensa.»
A verdadeira riqueza
(Lucas 12,33–34)
19 «Não se preocupem em juntar riquezas neste mundo, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões assaltam e roubam. 20 Preocupem-se antes em juntar riquezas no céu, onde não há traça nem ferrugem para as destruir, nem ladrões para assaltar e roubar. 21 Onde estiver a vossa riqueza, aí estará o vosso coração.»
Luz e escuridão
(Lucas 11,34–36)
22 «A luz do corpo são os olhos. Por isso, se o teu olhar for bom, todo o teu corpo tem luz. 23 Mas se o teu olhar for mau, todo o teu corpo fica às escuras. Ora se a luz que há em ti não passa de escuridão, que grande será essa escuridão!»
Deus e as riquezas
(Lucas 16,13)
24 «Ninguém pode servir a dois patrões: ou não gosta de um deles e estima o outro, ou há-de ser leal para um e desprezar o outro. Não podem servir a Deus e ao dinheiro.»
Deus cuida dos seus filhos
(Lucas 12,22–31)
25 «É por isso que eu vos digo: Não andem preocupados com o que hão-de comer ou beber, nem com a roupa de que precisam para vestir. Não será que a vida vale mais do que a comida e o corpo mais do que a roupa? 26 Olhem para as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem amontoam grão nos celeiros. E no entanto, o vosso Pai dá-lhes de comer. Não valem vocês muito mais do que as aves? 27 Qual de vós, por mais que se preocupe, poderá prolongar um pouco o tempo da sua vidac?
28 E por que hão-de andar preocupados por causa da roupa? Reparem como crescem os lírios do campo! E eles não trabalham nem fiam. 29 Contudo digo-vos que nem o rei Salomão, com toda a sua riqueza, se vestiu como qualquer deles. 30 Ora se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada, quanto mais vos há-de vestir a vocês, ó gente sem fé?
31 Não andem preocupados a dizer: “Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?” 32 Os pagãos, esses é que se preocupam com todas essas coisas. O vosso Pai celestial sabe muito bem que vocês precisam de tudo isso. 33 Procurem primeiro o reino de Deus e a sua vontade e tudo isso vos será dado. 34 Portanto, não devem andar preocupados com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia a sua dificuldade.»
Não julgar os outros
(Lucas 6,37–38.41–42)
7 1 «Não julguem ninguém e assim Deus não vos julgará!
2 É que Deus há-de julgar-vos do mesmo modo que julgarem os outros, usando a mesma medida que usarem para os outros. 3 Por que reparas tu no cisco que está na vista do teu semelhante, e não vês a trave que está nos teus próprios olhos? 4 Como te atreves a dizer-lhe: “Deixa-me cá tirar-te isso da vista”, quando tens uma trave nos teus olhos? 5 Fingido! Tira primeiro a trave dos teus olhos e depois já vês melhor para tirares o cisco da vista do teu semelhante.
6 Não dêem aos cães o que é santo. Eles são capazes de se virar contra vocês e de vos despedaçar. Não deitem as vossas pérolas aos porcos! Pois eles vão pisá-las.»
Deus ouve a oração
(Lucas 11,9–13)
7 «Peçam e Deus vos dará; procurem e hão-de encontrar; batam à porta e ela há-de abrir-se-vos, 8 pois aquele que pede, recebe; aquele que procura, encontra; e a quem bate, a porta se abrirá. 9 Qual de vocês que seja pai seria capaz de dar uma pedra ao filho, quando este lhe pedisse pão? 10 Ou quem lhe daria uma cobra quando lhe pedisse peixe? 11 Ora se vocês, mesmo sendo maus, sabem dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está no céu dará coisas boas àqueles que lhas pedirem!
12 Façam aos outros tudo aquilo que desejariam que eles vos fizessem. Aqui está o essencial da lei e do ensino dos profetas.»
O caminho para a vida eterna
(Lucas 13,24)
13 «Entrem pela porta estreita! Pois é larga a porta e espaçoso o caminho que vai dar à perdição e são muitas as pessoas que para ali se encaminham. 14 Mas é estreita a porta e apertado o caminho que vai dar à vida eterna e são poucas as pessoas que o encontram.»
Os falsos profetas
(Lucas 6,43–44)
15 «Cuidado com os falsos profetas! Vêm ter convosco como se fossem ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. 16 É pelos seus frutos que os hão-de reconhecer. Porventura podem colher-se uvas das silvas ou figos dos cardos? 17 Portanto, a árvore boa dá bons frutos e a árvore má dá maus frutos. 18 Assim pois, uma árvore boa não pode dar maus frutos e uma árvore má não pode dar bons frutos. 19 Toda a árvore que não dá bons frutos corta-se e deita-se ao fogo. 20 Portanto, é pelas suas acções que poderão reconhecer os falsos profetas.»
Quem entra no reino dos céus
(Lucas 6,46; 13,25–27)
21 «Nem todos aqueles que me dizem: “Senhor, Senhor!” entrarão no reino dos céus, mas apenas os que fazem a vontade de meu Pai que está nos céus. 22 Quando aquele dia chegar, haverá muitos que me hão-de dizer: “Senhor, Senhor, não profetizámos nós em teu nome? Não fizemos numerosos milagres em teu nome? Não chegámos a expulsar demónios em teu nome?” 23 Eu então hei-de declarar-lhes: “Nunca vos conheci. Afastem-se de mim, seus malfeitores!”»
Cumprir a palavra de Deus
(Lucas 6,47–49)
24 «Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática pode comparar-se ao homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. 25 Caiu muita chuva, vieram as cheias e os ventos sopraram com força contra aquela casa. Mas ela não caiu, porque os seus alicerces estavam assentes na rocha. 26 Porém, aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática pode comparar-se ao homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia. 27 Caiu muita chuva, vieram as cheias e os ventos sopraram com força contra aquela casa. Ela caiu e ficou arruinada.»
28 Quando Jesus acabou de pronunciar estas palavras, a multidão estava admirada com os seus ensinamentos. 29 É que ele ensinava como quem tem autoridade e não como os doutores da lei.
Cura de um homem com lepra
(Marcos 1,40–45; Lucas 5,12–16)
8 1 Ao descer do monte, Jesus foi seguido por uma grande multidão. 2 Então aproximou-se dele um homem com lepra que se ajoelhou e lhe disse: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me da lepra.» 3 Jesus estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero, fica purificado!» No mesmo instante, o homem ficou purificado da lepra. 4 Jesus então disse-lhe: «Escuta, não fales disto a ninguém. Mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece a Deus o sacrifício que Moisés ordenou, para ficarem a saber que estás curado.»
Cura do criado de um oficial romano
(Lucas 7,1–10)
5 Quando Jesus entrou em Cafarnaum aproximou-se dele um oficial do exército romano e fez-lhe este pedido: 6 «Senhor, o meu criado está de cama e sem se poder mexer, num sofrimento horrível.» 7 «Eu vou lá curá-lo», disse Jesus. 8 Mas o oficial respondeu: «Ó Senhor, eu não mereço que entres na minha casa. Basta que digas uma palavra e o meu criado ficará são. 9 Também eu tenho superiores a quem devo obediência e soldados às minhas ordens. Digo a um que vá, e ele vai. Digo a outro que venha, e ele vem. E digo ao meu criado: “faz isto”, e ele faz.» 10 Ao ouvir aquilo, Jesus ficou admirado e disse para os que o seguiam: «Fiquem sabendo que ainda não encontrei ninguém com tanta fé entre o povo de Israel. 11 Digo-vos mais: hão-de vir muitos do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa no reino dos céus com Abraão, Isaac e Jacob, 12 enquanto os herdeiros do reino serão lançados fora, na escuridão. Ali haverá choro e ranger de dentes.» 13 Em seguida Jesus disse ao oficial: «Podes ir. Seja como acreditaste.» E naquela mesma hora o doente ficou curado.
Jesus cura muitos doentes
(Marcos 1,29–34; Lucas 4,38–41)
14 Quando Jesus chegou a casa de Pedro, viu que a sogra deste estava de cama, com febre. 15 Tocou-lhe na mão e a febre passou-lhe. Ela então levantou-se e começou a servi-lo.
16 Ao cair da tarde, trouxeram a Jesus muitas pessoas com espíritos maus. Com uma palavra Jesus expulsou os espíritos maus e curou todos os que estavam doentes. 17 Assim se cumpria aquilo que disse o profeta Isaías: Ele próprio tomou as nossas fraquezas e suportou o peso das nossas doençasa.
Convite para seguir Jesus
(Lucas 9,57–62)
18 Quando Jesus viu a multidão que o rodeava, deu ordens para passar à outra margem do lago. 19 Foi então que se aproximou um doutor da lei e lhe disse: «Mestre, irei contigo para onde quer que fores.» 20 Jesus porém declarou: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde encostar a cabeça.»
21 Um dos discípulos pediu: «Senhor, deixa-me ir primeiro fazer o enterro ao meu pai.» 22 Contudo Jesus disse-lhe: «Segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus próprios mortos.»
Jesus acalma a tempestade
(Marcos 4,35–41; Lucas 8,22–25)
23 Jesus entrou no barco e os seus discípulos acompanharam-no. 24 Nisto, levantou-se no lago um temporal tão grande que as ondas encobriam o barco. Jesus, porém, dormia. 25 Os discípulos aproximaram-se dele e acordaram-no, gritando: «Senhor, salva-nos, que estamos perdidos!» 26 Jesus disse: «Por que estão com medo, homens sem fé?» Então levantou-se, deu ordens aos ventos e às ondas e fez-se uma grande calma. 27 Eles ficaram espantados e exclamavam: «Quem é este afinal, que até os ventos e as ondas lhe obedecem?!»
Cura de dois homens com espíritos maus
(Marcos 5,1–20; Lucas 8,26–39)
28 Jesus chegou à região dos gadarenos, do outro lado do lagob. Vieram ao seu encontro, saindo dos sepulcros, dois homens possuídos de espíritos maus. Os homens eram tão perigosos que ninguém se atrevia a passar por aquele caminho. 29 De repente, desataram a gritar: «Que é que tu queres de nós, Filho de Deus? Vieste cá para nos atormentar antes do tempo?»
30 Ora a uma certa distância dali, andava a pastar uma grande quantidade de porcosc. 31 Então os espíritos maus fizeram a Jesus este pedido: «Se nos vais expulsar, manda-nos para aquela vara de porcos.» 32 Jesus permitiu: «Vão!» E eles saíram e foram para os porcos que se puseram todos a correr pelo monte abaixo e afogaram-se no lago.
33 Os que andavam a guardar os animais fugiram e foram à cidade contar o que tinha acontecido aos dois homens com espíritos maus. 34 Então toda a gente da cidade foi ter com Jesus. Quando o viram, pediram-lhe para se ir embora daquela região.
Cura de um paralítico
(Marcos 2,1–12; Lucas 5,17–26)
9 1 Jesus entrou num barco, atravessou o lago e foi para a sua cidadea. 2 Trouxeram-lhe então um paralítico deitado numa enxerga. Ao ver a fé daqueles homens disse ao paralítico: «Coragem, meu filho! Os teus pecados estão perdoados.» 3 Nisto, alguns doutores da lei começaram a dizer para consigo: «Este homem está a ofender a Deus!» 4 Jesus percebeu-lhes os pensamentos e questionou-os: «Por que é que estão a pensar mal no vosso íntimo? 5 O que será mais fácil? Dizer: “Os teus pecados estão perdoados”, ou dizer: “Levanta-te e anda?” 6 Ficam pois a saber que o Filho do Homem tem poder na Terra para perdoar pecados.» E disse ao paralítico: «Levanta-te, pega na tua enxerga e vai para casa.» 7 O homem levantou-se e foi para casa. 8 Ao ver aquilo, a multidão ficou impressionada e louvava a Deus que deu tão grande poder aos homens.
Jesus chama Mateus
(Marcos 2,13–17; Lucas 5,27–32)
9 Quando Jesus ia a sair dali, viu um homem sentado no posto de cobrança de impostos. O seu nome era Mateus. Jesus chamou-o: «Segue-me.» Ele levantou-se e foi com Jesus. 10 Jesus estava sentado à mesa em casa de Mateus e vieram muitos outros cobradores de impostos e mais gente pecadora sentar-se à mesa com ele e os discípulos. 11 Ao verem isso, os fariseus perguntavam aos discípulos: «Por que é que o vosso Mestre se senta à mesa com os cobradores de impostos e gente pecadorab?» 12 Jesus ouviu isso e explicou: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os que estão doentes. 13 Vão aprender o que significam estas palavras da Escritura: Prefiro a misericórdia e não os sacrifíciosc. Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores.»
A questão do jejum
(Marcos 2,18–22; Lucas 5,33–39)
14 Naquela ocasião, os discípulos de João Baptista aproximaram-se de Jesus com esta pergunta: «Por que é que nós e os fariseus jejuamos muitas vezes, e os teus discípulos não jejuam?» 15 Jesus esclareceu-os: «Acham que os convidados para um casamento se podem apresentar de luto enquanto o noivo está com eles? Lá virá o tempo em que o noivo lhes será tirado. Nessa altura jejuarão.
16 Ninguém cose um remendo de tecido novo em roupa velha, porque o remendo novo repuxa o tecido velho e fica um rasgão ainda maior. 17 Do mesmo modo, ninguém deita vinho novo em vasilhas velhas, porque o vinho rebenta-as, perdendo-se assim o vinho e as vasilhas. Portanto, o vinho novo deve ser metido em vasilhas novas e assim se conservam ambas as coisas.»
Ressurreição de uma menina e cura de uma doente
(Marcos 5,21–43; Lucas 8,40–56)
18 Ainda Jesus lhes estava a dizer estas coisas, quando chegou um dirigente da sinagoga que se ajoelhou diante dele a pedir: «A minha filha acaba mesmo agora de morrer. Mas vem, põe a tua mão sobre ela, e viverá.» 19 Jesus levantou-se e seguiu-o com os seus discípulos. 20 Nisto, uma mulher, que havia doze anos sofria duma doença que a fazia perder sangue, aproximou-se por detrás de Jesus e tocou-lhe na ponta do manto. 21 Ela pensava consigo: «Se eu conseguir ao menos tocar-lhe na roupa, ficarei curada.» 22 Jesus voltou-se, olhou para ela e disse: «Coragem, minha filha! A tua fé te salvou!» E desde aquele momento a mulher ficou curada.
23 Quando Jesus chegou a casa do dirigente da sinagoga e viu os tocadores de flautad e a multidão que gritava, 24 mandou: «Saiam daqui para fora, que a menina não está morta, está só a dormir.» E começaram a fazer troça dele. 25 Quando aquela gente toda foi posta fora, Jesus entrou, pegou na mão da menina e ela levantou-se. 26 A notícia deste acontecimento espalhou-se por toda a região.
Jesus cura dois cegos
27 Ao sair daquele lugar, houve dois cegos que foram atrás de Jesus, gritando: «Filho de David tem piedade de nós!» 28 Quando Jesus ia a entrar em casa, os dois cegos aproximaram-se dele e Jesus perguntou-lhes: «Vocês acreditam que eu tenho poder para vos fazer isso?» Responderam eles: «Sim, Senhor, acreditamos!» 29 Então Jesus tocou-lhes nos olhos e disse: «Pois seja feito conforme a vossa fé!» 30 E os dois cegos ficaram a ver. Jesus recomendou-lhes em tom severo: «Olhem que ninguém deve saber disto!» 31 Eles, porém, saindo dali começaram a falar dele por toda a região.
Cura de um mudo
32 Na altura em que os dois cegos se foram embora, trouxeram a Jesus um mudo possuído dum espírito mau. 33 Jesus expulsou o espírito mau e o mudo pôs-se a falar. A multidão ficou muito admirada e dizia: «Nunca se viu uma coisa assim em Israel!» 34 Os fariseus, porém, diziam: «É pelo poder do chefe dos demónios que ele expulsa os demónios.»
Poucos trabalhadores para a colheita
35 Jesus andava por todas as cidades e aldeias, ensinava nas sinagogas, anunciava a boa nova do reino de Deus e curava toda a espécie de doenças e males. 36 Ao ver a multidão, Jesus sentiu imensa compaixão, porque andavam desorientados e perdidos como ovelhas que não têm pastor. 37 Disse então aos discípulos: «A colheita é abundante, mas os trabalhadores são poucos. 38 Peçam ao dono da seara que mande mais trabalhadores para a sua colheita.»
Os doze apóstolos
(Marcos 3,13–19; Lucas 6,12–16)
10 1 Chamando para junto de si os seus doze discípulos, Jesus deu-lhes poder para expulsarem espíritos maus e curarem toda a espécie de doenças e males. 2 São estes os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e seu irmão André; Tiago e seu irmão João, filhos de Zebedeu; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, do partido dos Nacionalistas, e Judas Iscariotes, aquele que atraiçoou Jesus.
Jesus envia os apóstolos
(Marcos 6,7–13; Lucas 9,1–6)
5 Jesus enviou estes doze dando-lhes as seguintes instruções: «Não se desviem para o caminho dos pagãos, nem entrem em qualquer cidade dos samaritanosa. 6 Vão antes ter com as ovelhas perdidas do povo de Israel. 7 Pelo caminho anunciem que o reino dos céus está a chegar. 8 Curem os que estão doentes, purifiquem os leprosos, ressuscitem os mortos e expulsem os espíritos maus. Receberam de graça, dêem de graça. 9 Não procurem ouro, prata ou cobre para levar nos bolsos. 10 Não levem saco de viagem, nem muda de roupa, nem calçado, nem cajado. O trabalhador tem direito ao seu sustento.
11 Quando chegarem a qualquer cidade ou aldeia, procurem uma pessoa de confiança e fiquem em sua casa até se irem embora. 12 Ao entrarem numa casa cumprimentem os presentes com saudações de pazb. 13 Se os daquela casa forem dignos dela, que a vossa paz fique com eles; se não forem dignos, que volte para vocês. 14 Se nalguma casa ou cidade não vos receberem, nem derem ouvidos às vossas palavras, quando saírem daquela casa ou daquela cidade sacudam o pó dos vossos pésc. 15 Garanto-vos que no dia do juízo, a gente de Sodoma e Gomorrad será tratada com menos dureza do que o povo dessa terra.»
Sofrimentos e perseguições dos apóstolos
(Marcos 13,9–13; Lucas 21,12–17)
16 «Eu vos envio como ovelhas para o meio dos lobos. Portanto, sejam cautelosos como as serpentes e simples como as pombas. 17 Tenham muito cuidado! Haverá homens que vos levarão aos tribunais e vos hão-de espancar nas suas sinagogas. 18 Vão ter que comparecer diante de governadores e de reis, por minha causa. Aí darão testemunho de mim, a eles e aos pagãos. 19 Quando vos entregarem às autoridades não se preocupem como hão-de falar, nem com o que hão-de dizer. Nessa altura, Deus vos dará as palavras, 20 pois não serão vocês a falar, mas sim o Espírito de Deus, vosso Pai, que falará por vosso intermédio.
21 Haverá irmãos que hão-de entregar os seus próprios irmãos à morte, e pais que hão-de entregar os próprios filhos. E haverá filhos que se hão-de revoltar contra os pais e os hão-de matar. 22 Serão odiados por toda a gente por minha causa, mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.
23 Quando vos perseguirem numa cidade, fujam para outra. Garanto-vos que o Filho do Homem há-de vir antes de terem ido a todas as cidades de Israel.
24 Nenhum discípulo está acima do seu mestre, nem um servo está acima do seu senhor. 25 Basta ao discípulo que venha a ser como o seu mestre e ao servo como o seu senhor. Ora se ao dono da casa já chamaram Belzebu, que nomes não hão-de chamar aos outros membros da família!»
A quem devemos temer
(Lucas 12,2–7)
26 «Não tenham medo deles! Não há nada encoberto que não venha a descobrir-se, nem há nada escondido que não venha a saber-se. 27 O que eu vos digo em segredo, digam-no à luz do dia, e aquilo que vos é dito ao ouvido, apregoem-no em cima nos telhados. 28 Também não devem ter medo dos que matam o corpo mas não podem matar a alma. Temam antes a Deus que pode fazer perder tanto o corpo como a alma no inferno. 29 Não se vendem dois pássaros por uma moeda? No entanto, nem um só deles cai ao chão sem o vosso Pai querer. 30 Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados! 31 Não tenham medo! Vocês valem mais do que muitos pássaros.»
Aceitar ou negar Cristo
(Lucas 12,8–9)
32 «Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu farei o mesmo por ele diante do meu Pai que está nos céus. 33 Mas àquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.»
Jesus, motivo de divisão
(Lucas 12,51–53; 14,26–27)
34 «Não pensem que vim trazer a paz à Terra. Não vim trazer a paz, mas a guerra. 35 Vim, de facto, trazer a divisão entre filho e pai, filha e mãe, nora e sogra: 36 os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria famíliae.
37 Aquele que amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; e o que amar o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. 38 Aquele que não pegar na sua cruz e não me seguir, não é digno de mim. 39 Aquele que pensa que tem a sua vida segura, perde-a, mas aquele que perder a sua vida por minha causa é que a tem segura.»
Recompensas por fazer bem
(Marcos 9,41)
40 «Quem vos receber é a mim que recebe, e quem me receber recebe aquele que me enviou. 41 Quem receber um profeta, por ser profeta, terá uma recompensa de profeta; e quem receber um justo, por ser justo, terá a recompensa de justo. 42 E aquele que der um simples copo de água fresca a um dos mais pequeninos destes meus discípulos, por ser meu discípulo, garanto-vos que não ficará sem a sua recompensa.»
Resposta de Jesus aos discípulos de João Baptista
(Lucas 7,18–23)
11 1 Depois de ter dado estas instruções aos seus doze discípulos, Jesus saiu dali para ir ensinar e pregar nas povoações da região.
2 Quando João Baptista, que estava na prisão, ouviu falar das obras de Cristo, enviou-lhe alguns dos seus discípulos com esta pergunta: 3 «És tu aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?» 4 Jesus deu-lhes esta resposta: «Vão contar a João aquilo que vêem e ouvem: 5 os cegos vêem, os coxos andam, os que têm lepra são curados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres é anunciada a boa nova. 6 Feliz aquele que não achar em mim motivo de escândalo.»
Jesus fala de João Baptista
(Lucas 7,24–35)
7 Depois de os discípulos de João se terem ido embora, Jesus começou a falar a respeito dele ao povo: «O que é que foram ver no deserto? Uma cana abanada pelo vento? 8 Que é que lá foram ver? Um homem vestido de roupas finas? Bem sabem que os que se vestem de roupas finas estão nos palácios dos reis. 9 Mas, afinal, que é que lá foram ver? Um profeta? Sim! E também vos digo: ele é mais do que um profeta. 10 Pois é aquele de quem as Escrituras dizem: Enviarei o meu mensageiro à tua frente para te preparar o caminhoa.
11 E fiquem sabendo isto: entre os homens não houve ninguém maior do que João Baptista. No entanto, o mais pequeno no reino dos céus é maior do que ele. 12 Desde o tempo de João Baptista até hoje, o reino dos céus tem sido assaltado com violência e os violentos procuram apoderar-se dele. 13 Com efeito, até ao tempo de João, tudo isso foi anunciado pela Lei de Moisés e pelos profetas. 14 Podem acreditar que é ele o Elias que havia de vir. 15 Quem tem ouvidos, preste atenção!»
16 Jesus disse ainda: «Com quem hei-de comparar as pessoas desta geração? São semelhantes às crianças que estão na rua e dizem umas para as outras:
17 “Tocámos flauta e vocês não dançaram!
Cantámos coisas tristes e não choraram!”
18 Realmente apareceu João, que jejuava e não bebia vinho, e dizem logo que tinha o Demónio com ele. 19 Depois veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem dele: “Olhem para este homem! Come bem, bebe melhor e é amigo de cobradores de impostos e de outra gente pecadora.” Mas a sabedoria de Deus só se mostra pelas obras que produz.»
As cidades rebeldes
(Lucas 10,13–15)
20 Jesus começou então a censurar as cidades em que tinha realizado a maior parte dos seus milagres, porque os seus habitantes não se tinham arrependido. 21 Dizia ele: «Ai de ti, Corazin! Ai de ti, Betsaidab! Se os milagres que em ti se fizeram tivessem sido efectuados nas cidades de Tiro e Sídonc, há muito que os seus habitantes se tinham arrependido, vestindo-se de luto e com cinza na cabeça. 22 Por isso vos digo: no dia do juízo, Tiro e Sídon serão tratadas com menos dureza do que vocês. 23 E tu, Cafarnaum, querias elevar-te até ao céu? Pois serás rebaixada até ao inferno.
E se os milagres que em ti se fizeram tivessem acontecido em Sodoma, essa cidade ainda hoje existiria. 24 Eu porém vos digo que no dia do juízo os habitantes de Sodoma serão tratados com menos dureza do que tu, Cafarnaum.»
Deus revela-se aos humildes
(Lucas 10,21–22)
25 Naquele momento, Jesus exclamou: «Agradeço-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque revelaste aos simples estas coisas que tinhas escondido aos sábios e entendidos. 26 Sim, Pai, agradeço-te, por ter sido essa a tua vontade. 27 Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
28 Venham ter comigo todos os que andam cansados e oprimidos e eu vos darei descanso. 29 Aceitem o meu jugo e aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração. Assim o vosso coração encontrará descanso, 30 pois o meu jugo é agradável e os meus fardos são leves.»
Jesus e o sábado
(Marcos 2,23–28; Lucas 6,1–5)
12 1 Por aquela altura, Jesus atravessava umas searas durante o sábado. E como os discípulos sentiam fome, começaram a arrancar espigas para comer. 2 Os fariseus, ao repararem nisso, chamaram a atenção de Jesus: «Olha que os teus discípulos estão a fazer aquilo que a lei não permite fazer ao sábado.» 3 Jesus respondeu-lhes: «Não leram o que David fez quando ele e os seus companheiros estavam com fome? 4 Entrou na casa de Deus com os seus homens e comeram os pães consagrados. E não lhes era permitido fazer aquilo, mas apenas aos sacerdotes. 5 Não leram também na lei que aos sábados, no templo, os sacerdotes quebram a lei do descanso e, no entanto, ficam sem culpa? 6 Pois eu vos digo: o que está aqui é maior do que o templo. 7 Se percebessem o que significa na Escritura: prefiro misericórdia e não sacrifíciosa, não teriam condenado inocentes. 8 Com efeito, o Filho do Homem é senhor do próprio sábado.»
Um homem com a mão paralítica
(Marcos 3,1–6; Lucas 6,6–11)
9 Jesus saiu dali e entrou na sinagoga deles. 10 Estava lá um homem que tinha uma das mãos paralítica. Alguns, querendo arranjar motivo para acusar Jesus, perguntaram-lhe: «Será que a nossa lei permite curar pessoas ao sábado ou não?» 11 Jesus respondeu assim: «Se um de vós tiver uma ovelha e ela cair num poço ao sábado, não vai logo tirá-la de lá? 12 Quanto mais não vale um homem do que uma ovelha? Por isso é permitido fazer bem ao sábado.» 13 Em seguida dirigiu-se ao homem da mão paralítica: «Estende a tua mão.» Ele estendeu-a e ficou restabelecida e sã como a outra. 14 Então os fariseus saíram dali e foram fazer planos para ver como haviam de o matar.
O escolhido de Deus
15 Quando Jesus teve conhecimento disso, afastou-se dali e muita gente o seguiu. Curou todos os enfermos 16 e deu-lhes ordens para que não fizessem propaganda dele. 17 Assim se cumpriu o que foi dito por meio do profeta Isaías:
18 Este é o meu servo, a quem eu escolhi,
o meu predilecto, no qual tenho a maior satisfação.
Porei nele o meu Espírito
e ele anunciará a minha vontade aos povos.
19 Não criará conflitos, nem gritará,
nem fará ouvir a sua voz nas ruas.
20 Não quebrará a cana pisada,
nem apagará o pavio que ainda fumega,
até fazer com que a justiça alcance a vitória.
21 É nele que os povos hão-de pôr a sua esperançab.
Jesus e Satanás
(Marcos 3,20–30; Lucas 11,14–23; 12,10)
22 Trouxeram a Jesus um possesso cego e mudo. Jesus curou-o e o homem ficou a ver e a falar. 23 Toda a gente perguntava muito admirada: «Não será este o Filho de David?» 24 Mas os fariseus, ao ouvirem isto, afirmavam: «É pelo poder de Belzebuc, chefe dos demónios, que este expulsa os demónios.» 25 Jesus percebendo o que estavam a pensar, disse-lhes: «Um reino dividido em grupos que lutem entre si acaba por se arruinar. Do mesmo modo, uma cidade ou uma família dividida não se mantém de pé. 26 Ora se Satanás expulsa Satanás está em luta contra si mesmo. Como poderá então o seu reino manter-se? 27 Se eu expulso os espíritos maus pelo poder de Belzebu, por quem os expulsam os vossos adeptos? Por isso são eles que hão-de acusar-vos do vosso erro. 28 Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os espíritos maus, isto quer dizer que o reino de Deus já aqui chegou.
29 Como pode alguém entrar em casa dum homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar? Só assim lhe poderá roubar a casa.
30 Quem não está comigo está contra mim, e quem comigo não junta, espalha. 31 Portanto, digo-vos: qualquer pecado e palavra ofensiva contra Deus poderão ser perdoados aos homens. Mas a palavra ofensiva contra o Espírito Santo não será perdoada. 32 Quem disser alguma coisa contra o Filho do Homem poderá ser perdoado, mas quem disser alguma coisa ofensiva contra o Espírito Santo, não será perdoado, nem neste mundo nem no outro.»
A árvore e os seus frutos
(Lucas 6,43–45)
33 «Se plantarem uma árvore boa, o seu fruto será bom. Se plantarem uma árvore má, o fruto será mau. Pois é pelo fruto que se conhece a árvore. 34 Raça de víboras! Como poderão vocês dizer coisas boas se são maus? Cada qual fala daquilo que tem no coração. 35 O homem bom tira coisas boas do tesouro da sua bondade e o homem mau tira coisas más da sua maldade. 36 Digo-vos que no dia do juízo cada um terá de dar contas a Deus por toda a palavra inútil que tenha dito. 37 É pelas tuas palavras que no dia do juízo Deus te há-de declarar inocente ou culpado.»
Jesus, sinal de Deus
(Marcos 8,11–12; Lucas 11,29–32)
38 Em dado momento, alguns doutores da lei e fariseus fizeram este pedido a Jesus: «Mestre, queríamos ver-te fazer um sinal milagroso.» 39 Jesus respondeu-lhes: «Esta geração má e infiel procura um sinal milagroso de Deus! Pois bem, não lhe será dado outro sinal senão o do profeta Jonas. 40 Assim como Jonas esteve três dias e três noites dentro do grande peixe, assim o Filho do Homem há-de estar três dias e três noites dentro da terra. 41 No dia do juízo, os habitantes de Nínived hão-de levantar-se contra esta geração para a condenar. É que eles, quando ouviram a pregação de Jonas, arrependeram-se. Ora o que está aqui é maior do que Jonas! 42 Também a rainha do Sul se há-de levantar, no dia do juízo, contra a gente deste tempo para a condenar, porque ela veio lá do fim do mundo para ouvir a sabedoria de Salomão. Ora o que está aqui é maior do que Salomão!»
Regresso do espírito mau
(Lucas 11,24–26)
43 «Quando um espírito mau sai duma pessoa anda por lugares secos à procura de repouso, mas não o encontra. 44 Então diz: “Volto para a minha casa, donde saí.” Ao chegar lá, encontra a casa vaga, limpa e bem arranjada. 45 Então vai buscar outros sete espíritos piores do que ele e vão todos para lá viver. Deste modo, a situação daquela pessoa torna-se pior do que era antes. É precisamente assim que vai acontecer a esta geração má.»
A família de Jesus
(Marcos 3,31–35; Lucas 8,19–21)
46 Enquanto Jesus estava ainda a falar à multidão, chegaram sua mãe e seus irmãos. Ficaram do lado de fora e procuravam maneira de lhe falar. 47 Então alguém veio dizer: «Olha que a tua mãe e os teus irmãos estão ali fora e querem falar contigoe.» 48 Jesus disse à pessoa que lhe foi dar o recado: «Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?» 49 Depois apontou para os discípulos: «Aqui está a minha mãe e os meus irmãos! 50 Aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»
A parábola do semeador
(Marcos 4,1–9; Lucas 8,4–8)
13 1 Naquele mesmo dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-se à beira do lago. 2 A gente que se juntou à volta era tanta que ele subiu para um barco. Sentou-se e toda a multidão se mantinha na praia. 3 E ensinava muitas coisas por meio de parábolas como esta:
«Andava uma vez um homem a semear. 4 Ao lançar a semente, parte dela caiu à beira do caminho e os pássaros vieram e comeram-na. 5 Outra caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra. Rompeu depressa porque o terreno era pouco fundo. 6 Mas quando veio o sol queimou as plantas, porque não tinham raízes. 7 Outra parte da semente caiu entre espinhos, que cresceram e abafaram as plantas. 8 Outra parte, porém, caiu em boa terra e deu fruto à razão de cem, de sessenta e de trinta grãos por semente.» 9 Jesus acrescentou: «Quem tem ouvidos, preste atenção!»
Razão das parábolas
(Marcos 4,10–12; Lucas 8,9–10)
10 Então os discípulos foram perguntar a Jesus: «Por que é que lhes falas por meio de parábolas?» 11 Ele respondeu: «Deus concedeu-vos o privilégio de conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não. 12 Àquele que já tem alguma coisa, Deus lhe dará mais até que lhe sobre. Mas àquele que não tem nada, até o pouco que tem lhe será tirado. 13 É por isso que a eles eu falo por meio de parábolas, porque olham mas não vêem, ouvem mas não entendem nem percebem. 14 Deste modo se cumpre neles aquela profecia de Isaías que diz:
Ouçam e tornem a ouvir
que nada conseguirão perceber,
olhem e tornem a olhar
que nada hão-de ver.
15 É que o entendimento desta gente está fechado.
Têm os ouvidos duros e os olhos tapados.
Doutro modo, talvez tivessem olhos para ver
e ouvidos para ouvir.
Talvez o seu entendimento se abrisse
e voltassem para mim
e eu os curariaa.
16 Felizes os vossos olhos porque vêem e os vossos ouvidos porque ouvem. 17 Posso garantir-vos que muitos profetas e justos desejaram ver o que vocês vêem e não viram, e ouvir o que vocês ouvem e não ouviram.»
Jesus explica a parábola do semeador
(Marcos 4,13–20; Lucas 8,11–15)
18 «Ouçam agora o que significa a parábola do semeador: 19 Todos aqueles que ouvem a palavra do reino e não entendem são como a semente que caiu à beira do caminho. Vem o Diabo e tira-lhes o que foi semeado no coração. 20 A semente que caiu no terreno pedregoso representa os que ouvem a boa nova e a recebem com alegria. 21 Mas dura pouco porque não têm raízes. Quando vêm os sofrimentos e as perseguições por causa da boa nova, não aguentam. 22 A semente que caiu entre os espinhos representa aqueles que ouvem a boa nova, mas as preocupações desta vida e a ilusão das riquezas sufocam-na logo e o fruto não aparece. 23 Mas a semente que caiu em boa terra representa os que recebem a boa nova e a compreendem. Esses dão realmente fruto, uns à razão de cem, outros de sessenta e outros de trinta por cada grão.»
A parábola do trigo e do joio
24 Jesus apresentou-lhes outra parábola: «O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Mas enquanto toda a gente dormia, veio o inimigo desse homem, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora. 26 Quando as plantas cresceram e se começaram a formar as espigas, apareceu também o joio. 27 Então os trabalhadores desse homem foram ter com ele e perguntaram-lhe: “Senhor, não foi boa semente que semeaste no teu campo? Como é que apareceu este joio?” 28 “Foi um inimigo que fez isso”, respondeu ele. Os trabalhadores tornaram a perguntar-lhe: “Queres que vamos lá arrancar o joio?” 29 Mas ele replicou: “Não, porque ao arrancarem o joio são capazes de arrancar também o trigo. 30 Deixem-nos crescer os dois até ao tempo da ceifa. Nessa altura direi aos ceifeiros: Apanhem primeiro o joio e atem-no em feixes para ser queimado no fogo, mas recolham o trigo para o meu celeiro.”»
A parábola do grão de mostarda
(Marcos 4,30–32; Lucas 13,18–19)
31 Apresentou-lhes ainda outra parábola: «O reino dos céus é como um grão de mostarda que alguém semeou no seu campo. 32 Esta é a mais pequena das sementes. Mas quando a planta cresce é a maior de todas. Chega mesmo a ser uma árvore e até os pássaros vão fazer ninho nos seus ramos.»
A parábola do fermento
(Lucas 13,20–21)
33 Jesus expôs-lhes ainda outra parábola: «O reino dos céus é como o fermento que uma mulher misturou em três medidas de farinha e assim fez levedar toda a massa.»
Razão do ensino por parábolas
(Marcos 4,33–34)
34 Jesus serviu-se de parábolas para dizer todas estas coisas à multidão. E só lhes falava por meio de parábolas. 35 Assim se cumpria o que tinha dito o profeta:
Hei-de falar por meio de parábolas,
direi coisas que estavam escondidas
desde o princípio do mundob.
Jesus explica a parábola do trigo e do joio
36 Então Jesus deixou a multidão e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se dele e pediram: «Explica-nos o que significa a parábola do joio no campo.» 37 Jesus esclareceu-os assim: «Aquele que semeou a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são as pessoas que pertencem ao reino de Deus. O joio são os filhos do Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o Diabo. A ceifa é o fim deste mundo e os ceifeiros são os anjos. 40 Ora assim como o joio se junta e se queima no fogo, assim vai ser no fim do mundo: 41 o Filho do Homem mandará os seus anjos e eles retirarão do seu reino todos os que levam os outros a pecar e todos os que praticam o mal, 42 para os lançarem na fornalha. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então os justos de Deus brilharão como o Sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos preste atenção!»
A parábola do tesouro escondido e a pérola preciosa
44 E continuou: «O reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Quando alguém o encontra volta a escondê-lo. E, cheio de alegria, vai vender tudo quanto tem e compra o campo.
45 O reino dos céus pode também comparar-se a um comerciante que anda à procura de pérolas de boa qualidade. 46 Quando encontra uma pérola de muito valor vai vender tudo o que tem e compra-a.»
Rede lançada ao mar
47 «O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que se lança ao mar e apanha toda a espécie de peixes. 48 Quando já está cheia, os pescadores puxam-na para a praia e sentam-se a escolher o peixe: o que é bom deitam-no em cestos, e atiram fora o que não presta. 49 Assim vai acontecer no fim deste mundo: os anjos sairão para separar as pessoas más das boas, 50 lançando as más na fornalha. Ali haverá choro e ranger de dentes.»
Coisas novas e velhas
51 Jesus perguntou então aos discípulos: «Compreenderam todas estas coisas?» Eles responderam: «Compreendemos, sim.» 52 Então Jesus continuou: «Portanto, todo o doutor da lei que aceita a doutrina do reino dos céus é semelhante ao chefe de família que sabe tirar dos tesouros que tem coisas novas e velhas.»
Jesus é mal recebido em Nazaré
(Marcos 6,1–6; Lucas 4,16–30)
53 Quando Jesus acabou de lhes apresentar estas parábolas retirou-se dali. 54 Foi para a sua terra e começou a ensinar o povo na sinagoga deles. Os que o ouviam diziam admirados: «Donde lhe vem a sabedoria e o poder de fazer milagres? 55 Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria a sua mãe? E não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? 56 Não vivem cá também todas as suas irmãs? Donde lhe vem então tudo isto?» 57 Por essa razão não queriam nada com ele. Mas Jesus lembrou-lhes: «Nenhum profeta é desprezado a não ser na sua terra e no meio da sua família.» 58 E por causa da falta de fé deles, Jesus não fez ali muitos milagres.
Morte de João Baptista
(Marcos 6,14–29; Lucas 9,7–9)
14 1 Naquele tempo, Herodes, o governador da Galileia, ouviu falar de Jesus 2 e disse aos subordinados que estavam com ele: «Este homem é João Baptista; ele ressuscitou dos mortos e por isso é que tem poder para fazer os milagres que faz.»
3 De facto, Herodes tinha mandado prender João e tinha-o metido na cadeia. Fez isso por causa de Herodias, esposa de seu irmão Filipe. 4 É que João avisava constantemente Herodes: «Não tens o direito de viver com ela.» 5 Herodes queria matá-lo, mas tinha medo do povo porque todos consideravam João como um profeta. 6 Ora no dia dos anos de Herodes, a filha de Herodias dançou diante de todos e agradou muito a Herodes. 7 Este jurou dar-lhe tudo o que ela pedisse. 8 Então ela, pressionada pela mãe, fez este pedido: «Dá-me agora mesmo, numa bandeja, a cabeça de João Baptista.» 9 O rei ficou triste, mas por causa do juramento e dos convidados ordenou que lhe fosse dada 10 e mandou alguém à cadeia cortar a cabeça de João. 11 Trouxeram-na numa bandeja e deram-na à rapariga, que a foi levar à mãe. 12 Os discípulos de João foram buscar o corpo e sepultaram-no. Depois levaram a notícia a Jesus.
Jesus dá de comer a uma multidão
(Marcos 6,30–44; Lucas 9,10–17; João 6,1–14)
13 Quando Jesus recebeu aquela notícia, retirou-se de barco e foi sozinho para um lugar isolado. Mas a multidão, ao saber disso, deixava as suas povoações e seguia-o por terra. 14 Assim, quando Jesus desembarcou viu uma multidão enorme. Sentiu-se comovido com aquela gente e curou todos os doentes que havia entre eles.
15 Ao entardecer, os discípulos foram ter com ele e disseram-lhe: «Já é muito tarde e este sítio aqui é isolado. Manda esta multidão embora para que vão às aldeias comprar alguma coisa para comer.» 16 Porém, Jesus observou: «Não há necessidade de eles se irem embora. Dêem-lhes vocês de comer!» 17 Os discípulos responderam: «Mas olha que só temos aqui cinco pães e dois peixes!» 18 «Tragam-mos cá», disse Jesus. 19 E deu ordens para que a multidão se sentasse na relva. Depois pegou nos cinco pães e nos dois peixes, levantou os olhos para o céu e deu graças a Deus. Partiu os pães, deu-os aos discípulos e os discípulos distribuíram-nos pela multidão. 20 Todos comeram até ficarem satisfeitos. E, com os bocados que sobejaram, encheram-se doze cestos. 21 O número dos homens que comeram andava por volta de cinco mil, não contando as mulheres e as crianças.
Jesus caminha por cima da água
(Marcos 6,45–52; João 6,16–21)
22 Logo a seguir, Jesus mandou os discípulos entrar no barco e disse-lhes para irem à frente, para a outra banda do lago, enquanto se despedia da multidão. 23 Depois subiu sozinho ao monte para orar. Quando anoiteceu, ainda lá estava sozinho. 24 Entretanto, a embarcação estava já bastante longe da terra e ia sendo batida pelas ondas, porque o vento era contrário. 25 De madrugada, Jesus foi então ter com os discípulos caminhando por cima da água. 26 Quando eles o viram a caminhar por cima da água, ficaram

Ramon 16/11/2014 18:23 0 0

INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA

TÓPICOS:

1. Conceito de Psicologia
2. Psicologia científica x Psicologia do senso comum
3. Comportamento, relações funcionais e meio ambiente
4. O modelo atual biopsicossocial do homem x modelo biomédico
5. Psicólogos e Psiquiatras
6. O estudo de animais para entender o homem
7. Subjetividade
8. Atribuições e áreas de atuação
9. A Psicologia e as práticas não psicológicas
10. Ética na Psicologia
11. Perfil atual dos psicólogos

1. Conceito de Psicologia

Psicologia é a ciência que estuda o comportamento humano, as interações dos organismos com o seu ambiente.
Dependendo do enfoque e conhecimento de homem que está sendo utilizado a psicologia pode ter vários conceitos, dentre eles: ciência que estuda os seres humanos e seus processos psíquicos.
Todorov (1999) definiu a psicologia como sendo a ciência que estuda a mente e o comportamento. Para que a definição seja inteligível, é necessário saber o que é mente e o que é comportamento.
O conceito “ciência que estuda o comportamento humano” pode ser completo se entendermos e buscarmos nos aprofundar nos conceitos de ciência, comportamento e homem. Se soubermos descrever o que é ciência, o que é comportamento humano e quem é esse homem estudado pela psicologia (caso mais complexo, mais filosófico) estaremos entendo o conceito de psicologia aqui apresentado.

2. Psicologia científica x Psicologia do senso comum

O tipo de conhecimento que vamos acumulando no nosso cotidiano é chamado de senso comum.
Exs:
a) a dona de casa, quando usa a garrafa térmica para manter o café quente, sabe por quanto tempo ele permanecerá razoavelmente quente, sem fazer nenhum cálculo complicado e, muitas vezes, desconhecendo completamente as leis da termodinâmica.
b) a professora sabe que se recompensar a boa disciplina do aluno do curso primário com uma estrelinha no caderno, pode aumentar o comportamento desse aluno ser obediente na sala de aula.
c) a mesma recompensa da letra “b” pode servir de exemplo para os outros alunos.
d) a namorada sabe que se marcou um encontro com o namorado para às 20h e ele chegou às 21h, pode ficar de cara fechada com intenção de puní-lo por tê-la feito esperar.

Na letra “a” a pessoa sem saber sobre Física sabe conseguir o efeito esperado no ambiente. Nas letras “b”, “c”, “d”, as pessoas agiram com intenção de modificar o comportamento de alguém, mas sem saber de leis ou teorias da psicologia.
O conhecimento do senso comum é intuitivo, espontâneo, de tentativas e erros. É um conhecimento importante porque sem ele a nossa vida no dia-a-dia seria muito complicada. O senso comum percorre um caminho que vai do hábito à tradição, que passa de geração para geração. Integra de um modo o conhecimento humano.
A utilização de termos como ‘rapaz complexado’, ‘mulher louca’, ‘menino hiperativo’ expressa a comunicação do senso comum acerca do comportamento humano, que muitas vezes não ocorre de maneira científica. Os termos podem até ser da psicologia científica, mas são usados sem a preocupação de definir as palavras.

Ciência é um conjunto de conhecimentos sobre fatos ou aspectos da realidade obtidos por meio de metodologia científica.
Quando buscamos definir, descrever e prever comportamentos estamos fazendo ciência. O cientista do comportamento (da psicologia) não fica satisfeito com conceitos generalizados e rotulados (complexado, louco, “nasceu assim”) sem compromisso e apenas baseados em ‘achismos’ e observações superficiais. Ele quer observações sistematizadas, conhecimento metodológico, experimentado, testado, comprovado.
Ex: ‘mulher louca’ , o que é loucura? Quais os sintomas? Que tipo de loucura?
Quando fazemos ciência, baseamo-nos na realidade cotidiana e pensamos sobre ela. Quando bem utilizada, a ciência permite que o saber seja transmitido, verificado, utilizado e desenvolvido.
Skinner, no livro Ciência e comportamento humano, diz que ciência é uma disposição de tratar com os fatos, de preferência, e não com o que se possa ser dito sobre eles. Aceitar os fatos, mesmo quando eles são opostos aos desejos.

Então, por que a psicologia é ciência?
O psicólogo contribui para a produção do conhecimento científico da psicologia através da: observação, descrição e análise dos processos comportamentais.
Algumas características que descrevem a psicologia como ciência são:

 Objeto específico de estudo = homem (no sentido mais amplo). Entretanto, é preciso saber que a concepção de homem que o profissional traz consigo mesmo “contamina” inevitavelmente a sua pesquisa em psicologia.

 Linguagem precisa e rigorosa = não utiliza termos do senso comum sem preocupação conceitual.

 Métodos e técnicas específicas = entrevistas estruturais, testes, técnicas de terapia, dentre outras, obtidas de maneiras programadas, sistemáticas e controladas, para que se permita a verificação da validade da ciência e permitindo a reprodução da experiência.

 Processo cumulativo do conhecimento = Um novo conhecimento é produzido sempre a partir de algo anteriormente desenvolvido. Negam-se, reafirmam-se, descobrem-se novos aspectos, e assim a ciência avança.

 Objetividade = possibilidade de verificação com o máximo de isenção de emoção possível.

3. Comportamento, relações funcionais e meio ambiente

Comportamento:

 Ações – evento público
 Pensamentos – evento privado
 Sentimentos – evento privado

Eventos públicos (agir)

Conjunto de comportamentos visíveis desenvolvidos pelo organismo. Ex: escrever, andar, piscar, beijar.

Eventos privados (sentir e pensar)

Sentir - Emoções
- Sensações
- Sentimentos

Pensar - Pensamentos
- Conceitos
- Fantasias
- Imaginações
- Raciocínio
- Tomada de decisões

O Sentir
Sensações: respostas sensoriais aos estímulos ambientais, uma percepção direta do nosso estado corporal. Ex: sentir fome, sono, sede, frio, calor.
São respostas as variáveis organísmicas, químicas, como por exemplo: drogas, alimentos, medicamentos, os processos metabólicos do organismo, a química cerebral que pode levar a mudanças comportamentais.

Nossos órgãos sensoriais detectam todo o conhecimento que temos do mundo.
Ex: temos células fotoelétricas no olho. O comprimento das ondas é a mesma que chega aos olhos de todas as pessoas, mas o que é diferente é como cada um percebe esse ver. Isso é evento interno e, portanto, subjetivo.

Não podemos sentir o que outro sente, por isso é um comportamento privado de quem está sentindo. Nesse sentido somos solitários no mundo. Só você sente o que você sente.

Emoções: é a nossa capacidade de perceber os mais variados sentimentos. Alegria, tristeza, medo e raiva são as emoções principais.

Sentimentos: vergonha, ânimo, desânimo, amor, prazer, inquietação, inadequação, humilhação, importância, satisfação e outros tantos.

Ex: sentir tristeza e vazio quando está em tensão pré-menstrual.

O lado emocional está equilibrado e saudável quando apresenta a capacidade de perceber os mais variados sentimentos em conformidade com a situação vivenciada. Quando estou vivenciando uma perda, me entristeço; quando estou sendo injustiçada, me enraiveço; quando ocorre a frustração de um sonho ou de um projeto, fico desanimada; quando meu time ganha, fico alegre; se algo muito importante para mim se concretiza, exulto.

O Pensar – nosso pensar (fantasias, imaginações, raciocínio, etc.) estão controlados por eventos antecedentes e possuem conseqüências. Esses eventos estão no meio ambiente.

Meio ambiente

Não se pode entender comportamento sem um contexto, sem a descrição de eventos antecedentes e conseqüentes do evento descrito. Por isso os conceitos de comportamento e ambiente são interdependentes, um não pode ser definido sem referência ao outro.
O agir, o sentir e o pensar estão em função de variáveis ambientais (meio ambiente) que são os eventos antecedentes e conseqüentes. Note bem que não é o homem e sim o comportamento do homem que está sendo interagindo constantemente com os estímulos que antecedem o seu comportamento, e o seu comportamento está constantemente tendo conseqüências no ambiente e sendo interagido por elas.

Relação funcional: antecedentes  comportamento  conseqüentes

Antecedentes Comportamento 
Conseqüentes ( e )
Variáveis históricas da vida de cada indivíduo; ambiente físico, social, histórico e cultural. 1- Eventos privados (sensações)
2- Eventos públicos (ações)
3- Eventos internos (reações fisiológicas)
Todos esses eventos estão sob controle de antecedentes e conseqüentes A conseqüência pode ser positiva ou negativa, depende da história de cada pessoa.
O que pode ser positivo para um, pode ser aversivo para outro.

Meio ambiente (estímulos) = as influências sobre o organismo que determinam o comportamento; tudo aquilo que afeta o comportamento. Um estímulo é um ‘pedaço’ do ambiente que pode ser interno ou externo ao organismo.

Os homens agem sobre o mundo, modificam-no e, por sua vez são modificados pelas conseqüências de sua ação (Skinner, 1978). Assim, além conhecer o organismo e as suas interações, é necessário conhecer os diversos ambientes o qual um organismo pode se interagir.
O ambiente que o indivíduo interage pode ser analisado sob dois prismas (Todorov, 1999):
- O ambiente externo, dividido em físico e social,
- O ambiente interno dividido em biológico e histórico.

O ambiente externo é alterado pelo comportamento por meio de ações mecânicas sobre ele e pelas interações do indivíduo com o social.
O ambiente interno é formado pelos processos biológicos e as experiências passadas de cada pessoa afinal o organismo transporta consigo os resultados de suas interações passadas.

Obs.: A psicologia às vezes é definida como a ciência que estuda o comportamento e os processos mentais. Ora, vimos que os processos mentais fazem parte do comportamento humano. Os processos mentais dizem respeito ao ‘pensar’. Assim, dizer que a psicologia estuda o comportamento e os processos mentais é uma redundância (pleonasmo) desnecessária.

4. O modelo atual biopsicossocial do homem x modelo biomédico

O organismo que é objeto de estudo da psicologia é o homem, ainda que para se compreender o comportamento humano seja necessário estudar outras espécies.
As interações não são as que fazem parte do organismo (estão dentro), pois estas são estudadas pela biologia, e não são entre grupos de indivíduos, pois estes são estudados pelas ciências sociais. Entretanto, a biologia e as ciências sociais podem auxiliar estudos na área da psicologia e por isso surgiram áreas denominadas de psicofisiologia, psicobiologia, psicologia social, dentre outras.
Como já descrito, a concepção de homem que o profissional traz consigo mesmo “contamina” inevitavelmente a sua pesquisa em psicologia. Há diferentes concepções de homem em termos filosóficos. O homem pode ser visto, por exemplo, como um ser:
- puro e que foi corrompido pela sociedade (concepção de homem natural para Rousseau);
- abstrato, com características definidas e que não mudam, a despeito das condições sociais a que esteja submetido (visão determinista);
- datado, determinado pelas condições históricas e sociais que o cercam (visão histórico-social);
- que influencia e é influenciado pelo seu meio (visão analítico-comportamental).
Conforme a definição de homem adotada, teremos uma concepção de objeto da psicologia que combine com ela.

O modelo biomédico

O modelo biomédico baseia-se em grande parte numa visão cartesiana do mundo. Este sistema de pensamento defendeu que o mundo podia ser comparado a uma máquina, mais concretamente de um relógio, e que o conhecimento do universo passaria assim pelo “conhecimento detalhado das peças do relógio”. O que interessa seria então os fenômenos observáveis, e por assim dizer, o corpo, ficando desta forma o homem reduzido aos seus aspectos biológicos ou orgânicos, e assim a suas estruturas e processos biológicos e físico-químicos Todos os outros aspectos são negligenciados.

Para o modelo biomédico, a doença é encarada como um defeito mecânico (avaria na máquina temporal ou permanente) localizável numa máquina física e bioquímica. Este defeito pode ser reparado por meio de meios físicos (cirurgia) ou químicos (farmacologia). A parte doente pode ser tratada isolada de todo o resto do corpo. Assim, a cura equivale à reparação da máquina.

De acordo com o modelo biomédico, uma pessoas está bem com a saúde mental quando existe ausência de doença. Essa visão reducionista biológica tem sido fortemente criticada a partir dos anos 70 do séc. XX.

O modelo biopsicossocial

O homem moderno deve ser entendido sob um aspecto biopsicossocial. Toda história de vida deve ser analisada sob influências biológicas, psicológicas e sociais, aspectos esse que são interligados.
O homem recebe influências do seu organismo internamente (genética, vírus, bactérias, doenças congênitas, defeitos estruturais), da sua percepção própria, experiências e vivências de mundo (ações, pensamentos e sentimentos) e da sua interação com os diversos grupos (família, amigos), a sociedade e sua cultura.
Também o homem biopsicossocial recebe diferentes influências do meio ao longo de sua vida. Muitas áreas são importantes para a análise do comportamento humano, tais como: afetiva, familiar, conjugal, sexual, interpessoal (amizades), lazer, social, escolar, religiosa, trabalho, biológica (doenças), ambiente cultural, questões morais, regras sociais, costumes.

6. Psicólogos e Psiquiatras

Psicólogos clínicos e psiquiatras muitas vezes ocupam empregos semelhantes. Ambos os profissionais podem trabalhar em campos ligados à saúde mental, diagnosticando e tratando de pessoas com problemas psicológicos leves e graves. A grande diferença entre esses especialistas deriva de sua formação.

Os psicólogos clínicos geralmente passam cerca de cinco anos na faculdade aprendendo sobre comportamento normal e anormal, diagnóstico e tratamento de vários comportamentos humanos. Após se formaram devem, por uma questão ética, se especializaram e aprofundar sua formação em uma ou algumas áreas e teorias da psicologia.

Os psiquiatras, ao contrário, completam a faculdade de medicina e dela saem com um diploma de doutor em medicina. Em seguida, para se qualificarem como psiquiatras servem aproximadamente três anos como residentes em uma instituição de saúde mental, mais comumente um hospital. Aí recebem treinamento para detectar e tratar de distúrbios emocionais, utilizando medicação (farmacoterapia), cirurgia, eletroconvulsoterapia, dentre outros processos médicos, e às vezes métodos psicológicos. Uma vez que a formação do psiquiatra é médica, seu foco para a cura de problemas está no corpo, no orgânico, no biológico. Para eles, a causa de distúrbios comportamentais está, principalmente, em alterações bioquímicas, neurológicas, etc. Segundo a CBO 2002 – Classificação Brasileira de Ocupações – do Ministério do Trabalho, o psiquiatra realiza consultas e atendimentos médicos, tratam pacientes com medicação, implementam ações para a promoção da saúde, coordenam programas e serviços de saúde, efetuam perícias, auditorias e sindicâncias médicas.

7. O estudo de animais para entender o homem

O homem é o objeto de estudo da psicologia, mas por que estudar animais na psicologia? Apesar de existir vários experimentos psicológicos que utilizam animais, o enfoque está nos processos psicológicos básicos que acontece tanto em animais não-humanos como nos humanos. Ex. medo.
Os animais não-humanos mais utilizados nas pesquisas psicológicas: peixinhos de aquário, baratas, vermes, caranguejos, morcegos, ratos, pombos, tatus, cães, gatos, macacos, etc.

E por que trabalhar com organismos mais simples?

1° Por uma questão ética. Muitas pesquisas não podem ser realizadas com seres humanos por razões éticas;
2° Por uma questão de praticidade. Os animais não-humanos são cooperativos, cômodos e estudados com facilidade durante longos períodos e
3° Por uma questão de facilidade de detectar processos básicos comportamentais e mentais em animais não-humanos e transpor os achados para os animais humanos, tais como: fome, sede, sono, movimento motor.

7. A subjetividade

A subjetividade é a síntese singular e individual que cada um de nós vai constituindo conforme vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da vida social e cultural. A subjetividade é a maneira de sentir, pensar, fantasiar, sonhar, amar e fazer de cada um, enfim o que constitui o nosso modo de ser.
A subjetividade humana é medida em todas as suas expressões visíveis ou invisíveis, singulares (porque somos o que somos) ou coletivas (porque somos todos assim).
Cada um é dono do seu sentir e do pensar. Isso é a subjetividade. “Eu vejo que você vê, mas nunca vou saber como é o seu ver. Você tem a sua subjetividade.”
O indivíduo não nasce com a sua subjetividade. Ele a constrói aos poucos, apropriando-se do material do mundo social e cultural. Criando e transformando o mundo externo, o homem constrói e transforma a si próprio.
A subjetividade, dependendo da abordagem psicológica, também é vista como a “individualidade”. Ainda como “personalidade”, mas personalidade é um conjunto de comportamentos, que podem se repetir em várias pessoas. Quando falamos de individualidade estamos falando de unicidade, de comportamentos únicos naquela pessoas. Quando falamos de personalidade estamos falando de um repertório de comportamentos que uma pessoa tem e outras também, estamos falando de semelhanças, de comportamento médio emitido por um grupo de indivíduos.

Citando Guimarães Rosa em “O Grande Sertão: Veredas”:

O importante e bonito no mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam.

8. Atribuições e áreas de atuação

Objetivo primordial:

Promover a saúde do ser humano por meio do respeito à dignidade e integridade, proporcionando condições satisfatórias de vida na sociedade. Segundo a OMS (ONU): “Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade.”

O Psicólogo, dentro de suas especificidades profissionais, atua no âmbito da educação, saúde, lazer, trabalho, segurança, justiça, comunidades e comunicação com o objetivo de promover, em seu trabalho, o respeito à dignidade e integridade do ser humano.

Atribuições Profissionais:

 Estuda e analisa os processos intrapessoais e relações interpessoais, possibilitando a compreensão do comportamento humano individual e de grupo, no âmbito das instituições de várias naturezas, onde quer que se dêem estas relações.

 Aplica conhecimento teórico e técnico da psicologia, com o objetivo de identificar e intervir nos fatores determinantes das ações e dos sujeitos, em suas histórias pessoais, familiares e sociais, vinculando-as também a condições políticas, históricas e culturais.

 Analisa a influência de fatores hereditários, ambientais e psicossociais sobre os sujeitos na sua dinâmica intrapsíquica e nas suas relações sociais, para orientar-se no psicodiagnóstico e atendimento psicológico;

 Promove a saúde mental na prevenção e no tratamento dos distúrbios psíquicos, atuando para favorecer um amplo desenvolvimento psicossocial;

 Elabora e aplica técnicas de exame psicológico, utilizando seu conhecimento e práticas metodológicas específicas, para conhecimento das condições do desenvolvimento da personalidade, dos processos intrapsíquicos e das relações interpessoais, efetuando ou encaminhando para atendimento apropriado, conforme a necessidade

 Formula hipóteses e à sua comprovação experimental, observando a realidade e efetivando experiências de laboratórios e de outra natureza, para obter elementos relevantes ao estudo dos processos de desenvolvimento, inteligência, aprendizagem, personalidade e outros aspectos do comportamento humano e animal;

Locais e áreas de atuação

Além da área clínica, a cada dia é observável a emergente atuação do profissional psicólogo em áreas como organizações, hospitais, escolas, tribunais de Justiça, marketing, esportes, aviação, engenharia, etc. Devido a essa ampliação e as formas diferentes de atuação exigidas, torna-se necessário cada vez mais uma atenção focalizada para os valores e princípios fundamentais ao exercício ético da profissão. Esse exercício ético tem como base filosófica conduzir o indivíduo ao bem-estar evitando ao máximo o sofrimento psíquico.

O psicólogo desempenha suas funções e tarefas profissionais individualmente e/ou em equipes multiprofissionais. Abaixo alguns locais e áreas de atuação profissional, o título do psicólogo que atua nessa área com uma breve descrição das atividades.

Locais e áreas Profissional Características do trabalho
Trabalho – Empresas públicas ou privadas Psicólogo do Trabalho Psicólogo Organizacional – implantação da política de recursos humanos das organizações.
– descrição e análises de trabalho (profissiográfico, ocupacional, de posto de trabalho etc.)
– recrutamento s seleção pessoal, utilizando métodos e técnicas de avaliação (entrevistas, testes, provas situacionais, dinâmica de grupo, etc.)
– programas de treinamento e formação de mão-de-obra
– avaliação pessoal, objetivando subsidiar as decisões, tais como: promoções, movimentação de pessoal, planos de carreira, remuneração, programas de treinamento e desenvolvimento, etc.
– capacitação e desenvolvimento de recursos humanos.
– segurança do trabalho
– organização do trabalho e definição de papéis ocupacionais: produtividade, remuneração, incentivo, rotatividade, absenteismo e evasão
– identificação das necessidades humanas em face da construção de projetos e equipamentos de trabalho (ergonomia)
– programas educacionais, culturais, recreativos e de higiene mental, com vistas a assegurar a preservação da saúde e da qualidade de vida do trabalhador.
– processo de desligamento de funcionários, no que se refere a demissão e ao preparo para aposentadoria, visando a elaboração de novos projetos de vida

Saúde – Hospitais, Ambulatórios, Centros e postos de saúde Psicólogo da Saúde
Psicólogo Hospitalar – identificar e compreender os fatores emocionais que intervém na saúde geral do indivíduo, em unidades básicas, ambulatórios de especialidades, hospitais gerais, prontos-socorros, etc.

Consultórios, Clínicas especializadas Psicólogo clínico – enfoque preventivo ou curativo
– terapia individual, em grupo, de casal, familiar, infantil, sexual dependendo da demanda psicológica
– acompanhamento psicológico, e intervenção psicoterápica individual ou em grupo, por meio de diferentes abordagens teóricas
– entrevistas, observação, testes e dinâmica de grupo, com vistas à prevenção e tratamento de problemas psíquicos

Educação – Creches, Escolas Psicólogo Educacional
Psicólogo Escolar – desenvolve, com os participantes do trabalho escolar (pais, alunos, diretores, professores, técnicos, pessoal administrativo), atividades visando a prevenir, identificar e resolver problemas psicossociais que possam bloquear, na escola, o desenvolvimento de potencialidades, a auto-realização e o exercício da cidadania consciente.
– compreensão e mudança do comportamento de educadores e educandos, no processo de ensino aprendizagem
– intervenção psicopedagógica individual ou em grupo
– programas de orientação profissional,
– programas de orientação profissional,
– elaboração de planos e políticas referentes ao Sistema Educacional, visando promover a qualidade, a valorização e a democratização do ensino
– dificuldades dos alunos dentro do sistema educacional e cuja natureza transceda a possibilidade de solução na escola,cuja natureza transceda a possibilidade de solução na escola, buscando sempre a atuação integrada entre escola e a comunidade.

Justiça – Varas da criança e do adolescente, de família, cível, criminal, penitenciárias Psicólogo Jurídico
Psicólogo Forense
Psicólogo Penitenciário – atua no âmbito da Justiça, nas instituições governamentais e não-governamentais
– planejamento e execução de políticas de cidadania, direitos humanos e prevenção da violência.
– orientação do dado psicológico repassado não só para os juristas como também aos sujeitos que carecem de tal intervenção
– formulação, revisões e interpretação das leis
– Avalia as condições intelectuais e emocionais de crianças, adolescentes e adultos em conexão com processos jurídicos, seja por deficiência mental e insanidade, testamentos contestados, aceitação em lares adotivos, posse e guarda de crianças ou determinação da responsabilidade legal por atos criminosos.
– perito judicial nas varas cíveis, criminais, justiça do trabalho, da família, da criança e do adolescente, elaborando laudos, pareceres e perícias a serem anexados aos processos.
– atendimento e orientação a detentos e seus familiares.
– programas sócio educativos destinados a criança de rua, abandonadas ou infratoras
– tarefas educativas e profissionais que os internos
possam exercer nos estabelecimentos penais.

Psicotécnicos – clínicas de trânsito Psicólogo do Trânsito – processos psicológicos, psicossociais e psicofísicos relacionados ao problema do trânsito
– exames psicológicos (“Psicotécnicos”)
– elaboração e implantação de sistemas de sinalização de trânsito, especialmente no que concerne a questões de transmissão, recepção e retenção de informações.
– campanhas de prevenção de acidentes de trânsito.
– educação de trânsito
– comportamento individual e coletivo na situação de trânsito, especialmente nos complexos urbanos.
– implicações psicológicas do alcoolismo e de outros distúrbios nas situações de trânsito.
Esporte – Associações e/ou esportivas, clubes esportivos Psicólogo do Esporte – exame das características psicológicas dos esportistas, visando o diagnóstico individual ou do grupo
– realização pessoal e melhoria do desempenho do esportista e em nível grupal, favorecendo a otimização das relações entre esportistas, pessoal técnico e dirigentes
– estudo das variáveis psicológicas que interferem no desempenho de suas atividades específicas (treinos, torneios e competições)
– aulas de psicologia no esporte em cursos de psicologia e educação física, oportunizando a formação necessária a estes profissionais, a prática das atividades esportivas e seus aspectos psicológicos

Sociedade em geral, Associações comunitárias
Ongs Psicólogo Social
Psicólogo Comunitário – perspectiva de homem e sociedade
– estudos sobre características psicossociais de grupos étnicos, religiosos, classes e segmentos sociais nacionais, culturais, intra e interculturais.
– planejamento, execução e avaliação de programas comunitários, no âmbito da saúde, lazer, educação, trabalho e segurança.
– meios de comunicação, assessorando quanto aos aspectos psicológicos nas técnicas de comunicação e propaganda

Escolas de 2º grau Professor de Psicologia (licenciado) – leciona Psicologia no ensino médio
Escolas de nível superior Professor de Psicologia (especialista, mestre ou doutor) – ministra aulas de Psicologia, tanto para o curso de psicólogos, como para a formação de outros profissionais de nível superior que demandam conhecimentos técnicos-científicos de Psicologia
– supervisiona estágios, curriculares (atuação prática) dos alunos, no âmbito interno e externo da instituição de ensino universitário

Área da comunicação social Psicólogo do Consumidor
– Pode atuar na área de propaganda, visando detectar motivações e descobrir a melhor maneira de atendê-las.

9. A Psicologia e as práticas não psicológicas

A Psicologia não consegue explicar muitas coisas sobre o homem, pois é uma área da ciência relativamente nova (com pouco mais de cem anos). Além disso, sabe-se que a ciência não esgotará o que há para se conhecer, pois a realidade está em permanente movimento e novas perguntas surgem a cada dia.
Alguns dos “desconhecimentos” da Psicologia têm levado os psicólogos a buscarem respostas em outros campos do saber humano. Com isso, algumas práticas não-psicológicas têm sido associadas às práticas psicológicas, como por exemplo, o tarô, a astrologia, a quiromancia, a numerologia, entre outras práticas adivinhatórias/místicas. Estas não são práticas psicológicas! São outras formas de saber – de saber sobre o humano – que não podem ser confundidas com a Psicologia, pois não são construídas no campo da ciência, a partir de métodos e princípios científicos e estão em oposição aos princípios da psicologia que vê o homem não como um ser com destino pronto, mas sim como um ser que constrói seu futuro ao agir sobre o mundo e receber as influências deste mundo.
É preciso ponderar que esse campo fronteiriço entre a psicologia científica e a especulação mística deve ser tratada com o devido cuidado. Quando se trata de pessoa, psicóloga ou não, que decididamente usa do expediente das práticas místicas como forma de tirar proveito pecuniário ou de qualquer outra ordem, prejudicando terceiros, temos um caso de polícia e a punição é salutar. Portanto, não se deve misturar a psicologia com práticas adivinhatórias ou místicas que estão baseadas em pressupostos diversos e opostos ao da psicologia. Por outro lado, é preciso estar aberto para o novo, atento a novos conhecimentos que, tendo sido estudados no âmbito da ciência, podem trazer novos saberes, ou seja, novas respostas para perguntas ainda não respondidas.

10. Ética na Psicologia

A idéia crucial da Ética na Psicologia gira em torno da questão da dinamicidade do ser humano. É uma importante consideração quando sabemos que o psicólogo deve buscar atender ao ser humano, o qual está em constante mudança sendo influenciado por épocas, culturas e meios diferentes.
A deontologia da profissão do psicólogo considera a transitoriedade própria do homem na busca do aperfeiçoamento. Os psicólogos não podem deixar de lado essa preocupação pela atualização e desenvolvimento constante na profissão, o qual poderá promover um engajamento maior para voltar a realidade do ser humano e assim realizar o verdadeiro papel social. O ideal não é apenas saber os grande princípios, ser um expert em psicologia, mas sim aplicar este grande saber na prática do cotidiano.
Todavia, não basta pensar de modo ético, deve-se agir. Não basta apenas pensar bem e honestamente, mas também deve-se procurar agir de modo claro e visível na sociedade. “Juntar o útil ao agradável”, sendo útil promovendo o bem-estar das pessoas de acordo com uma realidade contemporânea e agradável ajudando de maneira criativa, mas dentro de normas que não desrespeitem o cliente como ser humano.
O respeito a pessoa humana é assunto subjetivo e a partir desse enfoque cabe uma reflexão: até que ponto as singularidades de cada psicólogo é útil e confiável no tratamento de cada indivíduo? Até que ponto a criatividade, liberdade e espontaneidade de cada psicólogo pode ser útil para o cliente enquanto ser humano que busca soluções para seus problemas?
A pessoa em sofrimento psíquico deposita toda sua esperança em um psicólogo. Acha que ele irá solucionar todos os seus problemas.
Cabe ao psicólogo discriminar que ninguém pode viver ao sabor de suas paixões e desejos momentâneos de onipotência. Nenhum psicólogo pode “brincar” com a vida pela qual ele está sendo responsável naquele momento. Ninguém pode viver sem regra ou lei. Por isso, o código de ética do psicólogo estará sendo pouco ético se não determinar normas de conduta para que, mesmo com a subjetividade de cada psicólogo, ele saiba discriminar que acima da sua ética existe a ética do homem. É esta ética que fará do psicólogo um profissional engajado social e politicamente no mundo, e não um profissional a serviço exclusivamente do indivíduo.
O código de ética dos psicólogos não deve ser visto como uma prisão de condutas a serem seguidas, mas como um caminho para a boa conduta tentando minimizar o conflito entre os valores pessoais de cada psicólogo e o verdadeiro agir enquanto psicólogo.

Hoje, mais do que nunca, a atitude dos profissionais em relação às questões éticas pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso de suas carreiras. Basta um deslize e a imagem do profissional pode ganhar, no mercado, a mancha vermelha do demérito.
Ser ético é mais que agir corretamente, proceder bem, sem prejudicar os outros. É ser altruísta, é estar tranqüilo com a consciência pessoal. Ser ético é também, agir de acordo com os valores morais de uma determinada sociedade. Essas regras morais são resultado da própria cultura de uma comunidade. Elas variam de acordo com o tempo e espaço. Ser ético é ter coragem para assumir as decisões adequadas, mesmo que seja preciso ir contra a opinião da maioria. Ser tolerante e flexível, íntegro e humilde a fim de sempre ouvir o outro.
Se o comportamento ético fosse simplesmente seguir as regras, poder-se-ia programar um computador para ser correto. A ética gera questões extremamente delicadas e, na maioria das vezes, de foro íntimo. Não existe uma receita universal, pronta e completamente eficaz para resolvê-las. A decisão sempre varia de pessoa para pessoa, de consciência para consciência, por isso cabe ao psicólogo medir quais são seus limites éticos dentro de sua profissão e avaliar os riscos de cada decisão que tomar.
Muitos são os desafios do profissional de psicologia em seus vários campos de atuação, mas sempre deve estar focada no indivíduo em sua forma completa e complexa. O papel do psicólogo não é apenas tratar problemas ou tentar resolver todas as situações da vida de uma pessoa, mas sim criar condições para prevenir o aparecimento de sofrimentos psíquicos bem como fornecer possibilidades para a mudança de comportamentos.
O respeito ao indivíduo está bem contemplado no Código de Ética do Psicólogo em vários de seus artigos entre eles os que citam a importância de exercer o seu trabalho baseados nos fundamentos científicos eximindo-se do uso de práticas não comprovadas empiricamente e as citações sobre a questão do sigilo profissional.
O princípio fundamental para o começo de uma atuação profissional é a reflexão de que os psicólogos do Brasil pertencem a um país que já foi subdesenvolvido, mas que hoje procura fazer parte dos países emergentes. O psicólogo deve se inserir no contexto brasileiro o qual é diferente dos outros países. O Brasil tem um quadro de violência sob todas as formas, mortalidade infantil, desnutrição, baixo nível de escolaridade, péssimas condições habitacionais, elevado grau de endividamento, aviltamento monetário, desarticulação social, corrupção, amplo processo de prostituição de todos os tipos, inclusive infantil, falta de solidariedade nacional, vandalismo, falta de confiança no futuro. A quase totalidade da população vive na miséria, mas a pobreza não é um fenômeno novo, apenas agora está fabricada, como conseqüência das decisões de modernização. A desigualdade social deriva das decisões econômicas para viabilizar a modernização criando assim “abismos” sociais maiores entre as classes. O “ter” está se sobressaindo em relação ao “ser”. É importante esta análise se compararmos aos países desenvolvidos que já superaram alguns problemas sociais básicos e podem atualmente se dedicar mais ao “estudo da alma”. Estamos atrasados! Como tratar do emocional de uma pessoa se suas necessidades básicas não estão sendo sanadas?
A Psicologia é um trabalho muito sutil de extrema responsabilidade e na qual, a atuação do profissional pode construir ou destruir uma pessoa pois, o psicólogo lida com aspectos como a auto-estima das pessoas, suas frustrações e conflitos, bem como fatos alegres, histórias do cotidiano e dados da vida individual, podendo atuar adequada e inadequadamente utilizando-se da condição de poder reformular os conceitos sobre a vida do indivíduo.
Enfim, a partir de uma reflexão filosófica e simplista feita sobre a atuação do psicólogo de uma maneira ética como profissional, constata-se que em quaisquer campo de trabalho, este profissional deve voltar-se para a melhoria da vida do indivíduo em sua subjetividade promovendo o seu bem-estar.

11. Perfil atual dos psicólogos

Entre os dias 04 e 25 de março de 2004, o CFP (Conselho Federal de Psicologia) realizou uma pesquisa nacional para conhecer o perfil desse profissional da saúde. A pesquisa envolveu 2.000 psicólogos e foi feita por meio de entrevistas telefônicas. Eis alguns dados:
 91% são mulheres;
 A média de idade é de 39 anos;
 46% dos psicólogos estão formados há, no máximo, 8 anos;
 Grande busca pela profissão a partir dos anos 90 devido a grande proliferação de cursos de graduação desta área no Brasil;
 Renda média mensal de R$ 2.000,00 (muitas vezes em mais de uma atividade);
 Metade já fez ou está fazendo algum curso de especialização;
 1 em cada 10 já fez ou está fazendo mestrado ou doutorado;
 55% atuam no atendimento clínico individual ou em grupo;
 Dos que trabalham em clínica, 65% são mais velhos e 17% são mais novos (o consultório vem com amadurecimento e crescimento profissional).
 Últimas campanhas mais importantes da classe:

 Campanha de Direitos Humanos;

 Luta anti-manicomial – por uma sociedade sem manicômios

 “Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania” – campanha contra a baixaria na TV visando um controle social da programação televisiva, publicidade infantil, contra a banalização da violência e o incentivo à discriminação racial, sexual e econômica, valorização dos direitos do cidadão na programação da TV brasileira;

 Luta contra o projeto de lei do Ato Médico – projeto que médicos querem aprovar no Congresso Nacional que estabelece que toda a atividade que se possa fazer e que se queira fazer em benefício da saúde física e psicológica do homem, tem que ser inicialmente autorizado e fiscalizado pela classe médica. Vamos dar um exemplo se o projeto fosse aprovado. O paciente procuraria o médico, pagar-lhe-ia uma consulta, só para dizer que tem necessidade de consultar um psicólogo. A atitude do médico seria uma das seguintes: 1) diria que o paciente não tem necessidade de consultar um psicólogo, basta tomar um remédio que ele médico receitaria; 2) sem examiná-lo diria que ele realmente poderia consultar um psicólogo; 3) avaliaria psicologicamente o paciente para ver se ele precisaria de atendimento psicológico. No primeiro caso seria uma violação à liberdade de escolha do paciente. No segundo caso a consulta seria desnecessária e apenas um meio de o médico ganhar dinheiro. No terceiro caso o psicólogo teria mais condições, do que o médico, de avaliar psicologicamente o paciente, não sendo pois necessária a consulta ao médico.
(http://www.naoaoatomedico.com.br/paginterna/noticiapopup.cfm?id=125).

 Educação Inclusiva – por uma educação no Brasil verdadeiramente inclusiva, que tenha como referência aqueles que têm sido reiteradamente excluídos dos sistemas de ensino – negros, meninas, homossexuais, índios, populações em situação de rua, crianças e jovens com dificuldades no processo de escolarização vinculadas ou não a causas orgânicas, superdotados. Que a educação brasileira cumpra seu caráter público, universal e de qualidade para todos. Que as instituições educativas possam atender, na singularidade humana, a pluralidade cultural!

 Democratização da comunicação – comunicação mais democrática
SER PSICÓLOGO

Walmir Monteiro

Ser psicólogo é uma imensa responsabilidade.
Não apenas isso, é também uma notável dádiva.
Desenvolvemos o dom de usar a palavra, o olhar,
as nossas expressões, e até mesmo o silêncio.
O dom de tirar lá de dentro o melhor que temos
para cuidar, fortalecer, compreender, aliviar.

Ser psicólogo é um ofício tremendamente sério.
Mas não apenas isso, é também um grande privilégio.
Pois não há maior que o de tocar no que há de mais
precioso e sagrado em um ser humano: seu segredo,
seu medo, suas alegrias, prazeres e inquietações.

Somos psicólogos e trememos diante da constatação
de que temos instrumentos capazes de
favorecer o bem ou o mal, a construção ou a destruição.
Mas ao lado disso desfrutamos de uma inefável bênção
que é poder dar a alguém o toque, a chave que pode abrir portas
para a realização de seus mais caros e íntimos sonhos.

Quero, como psicólogo aprender a ouvir sem julgar,
ver sem me escandalizar, e sempre acreditar no bem.
Mesmo na contra-esperança, esperar.
E quando falar, ter consciência do peso da minha palavra,
do conselho, da minha sinalização.
Que as lágrimas que diante de mim rolarem,
pensamentos, declarações e esperanças testemunhadas,
sejam segredos que me acompanhem até o fim.

E que eu possa ao final ser agradecido pelo privilégio de
ter vivido para ajudar as pessoas a serem mais felizes.
O privilégio de tantas vezes ter sido único na vida de alguém que
não tinha com quem contar para dividir sua solidão,
sua angústia, seus desejos.
Alguém que sonhava ser mais feliz, e pôde comigo descobrir
que isso só começa quando a gente consegue
realmente se conhecer e se aceitar.

Estudo Dirigido:

1) Caracterize o conceito de psicologia.
2) Cite diferenças entre o saber do senso comum e o conhecimento científico.
3) Por que a psicologia pode ser considerada uma ciência?
4) O comportamento possui três categorias. Quais são elas?
5) Os estímulos advindos do meio ambiente exercem influência sobre o comportamento humano. Caracterize esse meio ambiente.
6) Quais as diferenças da visão biomédica para a visão biopsicossocial do ser humano
7) Por que a psicologia estuda alguns comportamentos em certas espécies de animais para entender o comportamento humano?
8) O que é subjetividade?
9) Qual o objetivo do trabalho do psicólogo?
10) Quais as áreas e os locais em que o psicólogo pode atuar?
11) Em que se assemelham e em que se diferenciam as práticas do psicólogo e do psiquiatra?
12) Por que as práticas místicas não compõem o campo da Psicologia científica?
13) O comportamento do profissional de psicologia deve ser ético. Reflita e explique com suas palavras como você entendeu que deve ser a maneira ética do psicólogo tratar o ser humano.

Referências (para elaboração desta apostila):

ATKINSON, R.L. et al Introdução à Psicologia. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. (Cap. 1 – Natureza da Psicologia, pp. 10-29).

BOCK, Ana Mêrces Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Editora Saraiva, 1999.

SKINNER. Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

TODOROV, João Cláudio. A psicologia como estudo das interações. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 5, p.347-356, 1989.

Site do Conselho Federal de Psicologia: http://www.pol.org.br/legislacao

Site do Ministério do Trabalho – http://www.mte.gov.br

E, ainda: aulas do curso de formação do Professor Antônio Isidro no INSPAC (Instituto São Paulo de Análise do Comportamento).

Isaac 16/11/2014 18:26 0 0

DIVERSIDADE RELIGIOSA NA PERSPECTIVA INDÍGENA
Lori Altmann
A educação, num contexto de diversidade de povos, culturas e também de religiões, não é algo novo em nosso país, mas a preocupação em perceber esta diversidade como uma riqueza a ser identificada, interpretada e valorizada é relativamente recente.
Os conhecimentos sobre a “História e Cultura Afro-brasileira e Indígena” e sobre as dimensões étnico-culturais-religiosas do conhecimento passam a fazer parte do currículo oficial da rede de ensino (pública e privada), de maneira mais sistemática e formal, com a exigência de serem desenvolvidos nas escolas a partir da Lei Federal no. 11.465, de março de 2008.
Este texto apontará para princípios básicos que orientem a inclusão da temática da questão indígena na disciplina de Ensino Religioso, mas também em outras disciplinas como: História, Geografia, Língua Portuguesa, Sociologia, Filosofia, Biologia, Educação Artística e muitas outras. Ao mesmo tempo, apresentará alguns exemplos do ponto de vista indígena, principalmente no que diz respeito as suas cosmovisões e tradições religiosas.
1. Olhar a partir de outra perspectiva religiosa
As tradições religiosas, na sua multiplicidade, apresentam diferentes pontos de vista a respeito da relação com o transcendente. Ao buscarmos este contato com as culturas indígenas precisamos fazer este exercício de olhar a partir de outras perspectivas religiosas. É importante ressaltar que só nos conhecemos e nos encontramos conosco mesmos, conosco mesmas através do outro, da outra, ou seja, através da alteridade.
O conhecimento adequado de uma religião indígena, entendida como um conhecimento construído, transmitido e transformado socialmente na relação entre pessoas e o sobrenatural ou transcendente, supõe o conhecimento da língua e da cultura. Por ser religião de tradição oral, boa parte do que se aprende não ocorre em processo formal de estudo, mas no contato, na convivência e na participação de atividades cotidianas. O aprendizado ocorre à medida que se vai observando, conferindo e perguntando, muito na linha do método etnográfico desenvolvido pelo antropólogo Bronislaw Malinowski (1984).
Um grande desafio, em relação às religiões indígenas, diz respeito a apreender o mundo mítico, ou melhor, o universo simbólico indígena expresso nas narrativas, nos rituais e nos cantos. Trata-se de apreender a lógica deste mundo no qual, através da mediação de especialistas, são estabelecidas relações com espíritos que geralmente se localizam no interior da floresta ou nas profundezas da terra.
Historicamente, a cultura ocidental e cristã viu as outras tradições religiosas a partir de seu ponto de vista. A aproximação com outras tradições religiosas exige, no entanto, um processo de reeducação, através do qual é preciso se colocar no mundo a partir do ponto de vista do outro. Passa a ser uma descoberta a partir de dentro e não a partir de fora daquela cultura e religião. Isso exige uma atitude de respeito à diferença, num sentido ecumênico amplo ou macro-ecumênico imprescindível num contexto de pluralismo religioso.
Num primeiro momento é necessário um “silêncio” mediante o qual a palavra do outro povo, a palavra da outra cultura possa ser escutada, pois a escuta torna-se a condição para o diálogo. Urge que este silêncio e esta escuta ocorram dentro de um processo de convivência, que, por sua vez, possibilita um diálogo frutífero, mediante o qual, aos poucos, vai surgindo o conhecimento mútuo e a superação das desconfianças.
As religiões indígenas estão intimamente relacionadas com a terra e com suas reais condições de sobrevivência física e cultural. O respeito a sua religião passa pelo compromisso com suas lutas bem concretas e por sua busca por qualidade de vida. Os povos indígenas não precisam de misericórdia, mas de justiça. Não precisam de esmola, mas de devolução com juros de tudo aquilo que lhes foi roubado. Esta justiça histórica apresenta-se como uma exigência para o restabelecimento de sua dignidade. No entanto, não existe autodeterminação e autonomia sem a superação de toda forma de dependência. Isso só acontecerá com a mudança estrutural da própria sociedade brasileira como um todo. Dentro do estado brasileiro atual os povos indígenas permanecem dependentes e explorados, enquanto suas culturas e cosmovisões encontram-se ameaçadas.
Uma outra relação com estes povos indígenas, permeável à cultura e às demandas de suas comunidades, pode vir a contribuir para a sua sobrevivência física e cultural, preservando uma relação o mais possível simétrica e digna. Cito aqui o Pastor Walter Sass, que descrevendo a sua experiência entre os Kulina do vale do rio Juruá, afirma:
Cada vez aprendo mais com este povo que sabe do mistério da vida, do essencial [...] do respeito à natureza, à criança, ao convívio com outros. Não tenho uma visão romântica. Os madiha se chamam gente, como nós. Eles sabem das suas falhas. Os mitos narram isto. Mas a história foi violenta demais para este povo e ainda é. Um verdadeiro encontro das duas religiões, das duas manifestações de dar sentido a este mundo se concretizará no momento em que nós deixarmos muitos elementos destrutivos da nossa cultura (que não são cristãos) caírem. Eu estou no meio deste diálogo, aprendendo, escutando, descobrindo, em longas meditações nas viagens e na aldeia, a mensagem Daquele que está ao lado dos que lutam pela vida.
O Ensino Religioso, como um processo comunicativo crítico, exige uma reinterpretação da fé cristã e da cultura ocidental para uma verdadeira compreensão das religiões indígenas. A aproximação com o “outro”, o conhecimento e a valorização de sua cultura e de seu modo de ser, precisa ocorrer num contexto de diálogo respeitoso. Esta seria uma tentativa não-etnocêntrica de se relacionar com povos e comunidades dominadas e que lutam por espaços de manifestação autônoma.
A escola é também um espaço privilegiado para uma revisão da História e uma busca por mudança de mentalidade por parte de alunos e alunas no que diz respeito às populações indígenas que vivem em nosso país. Para isso precisamos considerar que existem aí implicadas relações assimétricas em termos culturais, sociais e econômicos e que o diálogo interreligioso não está isento destas relações de poder. Mesmo assim, vale a pena tentar, porque ao assumir uma aproximação aberta e permeável à cultura do outro, não se permanece mais o mesmo, a mesma. Esta é a essência do diálogo.
2. Indígenas e a diversidade étnica
Neste texto optamos pela palavra “indígena”, que nos vem do latim, significando “o habitante primitivo de uma terra”. Aquela pessoa que é originária de um determinado país ou determinada localidade. Quem é natural do lugar ou país onde habita. Em outras situações podemos ainda encontrar as seguintes denominações: aborígenes, povos originários ou povos autóctones. Evitaremos o termo “índio” por ser resultado de um erro histórico, apesar de ter sido posteriormente adotado politicamente por esses povos, por representar uma denominação comum, que abarca uma significativa diversidade étnica. Neste sentido devemos considerar a existência no território brasileiro de uma multiplicidade de povos e culturas com línguas, cosmovisões e formas diferenciadas de organização sócio-política e econômica.
3. Povos indígenas como sujeitos religiosos
É importante a identificação dos povos indígenas como sujeitos religiosos. São eles que passam a nos interpelar e a nos interpretar como “outros”. Pois, neste esforço de olhar de outro ponto de vista, de ouvir outras palavras e outros discursos, nós como “outros” ou “outras” também passamos a ser vistos, a ser vistas a partir da perspectiva indígena.
Segundo Carlos Rodrigues Brandão (1986, p.16), “culturas não se relacionam. Quem se relaciona são agentes de cultura, são sujeitos produtores e reprodutores de cultura”. Indo mais além, podemos dizer que religiões não se inculturam, mas agentes religiosos é que promovem a inculturação da religião, na dinâmica da relação, do diálogo e do questionamento mútuo.
Alguns discursos de resistência destes sujeitos religiosos são explicitados em reuniões ou mesmo no dia-a-dia da aldeia, expressando a auto-afirmação de sua perspectiva cultural e religiosa. Cito a seguir parte de um discurso pronunciado no “I Encontro de espiritualidade indígena e fé cristã”, realizado na aldeia Pakuera do povo indígena Bakairi no Mato Grosso (24-27/08/1994), com o apoio do GTME – Grupo de Trabalho Missionário Evangélico. Antônio, guarani ñandeva, na época vice-cacique da aldeia Guarani no Espírito Santo e representante da organização guarani Ñemboaty Guasu disse:
O joão-de-barro não vai dizer para o sabiá fazer casa igualzinha a dele, ou vice-versa. Não vai dizer o meu jeito de fazer casa é mais fácil. Quando a gente conhece, a gente aprende a respeitar. Não aceitamos o fato do cristianismo querer colocar só a sabedoria dele na aldeia. Defendemos também o direito de decidir até que ponto vamos aceitar o que vem lá de fora. Que eles respeitem a nossa cultura como nós respeitamos a deles.
A comunidade me escolheu para defender os direitos do meu povo, direitos que Deus nos deu. Deus criou a terra com a palma da mão. O sol e a lua são feitos pela sabedoria de Deus. O nosso povo sempre respeitou a cultura, a natureza. Os que vieram da Europa já destruíram muito por aqui. O povo, a terra, tudo o que existe no Brasil. Não vai chegar um branco lá da cidade e querer dizer o que nós devemos guardar. A nossa riqueza é a nossa mata, os nossos costumes e a nossa religião (…) nos destruindo eles vão pegar nossa terra. Se nós queremos continuar sendo guarani, temos que manter a nossa religião antiga.
Deus deu a sabedoria a Ñamandu e ele a passou para nós. Deu esta sabedoria e isto é verdade. Deus deu a sabedoria para nós igual na Bíblia, só que não foi escrita. Veio como sabedoria de Ñamandu para os Guarani.
Se nós já temos religião, por que vamos aceitar outra religião? Nós sempre buscamos Deus de madrugada e de noite. Como vamos buscar a Deus na nossa cultura e na outra cultura que não é a nossa? O que o pastor diz é doutrina, está escrito na Bíblia. Para nós a sabedoria está na memória dos mais velhos como um troféu que passa de geração em geração. Se o povo decidir deixar sua cultura, o índio é que vai estar perdendo. Deus vai ficar com lágrimas nos olhos. Vai dizer: “Os meus filhos, os nativos, estão se deixando enganar, estão perdendo a sabedoria”. Porque estaremos entregando o ouro que nós temos, a nossa sabedoria.
Perante as lideranças religiosas indígenas, presentes neste encontro, Antônio revelou uma grande capacidade de oratória, uma característica da cultura guarani. Para nós, o que adquire relevância é aquilo que ele coloca em termos de questionamento e a maneira como ele provoca a reflexão.
As religiões indígenas expressam uma sabedoria, uma maneira própria de ser e de estar no mundo, uma cosmovisão. Esta última precisa ser entendida de uma forma integrada como uma visão sobre si, sobre os outros seres e sobre o mundo.
O teólogo Karl Barth define teologia como um falar “a partir de Deus”, já para a tradição cristã de matriz agostiniana a Teologia é organizada segundo dados da revelação e da experiência humana. Esses dados da revelação e da experiência humana podem também ser percebidos na narrativa de Antônio, na qual a religião permeia todos os momentos e todos os âmbitos da vida.
Na tradição cristã, o sentido literal da palavra teologia define-se como o estudo sobre Deus, que vem do grego theos – “Deus”; logos – “palavra” e por extensão “estudo”. Teologia também pode ser entendida como “sabedoria”, como “conhecimento” ou como estudo de Deus a partir de sua revelação, que no judeo-cristianismo está registrada fundamentalmente nas narrativas da Bíblia. O discurso guarani acima citado tenta estabelecer uma relação simétrica entre a “sabedoria” ou “palavra revelada” oralmente aos guarani e a “sabedoria” ou a “palavra revelada” na forma escrita, através da Bíblia, para os povos cristãos.
Egon Schaden, antropólogo especialista em cultura guarani, classificava as religiões indígenas em dois grandes grupos: as religiões da palavra e as religiões do rito. Poderíamos, por exemplo, identificar a religião dos diferentes sub-grupos guarani como “da palavra”, por sua grande capacidade oratória e por sua inspiração. E identificar a religião do povo kulina, segundo minhas pesquisas, como predominantemente “do rito”.
Os povos indígenas, em sua diversidade como povos e culturas, desenvolveram cosmovisões representadas nos ritos (ou rituais) e explicitadas através de narrativas mitológicas. Estas cosmovisões estão presentes e operantes no cotidiano e em todos os aspectos da vida desses povos. Nestes, pessoas iniciadas, em geral as mais velhas, desempenham papéis especializados no âmbito religioso e são as receptoras e intérpretes dos cantos, dos sonhos e das visões.
No próximo item apresento um mito do povo indígena Kulina, que se autodenomina Madija e vive na Amazônia Ocidental, entre os vales dos rios Purus e Juruá. A história recente deste povo foi marcada pelo confronto com a sociedade nacional, a partir da frente extrativista da borracha e do caucho.
A organização social do povo Kulina enfoca o sistema do manaco, ou de reciprocidade, que se expressa simultaneamente tanto como dom quanto como vingança, e integra as dimensões sócio-econômica, política e religiosa, que por sua vez identifica o modo de ser kulina. O sistema de manaco como uma instituição básica deste povo indígena, garante a sua diferenciação em relação aos processos e investidas da sociedade dominante em seu território, constituindo-se no elemento de resistência mais constante.
Este povo foi reformulando sua produção simbólica e seu conhecimento sobre si, sobre o “outro” e sobre o mundo, na contradição que se estabeleceu entre o sistema de reciprocidade e o sistema de produção, que é hegemônico na sociedade dominante. Esta reformulação esteve centrada na luta pela terra, locus de sua reprodução física e produção simbólica, que se expressa a partir de uma ecologia social própria.
Este relato mítico nos foi contado por Huarina, da aldeia kulina de Santo Amaro, Alto Purus, Acre e demonstra que os Kulina, como sujeitos religiosos, estão percebendo e interpretando as nossas narrativas, com critérios de sua própria cultura.
4. Diocca ima ou “a história do céu”
Os Madija ao contarem um mito ou uma história, fazem-no dentro de um processo de representar e repensar os “outros”. A encenação aliada à linguagem oral desempenha um papel de extrema importância, pois, segundo Clifford Geertz (1978, p.90), “não sabemos o que pensamos enquanto não vemos o que pensamos”. A dramaticidade, por sua vez, se relaciona com a linguagem oral, pois segundo Paulo Freire (1982, p.17): “as línguas orais são tão concretas que viram corporais”.
Adélia Bezerra de Meneses (1988, p.3) aborda a corporalidade da linguagem oral, de modo que pode perfeitamente ser aplicada ao caso Kulina:
Não podemos esquecer da carga corporal que a palavra falada carrega. Na narrativa oral, a palavra é corpo: modulada pela voz humana, portanto carregada de marcas corporais, carregadas de valor significante. A palavra oral é isso: ligação de sema e soma, de signo e corpo. A palavra narrada guarda uma inequívoca dimensão sensorial.
Segue a narrativa do mito conforme meu diário de campo:
Numa noite de lua-cheia no pátio da aldeia de Santo Amaro, Huarina, chefe, ou como se diz na sua língua, tamine, nos contou uma história ou ima em kulina. Começou sua narrativa sem nenhum preâmbulo e aparentemente sem uma razão plausível, falando o tempo todo em sua língua nativa. Aqui é importante dizer que através da língua se estabelece uma comunicação privilegiada com o mundo do “outro”, com sua cosmovisão, suas tradições, seus sonhos, utopias e perspectivas de futuro.
Contou, que antigamente, maittaccadsama, um dsoppineje kulina ouviu muito falar a respeito do céu pelos brancos. Ficou, então, curioso para conhecê-lo. Queria, no entanto, poder voltar caso não gostasse de lá. Convocou então as mulheres da aldeia para que tecessem uma grande bola com fio de algodão, para que pudesse achar o caminho de volta. As mulheres trabalharam muito, até que ele teve fio suficiente para sua viagem. O xamã, então, foi em busca do céu. Chegando lá viu apenas padres e não se agradando, resolveu voltar para sua aldeia.
Tentei interpretar essa história a partir do pensamento e da visão de mundo dos Kulina. Em primeiro lugar observei que a capacidade de ir e voltar para o mundo dos mortos é atributo do dsoppineje. No entanto, na história, assim como no ritual kulina, as mulheres têm participação ativa nessa “viagem” (CLASTRES, 1982, p.78). Na história, tecendo o fio do algodão e no ritual, tecendo o fio social. Através do canto coletivo, que agia como um fio social, as mulheres colaboravam no processo de cura dos doentes individualmente e re-teciam a sociedade quando ela “adoecia” pela perda de um de seus membros. A fidelidade por um fio. Na tecelagem que praticam, o que está em jogo é a fidelidade à cultura.
Neste mito kulina, as mulheres tecem o poder do dsoppineje, eminentemente um poder masculino, e garantem a sua capacidade de escolha. Na luta pela fidelidade à cultura, elas satisfazem a curiosidade do dsoppineje de conhecer o céu dos brancos. Curiosidade entendida como uma necessidade imperiosa de conhecer, mas que neste caso levou à decepção e ao retorno. O dsoppineje sofre o aguilhão de saber por experiência própria. Seria necessário fazer um estudo antropológico da curiosidade e do papel que desempenha em várias religiões e mitologias. A curiosidade e tudo o que ela representa como propulsora do espírito humano, mas também com tudo que ela comporta de fragilidade. Deixar-se vencer pela curiosidade pode significar sucumbir à fraqueza. Por isso, a precaução do dsoppineje apelando para a ajuda das mulheres. O fio feito pelas mulheres, nesta situação, representa a segurança de escolha. Significa deixar o caminho aberto, preservar os laços que o mantém ligado com sua comunidade de vida, com seus semelhantes (MENESES, 1988, p.3).
Repensando a história, também pude relacionar com a concepção kulina do mundo dos mortos. Para eles, os mortos são “outros” hostis e com os quais não se mantém relações de reciprocidade. A sociedade dos mortos representa uma projeção da sociedade dos vivos, apesar de existir oposição e hostilidade entre ambas.
Sociedade ideal para os Kulina é a sua própria, com sua família extensa, matrilocal, com seus subgrupos totêmicos e assim por diante. A vida de um padre, como alguém solteiro, celibatário, não seria nunca um ideal de vida para eles. E isso os Kulina expressaram diversas vezes quando demonstravam a sua perplexidade pelo fato de padres conhecidos seus, da região, não casarem, não constituírem família, enfim não exercitarem a reciprocidade, que se dá nesta cultura basicamente pelas relações de parentesco.
O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1986, p.78–9) afirma que:
o celibato surge mesmo como repugnante e condenável para a maior parte das sociedades. Não é exagero dizer-se que os solteiros não existem nas sociedades sem escrita, pela simples razão que eles não poderiam sobreviver [...]. E a verdade é que numa sociedade em que reina a divisão do trabalho entre os sexos e em que só o estado conjugal permite ao homem gozar dos produtos do trabalho feminino [...] um solteiro é somente metade de um ser humano.
Muitas outras interpretações poderiam ser desenvolvidas a respeito da narrativa acima. Importante aqui é mostrar os povos indígenas como sujeitos que estão desenvolvendo uma reflexão inter-cultural própria. A partir de seu ponto de vista e de sua cosmovisão, estão avaliando, selecionando e escolhendo aqueles conhecimentos, dentre os que lhes são apresentados, que produzam sentido para o momento histórico e para a realidade atual na qual estão inseridos.
5. Multiplicidade cultural e religiosa
As religiões são históricas, contextualizadas e parciais. A percepção disso ocorre no confronto com outros contextos culturais e com outras tradições religiosas. A teóloga e antropóloga Graciela Chamorro, em texto de 1998, ao ser interpelada sobre sua relação como cristã com os povos indígenas, diz: “Bem, minha aproximação dos indígenas parte de uma confissão de fé: Deus é maior de todas as expressões religiosas – inclusive das nossas piedades cristãs e das nossas teologias [...]”. Ou seja, qualquer religião, como expressão humana, é inadequada e incapaz de exprimir totalmente Deus. A parcialidade expressa em cada uma das tradições religiosas permite a compreensão e a aceitação da existência de uma multiplicidade de religiões. A tendência, no entanto, é de cada pessoa ou cada tradição religiosa, considerar a sua religião como a única ou como a melhor entre todas.
Pierre Clastres (1982, p. 56), antropólogo francês, já dizia que todas as culturas são etnocêntricas, mas só a ocidental é etnocida, no sentido de querer destruir ou reduzir a outra a si mesma. Os povos indígenas, em geral, não são proselitistas e exclusivistas, como certas expressões cristãs, que se entendem como portadoras da verdadeira cultura e da verdadeira religião. Pretendem converter outros povos à fé cristã e impor sua cultura a outras culturas. Os povos indígenas, ao contrário, mesmo tendo a maior consideração pela sua cultura e religião próprias, são tolerantes e inclusivos, sem tentar impô-las aos outros.
Para ilustrar, cito uma passagem transcrita do livro de Curt Nimuendaju, As lendas da criação e da destruição do mundo (1987: 28-29), que caracteriza muito bem está tolerância:
O pajé-chefe Joguyroquý, do povo indígena apapocúva-guarani, quando foi apresentado em São Paulo, ao presidente do estado, em 1902 desenvolveu o seguinte arrazoado:
“Então vem o padre (católico) visitar-me na aldeia; eu o recebo tão bem quanto posso, mando matar uma galinha para ele e, à noite, preparar sua cama. Na outra manhã ele conta o que sabe, isto e aquilo; quando ele termina, digo eu: `sim, Senhor’; ele fica satisfeito e vai embora e diz: `esse capitão sim, este é um bom capitão!’ – Aí quando vem o ministro (protestante), também para ele mando matar uma galinha (quando tenho), e buscar mel no mato, porque não temos açúcar; ele me conta também a sua estória e eu ouço e respondo: `Sim Senhor, Sr. Ministro.’ E então ele fica satisfeito e diz: `Este sim, este é um capitão de verdade!’ E assim os vou tratando a todos”.
A fala guarani transcrita acima é um grande exemplo de tolerância e de diálogo intercultural. Este diálogo apenas poderá ocorrer se existir uma atitude inclusivista e permeável de ambas as partes e como fruto de liberdade de escolha e de relações mais igualitárias. O que ocorre, geralmente, no contato entre religiões é que existe uma correlação de forças desigual, onde a religião desprovida de poder e de recursos enfraquece ou desaparece diante das outras. E a religião do mais forte impõe-se e dispensa a possibilidade de diálogo e a capacidade de influência da religião indígena.
6. Sincretismo e identidade étnica
O conceito de sincretismo tem sido rejeitado em alguns meios por evocar uma idéia de mistura, de deformação, de desvio e de perda de identidade. Vimos, no entanto, que nenhuma religião é imune ao sincretismo. A maior parte dos estudos sobre sincretismo se voltou, na área da Antropologia e da Ciência das Religiões, para grupos marginalizados ou minoritários, o que levou a identificá-los como sujeitos religiosos mais interessados neste processo. O que não é totalmente verdade, pois o próprio cristianismo resultou da contribuição de outras religiões, principalmente do judaísmo.
No processo de sincretismo ocorre não só uma reconstrução religiosa, mas uma reconstrução da identidade social e religiosa do indivíduo como integrante de determinado grupo social. A identidade, assim como a própria cultura, é historicamente reconstruída na relação, portanto precisamos perceber tanto o sincretismo quanto a inculturação como processos em andamento, como afirma Mário de França Miranda. E não o sincretismo como algo temporário e incompleto, sendo a inculturação o seu produto o final.
A cultura e a religião, nos discursos dos povos indígenas, estão sendo apontadas como elementos constitutivos da identidade étnica. Como forças propulsoras de resistência ativa ou ainda como fontes de poder e de coesão grupal. Estas identidades não são fixas ou estáticas, mas em contínua construção e reconstrução dentro de um processo histórico e social.
Fredrick Barth (1998) fornece um conceito bastante amplo de identidade cultural e que foi adotado na legislação indigenista brasileira. Para este antropólogo, o que define a pertença identitária de um indivíduo é “considerar-se a si mesmo e ser reconhecido como tal”, por um determinado grupo étnico. Pode-se dizer que esta definição vale também para a pertença religiosa.
7. Na diversidade, dar a razão de nossa esperança
A multiplicidade de povos e culturas indígenas existentes no Brasil faz com que as características simbólicas e religiosas sejam bastante diversificadas. Por outro lado, o impacto de agentes externos, religiosos ou não, também foi diferenciado em termos de tempo e de intensidade. Podemos identificar: 1) povos com suas religiões originárias; 2) comunidades de igrejas cristãs, católicas e protestantes, constituídas entre os indígenas; 3) movimentos messiânicos com características sincréticas; 4) e, em alguns casos, igreja indígena. Existe uma multiplicidade de estudos a partir de realidades particulares, principalmente na Antropologia, mas não conheço um mapeamento geral do campo religioso nas comunidades indígenas no Brasil.
Para muitos povos indígenas, a religião se apresenta como uma sabedoria histórica e socialmente desenvolvida. Em nossa tarefa como educadoras, nos defrontaremos com o conhecimento da cultura e da religião dos povos indígenas como diferentes saberes e como outras maneiras de ser e de estar no mundo. Este conhecimento, diferente do que muitas pessoas imaginam, não deveria provocar crises de fé, mas levar a uma melhor compreensão da razão da nossa esperança como cristãos e cristãs.
Sugestão de atividades:
1. Contatar uma comunidade indígena e conversar com pessoas anciãs para conhecer alguns aspectos importantes da sua Tradição Religiosa.
2. Fazer um levantamento com a turma sobre a diversidade religiosa de sua localidade e identificar os traços que mais chamam a atenção.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Clovis 16/11/2014 22:47 0 0

Augusto Comte – Positivismo

Isidore Auguste Marie François Xavier Comte, filósofo e matemático francês, nasceu em Montpelier a 19 de janeiro de 1798. Foi fundador do Positivismo. Fez seus primeiros estudos no Liceu de Montpellier, ingressando depois na escola Politécnica de Paris, de onde foi expulso em 1816 por ter-se rebelado contra um Professor.Foi então estudar medicina em Montpellier, mas logo regressou a Paris, onde passou a viver de aulas e colaborações em jornais.
Em 1818 foi discípulo de Saint-Simon, de quem seguiu a orientação para o estudo das ciências sociais, mas com o qual se indispôs em 1824.
Em 1826, começou a elaborar as lições do Curso de Filosofia Positiva, Sofrendo, porém, sério esgotamento nervoso, viu-se obrigado a interromper seu trabalho. Já recuperado, publica, de 1830 a 1842, sua primeira grande obra: Curso de Filosofia Positiva, constituída de seis volumes.
F oi mestre repetidor examinador na Escola Politécnica, funções de que foi destituído em 1844 e 1845 respectivamente. Viveu, daí por diante, de aulas particulares – tendo por alunos vários brasileiros – e de contribuições pecuniárias de amigos.
A partir de 1846 toda sua vida e obra passaram a ter um sentido religioso. Desligou-se do magistério, dedicando-se mais às questões espirituais. Deixou de ser católico e fundou a religião da Humanidade. Para propagar sua nova religião, manteve correspondência com monarcas, políticos e intelectuais de toda parte, tentando por em prática suas idéias de reformador social. Emitiu sucessivamente as idéias da “virgem mãe”, a adoração da humanidade, da organização da sociedade pela ciência.
Sociologia que a princípio Comte denominou “Física Social “é um vocábulo criado por ele no seu Curso de Filosofia Positiva. Para Comte, a sociologia procura estudar e compreender a sociedade, para organiza-la e reforma-la depois. Acreditava que os estudos das sociedades deveriam ser feitos com verdadeiro espírito científico e objetividade.
O pensamento de Comte provocou polêmicas no mundo todo e reformulações de teorias até então incontestáveis. Sua influência foi imensa quer como filósofo social, quer como reformador social, principalmente sobre os republicanos brasileiros. Lema da Bandeira Nacional “Ordem e Progresso”, criado por Benjamin Constant, é de inspiração Comtista.
O lema que resume o positivismo:
A Religião da Humanidade, fundada por Augusto Come, sobre a Angélica inspiração de Clotilde de Vaux, pode ser indiferentemente caracterizada como a religião do Amor, a Religião da Ordem ou a Religião do Progresso; O Amor procura a Ordem e leva ao Progresso; A Ordem consolida o Amor e dirige o Progresso; O progresso desenvolve a Ordem e conduz o Amor, donde a sentença característica do Positivismo:
“O Amor por princípio, a Ordem por base e o Progresso por Fim”.
O Brasil foi o país do mundo onde a influência de Augusto Comte se fez mais sentir. Os apóstolos brasileiros que mais trabalharam para o seu desenvolvimento foram:
Miguel Lemos e Raymundo Teixeira Mendes.
Augusto Comte morreu em Paris a 5 de setembro de 1857.

O século XIX é caracterizado por duas correntes filosóficas: o Idealismo na primeira metade e na segunda metade pelo Positivismo.

O Positivismo
A revolução Industrial no séc. XVIII, expressão do poder da burguesia em expansão, demonstrou a eficácia do novo saber inaugurado pela ci6encia moderna no século anterior. Ciência e técnica tornaram-se aliadas, provocando modificações no ambiente humano jamais suspeitadas. De fato, basta lembrar que antes do advento da máquina a vapor, usava-se a energia natural (força humana, das águas, dos ventos., dos animais)e, por mais que houvesse diferenças de técnicas adotadas pelos diversos povos através dos tempos, nunca houve alterações tão cruciais como as que decorreram da Revolução Industrial.
A exaltação diante desse novo saber e novo poder leva à concepção do cientificismo, segundo o qual a ciência é considerada o único conhecimento possível e o método das ciências da natureza o único válido, devendo portanto, ser estendido a todos os campos da indagação e atividade humanas. Neste clima, desenvolve-se no século XIX o pensamento positivista, que tem Augusto Comte como principal representante.

Comte e a lei dos três estados

Para um rápido esboço do pensamento de Comte, vamos utilizar suas próprias palavras “Estudando, assim, o desenvolvimento total da inteligência humana em suas diversas esferas de atividade, desde seu primeiro vôo mais simples até nossos dias, creio ter descoberto uma grande lei fundamental, a que se sujeita por uma necessidade, e que me parece ser solidamente estabelecida, que na base de provas racionais fornecidas pelo conhecimento de nossa organização, quer na base de verificações históricas resultantes do exame atento do passado. Essa lei consiste em que cada uma de nossas concepções principais, cada ramo de nossos conhecimento, passa sucessivamente por três estados históricos diferentes: (…)
“No estado teológico, o espírito humano, dirigido essencialmente suas investigações para a natureza íntima dos seres, as causas primeiras e finais de todos os efeitos que o tocam, numa palavra, para os conhecimentos absolutos, apresenta os fenômenos como produzidos pela ação direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias aparentes do universo”.
“No estado metafísico, que no fundo nada mais é do que simples modificação geral do primeiro, os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, verdadeiras entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo, e concebidas como capazes de engendrar por elas próprias todos os fenômenos observados, cuja explicação consiste, então, em determinar para casa uma entidade correspondente”.
“Enfim, no estado positivo, o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, enuncia a procurar a origem e o destino do universo, a conhecer as causas íntimas dos fenômenos, para preocupar-se unicamente em descobrir, graças ao uso bem combinado do raciocínio e da observação, suas leis efetivas, a saber, suas relações invariáveis de sucessão e de similitude”.
Para comte o estado positivo corresponde a maturidade do espírito humano, o termo positivo designa o real em oposição ao quimérico, a certeza em oposição a indecisão, o preciso em oposição ao vago. É o que se opõe a formas tecnológicas ou metafísicas de explicação do mundo.
Segundo Comte, “todos os bons espíritos repetem, desde Bacon, que somente são reais os conhecimentos que repousam sobre fatos observados”.
A Classificação da ciência e da sociologia

Comte fez uma classificação das ciências: matemática, astronomia, física, química, biologia e sociologia.
O critério da classificação vai de mais simples e abstrata, que é a matemática, até a mais complexa e concreta que é a sociologia. E essa ordem não é apenas lógica, mas cronológica, pois foi nessa seqüência que elas aparecem no tempo.
A sociologia de Comte gira em torno de núcleos constantes, como a propriedade, a família, o trabalho, a pátria, a religião. Exclui a preocupação com uma teoria do Estado e com a economia política.
A filosofia de Comte pode ser considerada como uma reação conservadora à Revolução Francesa (1789), Colocando-se no caminho contra evolucionário, quer participar da reconstrução instituindo a ordem de maneira soberana.
A palavra Ordem significa ao mesmo tempo arranjo e mando. É ele mesmo que afirma:
“Nenhum grande progresso pode efetivamente se realizar se não tende finalmente para a evidente consolidação da ordem”.
Seu conceito da ciência é o de um saber acabado, que se mostra sob a forma de resultados e receitas.
Tendo colocado a ciência positiva como o ápice da vida e do conhecimento humanos Comte prossegue estabelecendo uma série de postulados aos quais a ciência deve se conformar. O principal deles é que a ciência deve assegurar a marcha normal e regular da sociedade industrial. Ora, ao fazer isso, Comte troca a teoria filosófica do conhecimento por uma ideologia.
Com a religião positivista Comte mostra-nos mais uma vez seu lado ambíguo: trata-se de uma racionalização do sagrado ou de uma sacralização do racional.

KARL MARX

Karl Heinrich Marx, economista e filósofo alemão. Nasceu em Tréves a 5 de maio de 1818. Filho de um advogado judeu convertido ao protestantismo. Cursou as universidades de Bonn e Berlim, onde estudou direito, dedicando-se especialmente à história e à filosofia. Em Berlim, ingressou no grupo dos chamados “Jovens Hegelianos”, que interpretavam as idéias de Hegel do ponto de vista revolucionário.
Não se limitou aos estudos teóricos. Desenvolveu intensa atividade política, no decorrer da qual foi elaborando a doutrina do socialismo proletário revolucionário. O caráter de suas idéias e atividades políticas valeu-lhe perseguições ; foi várias vezes exilado, enfrentando ao lado de sua esposa, Jenny Von Westphalen, uma vida de grandes privações. Iniciou a obra de difusão de sua ideologia evolucionária colaborando na Gazeta Renana que, ao ficar sob sua orientação (1842), teve a sua publicação proibida pelo governo. Mudando-se para Paris em 1843, conheceu Friedrich Engels, desde então seu amigo fiel e colaborador. Juntos elaboraram a doutrina do “comunismo científico”. Expulso da capital francesa, Marx passou a residir em Bruxelas, onde entrou para uma sociedade decreta, a liga dos Justos, cujo o nome mudou para a Liga dos Comunistas. Após o 2º congresso desta organização, redigiu o famoso “Manifesto Comunista: publicado em 1848. Nesta obra encontram-se já esboçadas suas principais idéias filosóficas e políticas: o materialismo histórico e a teoria da luta de classes”.
Desterrado da Bélgica depois da revolução de fevereiro de 1848, voltou a residir em Paris, de onde teve que partir após a revolução de março, fixando-se em Colônia, Alemanha, sendo deportado no ano seguinte. Regressou a Paris de onde foi novamente expulso, assando a residir definitivamente em Londres. Atormentado pelas dificuldades financeiras, somente graças à ajuda de Engels pode levar a cabo a elaboração de sua principal obra: “O Capital”. Em prosseguimento a sua luta para estruturar o movimento do proletariado, tomou parte na organização da I Internacional, em Londres (28/09/1864), batendo-se pela união das diversas correntes socialistas. As privações e o intenso trabalho que desenvolveu minaram-lhe a saúde, impedindo-o de concluir O Capital, concluído por Engels.
Várias de suas idéias correram proveitosamente para o aprimoramento das ciências sociais ditas burguesas, atuando de modo positivo sobre a Economia Social, a Sociologia, a História. Mas segundo escreve Ossip K. Flechthem, “com seu determinismo fatalista e mal compreendido transformou-se num tacão opressor de toda ação socialista criadora”.
Vasta é a produção de Karl Marx, quer no campo da ciência histórico-sociais, quer no campo da economia política e da filosofia. Dentre suas principais obas, além das já referidas, merecem destaque:
Manuscritos de 1843, A Questão Judaica, A sagrada Família, com Engels, Teses sobre Feuerbach, ideologia Alemã, com Engels, Miséria da Filosofia, Manifesto do partido Comunista, as lutas de Classe na França, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte.
Morreu em Londres a 14 de março de1883.

O Marxismo
O marxismo são o conjunto de teorias filosóficas, econômicas e políticas de Karl marcx, filósofo social alemão, exposta no livro : O capital”(1867). Concepção materialista da História, o marxismo é o resultado a fusão de várias correntes de pensamento, entre as quais diversos sistemas filosóficos alemães, em especial o de Friedrich Hegel, assim como da economia política inglesa e do socialismo francês. O conteúdo fundamental do marxismo – a doutrina econômica – não pode ser compreendido sem o conhecimento de sua fundamentação filosófica. Adepto do materialismo filosófico, adotou a princípio as concepções de Feuerbach, passando depois a criticá-las por defenderem um materialismo mecanicista que não aplicava o método dialético e concebia o ser humano de modo abstrato, e não como “conjunto das relações sociais”. A crítica que Marx Formulou a essa atitude contemplativa dos filósofos está sintetizada na sua célebre afirmação: “Os filósofos não fizeram senão interpretar o mundo de diversas maneiras: trata-se agora de transforma-lo”.
Atribui o conjunto das condições de produção econômica uma fundamental influência sobre o desenvolvimento das culturas e estabelece a primazia da infra-estrutura social (conjunto das forças produtivas materiais, ou forças econômicas)sobre o que se denominou surperestrutura social (as idéias, ou conjunto dos dados da cultura não material). Prega a revolução do proletariado e sua conseqüente ascensão a uma posição de mando, e a instituição de uma sociedade sem classes.
Considerando a dialética de Hegel como a maior descoberta da filosofia clássica alemã, aplicou-a na sua interpretação materialista da natureza e da história, e nisso se opõe a Hegel, que era idealista. Enquanto para este último o processo do pensamento era o criador do real, para Mar, o pensamento não passava de reflexo do mundo real na consciência do homem. A aplicação do materialismo dialético ao estudo dos fenômenos sociais deu origem à concepção materialista da história.
Assim, segundo a doutrina marxista, não são as idéias (superestrutura) que governam o mundo, mas ao lado contrário é o conjunto das forças produtivas materialistas (infra-estrutura) que determina todas as idéias e tendências.
Ao se aprofundar no estudo da história, Marx elaborou a teoria da luta de classes, pela qual explica a evolução das instituições sociais. “A história de toda a sociedade humana até nossos dias é uma história de lutas de classes. Senhores e escravos, patrícios e plebeus, barões e servos da gleba, mestres e aprendizes: numa palavra, opressores e oprimidos, frente a frente, sempre empenhados em uma luta initerrupta, ora velada, ora ostensiva; em uma luta que conduz em cada etapa à transformação revolucionária de todo o regime social ou ao extermínio de ambas as classes beligerantes”.
Assim como na filosofia e na história, também na economia política Marx não se limitou à elaboração de uma nova teoria, mas fez a crítica de toda a economia política burguesa e de seus métodos. A economia política burguesa procura interpretar os fatos por suas aparências. Preço, lucro e capital, ara o marxismo, não passam de mera dissimulação do valor, da mais-valia e da propriedade capitalista dos meios de produção.
Na produção capitalista, embora cada um pareça produzir o que quer e como pode, existem leis, como a lei do valor, o qual é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário à produção da mercadoria. Assim, o valor resulta diretamente das relações entre as pessoas e não entre as coisas.
Ao formular a teoria da mais-valia, Marx observou que na circulação capitalista o dinheiro aumenta, sendo este acúmulo que se transforma em capital. A mais-valia não é produzida pela troca de mercadorias, mas pela exploração do trabalho, sendo por isso, o produto do trabalho não pago pelo capitalista ao operário. Para obter a mais-valia o “possuidor do dinheiro necessita encontrar no mercado uma mercadoria cujo o próprio valor de uso possua a qualidade original de ser fonte de valor”.Essa mercadoria seria exatamente a força humana de trabalho, comprada pelo capitalista por um valor determinado, do mesmo dono que o que qualquer outra mercadoria, isto é, pelo tempo de trabalho socialmente necessário para sua produção, ou seja, custo da manutenção do operário e sua família.
Ao comprar a força de trabalho o capitalista adquire o direito de obrigá-la a trabalhar durante 8 horas, por exemplo: como, porém, operário cria, em cinco horas, o produto necessário ao custeio de sua manutenção, o que ele produz nas 3 horas restantes constitui excedente, isto é, a mais-valia, do qual se apropria o capitalista.

MAX WEBER

Max Weber nasceu na cidade de Erfurt, na turíngia, a 21 de abril de 1864. A turíngia está hoje sumida no anonimato da República Democrática Alemã, o estado Comunista da Alemanha Oriental. Mas, em 1864, fazia parte dos domínios prussianos, dessa potência que foi a perplexidade e a obsessão de toda a vida de Weber. Seu pai, grande industrial têxtil na Alemanha Ocidental, pertenceu ao partido liberal-conservador; sua mãe era de família de professores liberais e humanistas.
Weber se tornou eminente professor universitário, jornalista influente, historiador, economista, filósofo e, principalmente, sociólogo. Marcou-o o estigma de uma enfermidade psíquica, que constituiu impedimento ao initerrupto exercício do magistério universitário.
Weber estudou direito nas universidades de Heidelberg, Gottingen e Berlim, adquirindo competência profissional em história, economia e filosofia.
Weber morreu em 1930.

A Epistemologia Weberiana
A epistemologia weberiana pode ser compreendida como resultado a articulação de suas premissas com uma afirmação aparentemente antitética. As premissas são:
1. o conhecimneto só é possível a partir de referência a valores e interesses;
2. valores e interesses não podem ser validados ou hierarquizados segundo critérios objetivos. A afirmação é a seguinte: é possível alcançar um conhecimento objetivo, universalmente válido, científico, no sentido mais forte da palavra.
A questão então é entender como é possível para Weber, partindo das duas premissas indicadas, chegar a essa última afirmação. Talvez a melhor estratégia seja considerar, inicialmente, as próprias premissas.
O que est;á sendo chamado aqui de premissas da epistemologia weberiana, são na verdade as duas perspectivas básicas que definem a concepção de Weber no que se refere à relação entre conhecimento , com realidade e valores. Seguindo uma orientação claramente neokantiana, weber assume, de forma radical e com todas as implicações daí decorentes, o postulado da existência de uma separação clara entre os planos do conhecimento e da realidade, cuja transposição é sempre parcial, provisória e, sobretudo, mediada por uma série de categorias e construções conceituais definidas conforme os valores e interesses de quem busca o conhecimento.
A realidade é entendida como algo infinito, que pode ser apreendido a partir de inúmeros ângulos, mas jamais na sua totalidade ou essência.

A concepção de sociologia de Max Weber
As características do paradigma sociológico weberiano só se definem à luz da visão de mundo mais ampla de weber, dentro da qual de articulam uma concepção específica sobre o que é a realidade sócio-histórica e uma reflexão profunda sobre a natureza do empreendimento científico.
Talvez o ponto central da perspectiva weberiana seja o reconhecimento de que a realidade humana não possui um sentido intrínseco e unívoco, dado de modo natural e definitivo, independentemente das ações humanas concretas. Weber pressupõe que a realidade é infinita e sem qualquer sentido cognoscível imanente. Seriam os sujeitos humanos que estabeleceriam recortes na realidade e se posicionariam distante deles conferindo –lhes sentido.
Weber assume essa perspectiva de modo radical. Orientado por ela, procura excluir das Ciências Sociais qualquer proposição que busque definir de modo geral e substantivo qual a lógica da história, qual a dimensão estrutural determinante da sociedade ou qual o sentido último subjacente às ações individuais.
Todas essas definições suporiam a existência de uma realidade atemporal, naturalmente dada, subjacente e determinantes dos fenômenos empíricos. Weber não apenas não acredita na existência desses determinantes a históricos do comportamento humano, como defende que não seria possível defini-los de um modo objetivo, verificável segundo as regras da ciência.
Quando Weber afirma enfaticamente que a Ciência Social que ele pretende praticar é uma “Ciência da realidade”o que ele esta querendo acentuar ;e, em grande medida, esse compromisso com a análise de realidades empíricas concretas, tornadas significativas por agentes historicamente situados.

ÉMILE DURKHEIM

Fatos sociais – externalidade e coercitividade

Os fatos sociais são objeto de estudo da sociologia, segundo Durkheim. Os fenômenos que o autor denomina fatos sociais são: “toda maneira de agir ou pensar fixa ou não, capaz de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior, apresentando uma existência própria independente das manifestações individuais que possa ter.
Dizemos que são externos porque são fatos coletivos, como a religião ou o sistema econômico, por exemplo, independentes dos indivíduos, que já os encontram prontos quando nasce, e que morrerão antes que esses deixem de existir. Ou seja, existem fora dos indivíduos e são internalizados através do processo de socialização.
Essas maneiras de agir e pensar são, além de externas, capazes, pelo seu poder coercivo, de obrigar um indivíduo a adotar um comportamento qualquer. A coerção pode se manifestar direta ou indiretamente.
A coerção pode também ser formal ou informal. É formal, como o próprio nome já diz, quando a obrigação e a punição pela transgressão estão estabelecidas formalmente. O Código Penal, por exemplo, apresenta um grande número coerções formais para diversos atos predefinidos.
É informal quando é exercida espontaneamente pelas pessoas no seu dia a dia.
Finalmente, a coerção pode estar oculta. A pessoa que cumpre de bom grado e com satisfação as suas obrigações sociais não sente o peso da coerção sobre o seu comportamento. Uma pessoa que gosta de sua profissão, por exemplo, geralmente cumpre seus deveres com prazer, sem a necessidade de imposições.
Mas a coerção nunca deixa de existir. Está sempre à espreita.

Fatos sociais: fixos e não fixos

Quando se diz que são fatos sociais fixos ou não fixos significa que podem se apresentar de duas maneiras diferentes: como maneiras de agir ou como maneira de ser.
As maneiras de agir são formas de agir e pensar coletivas, que determinam o comportamento dos indivíduos, que os obrigam de uma determinada forma, mas não tem uma longa duração de tempo, ou seja, são efêmeras e instáveis.
As maneiras de ser também são fenômenos de ordem coletiva que determinam o comportamento indivíduo, mas nesse caso há uma durabilidade no tempo, uma permanência ou estabilidade.
Há uma relação importante entre esses dois fenômenos. Muitas vezes um movimento social se inicia como maneira de agir e pode vir a se fixar e estabelecer (se institucionalizar) e daí se tornar uma maneira de ser.

A dualidade dos fatos morais.

Fatos morais ou sociais são externos em relação aos indivíduos e portanto são estranhos a eles em alguma medida. No mínimo são coisas que não foram criadas pela pessoa e assim pode diferir mais ou menos de seu pensamento. Além disso, esses fatos externos e “estranhos” em a capacidade de exercer coerção, podem se impor aos indivíduos como uma obrigação.
Desse ponto de vista a sociedade, as regras e a moral aparecem como realidade que constrangem o indivíduo, que limitam a sua ação e a possibilidade de realização de suas vontades. Viver em sociedade representaria, assim, um sacrifício ou, no mínimo, um incômodo.
Mas esse é apenas um dos lados dessa questão. Se a sociedade e a moral só tivessem esse lado negativo e coercitivo, seria muito difícil explicar a existência da ordem social.
É sabido que nenhum grupo ou sociedade pode sobreviver por muito tempo com base apenas na coerção. Pessoas muito insatisfeitas são capazes de enfrentar qualquer tipo de perigo para encontrarem uma saída. Basta observar que mesmo nos regimes políticos muito fechados, mantidos pela violência, a residência não deixa de existir e, na maioria das vezes, leva o sistema à ruína.
Os fatos sociais ou morais não são apenas obrigações desagradáveis que temos que seguir independentemente de nossa vontade. São também coisas que queremos e necessitamos. Nesse caso, a coerção deixa de se fazer sentir, se transforma em um dever. Algo que poderia ser visto como um sacrifício passa a ser visto como um prazer.
Isso acontece porque o indivíduo não se realiza fora da sociedade ou do grupo. Só entre outras pessoas, num meio onde exista ordem e um conjunto de instituições morais reguladoras do comportamento coletivo, o indivíduo pode encontrar segurança (tanto física como psicológica) e tranqüilidade para levar a sua vida.
Por isso, ou seja, em retribuição a essa segurança, o indivíduo passa a ver a sociedade não como um conjunto de obrigações estranhas a ele, mas como um conjunto de direitos e deveres que ele precisa e, acima de tudo, quer respeitar.

Coesão, solidariedade e os dois tipos de consciência

A solidariedade social, para Durkheim, é formada pelos laços que ligam os indivíduos, membros de uma sociedade, uns aos outros formando a coesão social.
Há dois tipos deferentes de solidariedade social. Esses tipos tem relação com o espaço ocupado na mentalidade dos membros da sociedade pela consciência coletiva e pela consciência individual.
A consciência coletiva é apresentada pelo conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade que forma um sistema determinado que tem vida própria. São as crenças, os costumes, as idéias que todos que vivem em um mesmo grupo compartilham uns com os outros.
A consciência individual é aquilo que é próprio do indivíduo, que o faz deferente dos demais. São crenças, hábitos, pensamentos, vontades que não são compartilhados pela coletividade, mas que são especificamente individuais.

Solidariedade mecânica ou por semelhanças – A consciência coletiva recobre “espaços” de distintos tamanhos na consciência total das pessoas de acordo com o tipo de sociedade onde elas vivem. Assim, quanto maior for o “espaço” ocupado pela consciência coletiva em relação à consciência total das pessoas em uma sociedade, mais a coerção, nessa mesma sociedade, origina-se da conformidade e da semelhança existentes entre seus membros. Nesse caso, segundo Durkheim, a ordem social se fundamenta na “solidariedade mecânica”.
Isto é, quanto maior a consciência coletiva, mais os indivíduos se parecem uns com os outros e portanto se ligam, se aproximam pelo que tem em comum. Pelo fato de terem os mesmos pensamentos, os mesmos costumes, acreditarem nas mesmas coisas, etc. A coesão, ou a solidariedade, resulta das semelhanças.
Solidariedade orgânica ou por diferenças – Quanto menor for o “espaço” ocupado pela consciência coletiva em relação à consciência total das pessoas em uma sociedade, ou quanto maior for a “área” ocupada pela consciência individual, mais a coesão se fundamenta nas diferenças existentes entre os indivíduos.
Se a consciência individual é maior numa sociedade, os indivíduos são diferentes uns dos outros e a solidariedade só pode surgir da percepção geral de que cada um, com suas especialidades, contribui de uma maneira diferente, e importante, para a sobrevivência de todo, ao mesmo tempo que depende dos demais membros, especialistas em outras funções. É essa rede de funções interdependentes que promove a solidariedade orgânica.

Os indicadores dos tipos de solidariedade – Durkheim não poderia visualizar “a olho nu” qual tipo de solidariedade seria predominante em uma sociedade dada. A solidariedade, como um fenômeno moral, só seria identificada a partir de algum indicador que a fizesse visível.
Os tipos de normas do direito indicam, para Durkheim, o tipo de solidariedade que predomina em uma sociedade.

Direito Repressivo – A preocupação principal desse tipo de direito é punir aquele que não cumpre determinada norma social através da imposição de dor, humilhação ou privação de liberdade. O ponto é que o criminoso agride uma regra social importante para a coletividade e, portanto, merece um castigo de intensidade equivalente a seu erro.

Direito Restitutivo – A preocupação principal nesse tipo de direito é fazer com qe as situações perturbadas sejam restabelecidas e retornem a seu estado original. Ao infrator cabe, simplesmente, reparar o dano causado.
Isso acontece porque o dano causado não afeta a sociedade como um todo , mas apenas uma função específica desempenhada nela. Quanto maior é a participação do direito restitutivo em uma sociedade, menor é a força e a abrangência da consciência coletiva, maior é a diferenciação individual.
Portanto ao identificar o tipo de direito que predomina em uma sociedade, estamos identificando o tipo de solidariedade existente. Se predomina o direito repressivo, uma maior quantidade de normas é mantida pela consciência coletiva (solidariedade mecânica). Se predomina o direito restitutivo uma menor quantidade de normas diz respeito à sociedade como um todo (solidariedade orgânica).

OPINIÃO:

Na minha opinião o pensador que mais contribuiu para a administração foi Max Weber, com sua objetividade e sua ciência da realidade.
Comte dominou e continua a dominar, grandemente a cabeça e as idéias de grande parte do mundo. Embora defendendo a existência uma classe dominante e preparada para governar o proletariado, foi vertiginoso. Suas idéias, porém, não eram a verdade absoluta. Em 1920,as descobertas de Broglie no campo da física quântica, considerando o elétron um sistema ondulatório, permitiram a Heisenberg a formulação do princípio da incerteza. Segundo esse princípio, é impossível determinar simultaneamente e com igual precisão a localização e a velocidade do século XIX. O positivismo de Comte começa a morrer.
Com a queda do muro de Berlim, caiu também todo o império russo e com ele foi junto o sonho de um mundo comunista de Marx. Assim como o positivismo, o marxismo mostrou-se inviável na prática, ficando a mercê da interpretação pelo sujeito do objeto focado.
O positivismo de Comte conseguiu a proeza de influenciar até as ciências que abominava, como o Direito que julga ser desnecessário em seu universo de ordem e progresso.
Penso que o positivismo é uma demasiadamente totalitária, assim como o marxismo eu admitia uma etapa intermediária entre a sociedade atual e o comunismo. Aliás, admitir que este estágio (denominado como socialismo por Marx) seria uma ditadura e que ela acabaria de forma harmoniosa e pacífica é por demais ingênuo para um homem que pregava a revolução constante entre as mudanças históricas. Como tivemos o privilégio de observar, quando os grandes líderes comunistas assumiram o poder, governaram como reais déspotas, matando mais que qualquer guerra Uma vez experimentado o gosto do poder, o homem, em sua pequenez, não cedeu lugar ao ideal que para lá o levou. Isto se fiando que as tomadas pelo poder forma de cunho social verídico.
Fica difícil verificar isso quando se esperava uma evolução do pensamento de Marx sobre a influência do método positivista. Sob este enfoque a revolução não se fazia tão necessária, e o movimento socialista poderia se perder em abstrações. Assim, acabaram por fracassar as várias tentativas de se positivar o marxismo para torna-lo uma ciência nos moldes “normais”unido ao positivismo pela sociologia, que estudaria de forma científica a sociedade. Porém, de forma científica significava isenção e afastamento dos ideais de luta e revolução. Com Lênin e Rosa Luxemburgo voltou aos seus trilhos revolucionários.
Para finalizar, ma observação: os socialistas eram extremamente práticos, buscando sempre formas de execução de seus ideais, enquanto que o positivistas ficavam divagando no mundo do “pode-ser”, do “deve-ser” sem conseguir concretizar seu pensamento.
Émile Durkheim grande pensador explanava a sociologia de maneira diferenciada, atribuindo tipos a condutas e etc.
Enfim Max Weber, contribuiu por demais na Administração, ainda mais quando ele não tentou definir as organizações, nem estabelecer padrões de administração que elas devessem seguir. Seu tipo ideal não era um modelo prescritivo, mas uma abstração descritiva. Weber descreveu as organizações burocráticas como máquinas totalmente impessoais, que funcionam de acordo com regras que ele chamou de racionais – regras que dependem de lógica e não de interesses pessoais.
Segundo Weber existia três tipos de autoridades – a tradicional, a carismática e a legal-racional, e dessa forma contribui demais com as organizações e com a administração de uma forma geral.

BIBLIOGRAFIA

MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito e Hegel. 2a.Ed Lisboa: Editoral Presença, 1983

VICENTE, Gilson (Supervisor). Filosofia- Positivismo em EDIPE – Enciclopédia Didática de Informação e Pesquisa Educacional. V.5, p.1504, 5a.Ed: Livraria e Editora Iracema Ltda, 1989.

FRANCO, Walter Silveira. Filosofia – Materialismo Histórico. Belém: Junho 1995.

COMTE, Auguste. Curso de filosofia positiva, Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973.p.9-11.

ARANHA, Maria Lúcia e MARTINS, Maria Helena. Filosofando – Introdução à Filosofia. São Paulo: Editora Moderna, 1996.

DURKHEIM, Emile. As regras do método sociológico. Ao Paulo, Ed. Nacional, 1990.

ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo. Martins Fontes. 1993.
FREUND, Julien. Sociologia de Max Weber. 4ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1987

Osvaldo 16/11/2014 22:49 0 0

Pr. MARCO ANTONIO DE SOUZA

APOSTILA DE TEOLOGIA SISTEMÁTICA

BELO HORIZONTE – MG
MAIO DE 2011

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.
(2ª Timóteo 3:16-17)

SUMÁRIO PG

1. Introdução ao Estudo Teológico ……………………………………………………………………………………….. 05
1.1 O que é Teologia ………………………………………………………………………………………………….. 06
2. Bibliologia (A Doutrina das Escrituras) ……………………………………………………………………………… 08
2.1 A Necessidade das Escrituras ………………………………………………………………………………… 09
2.2 A Inspiração das Escrituras …………………………………………………………………………………… 09
2.3 A Verificação das Escrituras …………………………………………………………………………………. 10
3.Teologia (A Doutrina de Deus) ………………………………………………………………………………………….. 11
3.1 A Natureza de Deus ………………………………………………………………………………………………… 12
3.2 Os Nomes de Deus …………………………………………………………………………………………………. 13
3.3 Os Decretos de Deus ……………………………………………………………………………………………….. 14
3.4 Os Atributos de Deus ………………………………………………………………………………………………. 15
4. A Doutrina da Trindade …………………………………………………………………………………………………… 17
5. Cristologia (A Doutrina de Cristo) …………………………………………………………………………………….. 19
5.1 A Ira de Deus e a Propiciação do Pecado …………………………………………………………………… 20
5.2 A Identidade, Integridade e Autoridade de Jesus …………………………………………………………. 21
5.3 Jesus Cristo como o Último Adão ……………………………………………………………………………… 22
5.4 A Obra de Cristo …………………………………………………………………………………………………….. 23
6. Antropologia (A Doutrina do Homem) ………………………………………………………………………………. 24
6.1 Tendências teológicas no início deste novo milênio …………………………………………………….. 25
6.2 A Criação do Homem ……………………………………………………………………………………………… 25
6.3 A constituição permanente do ser humano …………………………………………………………………. 26
7. Eclesiologia (A Doutrina da Igreja) …………………………………………………………………………………… 28
7.1 A Natureza da Igreja ……………………………………………………………………………………………….. 29
7.2 A Igreja Local ………………………………………………………………………………………………………… 29
7.3 As Ordenanças da Igreja ………………………………………………………………………………………….. 31
7.3.1 Batismo …………………………………………………………………………………………………………… 31
7.3.2 A Ceia do Senhor …………………………………………………………………………………………….. 31
7.4 A Vocação da Igreja ………………………………………………………………………………………………… 32
8. Angelologia (A Doutrina dos Anjos) …………………………………………………………………………………. 34
8.1 Panorama ……………………………………………………………………………………………………………….. 35
8.2 A Classificação dos Anjos ……………………………………………………………………………………….. 35
8.3 A Queda dos Anjos …………………………………………………………………………………………………. 37
8.4 Batalha Espiritual ……………………………………………………………………………………………………. 38
9. Hamartologia (A Doutrina do Pecado) …………………………………………………………………………….. 40
9.1 O que é o pecado …………………………………………………………………………………………………… 41
9.2 As Conseqüências do Pecado ………………………………………………………………………………….. 43
10.Soteriologista (A Doutrina da Salvação) ……………………………………………………………………………. 45
10.1 A Natureza da Salvação …………………………………………………………………………………………. 46
10.2 Legalismo e Antinomianismo …………………………………………………………………………………. 47
11. A Doutrina da Eleição ……………………………………………………………………………………………………. 48
11.1 Conversão …………………………………………………………………………………………………………….. 49
11.2 Regeneração …………………………………………………………………………………………………………. 51
12. A Doutrina da justificação ……………………………………………………………………………………………… 51
12.1 Santificação ………………………………………………………………………………………………………….. 53
12.2 União com Cristo ………………………………………………………………………………………………….. 54
13. Pneumatologia (A Doutrina do Espírito Santo) …………………………………………………………………. 56
13.1 O Ministério do Espírito Santo no crente ………………………………………………………………….. 60
14. Escatologia (A Doutrina das Últimas coisas) …………………………………………………………………….. 62
14.1 O Aspecto Histórico ………………………………………………………………………………………………. 63
14.2 O Aspecto Moral …………………………………………………………………………………………………… 64

SUMÁRIO PG

14.3 O Aspecto Profético (De um ponto de vista Pré-milenista) …………………………………………. 64
14.3.1 Israel na perspectiva profética ……………………………………………………………………… 65
14.3.2 Cálculo das setenta semanas de Daniel …………………………………………………………. 66
14.3.3 Israel na grande tribulação …………………………………………………………………………… 67
14.3.4 Doutrinas do amilenismo …………………………………………………………………………….. 69
14.3.5 Doutrinas do pós-milenismo ………………………………………………………………………… 71
15. Tanatologia (A Doutrina da morte) ………………………………………………………………………………….. 73
15.1 O Estado atual dos mortos ……………………………………………………………………………………… 74
15.2 A Divisão do hades ……………………………………………………………………………………………….. 75
16. A Redenção da Terra ……………………………………………………………………………………………………… 78
16.1 A Terra será Restaurada …………………………………………………………………………………………. 79
17. Referências Bibliográficas ……………………………………………………………………………………………… 80

1. INTRODUÇÃO AO ESTUDO TEOLÓGICO

1.1 O QUE É TEOLOGIA?
Theos (Deus) e logos (palavra). Significa “um discurso acerca de Deus”.
 É a ciência que trata do nosso conhecimento de Deus e das suas relações para com o ser humano.
 Trata de tudo quanto se relaciona com Deus e com os propósitos para a sua criação (anjos, ser humano e animais).
O PROPÓSITO DA TEOLOGIA
Fazer e entender a fé:
 Codificar e sistematizar o ensino bíblico.
Estender a fé:
 Pregação, ensino e discipulado.
Defender a fé:
 Medindo as doutrinas populares, confrontando a doutrina errada e disseminando a sã doutrina.

TIPOS DE TEOLOGIA
 Teologia Bíblica: Salienta o progresso da Revelação bíblica.
• Divide-se em: Teologia Bíblica do Antigo Testamento
Teologia Bíblica do Novo Testamento
 Teologia Histórica: Traça o desenvolvimento das doutrinas bíblicas desde o fim da era apostólica até o presente.
 Teologia Sistemática: Codifica o conhecimento de Deus para edificar o corpo e combate as heresias.
 Teologia Prática: Aplica as teologias Bíblica, Histórica e Sistemática à santificação do ser humano, ou seja, à vida e ao ministério cristão.
 Teologia Dogmática

BIBLIOLOGIA
Parte da Teologia que estuda as Escrituras.
 Nem tudo na Bíblia é bíblico. Ex: Caim matou Abel; o incesto de Amnon contra Tamar, sua irmã ou Demas abandonou a fé.

O QUE É RELIGIÃO?
Ligare – latim singular ligar. Religar.
É a prática do ser humano para alcançar Deus. Fato universal.

QUAL É A VERDADEIRA RELIGIÃO? PORQUÊ?

QUAL A DIFERENÇA ENTRE REVELAÇÃO, INSPIRAÇÃO E ILUMINAÇÃO?

O QUE É REVELAÇÃO?
É a manifestação que o único Deus verdadeiro faz de si mesmo. O Deus eterno se fez conhecido em Cristo.
Onde? Quando? A quem? Como? Por que veio?
Ele voltará? Porque voltará? Quando? Como? Onde? A quem?

SE DEU ESSA REVELAÇÃO?
Feitos: Deus se manifestou aos homens.
Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos (Sl 119:1).
Escrituras: Registros destes fatos verdadeiros.
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai. (Jo 1:14)

ESCRITURAS: CONTÉM O REGISTRO DESSA REVELAÇÃO
A Bíblia = 66 Livros.
 Antigo Testamento = 39 livros.
Classificação:
Pentateuco (Lei)
Livros Proféticos
Escritos (hagiógrafos)
 Novo Testamento = 27 livros.
Classificação:
Bibliográficos (Evangelhos)
Histórico (Atos)
Epístolas Paulinas
Epístolas Gerais
Escatológico (Apocalipse)
Deus criou Israel para manifestar-se ao mundo e, ao completar a plenitude dos tempos enviou o seu Filho Unigênito a fim de consumar a revelação já começada. (base da Teologia Cristã)

INSPIRAÇÃO: THEOPNEUSTOS SIGNIFICA DIVINAMENTE SOPRADO.
 Natural: grande talento dos homens.
 Mística (iluminativa): originada em homens cheios do Espírito Santo.
 Mecânica: Ditada. Instrumentos passivos na mão de Deus.
 Parcial: Apenas o desconhecido foi inspirado.
 Conceitual: Apenas voltada para as idéias.
 Verbal e plenária: Cada palavra (verbal) foi inspirada por Deus (plena).

ILUMINAÇÃO
Precisamos da iluminação de Deus para entender as Escrituras. A tarefa de interpretar é chamada de Hermenêutica.
Princípios fundamentais da hermenêutica:
 A interpretação histórico-gramatical.
 O contexto restrito e o geral.

A POSSIBILIDADE DE TERMOS UMA TEOLOGIA CRISTÃ.
Deus existe e tem um relacionamento com seu mundo. (Gen 1:1)
O ser humano é feito à imagem de Deus e é capaz de receber a revelação. (Gen 1:26)
Deus tem se revelado (Heb 1:1). Tem se dado a conhecer em Jesus Cristo.

DOUTRINAS: ENSINO OU INSTRUÇÃO
É o ensino das verdades fundamentais da Bíblia sistematizado.
O conhecimento doutrinário é uma parte necessária do equipamento de quem deseja ensinar a Palavra de Deus.

FIM

2. BIBLIOLOGIA
( A DOUTRINA DAS ESCRITURAS)

2.1. A NECESSIDADE DAS ESCRITURAS
A NECESSIDADE DAS ESCRITURAS (2 Tm 3:16-17)
Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra.
UMA REVELAÇÃO DESEJÁVEL
Um Deus sábio tem um propósito para suas criaturas.
Negligenciar esse propósito é loucura e pecado.
MAS COMO VERIFICAR COM CERTEZA O PROPÓSITO DIVINO?
 As verdades que informam o homem a respeito da salvação têm que vir de Deus.
 O homem precisa de uma revelação.
ESSA REVELAÇÃO É DE SE ESPERAR
Revelação é a manifestação que Deus faz de si mesmo e a compreensão, parcial embora, da mesma manifestação por parte dos homens.
Na revelação Deus faz-se conhecido dos homens na sua personalidade e nas suas relações.
Deus quer que o homem O conheça daí a razão D’ele se revelar.
(Sl 19:1-4) Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz. A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o sol,
Se existe um Deus pessoal e perfeitamente bom, é razoável crer que ele conceda às suas criaturas uma revelação pessoal de si mesmo.
(Oséias 6:6) Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.
ESSA REVELAÇÃO DEVERIA ESTAR EM FORMA ESCRITA.
Deus inspirou os seus servos a escrever essas verdades.
Deus, também, preservou os manuscritos das Escrituras e influenciou a sua igreja a incluí-los no cânon.

2.2. A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS
A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS É DIVINA E NÃO APENAS HUMANA
O modernista considera a inspiração das Escrituras Sagradas como apenas um sistema filosófico.
 Essa teoria não combina com o caráter sobrenatural e único da Bíblia.

A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS É ÚNICA E NÃO COMUM
ALGUNS CONFUNDEM A INSPIRAÇÃO COM O CONHECIMENTO.
Às vezes os profetas recebiam mensagens por inspiração, mas não a compreensão dessas verdades. (1 Pe 1:10-12)

A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS É VIVA E NÃO MECÂNICA
A inspiração não era um simples ditado, onde os escritores fossem passivos e as suas faculdades não tomassem parte no registro da mensagem.
 É o entrosamento do Espírito de Deus e o espírito do homem.
 A inspiração é completa e não parcial.

É VERBAL E NÃO APENAS DE CONCEITOS
A ênfase Bíblica não está nos homens inspirados, mas nas palavras inspiradas.

PRECISAMOS FAZER DISTINÇÃO ENTRE REVELAÇÃO E INSPIRAÇÃO.
 Revelação é o ato de Deus pelo qual ele dá a conhecer o que o homem por si mesmo não podia saber.
 Por inspiração queremos dizer que o escritor é preservado de qualquer erro ao escrever essa revelação.
A INSPIRAÇÃO NEM SEMPRE IMPLICA REVELAÇÃO.
 Moisés foi inspirado a registrar eventos que ele mesmo havia presenciado e que dessa maneira eram de seu conhecimento.
PALAVRAS INSPIRADAS E REGISTROS INSPIRADOS.
 A Bíblia registra muitas palavras proferidas por Satanás, e sabemos que o diabo não foi inspirado por Deus ao dizê-las; mas o registro dessas expressões satânicas foi inspirado.

2.3. A VERIFICAÇÃO DAS ESCRITURAS
ELAS REIVINDICAM INSPIRAÇÃO
O Antigo Testamento declara-se escrito sob uma inspiração especial de Deus.
(Js 3:9) Então, disse Josué aos filhos de Israel: Chegai-vos para cá e ouvi as palavras do SENHOR, vosso Deus.
(Is 34:16) Buscai no livro do SENHOR e lede: Nenhuma destas criaturas falhará, nem uma nem outra faltará; porque a boca do SENHOR o ordenou, e o seu Espírito mesmo as ajuntará.
Jesus citou o Antigo Testamento, e viveu em harmonia com os seus ensinos.
A INSPIRAÇÃO DO NOVO TESTAMENTO
1. É garantida pela promessa de Jesus de que o Espírito Santo lembraria aos apóstolos tudo o que ele lhes havia ensinado, e que o mesmo Espírito os guiaria em toda verdade.
2. Pedro coloca as epístolas de Paulo no mesmo nível dos livros do AT, e todos os apóstolos afirmam falar com autoridade divina.
(2 Pe 3:15-16) e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles.
AS ESCRITURAS SE DIZEM INSPIRADAS
Foi escrita por homens cuja honestidade e integridade não podem ser postas em dúvida.
O seu conteúdo é a mais sublime revelação de Deus ao mundo.
1. Sua exatidão: Ausência dos absurdos encontrados em outros livros “sagrados”.
2. Sua unidade: Contendo 66 livros, escritos por uns 40 diferentes autores, num período de mais ou menos 1600 anos e abrangendo uma variedade de tópicos, demonstra uma unidade de tema e propósito que só é explicado como tendo ela uma mente a lhe dirigir.
3. A Bíblia pode ser lida centenas de vezes sem se esgotar o assunto.
4. É o livro mais traduzido e lido no mundo.
5. É um dos livros mais antigos do mundo e também o mais moderno. É pão para a alma. O pão é o alimento mais antigo do mundo e também o mais moderno.
6. Sua preservação apesar da perseguição e a oposição da ciência.
Procuramos evidências externas da exatidão das Escrituras porque é motivo de alegria poder apontar evidências das coisas que cremos no coração, e também porque essas provas servem de veículo para expressarmos nossa fé e convicção íntima.
(1 Pe 3:15) Santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós,
Mas o melhor argumento é o prático. A Bíblia tem influenciado a civilização, transformado vidas, trazido luz, inspiração e conforto a todo o que nela busca auxílio.

FIM

3. TEOLOGIA

(A DOUTRINA DE DEUS)

3.1 A NATUREZA DE DEUS

A EXISTÊNCIA DE DEUS
Deus é Espírito Pessoal, perfeitamente bom, que em santo amor cria, sustenta e dirige tudo.
A natureza de Deus: Ele é Espírito Pessoal.
O caráter de Deus: Ele é perfeitamente bom.
A relação de Deus para com o universo: Cria, sustenta e dirige tudo.
SUA EXISTÊNCIA DECLARADA.
A Bíblia não se preocupa em provar a existência de Deus. Ela reconhece como fato auto-evidente a sua existência, e como crença natural do homem. Declara o fato de Deus e chama o homem a aventurar-se na fé.
A Bíblia não tenta demonstrar a existência de Deus, porque em todas as partes da Bíblia subentende-se a sua existência.
A idéia de que o homem chega ao conhecimento ou à comunhão com Deus mediante seus próprios esforços é totalmente estranha ao AT.
Deus aproxima-se dos homens, estabelece um concerto ou relação especial com eles, e lhes dá mandamentos.
SUA EXISTÊNCIA PROVADA.
Por que demonstrar a existência de Deus?
1. Para convencer os que genuinamente buscam a Deus.
2. Para fortalecer a fé daqueles que já crêem.
3. Para enriquecer nosso conhecimento acerca da natureza de Deus.
Encontramos evidências da existência de Deus na criação, na natureza humana e na história humana.
1) O argumento cosmológico (da criação): O universo deve ter uma primeira causa ou um criador.
2) O argumento teleológico (desígnio ou propósito): O desígnio evidente no universo aponta para uma mente suprema e não para o acaso.
 Suponhamos que o autor dum livro tomou milhares de tipos de imprensa e jogou para o ar. Ao caírem no chão, natural e gradualmente se ajuntaram de maneira a formar a história do livro!
3) O argumento antropológico (da natureza do homem): Não apenas a natureza moral do homem, mas também todos os aspectos da sua natureza testificam a existência de Deus.
 Até as religiões mais degradadas demonstram o fato de que o homem, qual cego, tateando, procura algo que sua alma anela.
4) O argumento histórico: A marcha dos eventos da história universal fornece evidência de um poder e de uma providência dominantes.
 A colonização dos EUA por imigrantes protestantes salvou-os da sorte da América do Sul, e dessa maneira salvou a democracia.
 A guerra dos seis dias entre Israel e os Árabes em 1967, teve a mão de Deus a favor de seu povo.
5) O argumento da crença universal (consenso comum): Como se originou essa crença universal?
 Não se originou pelo raciocínio.
 O sentimento religioso não se encontra nas criaturas inferiores. Mas o mais inferior dos homens pode ser instruído nas coisas de Deus porque falta ao animal a natureza religiosa, ele não foi feito à imagem de Deus.
SUA EXISTÊNCIA NEGADA.
O ateísmo é a negação absoluta de Deus. Visto que são os ateus que se opõem às convicções mais profundas e fundamentais da raça humana, a responsabilidade de provar a não-existência de Deus recai sobre eles.
 Somente Deus, cuja existência o ateu nega, teria a capacidade de provar que Deus não existe.
 Alguém perguntou: “Quem criou Deus?” e recebeu como resposta: “Se houvesse alguém que criasse Deus, esse alguém seria Deus”.

3.2 OS NOMES DE DEUS
OS NOMES DE DEUS NO ANTIGO TESTAMENTO
Abraão, Isaque e Jacó tiveram um conhecimento inferior de Deus porque o conheceram apenas como El-Shaddai (o Todo Poderoso) e não como Jeová (o grande “Eu Sou”). Deus tem muito mais para nos revelar do que apenas sua Onipotência!
ELOHIM
Este é o primeiro nome de Deus encontrado nas Escrituras (Gênesis 1:1), e aqui o nome encontra-se em sua forma plural, mas o verbo continua no singular, indicando a pluralidade das pessoas na unidade do Ser.
EL-SHADAI
Este nome composto é traduzido “Deus o Todo poderoso” (El é Deus e Shadai é Todo poderoso). O título El é Deus no singular, e significa forte ou poderoso. Shadai, sempre traduzido Todo-poderoso, significa suficiente ou rico em recursos. Pensa-se que a palavra é derivada duma outra que significa seios. A palavra seio nas Escrituras simboliza bênção e nutrição.
ADONAI
Este nome de Deus está no plural, denotando assim a pluralidade das pessoas na Divindade. É traduzido como Senhor em nossa Bíblia e denota uma relação de Senhor e escravo.
JEOVÁ (YHWH + Adonai)
Este é o mais famoso dentre os nomes de Deus e é predicado dele como um Ser necessário e auto-existente. O significado é: AQUELE QUE SEMPRE FOI, SEMPRE É E SEMPRE SERÁ. Temos assim traduzido em Apocalipse 1:4: “Daquele que é, e que era, e que há de vir”.
O nome Jeová é muitas vezes usado de modo composto com outros nomes para apresentar o verdadeiro Deus em algum aspecto de Seu caráter, satisfazendo certas necessidades de Seu povo.
JEOVÁ-HOSENU, “Jeová nosso criador”. Salmo 95:6.
JEOVÁ-JIRÉ, “Jeová proverá”. Gênesis 22:14.
JEOVÁ-RAFÁ, “Jeová que te cura”. Êxodo 15:26.
JEOVÁ-NISSI, “Jeová, minha bandeira”. Êxodo 17:15.
JEOVÁ-MIKADDÉS, “Jeová que te santifica”. Levítico 20:8.
JEOVÁ-ELOENU, “Jeová nosso Deus”. Salmo 99:5 e 8.
JEOVÁ-ELOEKA, “Jeová teu Deus”. Êxodo 20:2,5,7.
JEOVÁ-ELOAI, “Jeová meu Deus”. Zacarias 14:5.
JEOVÁ-SHALOM, “Jeová envia paz”. Juízes 6:24.
JEOVÁ-TSEBAOTE, “Jeová das hostes”. 1 Samuel 1:3.
JEOVÁ-ROÍ, “Jeová é meu pastor”. Salmo 23:1.
JEOVÁ-HELEIÓN, “Jeová o altíssimo”. Salmo 7:17; 47:2.
JEOVÁ-TSIDKENU, “Jeová nossa justiça”. Jeremias 23:6.
JEOVÁ-SHAMÁ, “Jeová está lá”. Ezequiel 48:35.
OS NOMES DE DEUS NO NOVO TESTAMENTO
1. TEOS. No Novo Testamento grego este é geralmente o nome de Deus, e corresponde a Eloim no Velho Testamento hebraico. É usado para todas as três pessoas da Trindade, mas especialmente para Deus, o Pai.
2. PATER. Este nome corresponde ao Jeová do V. T., e denota a relação que temos com Deus através de Cristo. É usado para Deus duzentas e sessenta e cinco vezes e é sempre traduzido como Pai.
3. DÉSPOTES. (Déspota no português). Este título denota Deus em Sua soberania absoluta, e é semelhante a Adonai do V. T. Encontramos este nome apenas cinco vezes no N. T., Lucas 2:29; Atos 4:24; 2 Pedro 2:1; Judas 4; Apocalipse 6:10.
4. KÚRIOS. Este nome é encontrado centenas de vezes e traduzido como; Senhor (referendo a Jesus), senhor (referendo ao homem), Mestre (referendo a Jesus), mestre (referendo ao homem) e dono. Em citações do hebraico usa-se muitas vezes em lugar de Jeová. É um título do Senhor Jesus como mestre e dono.
5. CHRISTUS. Esta palavra significa o Ungido e é traduzida Cristo. Deriva-se da palavra “chrio” que significa ungir. É o nome oficial do Messias ou Salvador que era por muito tempo esperado. O N. T. utiliza este nome exclusivamente referindo-se a Jesus de Nazaré.
Destes nomes todos do Ser Supremo, aprendemos que Ele é o Ser eterno, imutável, auto-existente, auto-suficiente, todo-suficiente e é o supremo objeto de temor, confiança, adoração e obediência.

3.3 OS DECRETOS DE DEUS
A Doutrina dos Decretos parte do princípio de que Deus não inventa seus planos ao longo da história. A Doutrina trabalha com uma hipótese, informada pelas Escrituras, de que tudo que Deus fez foi planejado e determinado antes da fundação do mundo.
(I Pe 1.20)“… e sem mancha, o sangue de Cristo, o qual, na verdade, foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos, por amor de vós.
No campo material e físico
 Deus decretou criar o universo e o homem: Sl 33.6-11
 Decretou a distribuição das nações:
(Dt 32.8) Quando o Altíssimo dava às nações a sua herança, quando separava os filhos dos homens, estabeleceu os termos dos povos conforme o número dos filhos de Israel.
 Decretou o comprimento da vida do homem:
(Jo 14.5) Visto que os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; tu lhe puseste limites, e ele não poderá passar além deles.
No campo moral e espiritual
 Permitir o pecado
Deus não induz ninguém ao pecado (Tg 1.13-14), mas, como criador, é o autor das condições que permitiram o surgimento do mal.
 Derrotar o pecado pelo bem
Deus não apenas permitiu o pecado, mas tomou providências para que até isso redunde em glória para o seu Nome.
 Salvar do pecado
Este é o Decreto da Redenção, e tem algumas facetas:
1) A liberdade do homem: O homem foi criado com capacidade de pecar ou não pecar. Mesmo caído, ele continua responsável por suas ações. (Ap 20.12)
2) Graça preveniente: desde o pecado de Adão, notamos Deus tomando a iniciativa redentora, sem a qual o homem jamais seria salvo.
(Tt 2.11) Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens”.
3) Presciência divina: É inegável e está incorporada à sua ação salvadora.
4) Eleição graciosa: Cristo foi eleito Salvador da humanidade, e todos os que o aceitam são beneficiados por sua eleição.
5) Graça especial ou salvadora: É comunicada ao pecador à medida que ele coopera com Deus, através da fé e arrependimento. (At 2.37-38)
6) Galardoar seus servos e castigar os desobedientes: Deus, na sua bondade, salva imerecidamente o pecador e decreta que o tal receberá um galardão segundo o seu serviço regenerado.
No campo social e político
 A família e as formas de governo
Deus decidiu criar o ser humano como um ser social, que haveria de prosperar em um ambiente familiar. (Gn 2.18,24)
Intimamente ligado ao estabelecimento da família, está o Decreto concernente ao governo humano. (Rm 13.1-2)

 A vocação e a missão de Israel
Deus escolheu a Abraão e, através dele, a nação de Israel como fonte de bênçãos para o mundo. “… e em ti serão benditas todas as famílias da terra”. (Gn 12.3b)
O plano de Deus para Israel ainda não se cumpriu, no entanto, Deus tem um grande propósito quanto à sua restauração.
 A fundação e a missão da Igreja
Deus elegeu a Igreja para uma missão e responsabilidade muito grande. À Igreja cabe a responsabilidade de representar a Cristo aqui na terra.
(Ef 3.10-11) para que agora seja manifestada, por meio da igreja, aos principados e potestades nas regiões celestes, segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor.
 O triunfo final de Deus
No Apocalipse encontramos a profecia do triunfo final de Deus sobre todos os seus inimigos. O Paraíso, que foi destruído em Gênesis, será restaurado e Deus enxugará todas as lágrimas.
Ap 11.15-17 E o sétimo anjo tocou a sua trombeta, e houve no céu grandes vozes, que diziam: Os reinos do mundo vieram a ser de nosso SENHOR e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre. E os vinte e quatro anciãos, que estão assentados em seus tronos diante de Deus, prostraram-se sobre seus rostos e adoraram a Deus, Dizendo: Graças te damos, Senhor Deus Todo-Poderoso, que és, e que eras, e que hás de vir, que tomaste o teu grande poder, e reinaste.

3.4 OS ATRIBUTOS DE DEUS

A ESSÊNCIA E ATRIBUTOS DE DEUS
Algumas características de Deus são absolutas, e fazem parte da essência de Deus. São os atributos absolutos ou imanentes.
Outras características são vistas como uma manifestação de Deus em relação à sua criação e são chamadas de atributos relativos ou transitivos.
ATRIBUTOS ABSOLUTOS OU IMANENTES
Espiritualidade:
Deus não tem uma forma corpórea como o homem.
Sua incorporeidade explica sua proibição de qualquer tentativa de representá-lo fisicamente
(Dt 4:15-18). A desobediência a essa proibição faz parte da justificação de ira de Deus sobre os homens:
“Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis.” (Rm 1.22-23)
Vida: Deus não somente é Espírito, mas tem vida própria, em contraste com os deuses das nações. Nós devemos ser testemunhas de que o nosso Deus é um Deus vivo.
Personalidade: Deus também é autoconsciente e tem personalidade: Intelecto, Volição e Sentimento.
Infinitude: (Transcendência)
 Deus é Transcendente, ou seja, não está sujeito a nenhum limite ou restrição.
 Deus é auto-suficiente e não precisa de nada nem de ninguém para o completar.
 Que fique bem claro que Deus não criou o homem por causa de um sentimento de solidão.
Auto-existência:
Deus é a causa de sua própria existência, e de todas as coisas.
“Eu sou o Senhor que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus, e espraiei a terra; que desfaço os sinais dos profetas falsos, e torno loucos os adivinhos, que faço voltar para trás os sábios, e converto em loucura a sua ciência.” (Is 44.24-25)

Imutabilidade:
Não fala de decisões ou estratégias, mas que a natureza de Deus não muda:
Porque eu, o Senhor não mudo; por isso, vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos. (Ml 3.6; Tg 1.17)
Unidade: A natureza divina não se divide.
Perfeição: Estes são atributos morais, coerentes com a sua personalidade: intelecto, volição e sentimento.
Verdade: Deus é a personificação da verdade e é o verdadeiro Deus (I Jo 5.20).
Amor: O amor de Deus acha sua razão de ser na própria natureza de Deus. Não no objeto de seu amor.
 O amor de Deus é preexistente à fundação do mundo. (Jo 17.24)
 O amor de Deus implica a possibilidade de Deus sofrer.
Santidade: A santidade de Deus implica na sua pureza, e é motivada contra toda impureza. (II Co 7.1)
A essência de Deus é a fonte da manifestação de todos os demais atributos, presenciados através da criação. Passaremos agora a estudá-los:
ATRIBUTOS RELATIVOS OU TRANSITIVOS
Eternidade: Deus não está sujeito ao tempo.
Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus. (Sl 90.2)
Imensidão: A natureza de Deus não é sujeita à lei do espaço. Deus não está no espaço, mas o espaço está em Deus que o criou. (I Rs 8.27)
Onipresença: Deus está igual e pessoalmente presente em todos os lugares ao mesmo tempo. (Ubiqüidade)
Onisciência: Deus tem conhecimento completo de tudo: no passado, no presente e no futuro.
 Ele conhece o autor, o participante, o beneficiado e a vítima de todas as ações no seu reino.
 Ele nunca pode ser enganado, surpreendido ou confundido.
 Quando perdoa nossos pecados, Ele decide não se lembrar deles.
Onipotência: Deus tem todo o poder e pode fazer tudo o que desejar, mas, também tem o poder de deixar de fazer.
Veracidade e fidelidade: Deus é transparente em seu trato conosco. Nunca irá nos enganar com falsas promessas de benção e maldição.
Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo. (II Tm 2.13)
Misericórdia e bondade: É a maneira graciosa com que Deus lida com suas criaturas. Misericórdia é não recebermos o que merecemos pelos nossos pecados.
Justiça e retidão: significa que o ser humano nunca receberá um mau tratamento da parte de Deus.

4. A DOUTRINA DA TRINDADE
UNICIDADE: Estado ou qualidade de ser único.
Em todo o Antigo Testamento a ênfase da auto-revelação divina está na unicidade e não na unidade.
O Deus único: EKAHAD = 2 significados: um, único (Trindade)
Ouve, ó Israel; o Senhor nosso Deus é o único Senhor. (Dt 6.4)

Unidade: A doutrina da unidade de Deus surgiu como reflexo da aceitação da doutrina da Trindade.
 A Unidade de Deus é a revelação da trindade no NT e que de uma busca no AT mostra que este Deus único existe eternamente em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.
 Um Deus eternamente coexistente em três pessoas distintas, que não se confundem, nem se misturam.
 A humanidade é composta de macho e fêmea, a divindade é Pai, Filho e Espírito Santo. Não existem duas raças humanas, nem três deuses.
A DOUTRINA DA TRINDADE
Definição: A Trindade é composta de três pessoas unidas, sem existência separada, e indivisivelmente ligadas para formar um Deus. A natureza divina subsiste em três distinções: Pai, Filho e Espírito Santo.
A palavra Trindade não aparece na Bíblia. Esta doutrina foi formulada por Tertuliano, Atanásio e Agostinho.
A Doutrina da Trindade afirma três verdades:
 Há apenas um único Deus.
 O Pai, o Filho e o Espírito Santo são individualmente Deus.
 O Pai, o Filho e o Espírito Santo são, cada um, pessoas distintas.
UMA REVELAÇÃO DE DEUS
A doutrina representa a conclusão lógica da revelação bíblica acerca de Deus.
É exemplo da revelação progressiva de Deus. Deus Único, Deus Trino, depois Deus Triúnico.
Sinais de pluralidade nos nomes e atividades de Deus (Elohim).
OUTROS SINAIS DE PLURALIDADE
 O louvor dos Serafins em Is 6.3. “… Santo, santo , santo é o Senhor …”
 A benção Aarônica de Nm 6.24-26. “…O Senhor te abençoe …o Senhor faça ..o Senhor sobre ti levante o rosto e te dê a paz.”
REFERÊNCIAS AO ANJO DO SENHOR
Parece que o Anjo do Senhor é uma manifestação pré-encarnada de Deus o Filho. (Gn 22.15-18)
Sinais de igualdade entre Jesus e o Pai.
No Novo Testamento, o Pai, a quem Jesus se refere é Jeová.
 “Eu e o Pai somos um.” (Jo 10.30)
 Também: Jo 17.22; Hb 13.8 (imutabilidade); Ap 1.8 (onipotência).
 Além disso, Jesus exerce as prerrogativas de Deus, como perdoar pecados. (Mt 9.2)
SINAIS DE IGUALDADE ENTRE JESUS E O ESPÍRITO SANTO
Jesus garante aos discípulos que enviaria um outro “Consolador”. O termo sugere um “outro” do mesmo tipo e qualidade. (Jo 14.16-17)

SINAIS DE IGUALDADE ENTRE PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO
A presença dos Três no batismo de Jesus por João é notória. Também a associação dos três na obra redentora. (I Co 12.4-6)

EVIDÊNCIAS DA DEIDADE DE CADA MEMBRO DA TRINDADE
O Pai é reconhecido como Deus:
“a todos os amados de Deus, que estais em Roma, chamados para serdes santos, graça a vós, e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”. (Rm 1.7)

O Filho é reconhecido como Deus:
“Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, o qual será chamado Emanuel, que quer dizer: Deus conosco”. (Mt 1.23)
Jesus foi identificado com o Senhor (Jeová) do AT pelo apóstolo Paulo.

O Espírito Santo é reconhecido como Deus:
“Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e retivesses parte do preço do terreno? Enquanto o possuías, não era teu? E vendido, não estava o preço em teu poder? Como, pois, formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus. (At 5.3-4)

TEORIAS REPROVADAS
Triteísmo: João Ascunages e João philoponus
Ensinavam que há três Deuses em vez de três pessoas na Trindade.
Sabelianismo ou Modalismo (Séc. II):
Sabelius ensinava que o Pai, o Filho e o Espírito Santo eram manifestações de um só Deus. Os modos como Deus se manifestou seriam como três uniformes com que o único Deus se vestia.
 Exemplos de modalistas (também chamados de Unicistas) de hoje: Voz da Verdade, Árvore da Vida.
Arianismo: Ário seguiu um erro de Orígenes, que subordinava o Filho ao Pai, em relação à essência, fazendo-o inferior ao Pai.
 O Arianismo negou a deidade de Jesus Cristo. Ário ensinava que apenas o Pai não era criado.
 Exemplo de arianos hoje: Testemunhas de Jeová

FIM

3. CRISTOLOGIA

(A DOUTRINA DE CRISTO)

3.1 A IRA DE DEUS E A PROPICIAÇÃO DO PECADO

INTRODUÇÃO
Precisamos entender que o homem é antes um criminoso que uma vítima e é tratado assim por Deus. Como seres humanos, somos responsáveis e responsabilizados pelo grande estrago que fizemos na criação de Deus. Como inimigos de Deus, é inútil falar de salvação antes que tratemos da violenta ruptura que houve em nosso relacionamento com Deus.

DEUS NÃO IGNORA O PECADO
Esta verdade precisa ser proclamada neste início de milênio. Há três sentidos em que podemos afirmar que Deus não ignora o pecado:
1) Deus não ignora o pecado no sentido de estar alheio à sua existência. Ninguém consegue esconder seu pecado de Deus.
O pecado de Acã. (Js 7.11)

2) Deus não ignora o pecado no sentido de passar vista grossa diante da sua presença;
No momento da rebelião, Lúcifer foi expulso do céu. Talvez Satanás tenha pensado que seria diferente com o casal criado a imagem e semelhança de Deus. Que Deus daria um jeitinho para eles, e usar isso como arma para barganhar com Deus. Para sua surpresa, quando Adão e Eva pecaram, foram sumariamente expulsos do Paraíso. Quando Jesus carregou nossos pecados, Deus virou as costas para Ele. (Mat 27.46)
Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar. (Hab 1.13)
3) Deus não ignora o pecado no sentido de permitir que continue sem resolução.
Ele mesmo toma as providências para expurgar o pecado da sua criação. (I Jo 3.4-8)

O PECADO SUSCITA A IRA DE DEUS
O maior problema do pecador não é o seu pecado, mas sim o fato de estar sob a ira de Deus.
 Depois de uma grande ênfase sobre a ira de Deus no século passado, hoje damos ênfase quase que exclusiva sobre o amor de Deus.
 O homem moderno tem dificuldade em entender o porquê da morte de Jesus, e sua absoluta necessidade de aceitá-lo como salvador. Ele imagina que de alguma forma, Deus vai dar um jeitinho para ele. A Palavra de Deus diz:
A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; (Rom 1.18). Também Num 1.2-3.
A nossa dificuldade com a ira de Deus é que transferimos para ela todas as características da ira humana. Existem diferenças entre a ira de Deus e a ira do Homem.

As características da Ira de Deus
 A Ira de Deus é sempre judicial, isto é, a ira do Juiz aplicando a justiça. Paulo diz que o dia da Ira é também o dia da “revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo o seu procedimento” (Rom 2.5-6).
 A Ira de Deus na Bíblia é alguma coisa que os homens escolhem por si mesmo. É uma escolha pessoal, pois Deus nos deu liberdade para escolher.
Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. (Jo 3.18-19)

A Ira de Deus nem sempre se manifesta em castigo direto. Ao contrário, pode se manifestar através do abandono.
Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém! (Rm 1.24).
A história bíblica está cheia de exemplos do juízo de Deus que ignoramos para nosso próprio risco.
A propiciação aplaca a Ira de Deus
Enquanto a expiação trata de cobrir ou compensar o pecado ou a ofensa, a propiciação acrescenta a esta idéia o reparo do relacionamento de intimidade entre o homem e um Deus irado.
Imagine que seu amigo furta a sua carteira e depois de ter gastado todo o seu dinheiro fica arrependido, e decide devolver a carteira repondo o dinheiro roubado. Como é que fica o seu relacionamento? Ele fez expiação pelo pecado. Ele pergunta “Tudo bem?” e você diz “Não! Não está tudo bem!” Porque não? Porque ainda não foi reparado o seu relacionamento. Expiação é fazer uma restituição que paga o preço do pecado. Propiciação é reparar o relacionamento transtornado.

As Boas Novas do Evangelho são que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação”. (II Co 5:19) Deus fez de Cristo a propiciação para nossos pecados. (Rm 3:25)

A bondade e a severidade de Deus
Exemplos da bondade e da severidade de Deus aparecem através da Bíblia inteira. Deus julga Adão e Eva no jardim do Éden, mas veste sua nudez com pele de animais.

Jesus desviou a ira de Deus de nós, tomando-a sobre si e nos reconciliou com Deus. O restabelecimento de amizade entre o homem e Deus é o vínculo da salvação em nossas vidas. Qualquer idéia que limita o sacrifício de Cristo a apenas o pagamento dos nossos pecados é muito superficial.

3.2 A IDENTIDADE, INTEGRIDADE E A AUTORIDADE DE JESUS

A DUPLA IDENTIDADE DE JESUS CRISTO
A encarnação é um dos grandes mistérios da teologia. A Bíblia ensina que Jesus tem duas naturezas: uma humana e outra divina.

A EXISTÊNCIA DE DUAS NATUREZAS
1. Jesus exercia prerrogativas divinas, como perdoar pecados
E os escribas e fariseus arrazoavam, dizendo: Quem é este que diz blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão Deus? (Lc 5:21)
2. A qualidade da vida de Jesus
Nunca tendo pecado, foi preciso que seus inimigos mentissem para conseguir sua condenação.
3. Os sinais que ele operou
Fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. (Jo 20:30-31)
4. O seu testemunho pessoal: Ele reivindicou deidade
Eu e o Pai somos um. Novamente, pegaram os judeus em pedras para lhe atirar. Disse-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas da parte do Pai; por qual delas me apedrejais? Responderam-lhe os judeus: Não é por obra boa que te apedrejamos, e sim por causa da blasfêmia, pois, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo. (Jo 10:30-33)
5. O testemunho dos seus inimigos: Os judeus queriam matá-lo porque Ele afirmava ser Deus.
6. O testemunho dos apóstolos: “E o Verbo se fez carne…”
7. O testemunho da história: Nunca em toda história houve alguém igual a Jesus. (Jo 7:46)
3.4 A EXIGÊNCIA DE DUAS NATUREZAS
Sua humanidade é a garantia de legítima representatividade.
Sua Deidade é uma garantia de eterna confiabilidade.
– Pela encarnação Deus se revela aos homens.

A INTEGRIDADE DAS DUAS NATUREZAS DE CRISTO
Não podemos dividir Jesus em dois, um humano e um divino.
Ser Teantrópico: Jesus é permanentemente divino e permanentemente humano (união perpétua).
A CONVIVÊNCIA DAS DUAS NATUREZAS
A teoria aprovada de convivência diz que quando o Verbo se fez carne as naturezas divina e humana foram unidas, verdadeiramente, perfeitamente, eram indivisíveis e livres de mistura.
3.5 A AUTORIDADE DE JESUS
a) O profeta prometido
O SENHOR, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás. (Dt 18.15)
b) O Sumo Sacerdote prometido
O SENHOR jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque. (Sl 110.4)

c) O Rei prometido
Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião. Proclamarei o decreto do SENHOR: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei. (Sl 2.6-7)

A partir da sua 2ª vinda, Jesus regerá o mundo plenamente.
d) A Superioridade de Cristo
Enfatizamos a superioridade de Jesus sobre todas as demais autoridades, quer celestiais, infernais ou terrestres.
Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, (Fp 2.9)

3.6 JESUS CRISTO COMO O ÚLTIMO ADÃO
COMPARAÇÃO ENTRE O PRIMEIRO E O ÚLTIMO ADÃO
Em 1ª Co 15:45-47, o primeiro Adão é (prw/toj), ou seja, não há ninguém antes dele. Jesus é (e;scatoj), não há ninguém depois dele. No versículo 47 ele é (deu,teroj), ou seja, não há sequer um igual entre ele e Adão. Começaremos com as semelhanças entre os dois e depois falaremos das diferenças.

Semelhantes na sua identidade: Os dois foram criados à imagem de Deus.
 E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. (Gn 1:27)
 O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; (Cl 1:15)

Semelhantes na sua humanidade: Tiveram uma natureza tríplice; Espírito, alma e corpo.
Estes versículos desmentem a hipótese docetista de que o corpo físico de Jesus era apenas uma aparição. Negavam a humanidade de Jesus.

Semelhantes na sua representatividade: Por escolha de Deus, Adão e Jesus foram comissionados como cabeças da raça humana.
 Na desobediência, Adão representou toda a humanidade.
 Na sua obediência, Jesus representou toda a nova humanidade que segue seus passos. (Rm 5:15-17)

Somos justificados dos nossos pecados uma vez que rompemos com a nossa solidariedade com Adão em favor de uma nova solidariedade com Jesus.

Semelhantes na sua vulnerabilidade: Depois do pecado de Adão a natureza humana ficou caracterizada por fragilidade. Mas será que Jesus foi igualmente vulnerável?
Se Jesus foi imune à dor, ao desânimo, à dúvida, ele não venceu o mundo, e não pode salvar.
Semelhantes na sua santidade

CONTRASTES ENTRE O PRIMEIRO E O ÚLTIMO ADÃO
Diferentes na sua habitação.
Diferentes na sua tentação.
Adão tinha que resistir a apenas uma tentação para garantir sua santidade.
Jesus teve que viver 30 anos de provação antes mesmo de se manifestar com o Messias. Nestes 30 anos ele nunca cedeu à tentação.
Antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. (Hb 4:15b)

Diferentes na sua submissão.
De Adão Deus cobrou uma submissão à vida. (Gn 2:16-17)
Enquanto que Jesus foi chamado à uma submissão até a morte. (Fl 2:7-8)

Diferentes na sua punição
Adão foi punido por seu próprio pecado, enquanto quer Jesus foi punido por nossos pecados.
Diferentes na sua qualificação
Um relacionamento com Adão gera morte, mas um relacionamento com Jesus significa vida.

3.7 A OBRA DE CRISTO

CONCEITOS GERAIS DA OBRA DE CRISTO
Essencialmente a obra de Cristo é de nos reconciliar com Deus.
Seis aspectos da obra de cristo
Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória.

I. Sua paixão e morte é pré-ordenada e necessária
 A morte de Jesus não foi um acidente, nem uma tragédia, mas uma estratégia divina. (Jo 12.27)
II. Sua morte é apresentada em termos sacrificiais
 O simbolismo da Páscoa
 O simbolismo do pacto
 O simbolismo do véu rasgado.
III. Sua morte é entendida em sentido vicário
 Sua identificação com os pecadores.
 Sua substituição do pecador.
 Sua punição como pecador.
IV. Sua morte é redentora
 Redenção no AT: Tem a ver com a libertação de prisioneiros de guerra ou escravos e escapar da morte mediante o pagamento de resgate.
 Redenção no NT: Ele pagou o preço da nossa libertação.
V. Sua morte é um triunfo sobre o diabo e os poderes maléficos: Sofrimento vitorioso, a Ressurreição.
VI. Sua morte é universal
Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (Jo 3.16)

FIM

4. ANTROPOLOGIA
(A DOUTRINA DO HOMEM)

TENDÊNCIAS TEOLÓGICAS NO INÍCIO DESTE NOVO MILÊNIO
Antigamente o homem existia para a glória de Deus; agora Deus existe para glorificar o homem.
 Hoje as pessoas vão à igreja para resolver suas próprias necessidades, em vez de servir a Deus. (Narcisismo)
 Em vez de um relacionamento de amor e benevolência com o Criador, um relacionamento adverso, em que o homem precisa empurrar e esmurrar a Deus até que Ele solte o que é seu!
 Os defensores dessa doutrina são síndicos do povo de Deus, e não embaixadores do Reino.

A CRIAÇÃO DO HOMEM
1. Uma afirmação bíblica
 O ser humano é uma criação imediata de Deus. Deus o criou “ex nihilo” (do nada).

Criado à imagem de Deus (Gn 1:26-27)
Não é uma semelhança física, pois Deus é espírito.
Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade. (Jo 4:24)
Diferenças de natureza separam o homem de Deus:
 Deus existe eternamente; o homem é temporal;
 Deus tem existência independente; o homem existência dependente;
 Deus é o criador; o homem, o ser criado.
Atribuir uma semelhança física à imagem de Deus no homem é loucura.

Semelhança Mental:
O homem pode se comunicar com Deus.

Semelhança Moral:
A semelhança compartilhada entre Deus e o homem, foi também de ordem moral. Mesmo pecador, o Senhor trata o ser humano como ser moral e ético.

Semelhança Social:
Foi também uma semelhança social. Tal como Deus, o homem seria um ser que se conheceria e se definiria em comunidade. A Doutrina da Trindade explica a origem da sua sociabilidade. Sua criação foi um projeto de grupo.

Essa imagem é distribuída entre o homem e a mulher. Os dois em conjunto formam a imagem de Deus. Essa imagem é recuperada através da redenção em Jesus Cristo.

2. Unidade e constituição permanente do homem
O homem é um ser complexo
As Escrituras ensinam que não houve outra fonte para a raça humana a não ser Deus como Criador imediato, e Adão como criador intermediário, mediante seus descendentes.
Estudaremos a unidade do homem a partir de cinco pontos de vista: Histórico, Filosófico, Filológico (linguagem), Psicológico e Teológico.

1. O argumento Histórico
As mais recentes descobertas arqueológicas demonstram que toda a humanidade teve sua origem na Ásia Central.
 Esse lugar, como berço da civilização, é assunto de muitas reportagens em nossos dias.
As várias tradições de um dilúvio catastrófico também unem os povos na sua história.

2. O argumento fisiológico (estudo das funções orgânicas)
Não há razões para duvidar da origem monogenista da raça humana.
 Somente há uma raça humana.
• A temperatura do nosso corpo é a mesma em qualquer lugar do mundo.
• A freqüência média da pulsação cardíaca é a mesma.
• Há suscetibilidade às mesmas moléstias.
“Sou daqueles que acreditam que no momento não há qualquer evidência que diga que a humanidade brotou originalmente do que um único casal; devo dizer que não consigo ver uma razão qualquer, ou qualquer evidência convincente, para crer que haja mais do que uma espécie do ser humano”. (Charles Darwin)

3. O argumento filológico (estudo da linguagem)
A escrita tem uma origem comum, e também as línguas em evidência são poucos os seus troncos ou línguas principais, de onde derivaram tantas outras.

4. O argumento Psicológico
Mesmo que haja diferenças entre as culturas, há, entretanto, muita coisa em comum nos costumes dos povos.
 Há uma lei moral escrita no coração de cada homem que o incomoda diante de certos fatos, mesmo que a sociedade em que vive os aceite.
 Esteja onde estiver, viva a cultura que viver, seja na época que for, o homem tem uma noção de certo e errado, de bem ou mal que é comum a qualquer ser humano.

5. O argumento Teológico
Para o cristão, o mais importante argumento a favor da raça humana precisa ser o argumento teológico.
 A criação e a descendência comum dos seres humanos é pedra fundamental da redenção.
 O assassinato de Abel por Caim trouxe algumas dúvidas para a humanidade quanto ao relato bíblico dos inícios.
Então, disse Caim ao SENHOR: É tamanho o meu castigo, que já não posso suportá-lo. Eis que hoje me lanças da face da terra, e da tua presença hei de esconder-me; serei fugitivo e errante pela terra; quem comigo se encontrar me matará. O SENHOR, porém, lhe disse: Assim, qualquer que matar a Caim será vingado sete vezes. E pôs o SENHOR um sinal em Caim para que o não ferisse de morte quem quer que o encontrasse. Retirou-se Caim da presença do SENHOR e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden. E coabitou Caim com sua mulher; ela concebeu e deu à luz a Enoque. Caim edificou uma cidade e lhe chamou Enoque, o nome de seu filho. (Gn 4:13-17)

 Lidamos sempre com a pergunta: “De onde veio essa esposa para Caim?” – Era uma descendente, assim como ele, do mesmo casal.
 Nos primeiros onze capítulos de Gênesis temos um relato de dois mil anos de história.
 Romanos 5:12-21, relembra todo o drama da introdução do pecado por um homem, enquanto a justiça também entrou por um só: Jesus Cristo.
 Adão e Cristo são comparados: um homem; um Homem. Uma ofensa; uma justiça.

A CONSTITUIÇÃO PERMANENTE DO SER HUMANO
Dentro da constituição do homem, lidamos com duas teorias: a dicotomia e a tricotomia.

A teoria dicotomista
Ensina que o homem é feito de duas partes: corpo e alma.
 Para os dicotomistas, alma e espírito são a mesma coisa.
 Essa teoria sugere que temos a parte material e a parte imaterial.
 As duas correntes estão de acordo quanto à origem da imaterialidade do homem, com base em Gn 2:7: “Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente”.
 Esta teoria predomina no Antigo Testamento.

A teoria tricotomista
O tricotomista divide a parte imaterial em duas: alma e espírito.
Há versículos importantes no Novo Testamento que parecem defender essa posição.
O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. (Its 5:23)
Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. (Hb 4:12)

De acordo com essa teoria, as partes que compõem o ser humano são:

CORPO ALMA ESPÍRITO
Composição material Mente Consciência
Templo do Espírito Vontade Intuição
Emoções

FIM

5. ECLESIOLOGIA
(A DOUTRINA DA IGREJA)

5.1 A NATUREZA DA IGREJA

A IGREJA COMO ORGANIZAÇÃO E COMO ORGANISMO
A Igreja como organização é talvez o primeiro contato que alguém tenha da Eclesiologia.
Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro: (Ap 2:1)
A segunda perspectiva da Eclesiologia é da igreja como organismo, que aparece em vários trechos das Escrituras.
E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, (Ef 1:22)
DIFERENÇAS ENTRE A IGREJA COMO ORGANIZAÇÃO E ORGANISMO
 Como organização a igreja é visível:
Seu patrimônio físico: Construções, móveis, instrumentos, etc.
Seus símbolos: Bandeira, brasão, etc.
Patrimônio não-físico: Herança doutrinária e cultural.
Estatutos e regimentos internos.
Seus membros e congregados.
 Como organismo a igreja é invisível:
Como organismo a Igreja é a união mística de todos aqueles que são salvos em Jesus Cristo.
Como organização a igreja é local e humana. Como organismo é universal e divina.
Como organização a igreja é uma criação humana.
Como organismo ele é uma criação de Deus e todos os membros têm as características filiais.
 Como organização é temporária. Como organismo é perpétua.
A igreja como organização é o andaime que precisamos para levantar a estrutura da igreja como organismo. Quando a construção estiver pronta o andaime será desmanchado.
 Como organização é imperfeita, mas como organismo é perfeita.
 A perfeição da igreja como organismo não significa que ela já alcançou a maturidade, mas que está a caminho.
E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor. (Ef 4:11-16)

5.2 A IGREJA LOCAL

SUA ORGANIZAÇÃO
O nosso assunto é a estrutura da igreja, e abrange estruturas de governo e ministérios de liderança.
TIPOS DE LIDERANÇA NA IGREJA
A questão está ligada aos dons que Cristo deu à Igreja, conforme mencionados em Efésios 4:1:
E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres.
Segundo este versículo, são cinco os ministérios que Cristo deu à Igreja:
1. Apostólico 3. Evangelístico 5. Didático 2. Profético 4. Pastoral
Devemos ter sempre em mente que quando Jesus concedeu alguns para serem apóstolos, ele estava distribuindo ministérios, não cargos.
O MINISTÉRIO DE APÓSTOLO: Na Bíblia temos três tipos de apóstolos.
1. O 1º tipo é composto dos 12 discípulos escolhidos por Cristo
2. O 2º trata-se de outras pessoas reconhecidas como apóstolos pela igreja. Matias, Paulo, Barnabé e possivelmente Andrônico e Júnias (Rm 16:7).
3. São os falsos apóstolos.
Outros ministérios: Diáconos, presbíteros e bispos.
DIÁCONOS E DIACONISAS
Os 1º diáconos aparecem em Atos 6 como solução para um problema social na igreja.
 O diaconato é um ministério de apoio àqueles que trabalham no ministério da Palavra e da oração.
Os diáconos precisam ser:
 De boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, submissos à autoridade superior na igreja. (At 6)
 Respeitáveis, de uma só palavra, não inclinados ao vinho, não cobiçosos e de sórdida ganância, conservadores do mistério da fé, consciência limpa, primeiramente experimentados, marido de uma só mulher e que governe bem a sua casa.
Suas esposas ou diaconisas: respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo.
QUALIFICAÇÕES DE BISPO, PRESBÍTERO E PASTOR
 Parece que exercem o mesmo ministério.
 Suas qualificações: Itm 3:1-7.
MODELOS DE ESTRUTURAS ADMINISTRATIVAS
1. Episcopal (governado por bispos)
2. Presbiteriana (governada por presbíteros e o presbitério)
3. Congregacional (governada pela assembléia da igreja)
Não importa o sistema de administração eclesiástica, para serem cristãos os líderes devem estar nas suas posições. O líder cristão não vem para ser servido, mas para servir e dar sua vida pelo rebanho.

Evidências do relacionamento fraternal entre as igrejas do NT.
• Intercâmbio de epístolas.
• Intercâmbio de pessoas.
• Intercâmbio de recursos.
• Intercâmbio de Bênçãos Espirituais.
• Intercâmbio de Problemas e sabedoria.
• Investimento mútuo na obra missionária.
Evidências de rivalidade e partidarismo
1. Os judaizantes (At 15:1). Forçar os crentes a seguir seus costumes culturais.
2. O caso de Diótrefes. (III Jo 1:1-11)

PROBLEMAS ESTRUTURAIS NA IGREJA
1. Esquecer que a estrutura existe para o homem e não o homem para a estrutura. Inclui coisas como:
 A freqüência e duração das reuniões.
 O nível de participação dos membros no culto.
 O formato das reuniões.
2. Confundir cargo com dom.
 A partir da conversão do imperador Constantino, os dons tornaram-se institucionalizados, e a igreja começou a agir como se o cargo garantisse o dom.

5.3 AS ORDENANÇAS DA IGREJA
A doutrina das ordenanças da Igreja é muito diferente da doutrina dos sacramentos da igreja católica romana.
– O sacramento é um ato externo que confere graça ou bênção interna.
– Na teologia evangélica, a graça ou bênção interna manifesta-se em um ato externo.
Então, na teologia católica, Deus opera de fora para dentro, enquanto que na evangélica, Deus opera de dentro para fora.
A igreja católica tem sete sacramentos e a evangélica duas ordenanças.
 Os sacramentos: Batismo, confissão e penitência, eucaristia, crisma, casamento, ordenação e unção dos enfermos.
 As ordenanças: Batismo e ceia do Senhor.

BATISMO: Os maiores erros associados à prática desta ordenança.
a. Sua ligação com a salvação.
 O batismo de João associava o batismo com o arrependimento e a remissão dos pecados.
Apareceu João Batista no deserto, pregando batismo de arrependimento para remissão de pecados. (Mc 1:4)
 Mt 3:16 associa a descida do Espírito Santo sobre Jesus a seu batismo nas águas.
Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. (Mt 3:16)
 Em Mc 16:16, o batismo é intimamente ligado à salvação.
Quem crer e for batizado será salvo; … (Mc 16:16)
b. Seu significado.
É um sinal de arrependimento.
c. O modo de batismo.
Existem igrejas que praticam o batismo por aspersão, efusão e imersão. Mas a palavra grega “baptixw” significa “mergulhar ou imergir”.
d. O candidato ao batismo
Todos os candidatos precisam crer para poder se batizar.
Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado… (At 2:38)
e. O ministrante do batismo
O batismo ser ministrado apenas pelo pastor da igreja não é uma prática bíblica, e sim, um costume cristão.
Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; (Mt 28:19)
f. Os maiores erros associados à prática do batismo:
a. Tratar como um sacramento.
Um dos erros comuns tem sido atribuir uma graça ou bênção de Deus ao ato do batismo.
b. Tratar como suplemento.
Do outro lado, temos aqueles que não dão nenhum valor ao batismo e acham que, por já terem aceitado a Cristo não precisam batizar-se nas águas.
c. Restringir ou postergar o batismo.
Na Bíblia, as pessoas eram batizadas imediatamente à conversão. Filipe batizou até Simão, o feiticeiro porque este pediu.
d. Usar como m

Discípulo do Osvaldo 16/11/2014 22:50 0 0

Pr. MARCO ANTONIO DE SOUZA

APOSTILA DE TEOLOGIA SISTEMÁTICA

BELO HORIZONTE – MG
MAIO DE 2011

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.
(2ª Timóteo 3:16-17)

SUMÁRIO PG

1. Introdução ao Estudo Teológico ……………………………………………………………………………………….. 05
1.1 O que é Teologia ………………………………………………………………………………………………….. 06
2. Bibliologia (A Doutrina das Escrituras) ……………………………………………………………………………… 08
2.1 A Necessidade das Escrituras ………………………………………………………………………………… 09
2.2 A Inspiração das Escrituras …………………………………………………………………………………… 09
2.3 A Verificação das Escrituras …………………………………………………………………………………. 10
3.Teologia (A Doutrina de Deus) ………………………………………………………………………………………….. 11
3.1 A Natureza de Deus ………………………………………………………………………………………………… 12
3.2 Os Nomes de Deus …………………………………………………………………………………………………. 13
3.3 Os Decretos de Deus ……………………………………………………………………………………………….. 14
3.4 Os Atributos de Deus ………………………………………………………………………………………………. 15
4. A Doutrina da Trindade …………………………………………………………………………………………………… 17
5. Cristologia (A Doutrina de Cristo) …………………………………………………………………………………….. 19
5.1 A Ira de Deus e a Propiciação do Pecado …………………………………………………………………… 20
5.2 A Identidade, Integridade e Autoridade de Jesus …………………………………………………………. 21
5.3 Jesus Cristo como o Último Adão ……………………………………………………………………………… 22
5.4 A Obra de Cristo …………………………………………………………………………………………………….. 23
6. Antropologia (A Doutrina do Homem) ………………………………………………………………………………. 24
6.1 Tendências teológicas no início deste novo milênio …………………………………………………….. 25
6.2 A Criação do Homem ……………………………………………………………………………………………… 25
6.3 A constituição permanente do ser humano …………………………………………………………………. 26
7. Eclesiologia (A Doutrina da Igreja) …………………………………………………………………………………… 28
7.1 A Natureza da Igreja ……………………………………………………………………………………………….. 29
7.2 A Igreja Local ………………………………………………………………………………………………………… 29
7.3 As Ordenanças da Igreja ………………………………………………………………………………………….. 31
7.3.1 Batismo …………………………………………………………………………………………………………… 31
7.3.2 A Ceia do Senhor …………………………………………………………………………………………….. 31
7.4 A Vocação da Igreja ………………………………………………………………………………………………… 32
8. Angelologia (A Doutrina dos Anjos) …………………………………………………………………………………. 34
8.1 Panorama ……………………………………………………………………………………………………………….. 35
8.2 A Classificação dos Anjos ……………………………………………………………………………………….. 35
8.3 A Queda dos Anjos …………………………………………………………………………………………………. 37
8.4 Batalha Espiritual ……………………………………………………………………………………………………. 38
9. Hamartologia (A Doutrina do Pecado) …………………………………………………………………………….. 40
9.1 O que é o pecado …………………………………………………………………………………………………… 41
9.2 As Conseqüências do Pecado ………………………………………………………………………………….. 43
10.Soteriologista (A Doutrina da Salvação) ……………………………………………………………………………. 45
10.1 A Natureza da Salvação …………………………………………………………………………………………. 46
10.2 Legalismo e Antinomianismo …………………………………………………………………………………. 47
11. A Doutrina da Eleição ……………………………………………………………………………………………………. 48
11.1 Conversão …………………………………………………………………………………………………………….. 49
11.2 Regeneração …………………………………………………………………………………………………………. 51
12. A Doutrina da justificação ……………………………………………………………………………………………… 51
12.1 Santificação ………………………………………………………………………………………………………….. 53
12.2 União com Cristo ………………………………………………………………………………………………….. 54
13. Pneumatologia (A Doutrina do Espírito Santo) …………………………………………………………………. 56
13.1 O Ministério do Espírito Santo no crente ………………………………………………………………….. 60
14. Escatologia (A Doutrina das Últimas coisas) …………………………………………………………………….. 62
14.1 O Aspecto Histórico ………………………………………………………………………………………………. 63
14.2 O Aspecto Moral …………………………………………………………………………………………………… 64

SUMÁRIO PG

14.3 O Aspecto Profético (De um ponto de vista Pré-milenista) …………………………………………. 64
14.3.1 Israel na perspectiva profética ……………………………………………………………………… 65
14.3.2 Cálculo das setenta semanas de Daniel …………………………………………………………. 66
14.3.3 Israel na grande tribulação …………………………………………………………………………… 67
14.3.4 Doutrinas do amilenismo …………………………………………………………………………….. 69
14.3.5 Doutrinas do pós-milenismo ………………………………………………………………………… 71
15. Tanatologia (A Doutrina da morte) ………………………………………………………………………………….. 73
15.1 O Estado atual dos mortos ……………………………………………………………………………………… 74
15.2 A Divisão do hades ……………………………………………………………………………………………….. 75
16. A Redenção da Terra ……………………………………………………………………………………………………… 78
16.1 A Terra será Restaurada …………………………………………………………………………………………. 79
17. Referências Bibliográficas ……………………………………………………………………………………………… 80

1. INTRODUÇÃO AO ESTUDO TEOLÓGICO

1.1 O QUE É TEOLOGIA?
Theos (Deus) e logos (palavra). Significa “um discurso acerca de Deus”.
 É a ciência que trata do nosso conhecimento de Deus e das suas relações para com o ser humano.
 Trata de tudo quanto se relaciona com Deus e com os propósitos para a sua criação (anjos, ser humano e animais).
O PROPÓSITO DA TEOLOGIA
Fazer e entender a fé:
 Codificar e sistematizar o ensino bíblico.
Estender a fé:
 Pregação, ensino e discipulado.
Defender a fé:
 Medindo as doutrinas populares, confrontando a doutrina errada e disseminando a sã doutrina.

TIPOS DE TEOLOGIA
 Teologia Bíblica: Salienta o progresso da Revelação bíblica.
• Divide-se em: Teologia Bíblica do Antigo Testamento
Teologia Bíblica do Novo Testamento
 Teologia Histórica: Traça o desenvolvimento das doutrinas bíblicas desde o fim da era apostólica até o presente.
 Teologia Sistemática: Codifica o conhecimento de Deus para edificar o corpo e combate as heresias.
 Teologia Prática: Aplica as teologias Bíblica, Histórica e Sistemática à santificação do ser humano, ou seja, à vida e ao ministério cristão.
 Teologia Dogmática

BIBLIOLOGIA
Parte da Teologia que estuda as Escrituras.
 Nem tudo na Bíblia é bíblico. Ex: Caim matou Abel; o incesto de Amnon contra Tamar, sua irmã ou Demas abandonou a fé.

O QUE É RELIGIÃO?
Ligare – latim singular ligar. Religar.
É a prática do ser humano para alcançar Deus. Fato universal.

QUAL É A VERDADEIRA RELIGIÃO? PORQUÊ?

QUAL A DIFERENÇA ENTRE REVELAÇÃO, INSPIRAÇÃO E ILUMINAÇÃO?

O QUE É REVELAÇÃO?
É a manifestação que o único Deus verdadeiro faz de si mesmo. O Deus eterno se fez conhecido em Cristo.
Onde? Quando? A quem? Como? Por que veio?
Ele voltará? Porque voltará? Quando? Como? Onde? A quem?

SE DEU ESSA REVELAÇÃO?
Feitos: Deus se manifestou aos homens.
Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos (Sl 119:1).
Escrituras: Registros destes fatos verdadeiros.
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai. (Jo 1:14)

ESCRITURAS: CONTÉM O REGISTRO DESSA REVELAÇÃO
A Bíblia = 66 Livros.
 Antigo Testamento = 39 livros.
Classificação:
Pentateuco (Lei)
Livros Proféticos
Escritos (hagiógrafos)
 Novo Testamento = 27 livros.
Classificação:
Bibliográficos (Evangelhos)
Histórico (Atos)
Epístolas Paulinas
Epístolas Gerais
Escatológico (Apocalipse)
Deus criou Israel para manifestar-se ao mundo e, ao completar a plenitude dos tempos enviou o seu Filho Unigênito a fim de consumar a revelação já começada. (base da Teologia Cristã)

INSPIRAÇÃO: THEOPNEUSTOS SIGNIFICA DIVINAMENTE SOPRADO.
 Natural: grande talento dos homens.
 Mística (iluminativa): originada em homens cheios do Espírito Santo.
 Mecânica: Ditada. Instrumentos passivos na mão de Deus.
 Parcial: Apenas o desconhecido foi inspirado.
 Conceitual: Apenas voltada para as idéias.
 Verbal e plenária: Cada palavra (verbal) foi inspirada por Deus (plena).

ILUMINAÇÃO
Precisamos da iluminação de Deus para entender as Escrituras. A tarefa de interpretar é chamada de Hermenêutica.
Princípios fundamentais da hermenêutica:
 A interpretação histórico-gramatical.
 O contexto restrito e o geral.

A POSSIBILIDADE DE TERMOS UMA TEOLOGIA CRISTÃ.
Deus existe e tem um relacionamento com seu mundo. (Gen 1:1)
O ser humano é feito à imagem de Deus e é capaz de receber a revelação. (Gen 1:26)
Deus tem se revelado (Heb 1:1). Tem se dado a conhecer em Jesus Cristo.

DOUTRINAS: ENSINO OU INSTRUÇÃO
É o ensino das verdades fundamentais da Bíblia sistematizado.
O conhecimento doutrinário é uma parte necessária do equipamento de quem deseja ensinar a Palavra de Deus.

FIM

2. BIBLIOLOGIA
( A DOUTRINA DAS ESCRITURAS)

2.1. A NECESSIDADE DAS ESCRITURAS
A NECESSIDADE DAS ESCRITURAS (2 Tm 3:16-17)
Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra.
UMA REVELAÇÃO DESEJÁVEL
Um Deus sábio tem um propósito para suas criaturas.
Negligenciar esse propósito é loucura e pecado.
MAS COMO VERIFICAR COM CERTEZA O PROPÓSITO DIVINO?
 As verdades que informam o homem a respeito da salvação têm que vir de Deus.
 O homem precisa de uma revelação.
ESSA REVELAÇÃO É DE SE ESPERAR
Revelação é a manifestação que Deus faz de si mesmo e a compreensão, parcial embora, da mesma manifestação por parte dos homens.
Na revelação Deus faz-se conhecido dos homens na sua personalidade e nas suas relações.
Deus quer que o homem O conheça daí a razão D’ele se revelar.
(Sl 19:1-4) Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz. A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o sol,
Se existe um Deus pessoal e perfeitamente bom, é razoável crer que ele conceda às suas criaturas uma revelação pessoal de si mesmo.
(Oséias 6:6) Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.
ESSA REVELAÇÃO DEVERIA ESTAR EM FORMA ESCRITA.
Deus inspirou os seus servos a escrever essas verdades.
Deus, também, preservou os manuscritos das Escrituras e influenciou a sua igreja a incluí-los no cânon.

2.2. A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS
A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS É DIVINA E NÃO APENAS HUMANA
O modernista considera a inspiração das Escrituras Sagradas como apenas um sistema filosófico.
 Essa teoria não combina com o caráter sobrenatural e único da Bíblia.

A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS É ÚNICA E NÃO COMUM
ALGUNS CONFUNDEM A INSPIRAÇÃO COM O CONHECIMENTO.
Às vezes os profetas recebiam mensagens por inspiração, mas não a compreensão dessas verdades. (1 Pe 1:10-12)

A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS É VIVA E NÃO MECÂNICA
A inspiração não era um simples ditado, onde os escritores fossem passivos e as suas faculdades não tomassem parte no registro da mensagem.
 É o entrosamento do Espírito de Deus e o espírito do homem.
 A inspiração é completa e não parcial.

É VERBAL E NÃO APENAS DE CONCEITOS
A ênfase Bíblica não está nos homens inspirados, mas nas palavras inspiradas.

PRECISAMOS FAZER DISTINÇÃO ENTRE REVELAÇÃO E INSPIRAÇÃO.
 Revelação é o ato de Deus pelo qual ele dá a conhecer o que o homem por si mesmo não podia saber.
 Por inspiração queremos dizer que o escritor é preservado de qualquer erro ao escrever essa revelação.
A INSPIRAÇÃO NEM SEMPRE IMPLICA REVELAÇÃO.
 Moisés foi inspirado a registrar eventos que ele mesmo havia presenciado e que dessa maneira eram de seu conhecimento.
PALAVRAS INSPIRADAS E REGISTROS INSPIRADOS.
 A Bíblia registra muitas palavras proferidas por Satanás, e sabemos que o diabo não foi inspirado por Deus ao dizê-las; mas o registro dessas expressões satânicas foi inspirado.

2.3. A VERIFICAÇÃO DAS ESCRITURAS
ELAS REIVINDICAM INSPIRAÇÃO
O Antigo Testamento declara-se escrito sob uma inspiração especial de Deus.
(Js 3:9) Então, disse Josué aos filhos de Israel: Chegai-vos para cá e ouvi as palavras do SENHOR, vosso Deus.
(Is 34:16) Buscai no livro do SENHOR e lede: Nenhuma destas criaturas falhará, nem uma nem outra faltará; porque a boca do SENHOR o ordenou, e o seu Espírito mesmo as ajuntará.
Jesus citou o Antigo Testamento, e viveu em harmonia com os seus ensinos.
A INSPIRAÇÃO DO NOVO TESTAMENTO
1. É garantida pela promessa de Jesus de que o Espírito Santo lembraria aos apóstolos tudo o que ele lhes havia ensinado, e que o mesmo Espírito os guiaria em toda verdade.
2. Pedro coloca as epístolas de Paulo no mesmo nível dos livros do AT, e todos os apóstolos afirmam falar com autoridade divina.
(2 Pe 3:15-16) e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles.
AS ESCRITURAS SE DIZEM INSPIRADAS
Foi escrita por homens cuja honestidade e integridade não podem ser postas em dúvida.
O seu conteúdo é a mais sublime revelação de Deus ao mundo.
1. Sua exatidão: Ausência dos absurdos encontrados em outros livros “sagrados”.
2. Sua unidade: Contendo 66 livros, escritos por uns 40 diferentes autores, num período de mais ou menos 1600 anos e abrangendo uma variedade de tópicos, demonstra uma unidade de tema e propósito que só é explicado como tendo ela uma mente a lhe dirigir.
3. A Bíblia pode ser lida centenas de vezes sem se esgotar o assunto.
4. É o livro mais traduzido e lido no mundo.
5. É um dos livros mais antigos do mundo e também o mais moderno. É pão para a alma. O pão é o alimento mais antigo do mundo e também o mais moderno.
6. Sua preservação apesar da perseguição e a oposição da ciência.
Procuramos evidências externas da exatidão das Escrituras porque é motivo de alegria poder apontar evidências das coisas que cremos no coração, e também porque essas provas servem de veículo para expressarmos nossa fé e convicção íntima.
(1 Pe 3:15) Santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós,
Mas o melhor argumento é o prático. A Bíblia tem influenciado a civilização, transformado vidas, trazido luz, inspiração e conforto a todo o que nela busca auxílio.

FIM

3. TEOLOGIA

(A DOUTRINA DE DEUS)

3.1 A NATUREZA DE DEUS

A EXISTÊNCIA DE DEUS
Deus é Espírito Pessoal, perfeitamente bom, que em santo amor cria, sustenta e dirige tudo.
A natureza de Deus: Ele é Espírito Pessoal.
O caráter de Deus: Ele é perfeitamente bom.
A relação de Deus para com o universo: Cria, sustenta e dirige tudo.
SUA EXISTÊNCIA DECLARADA.
A Bíblia não se preocupa em provar a existência de Deus. Ela reconhece como fato auto-evidente a sua existência, e como crença natural do homem. Declara o fato de Deus e chama o homem a aventurar-se na fé.
A Bíblia não tenta demonstrar a existência de Deus, porque em todas as partes da Bíblia subentende-se a sua existência.
A idéia de que o homem chega ao conhecimento ou à comunhão com Deus mediante seus próprios esforços é totalmente estranha ao AT.
Deus aproxima-se dos homens, estabelece um concerto ou relação especial com eles, e lhes dá mandamentos.
SUA EXISTÊNCIA PROVADA.
Por que demonstrar a existência de Deus?
1. Para convencer os que genuinamente buscam a Deus.
2. Para fortalecer a fé daqueles que já crêem.
3. Para enriquecer nosso conhecimento acerca da natureza de Deus.
Encontramos evidências da existência de Deus na criação, na natureza humana e na história humana.
1) O argumento cosmológico (da criação): O universo deve ter uma primeira causa ou um criador.
2) O argumento teleológico (desígnio ou propósito): O desígnio evidente no universo aponta para uma mente suprema e não para o acaso.
 Suponhamos que o autor dum livro tomou milhares de tipos de imprensa e jogou para o ar. Ao caírem no chão, natural e gradualmente se ajuntaram de maneira a formar a história do livro!
3) O argumento antropológico (da natureza do homem): Não apenas a natureza moral do homem, mas também todos os aspectos da sua natureza testificam a existência de Deus.
 Até as religiões mais degradadas demonstram o fato de que o homem, qual cego, tateando, procura algo que sua alma anela.
4) O argumento histórico: A marcha dos eventos da história universal fornece evidência de um poder e de uma providência dominantes.
 A colonização dos EUA por imigrantes protestantes salvou-os da sorte da América do Sul, e dessa maneira salvou a democracia.
 A guerra dos seis dias entre Israel e os Árabes em 1967, teve a mão de Deus a favor de seu povo.
5) O argumento da crença universal (consenso comum): Como se originou essa crença universal?
 Não se originou pelo raciocínio.
 O sentimento religioso não se encontra nas criaturas inferiores. Mas o mais inferior dos homens pode ser instruído nas coisas de Deus porque falta ao animal a natureza religiosa, ele não foi feito à imagem de Deus.
SUA EXISTÊNCIA NEGADA.
O ateísmo é a negação absoluta de Deus. Visto que são os ateus que se opõem às convicções mais profundas e fundamentais da raça humana, a responsabilidade de provar a não-existência de Deus recai sobre eles.
 Somente Deus, cuja existência o ateu nega, teria a capacidade de provar que Deus não existe.
 Alguém perguntou: “Quem criou Deus?” e recebeu como resposta: “Se houvesse alguém que criasse Deus, esse alguém seria Deus”.

3.2 OS NOMES DE DEUS
OS NOMES DE DEUS NO ANTIGO TESTAMENTO
Abraão, Isaque e Jacó tiveram um conhecimento inferior de Deus porque o conheceram apenas como El-Shaddai (o Todo Poderoso) e não como Jeová (o grande “Eu Sou”). Deus tem muito mais para nos revelar do que apenas sua Onipotência!
ELOHIM
Este é o primeiro nome de Deus encontrado nas Escrituras (Gênesis 1:1), e aqui o nome encontra-se em sua forma plural, mas o verbo continua no singular, indicando a pluralidade das pessoas na unidade do Ser.
EL-SHADAI
Este nome composto é traduzido “Deus o Todo poderoso” (El é Deus e Shadai é Todo poderoso). O título El é Deus no singular, e significa forte ou poderoso. Shadai, sempre traduzido Todo-poderoso, significa suficiente ou rico em recursos. Pensa-se que a palavra é derivada duma outra que significa seios. A palavra seio nas Escrituras simboliza bênção e nutrição.
ADONAI
Este nome de Deus está no plural, denotando assim a pluralidade das pessoas na Divindade. É traduzido como Senhor em nossa Bíblia e denota uma relação de Senhor e escravo.
JEOVÁ (YHWH + Adonai)
Este é o mais famoso dentre os nomes de Deus e é predicado dele como um Ser necessário e auto-existente. O significado é: AQUELE QUE SEMPRE FOI, SEMPRE É E SEMPRE SERÁ. Temos assim traduzido em Apocalipse 1:4: “Daquele que é, e que era, e que há de vir”.
O nome Jeová é muitas vezes usado de modo composto com outros nomes para apresentar o verdadeiro Deus em algum aspecto de Seu caráter, satisfazendo certas necessidades de Seu povo.
JEOVÁ-HOSENU, “Jeová nosso criador”. Salmo 95:6.
JEOVÁ-JIRÉ, “Jeová proverá”. Gênesis 22:14.
JEOVÁ-RAFÁ, “Jeová que te cura”. Êxodo 15:26.
JEOVÁ-NISSI, “Jeová, minha bandeira”. Êxodo 17:15.
JEOVÁ-MIKADDÉS, “Jeová que te santifica”. Levítico 20:8.
JEOVÁ-ELOENU, “Jeová nosso Deus”. Salmo 99:5 e 8.
JEOVÁ-ELOEKA, “Jeová teu Deus”. Êxodo 20:2,5,7.
JEOVÁ-ELOAI, “Jeová meu Deus”. Zacarias 14:5.
JEOVÁ-SHALOM, “Jeová envia paz”. Juízes 6:24.
JEOVÁ-TSEBAOTE, “Jeová das hostes”. 1 Samuel 1:3.
JEOVÁ-ROÍ, “Jeová é meu pastor”. Salmo 23:1.
JEOVÁ-HELEIÓN, “Jeová o altíssimo”. Salmo 7:17; 47:2.
JEOVÁ-TSIDKENU, “Jeová nossa justiça”. Jeremias 23:6.
JEOVÁ-SHAMÁ, “Jeová está lá”. Ezequiel 48:35.
OS NOMES DE DEUS NO NOVO TESTAMENTO
1. TEOS. No Novo Testamento grego este é geralmente o nome de Deus, e corresponde a Eloim no Velho Testamento hebraico. É usado para todas as três pessoas da Trindade, mas especialmente para Deus, o Pai.
2. PATER. Este nome corresponde ao Jeová do V. T., e denota a relação que temos com Deus através de Cristo. É usado para Deus duzentas e sessenta e cinco vezes e é sempre traduzido como Pai.
3. DÉSPOTES. (Déspota no português). Este título denota Deus em Sua soberania absoluta, e é semelhante a Adonai do V. T. Encontramos este nome apenas cinco vezes no N. T., Lucas 2:29; Atos 4:24; 2 Pedro 2:1; Judas 4; Apocalipse 6:10.
4. KÚRIOS. Este nome é encontrado centenas de vezes e traduzido como; Senhor (referendo a Jesus), senhor (referendo ao homem), Mestre (referendo a Jesus), mestre (referendo ao homem) e dono. Em citações do hebraico usa-se muitas vezes em lugar de Jeová. É um título do Senhor Jesus como mestre e dono.
5. CHRISTUS. Esta palavra significa o Ungido e é traduzida Cristo. Deriva-se da palavra “chrio” que significa ungir. É o nome oficial do Messias ou Salvador que era por muito tempo esperado. O N. T. utiliza este nome exclusivamente referindo-se a Jesus de Nazaré.
Destes nomes todos do Ser Supremo, aprendemos que Ele é o Ser eterno, imutável, auto-existente, auto-suficiente, todo-suficiente e é o supremo objeto de temor, confiança, adoração e obediência.

3.3 OS DECRETOS DE DEUS
A Doutrina dos Decretos parte do princípio de que Deus não inventa seus planos ao longo da história. A Doutrina trabalha com uma hipótese, informada pelas Escrituras, de que tudo que Deus fez foi planejado e determinado antes da fundação do mundo.
(I Pe 1.20)“… e sem mancha, o sangue de Cristo, o qual, na verdade, foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos, por amor de vós.
No campo material e físico
 Deus decretou criar o universo e o homem: Sl 33.6-11
 Decretou a distribuição das nações:
(Dt 32.8) Quando o Altíssimo dava às nações a sua herança, quando separava os filhos dos homens, estabeleceu os termos dos povos conforme o número dos filhos de Israel.
 Decretou o comprimento da vida do homem:
(Jo 14.5) Visto que os seus dias estão determinados, contigo está o número dos seus meses; tu lhe puseste limites, e ele não poderá passar além deles.
No campo moral e espiritual
 Permitir o pecado
Deus não induz ninguém ao pecado (Tg 1.13-14), mas, como criador, é o autor das condições que permitiram o surgimento do mal.
 Derrotar o pecado pelo bem
Deus não apenas permitiu o pecado, mas tomou providências para que até isso redunde em glória para o seu Nome.
 Salvar do pecado
Este é o Decreto da Redenção, e tem algumas facetas:
1) A liberdade do homem: O homem foi criado com capacidade de pecar ou não pecar. Mesmo caído, ele continua responsável por suas ações. (Ap 20.12)
2) Graça preveniente: desde o pecado de Adão, notamos Deus tomando a iniciativa redentora, sem a qual o homem jamais seria salvo.
(Tt 2.11) Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens”.
3) Presciência divina: É inegável e está incorporada à sua ação salvadora.
4) Eleição graciosa: Cristo foi eleito Salvador da humanidade, e todos os que o aceitam são beneficiados por sua eleição.
5) Graça especial ou salvadora: É comunicada ao pecador à medida que ele coopera com Deus, através da fé e arrependimento. (At 2.37-38)
6) Galardoar seus servos e castigar os desobedientes: Deus, na sua bondade, salva imerecidamente o pecador e decreta que o tal receberá um galardão segundo o seu serviço regenerado.
No campo social e político
 A família e as formas de governo
Deus decidiu criar o ser humano como um ser social, que haveria de prosperar em um ambiente familiar. (Gn 2.18,24)
Intimamente ligado ao estabelecimento da família, está o Decreto concernente ao governo humano. (Rm 13.1-2)

 A vocação e a missão de Israel
Deus escolheu a Abraão e, através dele, a nação de Israel como fonte de bênçãos para o mundo. “… e em ti serão benditas todas as famílias da terra”. (Gn 12.3b)
O plano de Deus para Israel ainda não se cumpriu, no entanto, Deus tem um grande propósito quanto à sua restauração.
 A fundação e a missão da Igreja
Deus elegeu a Igreja para uma missão e responsabilidade muito grande. À Igreja cabe a responsabilidade de representar a Cristo aqui na terra.
(Ef 3.10-11) para que agora seja manifestada, por meio da igreja, aos principados e potestades nas regiões celestes, segundo o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor.
 O triunfo final de Deus
No Apocalipse encontramos a profecia do triunfo final de Deus sobre todos os seus inimigos. O Paraíso, que foi destruído em Gênesis, será restaurado e Deus enxugará todas as lágrimas.
Ap 11.15-17 E o sétimo anjo tocou a sua trombeta, e houve no céu grandes vozes, que diziam: Os reinos do mundo vieram a ser de nosso SENHOR e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre. E os vinte e quatro anciãos, que estão assentados em seus tronos diante de Deus, prostraram-se sobre seus rostos e adoraram a Deus, Dizendo: Graças te damos, Senhor Deus Todo-Poderoso, que és, e que eras, e que hás de vir, que tomaste o teu grande poder, e reinaste.

3.4 OS ATRIBUTOS DE DEUS

A ESSÊNCIA E ATRIBUTOS DE DEUS
Algumas características de Deus são absolutas, e fazem parte da essência de Deus. São os atributos absolutos ou imanentes.
Outras características são vistas como uma manifestação de Deus em relação à sua criação e são chamadas de atributos relativos ou transitivos.
ATRIBUTOS ABSOLUTOS OU IMANENTES
Espiritualidade:
Deus não tem uma forma corpórea como o homem.
Sua incorporeidade explica sua proibição de qualquer tentativa de representá-lo fisicamente
(Dt 4:15-18). A desobediência a essa proibição faz parte da justificação de ira de Deus sobre os homens:
“Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis.” (Rm 1.22-23)
Vida: Deus não somente é Espírito, mas tem vida própria, em contraste com os deuses das nações. Nós devemos ser testemunhas de que o nosso Deus é um Deus vivo.
Personalidade: Deus também é autoconsciente e tem personalidade: Intelecto, Volição e Sentimento.
Infinitude: (Transcendência)
 Deus é Transcendente, ou seja, não está sujeito a nenhum limite ou restrição.
 Deus é auto-suficiente e não precisa de nada nem de ninguém para o completar.
 Que fique bem claro que Deus não criou o homem por causa de um sentimento de solidão.
Auto-existência:
Deus é a causa de sua própria existência, e de todas as coisas.
“Eu sou o Senhor que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus, e espraiei a terra; que desfaço os sinais dos profetas falsos, e torno loucos os adivinhos, que faço voltar para trás os sábios, e converto em loucura a sua ciência.” (Is 44.24-25)

Imutabilidade:
Não fala de decisões ou estratégias, mas que a natureza de Deus não muda:
Porque eu, o Senhor não mudo; por isso, vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos. (Ml 3.6; Tg 1.17)
Unidade: A natureza divina não se divide.
Perfeição: Estes são atributos morais, coerentes com a sua personalidade: intelecto, volição e sentimento.
Verdade: Deus é a personificação da verdade e é o verdadeiro Deus (I Jo 5.20).
Amor: O amor de Deus acha sua razão de ser na própria natureza de Deus. Não no objeto de seu amor.
 O amor de Deus é preexistente à fundação do mundo. (Jo 17.24)
 O amor de Deus implica a possibilidade de Deus sofrer.
Santidade: A santidade de Deus implica na sua pureza, e é motivada contra toda impureza. (II Co 7.1)
A essência de Deus é a fonte da manifestação de todos os demais atributos, presenciados através da criação. Passaremos agora a estudá-los:
ATRIBUTOS RELATIVOS OU TRANSITIVOS
Eternidade: Deus não está sujeito ao tempo.
Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus. (Sl 90.2)
Imensidão: A natureza de Deus não é sujeita à lei do espaço. Deus não está no espaço, mas o espaço está em Deus que o criou. (I Rs 8.27)
Onipresença: Deus está igual e pessoalmente presente em todos os lugares ao mesmo tempo. (Ubiqüidade)
Onisciência: Deus tem conhecimento completo de tudo: no passado, no presente e no futuro.
 Ele conhece o autor, o participante, o beneficiado e a vítima de todas as ações no seu reino.
 Ele nunca pode ser enganado, surpreendido ou confundido.
 Quando perdoa nossos pecados, Ele decide não se lembrar deles.
Onipotência: Deus tem todo o poder e pode fazer tudo o que desejar, mas, também tem o poder de deixar de fazer.
Veracidade e fidelidade: Deus é transparente em seu trato conosco. Nunca irá nos enganar com falsas promessas de benção e maldição.
Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo. (II Tm 2.13)
Misericórdia e bondade: É a maneira graciosa com que Deus lida com suas criaturas. Misericórdia é não recebermos o que merecemos pelos nossos pecados.
Justiça e retidão: significa que o ser humano nunca receberá um mau tratamento da parte de Deus.

4. A DOUTRINA DA TRINDADE
UNICIDADE: Estado ou qualidade de ser único.
Em todo o Antigo Testamento a ênfase da auto-revelação divina está na unicidade e não na unidade.
O Deus único: EKAHAD = 2 significados: um, único (Trindade)
Ouve, ó Israel; o Senhor nosso Deus é o único Senhor. (Dt 6.4)

Unidade: A doutrina da unidade de Deus surgiu como reflexo da aceitação da doutrina da Trindade.
 A Unidade de Deus é a revelação da trindade no NT e que de uma busca no AT mostra que este Deus único existe eternamente em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.
 Um Deus eternamente coexistente em três pessoas distintas, que não se confundem, nem se misturam.
 A humanidade é composta de macho e fêmea, a divindade é Pai, Filho e Espírito Santo. Não existem duas raças humanas, nem três deuses.
A DOUTRINA DA TRINDADE
Definição: A Trindade é composta de três pessoas unidas, sem existência separada, e indivisivelmente ligadas para formar um Deus. A natureza divina subsiste em três distinções: Pai, Filho e Espírito Santo.
A palavra Trindade não aparece na Bíblia. Esta doutrina foi formulada por Tertuliano, Atanásio e Agostinho.
A Doutrina da Trindade afirma três verdades:
 Há apenas um único Deus.
 O Pai, o Filho e o Espírito Santo são individualmente Deus.
 O Pai, o Filho e o Espírito Santo são, cada um, pessoas distintas.
UMA REVELAÇÃO DE DEUS
A doutrina representa a conclusão lógica da revelação bíblica acerca de Deus.
É exemplo da revelação progressiva de Deus. Deus Único, Deus Trino, depois Deus Triúnico.
Sinais de pluralidade nos nomes e atividades de Deus (Elohim).
OUTROS SINAIS DE PLURALIDADE
 O louvor dos Serafins em Is 6.3. “… Santo, santo , santo é o Senhor …”
 A benção Aarônica de Nm 6.24-26. “…O Senhor te abençoe …o Senhor faça ..o Senhor sobre ti levante o rosto e te dê a paz.”
REFERÊNCIAS AO ANJO DO SENHOR
Parece que o Anjo do Senhor é uma manifestação pré-encarnada de Deus o Filho. (Gn 22.15-18)
Sinais de igualdade entre Jesus e o Pai.
No Novo Testamento, o Pai, a quem Jesus se refere é Jeová.
 “Eu e o Pai somos um.” (Jo 10.30)
 Também: Jo 17.22; Hb 13.8 (imutabilidade); Ap 1.8 (onipotência).
 Além disso, Jesus exerce as prerrogativas de Deus, como perdoar pecados. (Mt 9.2)
SINAIS DE IGUALDADE ENTRE JESUS E O ESPÍRITO SANTO
Jesus garante aos discípulos que enviaria um outro “Consolador”. O termo sugere um “outro” do mesmo tipo e qualidade. (Jo 14.16-17)

SINAIS DE IGUALDADE ENTRE PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO
A presença dos Três no batismo de Jesus por João é notória. Também a associação dos três na obra redentora. (I Co 12.4-6)

EVIDÊNCIAS DA DEIDADE DE CADA MEMBRO DA TRINDADE
O Pai é reconhecido como Deus:
“a todos os amados de Deus, que estais em Roma, chamados para serdes santos, graça a vós, e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”. (Rm 1.7)

O Filho é reconhecido como Deus:
“Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, o qual será chamado Emanuel, que quer dizer: Deus conosco”. (Mt 1.23)
Jesus foi identificado com o Senhor (Jeová) do AT pelo apóstolo Paulo.

O Espírito Santo é reconhecido como Deus:
“Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e retivesses parte do preço do terreno? Enquanto o possuías, não era teu? E vendido, não estava o preço em teu poder? Como, pois, formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus. (At 5.3-4)

TEORIAS REPROVADAS
Triteísmo: João Ascunages e João philoponus
Ensinavam que há três Deuses em vez de três pessoas na Trindade.
Sabelianismo ou Modalismo (Séc. II):
Sabelius ensinava que o Pai, o Filho e o Espírito Santo eram manifestações de um só Deus. Os modos como Deus se manifestou seriam como três uniformes com que o único Deus se vestia.
 Exemplos de modalistas (também chamados de Unicistas) de hoje: Voz da Verdade, Árvore da Vida.
Arianismo: Ário seguiu um erro de Orígenes, que subordinava o Filho ao Pai, em relação à essência, fazendo-o inferior ao Pai.
 O Arianismo negou a deidade de Jesus Cristo. Ário ensinava que apenas o Pai não era criado.
 Exemplo de arianos hoje: Testemunhas de Jeová

FIM

3. CRISTOLOGIA

(A DOUTRINA DE CRISTO)

3.1 A IRA DE DEUS E A PROPICIAÇÃO DO PECADO

INTRODUÇÃO
Precisamos entender que o homem é antes um criminoso que uma vítima e é tratado assim por Deus. Como seres humanos, somos responsáveis e responsabilizados pelo grande estrago que fizemos na criação de Deus. Como inimigos de Deus, é inútil falar de salvação antes que tratemos da violenta ruptura que houve em nosso relacionamento com Deus.

DEUS NÃO IGNORA O PECADO
Esta verdade precisa ser proclamada neste início de milênio. Há três sentidos em que podemos afirmar que Deus não ignora o pecado:
1) Deus não ignora o pecado no sentido de estar alheio à sua existência. Ninguém consegue esconder seu pecado de Deus.
O pecado de Acã. (Js 7.11)

2) Deus não ignora o pecado no sentido de passar vista grossa diante da sua presença;
No momento da rebelião, Lúcifer foi expulso do céu. Talvez Satanás tenha pensado que seria diferente com o casal criado a imagem e semelhança de Deus. Que Deus daria um jeitinho para eles, e usar isso como arma para barganhar com Deus. Para sua surpresa, quando Adão e Eva pecaram, foram sumariamente expulsos do Paraíso. Quando Jesus carregou nossos pecados, Deus virou as costas para Ele. (Mat 27.46)
Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar. (Hab 1.13)
3) Deus não ignora o pecado no sentido de permitir que continue sem resolução.
Ele mesmo toma as providências para expurgar o pecado da sua criação. (I Jo 3.4-8)

O PECADO SUSCITA A IRA DE DEUS
O maior problema do pecador não é o seu pecado, mas sim o fato de estar sob a ira de Deus.
 Depois de uma grande ênfase sobre a ira de Deus no século passado, hoje damos ênfase quase que exclusiva sobre o amor de Deus.
 O homem moderno tem dificuldade em entender o porquê da morte de Jesus, e sua absoluta necessidade de aceitá-lo como salvador. Ele imagina que de alguma forma, Deus vai dar um jeitinho para ele. A Palavra de Deus diz:
A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; (Rom 1.18). Também Num 1.2-3.
A nossa dificuldade com a ira de Deus é que transferimos para ela todas as características da ira humana. Existem diferenças entre a ira de Deus e a ira do Homem.

As características da Ira de Deus
 A Ira de Deus é sempre judicial, isto é, a ira do Juiz aplicando a justiça. Paulo diz que o dia da Ira é também o dia da “revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo o seu procedimento” (Rom 2.5-6).
 A Ira de Deus na Bíblia é alguma coisa que os homens escolhem por si mesmo. É uma escolha pessoal, pois Deus nos deu liberdade para escolher.
Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. (Jo 3.18-19)

A Ira de Deus nem sempre se manifesta em castigo direto. Ao contrário, pode se manifestar através do abandono.
Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração, para desonrarem o seu corpo entre si; pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém! (Rm 1.24).
A história bíblica está cheia de exemplos do juízo de Deus que ignoramos para nosso próprio risco.
A propiciação aplaca a Ira de Deus
Enquanto a expiação trata de cobrir ou compensar o pecado ou a ofensa, a propiciação acrescenta a esta idéia o reparo do relacionamento de intimidade entre o homem e um Deus irado.
Imagine que seu amigo furta a sua carteira e depois de ter gastado todo o seu dinheiro fica arrependido, e decide devolver a carteira repondo o dinheiro roubado. Como é que fica o seu relacionamento? Ele fez expiação pelo pecado. Ele pergunta “Tudo bem?” e você diz “Não! Não está tudo bem!” Porque não? Porque ainda não foi reparado o seu relacionamento. Expiação é fazer uma restituição que paga o preço do pecado. Propiciação é reparar o relacionamento transtornado.

As Boas Novas do Evangelho são que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação”. (II Co 5:19) Deus fez de Cristo a propiciação para nossos pecados. (Rm 3:25)

A bondade e a severidade de Deus
Exemplos da bondade e da severidade de Deus aparecem através da Bíblia inteira. Deus julga Adão e Eva no jardim do Éden, mas veste sua nudez com pele de animais.

Jesus desviou a ira de Deus de nós, tomando-a sobre si e nos reconciliou com Deus. O restabelecimento de amizade entre o homem e Deus é o vínculo da salvação em nossas vidas. Qualquer idéia que limita o sacrifício de Cristo a apenas o pagamento dos nossos pecados é muito superficial.

3.2 A IDENTIDADE, INTEGRIDADE E A AUTORIDADE DE JESUS

A DUPLA IDENTIDADE DE JESUS CRISTO
A encarnação é um dos grandes mistérios da teologia. A Bíblia ensina que Jesus tem duas naturezas: uma humana e outra divina.

A EXISTÊNCIA DE DUAS NATUREZAS
1. Jesus exercia prerrogativas divinas, como perdoar pecados
E os escribas e fariseus arrazoavam, dizendo: Quem é este que diz blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão Deus? (Lc 5:21)
2. A qualidade da vida de Jesus
Nunca tendo pecado, foi preciso que seus inimigos mentissem para conseguir sua condenação.
3. Os sinais que ele operou
Fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. (Jo 20:30-31)
4. O seu testemunho pessoal: Ele reivindicou deidade
Eu e o Pai somos um. Novamente, pegaram os judeus em pedras para lhe atirar. Disse-lhes Jesus: Tenho-vos mostrado muitas obras boas da parte do Pai; por qual delas me apedrejais? Responderam-lhe os judeus: Não é por obra boa que te apedrejamos, e sim por causa da blasfêmia, pois, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo. (Jo 10:30-33)
5. O testemunho dos seus inimigos: Os judeus queriam matá-lo porque Ele afirmava ser Deus.
6. O testemunho dos apóstolos: “E o Verbo se fez carne…”
7. O testemunho da história: Nunca em toda história houve alguém igual a Jesus. (Jo 7:46)
3.4 A EXIGÊNCIA DE DUAS NATUREZAS
Sua humanidade é a garantia de legítima representatividade.
Sua Deidade é uma garantia de eterna confiabilidade.
– Pela encarnação Deus se revela aos homens.

A INTEGRIDADE DAS DUAS NATUREZAS DE CRISTO
Não podemos dividir Jesus em dois, um humano e um divino.
Ser Teantrópico: Jesus é permanentemente divino e permanentemente humano (união perpétua).
A CONVIVÊNCIA DAS DUAS NATUREZAS
A teoria aprovada de convivência diz que quando o Verbo se fez carne as naturezas divina e humana foram unidas, verdadeiramente, perfeitamente, eram indivisíveis e livres de mistura.
3.5 A AUTORIDADE DE JESUS
a) O profeta prometido
O SENHOR, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás. (Dt 18.15)
b) O Sumo Sacerdote prometido
O SENHOR jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque. (Sl 110.4)

c) O Rei prometido
Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião. Proclamarei o decreto do SENHOR: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei. (Sl 2.6-7)

A partir da sua 2ª vinda, Jesus regerá o mundo plenamente.
d) A Superioridade de Cristo
Enfatizamos a superioridade de Jesus sobre todas as demais autoridades, quer celestiais, infernais ou terrestres.
Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, (Fp 2.9)

3.6 JESUS CRISTO COMO O ÚLTIMO ADÃO
COMPARAÇÃO ENTRE O PRIMEIRO E O ÚLTIMO ADÃO
Em 1ª Co 15:45-47, o primeiro Adão é (prw/toj), ou seja, não há ninguém antes dele. Jesus é (e;scatoj), não há ninguém depois dele. No versículo 47 ele é (deu,teroj), ou seja, não há sequer um igual entre ele e Adão. Começaremos com as semelhanças entre os dois e depois falaremos das diferenças.

Semelhantes na sua identidade: Os dois foram criados à imagem de Deus.
 E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. (Gn 1:27)
 O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; (Cl 1:15)

Semelhantes na sua humanidade: Tiveram uma natureza tríplice; Espírito, alma e corpo.
Estes versículos desmentem a hipótese docetista de que o corpo físico de Jesus era apenas uma aparição. Negavam a humanidade de Jesus.

Semelhantes na sua representatividade: Por escolha de Deus, Adão e Jesus foram comissionados como cabeças da raça humana.
 Na desobediência, Adão representou toda a humanidade.
 Na sua obediência, Jesus representou toda a nova humanidade que segue seus passos. (Rm 5:15-17)

Somos justificados dos nossos pecados uma vez que rompemos com a nossa solidariedade com Adão em favor de uma nova solidariedade com Jesus.

Semelhantes na sua vulnerabilidade: Depois do pecado de Adão a natureza humana ficou caracterizada por fragilidade. Mas será que Jesus foi igualmente vulnerável?
Se Jesus foi imune à dor, ao desânimo, à dúvida, ele não venceu o mundo, e não pode salvar.
Semelhantes na sua santidade

CONTRASTES ENTRE O PRIMEIRO E O ÚLTIMO ADÃO
Diferentes na sua habitação.
Diferentes na sua tentação.
Adão tinha que resistir a apenas uma tentação para garantir sua santidade.
Jesus teve que viver 30 anos de provação antes mesmo de se manifestar com o Messias. Nestes 30 anos ele nunca cedeu à tentação.
Antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. (Hb 4:15b)

Diferentes na sua submissão.
De Adão Deus cobrou uma submissão à vida. (Gn 2:16-17)
Enquanto que Jesus foi chamado à uma submissão até a morte. (Fl 2:7-8)

Diferentes na sua punição
Adão foi punido por seu próprio pecado, enquanto quer Jesus foi punido por nossos pecados.
Diferentes na sua qualificação
Um relacionamento com Adão gera morte, mas um relacionamento com Jesus significa vida.

3.7 A OBRA DE CRISTO

CONCEITOS GERAIS DA OBRA DE CRISTO
Essencialmente a obra de Cristo é de nos reconciliar com Deus.
Seis aspectos da obra de cristo
Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória.

I. Sua paixão e morte é pré-ordenada e necessária
 A morte de Jesus não foi um acidente, nem uma tragédia, mas uma estratégia divina. (Jo 12.27)
II. Sua morte é apresentada em termos sacrificiais
 O simbolismo da Páscoa
 O simbolismo do pacto
 O simbolismo do véu rasgado.
III. Sua morte é entendida em sentido vicário
 Sua identificação com os pecadores.
 Sua substituição do pecador.
 Sua punição como pecador.
IV. Sua morte é redentora
 Redenção no AT: Tem a ver com a libertação de prisioneiros de guerra ou escravos e escapar da morte mediante o pagamento de resgate.
 Redenção no NT: Ele pagou o preço da nossa libertação.
V. Sua morte é um triunfo sobre o diabo e os poderes maléficos: Sofrimento vitorioso, a Ressurreição.
VI. Sua morte é universal
Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (Jo 3.16)

FIM

4. ANTROPOLOGIA
(A DOUTRINA DO HOMEM)

TENDÊNCIAS TEOLÓGICAS NO INÍCIO DESTE NOVO MILÊNIO
Antigamente o homem existia para a glória de Deus; agora Deus existe para glorificar o homem.
 Hoje as pessoas vão à igreja para resolver suas próprias necessidades, em vez de servir a Deus. (Narcisismo)
 Em vez de um relacionamento de amor e benevolência com o Criador, um relacionamento adverso, em que o homem precisa empurrar e esmurrar a Deus até que Ele solte o que é seu!
 Os defensores dessa doutrina são síndicos do povo de Deus, e não embaixadores do Reino.

A CRIAÇÃO DO HOMEM
1. Uma afirmação bíblica
 O ser humano é uma criação imediata de Deus. Deus o criou “ex nihilo” (do nada).

Criado à imagem de Deus (Gn 1:26-27)
Não é uma semelhança física, pois Deus é espírito.
Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade. (Jo 4:24)
Diferenças de natureza separam o homem de Deus:
 Deus existe eternamente; o homem é temporal;
 Deus tem existência independente; o homem existência dependente;
 Deus é o criador; o homem, o ser criado.
Atribuir uma semelhança física à imagem de Deus no homem é loucura.

Semelhança Mental:
O homem pode se comunicar com Deus.

Semelhança Moral:
A semelhança compartilhada entre Deus e o homem, foi também de ordem moral. Mesmo pecador, o Senhor trata o ser humano como ser moral e ético.

Semelhança Social:
Foi também uma semelhança social. Tal como Deus, o homem seria um ser que se conheceria e se definiria em comunidade. A Doutrina da Trindade explica a origem da sua sociabilidade. Sua criação foi um projeto de grupo.

Essa imagem é distribuída entre o homem e a mulher. Os dois em conjunto formam a imagem de Deus. Essa imagem é recuperada através da redenção em Jesus Cristo.

2. Unidade e constituição permanente do homem
O homem é um ser complexo
As Escrituras ensinam que não houve outra fonte para a raça humana a não ser Deus como Criador imediato, e Adão como criador intermediário, mediante seus descendentes.
Estudaremos a unidade do homem a partir de cinco pontos de vista: Histórico, Filosófico, Filológico (linguagem), Psicológico e Teológico.

1. O argumento Histórico
As mais recentes descobertas arqueológicas demonstram que toda a humanidade teve sua origem na Ásia Central.
 Esse lugar, como berço da civilização, é assunto de muitas reportagens em nossos dias.
As várias tradições de um dilúvio catastrófico também unem os povos na sua história.

2. O argumento fisiológico (estudo das funções orgânicas)
Não há razões para duvidar da origem monogenista da raça humana.
 Somente há uma raça humana.
• A temperatura do nosso corpo é a mesma em qualquer lugar do mundo.
• A freqüência média da pulsação cardíaca é a mesma.
• Há suscetibilidade às mesmas moléstias.
“Sou daqueles que acreditam que no momento não há qualquer evidência que diga que a humanidade brotou originalmente do que um único casal; devo dizer que não consigo ver uma razão qualquer, ou qualquer evidência convincente, para crer que haja mais do que uma espécie do ser humano”. (Charles Darwin)

3. O argumento filológico (estudo da linguagem)
A escrita tem uma origem comum, e também as línguas em evidência são poucos os seus troncos ou línguas principais, de onde derivaram tantas outras.

4. O argumento Psicológico
Mesmo que haja diferenças entre as culturas, há, entretanto, muita coisa em comum nos costumes dos povos.
 Há uma lei moral escrita no coração de cada homem que o incomoda diante de certos fatos, mesmo que a sociedade em que vive os aceite.
 Esteja onde estiver, viva a cultura que viver, seja na época que for, o homem tem uma noção de certo e errado, de bem ou mal que é comum a qualquer ser humano.

5. O argumento Teológico
Para o cristão, o mais importante argumento a favor da raça humana precisa ser o argumento teológico.
 A criação e a descendência comum dos seres humanos é pedra fundamental da redenção.
 O assassinato de Abel por Caim trouxe algumas dúvidas para a humanidade quanto ao relato bíblico dos inícios.
Então, disse Caim ao SENHOR: É tamanho o meu castigo, que já não posso suportá-lo. Eis que hoje me lanças da face da terra, e da tua presença hei de esconder-me; serei fugitivo e errante pela terra; quem comigo se encontrar me matará. O SENHOR, porém, lhe disse: Assim, qualquer que matar a Caim será vingado sete vezes. E pôs o SENHOR um sinal em Caim para que o não ferisse de morte quem quer que o encontrasse. Retirou-se Caim da presença do SENHOR e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden. E coabitou Caim com sua mulher; ela concebeu e deu à luz a Enoque. Caim edificou uma cidade e lhe chamou Enoque, o nome de seu filho. (Gn 4:13-17)

 Lidamos sempre com a pergunta: “De onde veio essa esposa para Caim?” – Era uma descendente, assim como ele, do mesmo casal.
 Nos primeiros onze capítulos de Gênesis temos um relato de dois mil anos de história.
 Romanos 5:12-21, relembra todo o drama da introdução do pecado por um homem, enquanto a justiça também entrou por um só: Jesus Cristo.
 Adão e Cristo são comparados: um homem; um Homem. Uma ofensa; uma justiça.

A CONSTITUIÇÃO PERMANENTE DO SER HUMANO
Dentro da constituição do homem, lidamos com duas teorias: a dicotomia e a tricotomia.

A teoria dicotomista
Ensina que o homem é feito de duas partes: corpo e alma.
 Para os dicotomistas, alma e espírito são a mesma coisa.
 Essa teoria sugere que temos a parte material e a parte imaterial.
 As duas correntes estão de acordo quanto à origem da imaterialidade do homem, com base em Gn 2:7: “Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente”.
 Esta teoria predomina no Antigo Testamento.

A teoria tricotomista
O tricotomista divide a parte imaterial em duas: alma e espírito.
Há versículos importantes no Novo Testamento que parecem defender essa posição.
O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. (Its 5:23)
Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. (Hb 4:12)

De acordo com essa teoria, as partes que compõem o ser humano são:

CORPO ALMA ESPÍRITO
Composição material Mente Consciência
Templo do Espírito Vontade Intuição
Emoções

FIM

5. ECLESIOLOGIA
(A DOUTRINA DA IGREJA)

5.1 A NATUREZA DA IGREJA

A IGREJA COMO ORGANIZAÇÃO E COMO ORGANISMO
A Igreja como organização é talvez o primeiro contato que alguém tenha da Eclesiologia.
Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro: (Ap 2:1)
A segunda perspectiva da Eclesiologia é da igreja como organismo, que aparece em vários trechos das Escrituras.
E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, (Ef 1:22)
DIFERENÇAS ENTRE A IGREJA COMO ORGANIZAÇÃO E ORGANISMO
 Como organização a igreja é visível:
Seu patrimônio físico: Construções, móveis, instrumentos, etc.
Seus símbolos: Bandeira, brasão, etc.
Patrimônio não-físico: Herança doutrinária e cultural.
Estatutos e regimentos internos.
Seus membros e congregados.
 Como organismo a igreja é invisível:
Como organismo a Igreja é a união mística de todos aqueles que são salvos em Jesus Cristo.
Como organização a igreja é local e humana. Como organismo é universal e divina.
Como organização a igreja é uma criação humana.
Como organismo ele é uma criação de Deus e todos os membros têm as características filiais.
 Como organização é temporária. Como organismo é perpétua.
A igreja como organização é o andaime que precisamos para levantar a estrutura da igreja como organismo. Quando a construção estiver pronta o andaime será desmanchado.
 Como organização é imperfeita, mas como organismo é perfeita.
 A perfeição da igreja como organismo não significa que ela já alcançou a maturidade, mas que está a caminho.
E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro. Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor. (Ef 4:11-16)

5.2 A IGREJA LOCAL

SUA ORGANIZAÇÃO
O nosso assunto é a estrutura da igreja, e abrange estruturas de governo e ministérios de liderança.
TIPOS DE LIDERANÇA NA IGREJA
A questão está ligada aos dons que Cristo deu à Igreja, conforme mencionados em Efésios 4:1:
E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres.
Segundo este versículo, são cinco os ministérios que Cristo deu à Igreja:
1. Apostólico 3. Evangelístico 5. Didático 2. Profético 4. Pastoral
Devemos ter sempre em mente que quando Jesus concedeu alguns para serem apóstolos, ele estava distribuindo ministérios, não cargos.
O MINISTÉRIO DE APÓSTOLO: Na Bíblia temos três tipos de apóstolos.
1. O 1º tipo é composto dos 12 discípulos escolhidos por Cristo
2. O 2º trata-se de outras pessoas reconhecidas como apóstolos pela igreja. Matias, Paulo, Barnabé e possivelmente Andrônico e Júnias (Rm 16:7).
3. São os falsos apóstolos.
Outros ministérios: Diáconos, presbíteros e bispos.
DIÁCONOS E DIACONISAS
Os 1º diáconos aparecem em Atos 6 como solução para um problema social na igreja.
 O diaconato é um ministério de apoio àqueles que trabalham no ministério da Palavra e da oração.
Os diáconos precisam ser:
 De boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, submissos à autoridade superior na igreja. (At 6)
 Respeitáveis, de uma só palavra, não inclinados ao vinho, não cobiçosos e de sórdida ganância, conservadores do mistério da fé, consciência limpa, primeiramente experimentados, marido de uma só mulher e que governe bem a sua casa.
Suas esposas ou diaconisas: respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo.
QUALIFICAÇÕES DE BISPO, PRESBÍTERO E PASTOR
 Parece que exercem o mesmo ministério.
 Suas qualificações: Itm 3:1-7.
MODELOS DE ESTRUTURAS ADMINISTRATIVAS
1. Episcopal (governado por bispos)
2. Presbiteriana (governada por presbíteros e o presbitério)
3. Congregacional (governada pela assembléia da igreja)
Não importa o sistema de administração eclesiástica, para serem cristãos os líderes devem estar nas suas posições. O líder cristão não vem para ser servido, mas para servir e dar sua vida pelo rebanho.

Evidências do relacionamento fraternal entre as igrejas do NT.
• Intercâmbio de epístolas.
• Intercâmbio de pessoas.
• Intercâmbio de recursos.
• Intercâmbio de Bênçãos Espirituais.
• Intercâmbio de Problemas e sabedoria.
• Investimento mútuo na obra missionária.
Evidências de rivalidade e partidarismo
1. Os judaizantes (At 15:1). Forçar os crentes a seguir seus costumes culturais.
2. O caso de Diótrefes. (III Jo 1:1-11)

PROBLEMAS ESTRUTURAIS NA IGREJA
1. Esquecer que a estrutura existe para o homem e não o homem para a estrutura. Inclui coisas como:
 A freqüência e duração das reuniões.
 O nível de participação dos membros no culto.
 O formato das reuniões.
2. Confundir cargo com dom.
 A partir da conversão do imperador Constantino, os dons tornaram-se institucionalizados, e a igreja começou a agir como se o cargo garantisse o dom.

5.3 AS ORDENANÇAS DA IGREJA
A doutrina das ordenanças da Igreja é muito diferente da doutrina dos sacramentos da igreja católica romana.
– O sacramento é um ato externo que confere graça ou bênção interna.
– Na teologia evangélica, a graça ou bênção interna manifesta-se em um ato externo.
Então, na teologia católica, Deus opera de fora para dentro, enquanto que na evangélica, Deus opera de dentro para fora.
A igreja católica tem sete sacramentos e a evangélica duas ordenanças.
 Os sacramentos: Batismo, confissão e penitência, eucaristia, crisma, casamento, ordenação e unção dos enfermos.
 As ordenanças: Batismo e ceia do Senhor.

BATISMO: Os maiores erros associados à prática desta ordenança.
a. Sua ligação com a salvação.
 O batismo de João associava o batismo com o arrependimento e a remissão dos pecados.
Apareceu João Batista no deserto, pregando batismo de arrependimento para remissão de pecados. (Mc 1:4)
 Mt 3:16 associa a descida do Espírito Santo sobre Jesus a seu batismo nas águas.
Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. (Mt 3:16)
 Em Mc 16:16, o batismo é intimamente ligado à salvação.
Quem crer e for batizado será salvo; … (Mc 16:16)
b. Seu significado.
É um sinal de arrependimento.
c. O modo de batismo.
Existem igrejas que praticam o batismo por aspersão, efusão e imersão. Mas a palavra grega “baptixw” significa “mergulhar ou imergir”.
d. O candidato ao batismo
Todos os candidatos precisam crer para poder se batizar.
Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado… (At 2:38)
e. O ministrante do batismo
O batismo ser ministrado apenas pelo pastor da igreja não é uma prática bíblica, e sim, um costume cristão.
Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; (Mt 28:19)
f. Os maiores erros associados à prática do batismo:
a. Tratar como um sacramento.
Um dos erros comuns tem sido atribuir uma graça ou bênção de Deus ao ato do batismo.
b. Tratar como suplemento.
Do outro lado, temos aqueles que não dão nenhum valor ao batismo e acham que, por já terem aceitado a Cristo não precisam batizar-se nas águas.
c. Restringir ou postergar o batismo.
Na Bíblia, as pessoas eram batizadas imediatamente à conversão. Filipe batizou até Simão, o feiticeiro porque este pediu.
d. Usar como m

Mauro 17/11/2014 14:12 0 0

ESCATOLOGIA CRISTÃ

Pe. Henrique soares da Costa

O HOMEM, O FIM DOS TEMPOS E AS REALIDADES ETERNAS

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Índice

Pe. Henrique soares da Costa 1
Índice 2
Algumas questões sobre e morte e o Além 3
Escatologia – Sobre o fim do mundo! 7
A Vinda do Senhor segundo o Antigo Testamento 8
A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – I 9
A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – II 11
A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – III 12
A Parusia do Senhor e o Juízo Final 13
A ressurreição dos mortos – I 14
A ressurreição dos mortos – II 15
A ressurreição dos mortos – III 17
A ressurreição dos mortos – IV 18
A ressurreição dos mortos – V 20
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? – I 21
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? – II 22
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? – III 23
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? – IV 25
A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado – I 26
A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado – II 27
A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado – III 29
O inferno – morte eterna, existência na contradição – I 30
O inferno – morte eterna, existência na contradição – II 31
O inferno – morte eterna, existência na contradição – III 32
A visão cristã da morte – I 34
A visão cristã da morte – II 35
A visão cristã da morte – III 36
A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade. 38
A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade – II 39
A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade – III 41
A purificação após a morte: o estado purgatório 42
Anjos, Diabo, demônios: o que a fé da Igreja ensina sobre eles? – I 45

Algumas questões sobre e morte e o Além

Pe. Henrique Soares da Costa http://www.padrehenrique.com

É importante compreender que nossa esperança repousa unicamente em Cristo: sua Ressurreição é garantia e modelo da nossa: o destino de Jesus na sua morte e ressurreição é o único critério para o cristão; é a garantia da nossa Esperança. Aquilo que aconteceu nele é feliz antecipação da nossa herança futura.
A Escritura nos ensina que a Parusia do Senhor Jesus, sua Manifestação gloriosa no final dos tempos, será causa da Ressurreição dos mortos: Cristo glorioso glorificará toda a humanidade, vivos e mortos! “Esperamos o Salvador Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a si toda criatura” (Fl 3,20s).
É importante, desde já, fazer uma distinção sobre o modo como o Novo Testamento utiliza a palavra ressurreição. Há três modos de usá-la:
• em sentido figurado: como volta de um morto a esta vida. É o caso da “ressurreição” de Lázaro, da filhinha de Jairo, do filho da viúva de Naim… etc. Aqui não se trata rigorosamente de ressurreição no sentido cristão da palavra, mas de revitalização: ou seja, alguém estava morto e voltou a esta vidinha nossa… e, depois, morrerá novamente!
• em sentido neutro: como passo prévio ao juízo: o homem não ficará na morte: ele, quer salvo, quer condenado, continuará vivendo após a morte. Todos “ressuscitarão” para serem julgados! Este não é ainda o sentido teologicamente mais profundo, mais forte e verdadeiro de ressurreição;
• em sentido teologicamente positivo: como plena participação e configuração à vida de Cristo ressuscitado. Tal ressurreição é reservada somente aos bons. Aqueles que viveram na comunhão com Cristo serão completamente transfigurados, transformados em Cristo ressuscitado: serão como o próprio Cristo: passarão desta vida para uma outra Vida, plena, realizada, eterna! Este último sentido é o que realmente tem importância e faz parte essencial do anúncio cristão; antes, é o próprio centro do Evangelho! Quando dizemos que Cristo ressuscitou e que, nele, nós ressuscitaremos, é neste último sentido que estamos falando! A Ressurreição que nos interessa é esta última!
A Ressurreição, então, é a passagem desta vida (limitada, ambígua, precária) para uma Vida plena, diversa desta nossa vida de agora: teremos a Vida do próprio Cristo ressuscitado, uma Vida divina, na qual nosso corpo e nossa alma serão transfigurados. Como diz a III Oração Eucarística para as crianças: “No Reino de Jesus ninguém mais vai sofrer, ninguém mais vai chorar, ninguém mais vai ficar triste!” Nosso corpo será transfigurado, como o de Jesus: não mais estará sujeito às leis da física, da matéria como a conhecemos agora; nossa alma também será ressuscitada, transformada: nunca mais teremos tristezas, depressão, saudades… seremos plenamente realizados, porque estaremos para sempre com o Senhor, que saciará todas as nossas sedes e realizará todos os mais profundos anseios do nosso coração! É isto que significa ressuscitar! Mas, vamos seguir passo a passo o Novo Testamento!
Vejamos, primeiro, o ensinamento do próprio Jesus Cristo. No seu tempo, a Ressurreição era uma doutrina muito divulgada e aceita entre os judeus. Somente os saduceus achavam que a vida acabava com a morte (cf. Mc 12,18; At 23,6-8). Uma idéia que nunca existiu no meio do povo de Israel foi a da reencarnação – esta não tem nada a ver com a Bíblia! Contra os saduceus, Jesus ensinou que Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos: ele é o Deus que ressuscita seus amigos (cf. Mc 12,18-27). Ainda para Jesus, essa vida após a morte será vida com o corpo e não somente como a alma: “Não tenhais medo dos que matam o corpo mas não podem matar a alma. Deveis ter medo daquele que pode fazer perder-se a alma e o corpo no inferno” (Mt 10,28). Observe-se bem que segundo o Evangelho, corpo e alma sofrerão no inferno: “Se teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e joga longe de ti, pois é preferível perder um dos teus membros do que teu corpo inteiro ser lançado no inferno. E se tua mão direita te leva a pecar, corta-a e joga longe de ti, pois é preferível perder um dos teus membros do que teu corpo inteiro ser lançado no inferno” (Mt 5,29s). É o homem todo, no seu corpo e na sua alma, que é salvo ou condenado! A idéia de uma alma desencarnada que não tem nada a ver com o corpo, é totalmente contrária ao pensamento bíblico! Jesus ensina também que bons e maus “ressuscitarão” (no segundo sentido, que apresentamos acima) para o julgamento: e, assim, uns ressuscitarão para a Vida (verdadeira Ressurreição: estar com Cristo e, com ele, ser glorificado) e outros ressuscitarão para a morte (ressurreição em sentido figurado: viver no Inferno, viver na morte!): “Não vos admireis, porque vem a hora em que todos os que estão mortos ouvirão sua voz. Os que praticaram o bem sairão dos túmulos para a ressurreição da vida; os que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados” (Jo 5,28s). O próprio Senhor ensinou também que, após a sua Ressurreição, aqueles que comessem, na Eucaristia, seu corpo ressuscitado, pleno de Vida eterna, ressuscitariam também com ele e como ele. Ressurreição, aqui, no sentido forte, profundo, verdadeiro: “Jesus lhes disse: “Na verdade eu vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim, e eu nele” (Jo 6,53s.56).
Assim, Jesus não somente anunciou sua própria Ressurreição (cf. Mc 8,31; Mt 16,21ss; Lc 9,22, etc), como também ensinou que todos ressuscitariam através dele! Há uma passagem em Mateus que mostra bem isto: “Os túmulos se abriram e muitos corpos de santos ressuscitaram. Eles saíram dos túmulos, depois da ressurreição de Jesus, entraram na Cidade Santa e apareceram a muitos” (Mt 27,52s). Qual o significado deste trecho tão misterioso? Será que os mortos voltaram a viver e entraram em Jerusalém, espantando as pessoas?! Não! Não é isto que Mateus quer dizer! Ele quer afirmar somente que a Ressurreição de Cristo é causa da nossa ressurreição. A Cidade Santa na qual os mortos entrarão é a Jerusalém celeste, a Glória do Corpo de Cristo, isto é, o Céu (cf. Ap 21,2.10; 22,19). Mateus usa, aqui, aquele tipo de linguagem que os estudiosos da Bíblia chamam de apocalíptica: uma linguagem cheia de figuras!!
Concluindo, por enquanto: 1) Jesus ensinou a Ressurreição; 2) ensinou que ressuscitaremos em todo o nosso ser, corpo e alma; 3) ensinou que há uma Ressurreição para a Vida (verdadeira Ressurreição) e uma ressurreição para a morte (para a condenação: ressurreição às avessas!); 4) o próprio Jesus é a causa da nossa Ressurreição: ressuscitaremos porque ele ressuscitou!
Vimos que Jesus nos prometeu a ressurreição: ressuscitaremos nele e por ele: “Eu sou a Ressurreição!” (Jo 11,25), ressuscitaremos em todo o nosso ser, corpo e alma. Agora, nos perguntamos: como e quando será isso?
Ressuscitaremos da morte, que é o término de nossa vida terrena. Mas, que é a morte? É certo que, com ela, a condição humana chega a seu ponto culminante e também a seu ponto crítico, pois esta experiência da morte toca o homem não somente pela dor da progressiva dissolução de seu corpo como também pelo temor da desaparição perpétua. Não podemos, portanto, fazer de conta que a morte não existe ou, se existe, diz respeito aos outros e não a nós. Pelo contrário: a morte dos outros deve recordar-nos que também nós morreremos: com a morte, realiza-se o ponto crítico da passagem desta vida para uma outra situação – aquela podemos esperar somente na fé. Todo organismo vivo decai até chegar à morte natural. Não dá para escapar da morte. A medicina pode prolongar a vida, mas não pode evitar a morte
Mas, o que significa morrer? A morte, primeiramente, revela nossa finitude, nossa limitação! Que estranho é o ser humano: sonha com a vida, deseja a vida… mas sabe que um dia morrerá! Aliás, o homem é o único ser que sabe que morrerá… por isso mesmo, a morte não é somente uma questão física, biológica: não é apenas um corpo que morre e vira cadáver; é uma pessoa que morre! Eu não digo: “Meu corpo morre”, ao invés, digo e sinto: “Eu morro!” São minhas relações, é minha história, meus sonhos, que são colocados em crise com a morte! E é interessante: em geral, aproximamo-nos da morte exatamente quando mais queremos viver, quando, já adultos, damos tanto valor à vida e somos já maduros. Em certo sentido, nunca estamos prontos para morrer, mas para viver. E é assim, já que Deus é o Deus vivo e nos criou para a vida e não para a morte. A morte terá sempre um gostinho amargo, mesmo para quem crê. A morte com gosto de morte entrou no mundo pelo pecado (cf. Sb 2,23s). Nossa passagem pelo mundo deveria terminar com o desabrochar da eternidade, sem esta experiência dolorosa a que chamamos morte. A morte como experiência negativa e ameaça do nada é conseqüência do pecado (cf. Rm 6,23). A morte, como nós experimentamos atualmente, na nossa situação de pecadores, não é somente uma questão biológica, física; é também uma decadência pessoal, existencial. É dolorosa no corpo e na alma! Tem um gosto de derrota, de salto no escuro, de pulo no desconhecido! E não adianta fingir que a morte não existe! O que nossa fé nos ensina é exatamente isso: Deus não é o autor dessa situação de morte em que vivemos: as mortes de cada dia, de cada derrota, de cada sofrimento, de cada injustiça, traição ou lágrima… tudo isso é conseqüência de uma humanidade pecadora…. Tampouco Deus é o autor da última morte, daquela que marca o término da nossa vida terrena… Se a experimentamos como derrota, dissolução, salto no escuro… é devido à situação de pecado. Se o homem não tivesse dito “não” a Deus, não experimentaria a partida deste mundo como morte, como derrota dolorosa, como salto no escuro…
É dessa morte que Cristo, o Ressuscitado, nos liberta: “Eu sou a Ressurreição!” Ora, desde o Batismo, estamos unidos a ele; vamos morrendo com ele nesta vida para, enfim, ressuscitar também com ele, participando da sua ressurreição: para nós, morrer é morrer com Cristo e como Cristo, é completar em nós a morte de Jesus para que a vida ressuscitada de Jesus nos plenifique. Assim, aquele que é batizado já não vê na morte o angustioso fim do seu ser, mas a possibilidade última e mais radical de configuração com seu Modelo, que é Cristo ressuscitado. Sim, seremos como Cristo ressuscitado! Vista deste modo, a morte torna-se o ato que deve ser vivido com vontade de entrega livre e amorosa, na esperança da ressurreição. A morte torna-se um co-morrer com Cristo para co-ressuscitar com ele: ”Com ele fomos sepultados pelo batismo na morte para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também andemos em novidade de vida. Pois, se estamos inseridos no solidarismo de sua morte, também o seremos no da ressurreição” (Rm 6,4s). Desde o Batismo começamos a morrer com Cristo, isto é, começamos a viver as mortes de cada dia como participação na morte do Senhor. Tal participação deve ser ratificada pela mortificação de cada dia, pela participação da Eucaristia, que é mergulho na morte e ressurreição do Senhor Jesus. Assim, o cristão vai se apropriando da própria morte e dando-lhe um sentido, fazendo de sua morte uma morte-ação, morte como união com o Cristo morto! Morrer, para o cristão, já não deveria ser uma fatalidade: ele deveria dizer: “Morro a cada dia, em cada lágrima, em cada tristeza, em cada derrota… Mas não morro como um derrotado: uno minhas mortes à morte do Senhor, para como ele ressuscitar!” A morte, assim, vai ganhando sentido em nós, vai se tornando uma realidade humana e cristã, e não uma fatalidade biológica. Enquanto isso, para quem não se abre para o Cristo, para quem o refuta, a morte vai sendo experimentada a cada dia como poder aniquilador, vazio do ser e total fracasso da existência… Assim, vamos morrendo e caminhando para o encontro com Cristo. Para nós, com efeito, a morte tem também este aspecto belíssimo: é um encontro com o Senhor: “Ficai preparados, porque, numa hora que não pensais, o Filho do homem virá” (Lc 12,40).
Sim, Jesus virá: ele é aquele que vem ao nosso encontro (cf. Mt 11,2): “Vou e retorno a vós” (Jo 14,18.28). Ele vem vindo sempre na nossa existência: veio no Batismo, quando entramos em comunhão com sua morte e ressurreição, vem sobretudo na Eucaristia, quando mergulhamos na sua Páscoa e já experimentamos o gosto da comunhão com ele, vem a cada dia para nos fazer passar da “carne” (pecado) ao “espírito” (vida no Espírito Santo). Finalmente, ele virá na passagem definitiva, no momento do encontro final. Por isso mesmo Paulo exclamava: “O meu desejo é partir para estar com Cristo” (Fl 1,23). Assim, morrer é ir ao encontro do Salvador que vem, quem irrompe com sua Glória na minha pobre existência; morrer é ser surpreendido por Cristo, é ser invadido pela sua Vida divina e plena. Santa Teresinha dizia com sabedoria: “Não é a morte que virá me buscar, é o bom Deus!”
Pois bem: eis a conclusão maravilhosa: não morreremos sozinhos; morreremos como Cristo e com Cristo; mais ainda: morreremos em Cristo. Ele não vem sozinho ao nosso encontro! Ele é o primogênito dentre os mortos, é a Cabeça da Igreja. Tendo sido batizados, morremos como membros do seu corpo, que é a Igreja e morremos no seu corpo. Assim, não morremos sozinhos: morremos na comunidade dos santificados, dos batizados! A morte será o passar da Igreja terrestre para a Igreja da Glória. É também mistério de comunhão com os irmãos que ficam e que fazem parte do Corpo de Cristo, que é a Igreja!
O que ressuscitará em mim?
Comecemos deixando claro que, para a Sagrada Escritura, o homem é um todo, corpo e alma espiritual ou em outra linguagem, corpo, alma e espírito. Nós temos a dimensão material (nosso corpo) e aquela dimensão imaterial (a que denominamos alma). São dimensões, não pedaços nossos! Eu sou um todo: sou meu corpo e sou minha alma! É absolutamente contrário à Sagrada Escritura e a uma sã antropologia pensar o ser humano simplesmente como um espírito que “tem” um corpo, que está encarnado num corpo! Nada disso: sou corpo e alma!
Pois bem, dizer que ressuscitarei, é afirmar que todo o meu ser, corpo e alma, é chamado à comunhão com o Cristo. Não é um pedaço de mim que vai ressuscitar, mas eu todo! Minha alma, sede de toda a minha vida inteligente, afetiva, sentimental e espiritual, será ressuscitada; também meu corpo, com o qual eu amei, chorei, sorri, criei relações, exprimi sentimentos, também será transfigurado!
Meu corpo ressuscitará: São Paulo diz de modo belíssimo: “Semeado corruptível, o corpo ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual” (1Cor 15,42-44). É interessante que a ressurreição da carne sempre foi escândalo, já no novo Testamento: os atenienses zombaram de São Paulo, quando este falou sobre ela: “Ao ouvirem falar da ressurreição dos mortos, alguns começaram a zombar, enquanto outros diziam: ‘A respeito disto, te ouviremos outra vez’” (At 17,32). Como os espíritas atuais e os espiritualistas de todas as épocas, os gregos aceitavam que a alma era imortal e “desencarnava”… mas que também o corpo ressuscitava, não aceitavam de modo algum! Até os cristãos de Corinto, na Grécia, pensavam que a ressurreição era somente espiritual. São Paulo os repreende duramente: “Se se proclama que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou!” (1Cor 15,12s). É o mesmo engano dos espíritas e de todos os espiritualistas! Nós cremos que nosso corpo também ressuscitará.
Mas como isso é possível? Ele será destruído totalmente e, mais ainda, já nesta vida, meu corpo vai mudando, células vão morrendo e outras vão nascendo… Por um lado é meu corpo mas, por outro, é sempre e continuamente renovado… Então, como ressuscitará? O engano aqui é querer descrever o corpo da ressurreição! Também os coríntios perguntavam a São Paulo como isso seria possível: “Mas, dirá alguém, como ressuscitam os mortos?” E o Apóstolo respondia com firmeza e quase indignação: “Insensato!” (1Cor 15,36). Não se pode descrever o corpo da ressurreição, não se pode imaginar como será, e isso por uma razão simples: o corpo da ressurreição não pertence mais a este mundo. Será o meu corpo, mas não mais do modo como eu agora o possuo; será minha matéria, mas totalmente transfigurada pelo Espírito do Ressuscitado: “Semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual” (1Cor 15,44). Um dos grandes enganos de muitos teólogos atuais é a preocupação em imaginar como será possível um corpo ressuscitado a partir do nosso pobre corpo mortal. É totalmente impossível qualquer descrição! Basta pensar no corpo do Ressuscitado: era seu corpo, o mesmo que fora crucificado e os apóstolos conheciam tão bem: tinha as marcas da paixão (cf. Lc 24,40; Jo 20,27); e, no entanto, eles tinham dificuldades em reconhecer o Senhor, pois seu corpo estava agora glorificado: “Depois disso, manifestou-se em outra forma a dois deles” (Mc 16,12); “Seus olhos estavam impedidos de reconhecê-lo. Ele ficou invisível diante deles” (Lc 24,16.31); “Já amanhecera, Jesus estava de pé, na praia, mas os discípulos não sabiam que era Jesus” (Jo 21,4). Então: é pela potência do Espírito do Ressuscitado que nosso corpo ressuscitará como o corpo do Cristo glorioso. Especular mais que isso, é inútil e presunçoso.
E a alma? Também ressuscita. É importante não confundir ressurreição com imortalidade! Os espíritas confundem direitinho as duas coisas! Dizer que a alma é imortal é dizer que ela, por ser imaterial, não pode ser desagregada, decomposta, destruída. Mas isso não quer dizer que ela tem a garantia de ser feliz. Muito pelo contrário: a alma, simplesmente entregue a si mesma, teria as mesmas privações que já tem aqui: solidão, medo, tristeza, angústia, incompletude, etc…Afirmar que a alma ressuscita é afirmar que ela também – e não só o corpo! – será transfigurada e glorificada: nada mais de tristeza, solidão, saudade, angústia, medo… O mesmo Espírito Santo que ressuscitou Jesus será a vida de nossa alma: passaremos de uma vida simplesmente psíquica para uma vida espiritual (= “espirituada”)!
Então, em todo o nosso ser, corpo e alma, estaremos com o Senhor, revestidos totalmente de sua glória, participando da sua ressurreição!
Como e quando será a ressurreição?
Nossa ressurreição é um processo que inicia logo após a morte e terminará na Parusia: logo após a morte, com uma dimensão mais individual e na Parusia do Senhor, com uma dimensão mais marcadamente comunitária e cósmica. Vejamos:
A morte, além de ser uma realidade que me atinge como “eu”, como identidade e como alguém que vive neste mundo em relações com as coisas e as pessoas, é também uma dilaceração de minha unidade psicossomática: meu corpo e minha alma, inseparáveis, separam-se! Por isso também a morte é experimentada por nós como algo existencialmente doloroso, como uma realidade que traz em sai algo de violência… Eu sou meu corpo, e na minha corporeidade experimento a morte e a dissolução do meu corpo, que vai decompor-se até o nada. Eu sou minha alma, que padece a separação do corpo com o qual e para o qual foi criada.
Mas imediatamente após a morte, minha alma ressuscita, isto é, é transfigurada com Cristo e em Cristo. Note-se bem: a alma ressuscita! Não basta, para ela, ser imortal porque é indestrutível: isso não garantiria a felicidade da alma. Somente transfigurada pelo Espírito do Cristo ressuscitado, temos a plenitude! É nesta plenitude feliz que nossa alma entra logo após a morte. Isto é o céu: estar com Cristo; aí ninguém mais vai sofrer, ninguém mais vai chorar, ninguém mais vai ficar triste, ninguém mais vai ter saudade. Perder o Cristo é o inferno, que também começa logo após a morte para a alma dos condenados. Note-se que, para os cristãos, não é suficiente afirmar que a alma é imortal; é necessário afirmar também que ela ressuscitará e será plenificada em Cristo!
Mas, o que é a alma? É o nosso princípio de vida, de consciência e liberdade, é o núcleo de nossa personalidade, do nosso eu. Não é uma parte, um pedaço de mim, mas uma dimensão minha. Na minha alma, na minha dimensão anímica, eu tenho consciência de mim, de minha identidade: sei quem sou, sei o que quero, recorde plenamente o que fui e o que vivi! Então, logo após a minha morte uma minha dimensão – a alma! – já entra na plenitude de Cristo, mas o meu ser humano como um todo ainda não está totalmente glorificado: falta a dimensão corporal…
Na Parusia do Senhor, quando ele se manifestar na sua glória, todo o mundo físico será glorificado e, aí também meu corpo, minha dimensão somática, física, material, será ressuscitada. Então, em corpo e alma eu estarei com o Senhor glorificado ou, estarei eternamente distante dele.
Então, há duas afirmações que é necessário manter quisermos ser coerentes com a Tradição da Igreja e com os dados da Escritura: 1) após a morte não ficamos dormindo, mas já ressuscitamos; 2) esta ressurreição imediata atinge somente uma dimensão nossa – a alma; no final dos tempos, também nosso corpo ressuscitará. Nosso corpo não ressuscita logo após a morte, mas somente no final dos tempos, no Dia da Ressurreição!
Alguns teólogos perguntam: como pode existir uma alma separada? É preciso ter cuidado com esta questão! Filosoficamente falando, não pode existir alma separada neste mundo: a alma foi feita para animar o corpo e o corpo só é corpo humano porque animado por uma alma humana! Isto vela para este mundo! Com a morte, nós saímos deste mundo e, então, não há muito que a filosofia ou a teologia possam falar sobre o além de modo descritivo. Não podemos descrever nossa situação no além! Um outro ponto importante, a ser tomado em consideração: o modelo do que acontecerá conosco após a morte é Cristo! Ora, entre sua morte e ressurreição, enquanto seu corpo era destruído pela morte, no túmulo, sua alma humana não estava ali, unida ao corpo; não estava morta, apesar de ainda não estar glorificada! Então, não é impossível falar numa alma “separada”. Além do mais, a alma não fica propriamente separada: desde o Batismo e pela Eucaristia estamos incorporados em Cristo, no seu corpo, que é a Igreja: mesmo sem o nosso corpo físico e individual, estamos inseridos em Cristo e unidos ao seu corpo! Mesmo antes da ressurreição final do nosso corpo, não somos alma sem corpo algum, separada de todo corpo! Estamos no corpo de Cristo! Como é isto? Não podemos descrever nem imaginar, pois são realidades que pertencem ao mundo futuro! Sabemos disso, no entanto, pela fé naquilo que o Novo Testamento atesta e a contínua Tradição da Igreja ensina.
Quanto ao modo como o corpo ressuscitará no final dos tempos, já vimos nos artigos passados; basta dar uma olhadinha.
Uma última observação: em Maria, a Virgem, a ressurreição já foi totalmente realizada. Ela – e somente ela entre todos os santos – já está totalmente com Cristo, em corpo e alma, devido à sua singularíssima união com o Cristo!
Ficamos por aqui. Espero que, de modo geral, algumas questões sobre o além tenham ficado mais clara. Para uma apresentação mais detalhada, leia uma série de artigos sobre escatologia, que escrevi neste mesmo site.

Escatologia – Sobre o fim do mundo!

Este tópico deveria chamar-se “Escatologia”. Mas, se eu colocasse este título, quem iria lê-lo? Com o título que escolhi, tenho certeza que ninguém resistirá à curiosidade!
O presente escrito é o primeiro de uma série que pretendo apresentar sobre a Escatologia, a parte da teologia que trata das “últimas coisas”, dos novíssimos, como se dizia antigamente… “morte, juízo, inferno e paraíso”. É assim que se aprendia no catecismo.
Mas, para que possamos compreender bem a Escatologia cristã, é necessário, antes, entender uma coisa muito importante: o centro da esperança cristã é Cristo ressuscitado; assim, ele é também o centro de tudo aquilo que vamos afirmar nestes tópicos. Jesus é o centro da fé e da história humana: tudo quanto o Pai fez e pensou para a humanidade e o mundo foi através de Cristo e somente em Cristo terá sua realização (cf. Cl 1,15-20). Portanto, as coisas últimas que acontecerão nada mais são que o cumprimento amoroso daquilo que o Pai sonhou para nós desde o início em Cristo: “Disse-me, então: “Está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. A quem tiver sede, darei gratuitamente água da fonte da vida” (Ap 21,6). Jesus é, assim, o Fim (quer dizer, a Finalidade, Escaton, em grego) de toda a criação e de toda a humanidade: Jesus é o nosso único Futuro; Futuro certo, Futuro para o qual tudo quanto foi criado caminha: ele é o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim!
Este Futuro nosso, que é Jesus, tem quatro características:
• É um Futuro Absoluto. Nós estamos acostumados com tantos futuros: todo dia planejamos e enchemos a agenda de compromissos; fazemos planos para o futuro. Os futuros que esperamos e planejamos podem acontecer ou não… e, se acontecerem, um dia vão virar passado. É, assim: de futuro em futuro, nossos futuros vão se tornando presentes e, depois, passados… Mas, quando dizemos que Cristo é um Futuro absoluto, estamos afirmando que ele vai acontecer de certeza porque tudo foi criado pelo Pai através dele e para ele. Cristo é o único Futuro certo da humanidade! E mais ainda: é o Futuro que nunca será passado. Quando ele vier, quando estivermos nele, seremos plenos; nós e toda a criação… para sempre!
Ele é um Futuro que vem. Este Futuro, que é o próprio Cristo, é vinda, é chegada! Nos nossos futurozinhos, somos nós que vamos até eles, eles estão sempre dentro do tempo: viram presente e depois passado. Nossos futuros vão sendo feitos de presente: com o presente vou plantando o futuro, vou caminhando para ele. Com Cristo não é assim: ele vem e vem trazendo algo novo: um mundo novo, uma vida nova, uma Glória sem fim, que vai transformar tudo! Ele será a Novidade que vai renovar toda esta velha criação, toda esta velha humanidade! Quando ele vier fará novas todas as coisas (cf. Ap 21,5). É por isso que não podemos nem pensar direito como será o final dos tempos e a Vida na eternidade: é Futuro novo, é algo muitíssimo diferente deste mundo que conhecemos. Não tem nada a ver com aquele céu boboca da novela “A Viagem”, nem com as coisas que a gente imagina. Por isso a Escritura exclama: “Santo, santo, santo
é o Senhor Deus, o Todo-poderoso, que era, que é e que vem” (Ap 4,8). Não se diz: “Deus que era, que é e que será”, mas “Deus que vem!”… vem como novidade que enche de alegria a vida do mundo e a nossa, porque vem trazendo a graça e a salvação! Por isso mesmo Jesus ensinou a pedir no Pai nosso: Venha o teu Reino!” E a Bíblia termina pedindo: “Vem Senhor Jesus!” (Ap 22,20).
• Ele é um Futuro que já se faz presente. Este Futuro, que é Cristo, que será uma novidade linda para toda a criação, é também um Futuro já presente de modo misterioso. Ele está vivo, ressuscitado no nosso meio, agindo pela força do seu Espírito. Basta pensar na Eucaristia e nos demais sacramentos, na graça que Cristo derrama no nosso coração. Quantas vezes a gente experimenta o aperitivozinho do céu aqui na terra, quando experimenta a união com Cristo no nosso coração! Estar com Cristo agora é já o início do Futuro que virá!
• Este Futuro exige uma resposta humana. Este Futuro que é Cristo, vem ao nosso encontro; mas nós também vamos ao encontro dele. Como? Respondendo-lhe “sim” na nossa vida! Cada escolha nossa, cada palavra, cada decisão, cada ato, é um “sim” ou um “não” a esse Futuro, a Cristo. Então, nossas ações neste mundo têm já um gosto de eternidade, preparam o nosso encontro com o Senhor que vem. Não existe ação neutra: é sim ou não ao Cristo que vem!
Ainda uma coisa, para terminar: se Cristo é o nosso Futuro, o nosso Fim último, a nossa Finalidade, nosso Destino, nosso Porto, então, tudo aquilo que vai acontecer conosco e com o mundo, no final dos tempos, somente pode ser compreendido a partir de Cristo: ele é o Fim Último (Escaton) que dá sentido às “coisas últimas” (escatà). Por exemplo: só poderemos compreender o que é a morte, o céu, o inferno, o purgatório, o juízo, etc… se colocarmos tudo isto em relação com Cristo ressuscitado, nosso Destino! É isto que vamos fazer neste série de tópicos. Então a gente vai ver quanto é bela a esperança cristã!
Guardemos bem isto: a esperança cristã não tem outro objeto a não ser o próprio Deus, Futuro absoluto e definitivo do homem, que vem a nós em Jesus Cristo. Assim, podemos compreender as palavras de um grande teólogo deste século: “Deus é o fim último (Escaton) das criaturas: ele é o céu para quem o alcança, o inferno para quem o perde, o juízo para quem por ele é examinado, o purgatório para quem é por ele purificado… e tudo isto no modo em que ele dirigiu-se ao mundo, isto é, no seu Filho, Jesus Cristo, que é a revelação de Deus e, portanto, a síntese das coisas últimas!”
Resumindo: nosso Fim é Deus que vem a nós em Jesus Cristo para nos salvar. Nele tudo se explica: o céu é estar com ele; o inferno é perdê-lo; o juízo é se ver na sua luz; o purgatório é ser purificado no seu amor e verdade!

A Vinda do Senhor segundo o Antigo Testamento

Vimos, no tópico passado, que o Futuro que Deus prepara para o mundo todo e para os cristãos é o próprio Cristo: a criação toda caminha para ele, a história caminha para ele, nossa vida caminha para ele!
No Credo nós professamos, conforme a Escritura, que o Senhor Jesus ressuscitado “está sentado à Direita de Deus Pai, donde há de vir em sua Glória para julgar os vivos e os mortos. E o seu Reino não terá fim”.
Esta Vinda gloriosa de Cristo no final dos tempos é chamada de Parusia do Senhor. A palavra grega “parusia” era usada para significar a chegada solene do rei em uma determinada cidade. Quando ele chegava, provocava um ambiente de alegria e distribuía ao povo benefícios e alimentos em fartura. Os cristãos, ao pensarem na vinda do Cristo como Rei eterno, que virá trazendo a alegria da salvação final, deram a este último acontecimento da história humana o nome de Parusia do Senhor.
A idéia de que haveria um Dia do Senhor já existia desde o Antigo Testamento. O povo de Israel sempre soube que o seu Deus era o Senhor dos tempos, Deus que age na história humana, levando o seu povo para um futuro sempre melhor e cheio de esperança. Se observarmos bem os textos do Antigo Testamento aparece claro que Deus sempre está prometendo ao seu povo um futuro de bênção e felicidade: ele é o Deus da Promessa, o Deus que nunca fica parado no presente, o Deus que sempre faz o povo caminhar ao encontro do futuro que o Senhor preparou, futuro sempre melhor, futuro de vida. Por isso mesmo aparece tanto nos profetas aquelas expressões: “eis que virá um tempo”, “eis que virão dias”, “naqueles dias”, “acontecerá no fim dos dias”… Assim, enquanto para os pagãos o tempo nunca mudava e tudo que já tinha acontecido ia continuar sempre acontecendo e o mundo não tinha jeito mesmo, para o povo de Deus a história do mundo e a história do povo de Israel caminham para um destino, uma finalidade, uma plenitude, que o próprio Deus prometeu e preparou! Bastava que o povo não se fechasse para Deus, que aceitasse caminhar com o Senhor. Isto é muito importante, pois fica claro que não existe destino: o homem é chamado a construir seu destino dizendo sim a Deus e caminhando para o futuro que ele lhe preparou. Cada pessoa é livre: pode dizer sim ou não ao convite de Deus!
É assim que Israel vai tendo cada vez mais certeza de que Deus age na história, conduzindo todos os acontecimentos. O povo da Bíblia sabe que pode se confiar nas mãos do Senhor e esperar num futuro no qual Deus vai agir de modo pleno, com uma intervenção fulgurante, mudando toda tristeza do seu povo em alegria, toda opressão em liberdade, todo pranto em sorriso, toda morte em vida. Todo sofrimento do povo de Israel, todas as suas humilhações terão fim e Deus vai consolar para sempre o seu povo, numa nova situação, em que não haverá mais dor, opressão, pecado nem morte. Este futuro é conhecido, no Antigo Testamento, com o nome de Dia do Senhor. Será um Dia de Julgamento e de derrota para todo o pecado do mundo, para todo o mal praticado na história humana e um Dia de salvação e vitória para todos os amigos de Deus, particularmente para o povo de Israel. Por exemplo: “Os olhos orgulhosos do homem serão humilhados, e será abatida a arrogância humana; naquele Dia só o Senhor será exaltado. Porque é o Dia do Senhor Todo-poderoso contra tudo que é orgulhoso e arrogante, contra tudo que se exalta e que será humilhado (…); só o Senhor será exaltado naquele dia. Os ídolos desaparecerão completamente…” (Is 2,11s.18s). É importante observar que quando o Antigo Testamento fala desse Dia do Senhor usa comparações, imagens, figuras, metáforas, para ensinar que será um Dia solene e decisivo, Dia da verdade, Dia de julgamento, Dia que envolverá não somente a humanidade, mas toda a criação: “Tocai a trombeta em Sião, dai alarme em minha montanha santa! Tremam todos os habitantes do país, porque está chegando o Dia do Senhor! Sim, está próximo! É um Dia de trevas e escuridão, um Dia de nuvens e obscuridade”! (Jl 2,1s); “Colocarei sinais no céu e na terra, sangue, fogo e colunas de fumaça! O sol se transformará em trevas, a lua em sangue, antes que chegue o Dia do Senhor, grande e terrível”! (Jl 3,3s); “Eis que vem o Dia, que queima como um forno. Todos os arrogantes e os que praticam o mal serão como palha; o Dia que vem os queimará de modo que não lhes restará raiz nem ramo. Mas para vós que temeis o meu nome, brilhará o sol de justiça, que traz a cura em seus raios” (Ml 3,19s). Nestes textos, a imagem da trombeta significa solenidade, julgamento (pois os julgamentos e as entradas dos personagens solenes eram sempre anunciadas com o toque da trombeta), os sinais no céu e na terra são imagens para mostrar que esse Dia do Senhor terá importância para toda criação e o fogo recorda que o Senhor purificará sua criação de todo pecado e maldade. Trata-se de um tipo de linguagem chamado de linguagem apocalíptica, que descreve as coisas de modo bem estonteante, vivo, exagerado, em que o importante não são os detalhes, mas a idéia que as imagens querem transmitir!
Mais uma coisa: aos poucos, os profetas vão descobrindo que este Dia do Senhor estará ligado à chegada de um personagem misterioso, chamado de Messias (= o Ungido de Deus) e, às vezes, de Filho do Homem: “Continuei a prestar atenção às visões noturnas, eis senão quando, com as nuvens do céu, vinha vindo um como filho de homem; ele avançou até junto do Ancião e foi conduzido à sua presença. Foram-lhe dados domínio, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam. Seu domínio é eterno e não acabará, seu reino jamais será destruído” (Dn 7,13-14). Esse Filho do Homem viria de junto de Deus (representado aqui pela imagem do Ancião, recordando a sua eternidade). Quando a profecia diz que ele vem sobre as nuvens, quer dizer que ele vem do mundo divino, que é alguém mais que um simples ser humano. Ele vem para estabelecer um reino eterno, reino de Deus, o Dia do Senhor! Assim, na esperança do povo de Deus, o Senhor mandaria Alguém, chamado de Messias ou Filho do Homem, um personagem misterioso, que traria consigo o Dia do Senhor.
Então, resumindo: (1) o povo de Deus sempre soube que sua história estava nas mãos de seu Deus; (2) este Deus preparava para o seu povo um futuro de salvação, alegria, plenitude e paz, chamado Dia do Senhor, (3) este Dia será de julgamento para os maus e os opressores do povo eleito, um Dia eterno, de uma situação completamente nova, (4) este Dia será trazido pelo Filho do Homem, pelo Messias.
No próximo tópico veremos o que o Novo Testamento ensinou sobre este Dia do Senhor.

A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – I

No tópico passado vimos que a Vinda do Senhor no final dos tempos é chamada de Parusia, que significa chegada, vinda de alguém importante e que traz consigo dons e bênçãos. Vimos também que já no Antigo Testamento Israel esperava pelo Dia do Senhor, Dia de salvação para os amigos de Deus e de julgamento para os maus. Este Dia do Senhor, anunciado pelos profetas, estava ligado à vinda de um personagem misterioso: o Messias, o Filho do Homem.
O Novo Testamento continuou falando no Dia do Senhor, relacionando tudo a Cristo: é ele o Messias, o Filho do Homem prometido pelo Antigo Testamento. Para os cristãos, o Cristo que veio para salvar, voltará com glória para levar tudo à plenitude da salvação. Esta Vinda ou Manifestação do Senhor Jesus era chamada pelos cristãos e pelo Novo Testamento com o nome de Dia do Senhor ou Parusia do Senhor. Esta Parusia de Cristo será Dia de alegria, de plenitude, de consumação, de glória. Será também Dia da Aparição do Senhor, que vai revelar toda a sua glória, toda a vitória da sua Ressurreição; vitória sobre o pecado, o egoísmo e a morte! A Vinda do Senhor será, portanto, uma verdadeira manifestação: todo o mundo verá e reconhecerá, finalmente, a soberania de Cristo!
Nos primeiros tempos da Igreja esta Parusia foi ardentemente desejada e pensada como algo iminente, que iria acontecer logo, a qualquer momento. Mas, por que esta pressa da Vinda de Cristo? O motivo era este: se Jesus ressuscitou e tudo lhe está submetido é normal que se pensasse que o domínio do Senhor devesse manifestar-se rapidamente: quem tem a alegria da salvação, deseja logo a sua plenitude; fica impaciente para estar na plenitude do Cristo ressuscitado. Assim, encontramos nos textos mais antigos do Novo Testamento afirmações dessa proximidade da Parusia: “Irmãos, não queremos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos, para não vos entristecerdes, como os outros homens, que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos também que Deus levará com Jesus os que nele morrerem. Eis o que vos declaramos conforme a palavra do Senhor: nós, que ficamos ainda vivos, não precederemos os mortos na vinda do Senhor. Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do céu e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os vivos, que estamos ainda na terra, seremos arrebatados juntamente com eles para as nuvens, ao encontro do Senhor nos ares. Assim estaremos sempre com o Senhor” (1Ts 4,13-17).
É necessário fazer algumas observações sobre este texto:
• Note-se que Paulo esperava para muito breve a Parusia; e não só: ele mesmo pensava que estaria vivo quando o Senhor viesse. Para ele, quem estivesse já morto ressuscitaria corporalmente e quem estivesse vivo seria transformado em Glória!
• No entanto, é importante notar que Paulo não fazia cálculo algum… não fazia como as seitas nem como os videntes de fim de ano, contratados pelo “Fantástico” da Rede Globo! Não inventava datas para a Vinda do Senhor… somente esperava para logo… porque esperava ansiosamente, esperava com amor!
• Quanto à linguagem que Paulo usa, é a linguagem apocalíptica, que exagera nas figuras e comparações: ele fala em “sinal”, em “som da trombeta”, em “voz do arcanjo”, em “ser arrebatado nos ares”, simplesmente para afirmar que nós seremos elevados até à Glória de Cristo Senhor. O som da trombeta significa que este momento será solene, como as chegadas dos grandes personagens e como os julgamentos: antigamente as trombetas soavam quando chegavam os reis e os juízes! Paulo, aqui, não quer descrever a Vinda do Senhor: é impossível fazer tal descrição porque o Dia do Senhor já não pertence a este mundo como nós conhecemos, mas será o começo de um mundo novo! Do mesmo modo a imagem do arrebatamento nos ares é somente uma imagem! As seitas se apegam a isto literalmente por pura e cristalina ignorância!
O que era bonito nos cristãos é que eles não somente esperavam o Senhor, mas sobretudo desejavam sua Vinda. A primeira Comunidade cristã espera e deseja o Senhor na sua Parusia; tanto que exclamava freqüentemente: Marana thá! (= Vem, Senhor!) (cf. 1Cor 16,22; Ap 22,20). Portanto, é muito importante, para o cristão, viver no desejo da plena Manifestação do Senhor. A Liturgia latina exclama ainda hoje em cada Missa: “Anunciamos a vossa morte… vinde, Senhor Jesus!”
Diante disto, uma questão pode ser colocada: os primeiros cristãos erraram, esperaram em vão ao pensar que o Senhor viria logo? Afinal, o tempo passou e o Senhor não veio! Para responder bem a esta questão é necessário primeiramente distinguir sentido cronológico e sentido teológico. É certo que, cronologicamente (ou seja, se olharmos o tempo contado pelos dias e anos), séculos já se passaram e o Senhor ainda não voltou; porém teologicamente (ou seja, do ponto de vista da fé), a certeza da manifestação de Jesus Cristo, o desejo dessa manifestação e a consciência de que ele é Senhor são tão profundas em nós e a sua salvação é tão presente na vida dos cristãos que, para nós a sua Vinda é algo próximo, que exige sempre de nós uma opção imediata, urgente, por ele em toda a nossa vida! A cronologia não é o mais importante! Sabemos que o Senhor virá e, nosso desejo é tanto que continuamos dizendo: ”o Senhor virá em breve: preparemo-nos! Sua Vinda é tão importante que o tempo é breve para nos converter!” É por isso mesmo que o Novo Testamento dá tanta importância à Parusia do Senhor, que levará tudo à plenitude. Tal expectativa revela o desejo e, ao mesmo tempo, a urgência da escolha – o tempo é breve!
É interessante que já no tempo dos Apóstolos alguns cristãos começaram a perder o fervor porque o Senhor não voltava logo, Na sua Epístola São Pedro responde: “Deveis saber que nos últimos dias virão zombadores cheios de escárnio que vivem segundo suas próprias paixões, dizendo: ‘Onde está a promessa de sua vinda? Pois, desde que morreram os pais, tudo permanece igual desde o princípio da criação’. Mas há uma coisa, caríssimos, de que não vos deveis esquecer: um dia diante do Senhor é como mil anos e mil anos como um dia. O Senhor não retarda o cumprimento de sua promessa, como alguns pensam, mas usa de paciência para convosco. Não deseja que alguém pereça. Ao contrário, quer que todos se arrependam. Entretanto, virá o dia do Senhor como ladrão! Por isso, caríssimos, vivendo nesta esperança, esforçai-vos para que ele vos encontre imaculados e irrepreensíveis na paz. E crede que a paciência do Senhor é para nossa salvação!” (2Pd 3,3-15). Notemos que Pedro dá ao problema do atraso da Parusia uma resposta em duas partes: (1) Para o Senhor um dia é como mil anos: é inútil fazer cálculos e esperar que o Senhor cumpra nossos cálculos! (2) Não se devem angustiar se o Senhor não chega; se ele tarda é para a nossa conversão!
Resumindo o que vimos:
• Para nós, cristãos, o Senhor Jesus virá na sua Glória; é isto que chamamos Dia do Senhor.
• Esta Vinda manifestará a todos que Cristo é o Senhor de todas as coisas e de toda a história humana.
• Os primeiros cristãos esperavam para logo a Parusia do Senhor simplesmente porque amavam ardentemente o Cristo: quem ama, deseja logo a presença do Amado.
• Os cristãos não faziam cálculo sobre quando o Senhor voltaria.
• Como o Senhor não veio logo, os cristãos começaram a compreender que o importante é estar sempre preparados e desejando a Vinda do Cristo, aproveitando o tempo para a conversão.
No próximo tópico veremos o que acontecerá na Vinda do Cristo!

A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – II

Vimos, no tópico passado, que os cristãos esperam o Dia do Senhor, que será o Dia da Parusia, da Manifestação gloriosa de Cristo. Mas, em que consistirá esta Manifestação?
Primeiramente é necessário deixar bem claro que o Dia da Vinda do Senhor não é um dia entre os outros dias: é o Dia, Dia que já não pertence à seqüência de dias do nosso modo de contar o tempo… não é um dia de 24 horas. O Dia do Senhor não pertence mais a este nosso tempo; é um Dia sem fim, um Dia eterno, um Dia que já não é mais iluminado pela luz deste sol, mas pelo próprio Sol de Justiça, Cristo gloriosos, pleno do esplendor do Espírito Santo.
Assim sendo, duas coisas devem ser claras para nós:
• Não podemos marcar a data do Dia do Senhor: este Dia estará fora dos dias, meses e anos; já não pertence ao nosso tempo!
• Também não podemos descrever o que ocorrerá neste Dia. Isto por um motivo simples: este Dia pertence já à eternidade, à Glória e, assim, não pode ser descrito nem comparado a nada neste mundo! Quando a Escritura usa imagens para falar deste Dia, é somente para nos dar uma idéia distante daquilo que ocorrerá. Nós já escrevemos sobre isto no tópico passado… Querer descrever o final dos tempos é fundamentalismo tolo; é rebaixar o Dia eterno aos nossos pobres dias!
Uma coisa é certa: o Senhor virá, glorioso, pleno do esplendor do Espírito Santo, que o ressuscitou dos mortos. A sua Vinda, que será Manifestação da sua Glória, terá conseqüências imensas:
1) Primeiramente ficará clara, na Vinda do Senhor Jesus, sua relação com o Pai e o Espírito Santo, ou seja, aparecerá a Glória da Trindade que nos salva: é o Pai quem enviará o Cristo glorificado: “Virão da parte de Deus os tempos de refrigério e enviará aquele que vos é destinado: o Cristo Jesus” (At 3,20). O mesmo Pai que enviou o Filho a primeira vez, enviá-lo-á na sua Parusia, que é iniciativa salvífica do Pai que tanto nos ama! O Pai, que tudo criou pelo Filho e para o Filho e quer, através dele, tudo levar à plenitude, tudo glorificar (cf. Cl 1,16). Este Filho vem glorificado pelo Espírito que o Pai derramou sobre ele na Ressurreição (cf. Rm 1,3s). É o Espírito quem glorifica o Filho na sua natureza humana, morta e ressuscitada; é na potência do Espírito que o Cristo aparecerá diante do mundo com Senhor e Juiz. Ele vem, pleno do Espírito, para encher da Glória do Espírito todas as coisas: “A este Jesus Deus o ressuscitou. Exaltado pela direita de Deus, ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou” (At 2,32s; cf. Jo 14,26; 20,19-23); “Sucederá os últimos dias, diz o Senhor, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne”…(At 2,17).
2) A Vinda do Cristo será também manifestação da Glória do Senhor ressuscitado. Desde a Ressurreição Jesus assume pleno domínio sobre todas as coisas, mas este domínio não se exerce ainda em toda a plenitude. Jesus já é o Senhor; a salvação já aconteceu; o seu domínio é real, mas não ainda plenamente manifestado. Quando ele se manifestar, então sim, tudo ser-lhe-á submetido para que tudo entre na Glória do seu Espírito e chegue até o Pai. A Parusia manifestará em toda a criação, e em nós, particularmente, aquela plenitude de Vida que, em Cristo, já é uma realidade plena: “Vi o céu aberto e eis um cavalo branco. Quem o montava chama-se Fiel e Verdadeiro e é com justiça que julga e faz guerra. Seus olhos são como chamas de fogo, traz na cabeça muitos diademas e tem um nome escrito que ninguém conhece, só ele mesmo. Está vestido com um manto tinto de sangue e seu nome é Verbo de Deus. Seguem-no os exércitos celestes em cavalos brancos, vestidos de linho branco puro. De sua boca sai uma espada afiada para ferir as nações. Deverá governá-las com cetro de ferro e pisar o lagar do vinho com o furor da cólera de Deus Todo-poderoso. Sobre o manto e sobre a coxa está escrito seu nome: Rei dos reis, Senhor dos senhores” (Ap 19,11-16). Neste texto aparece o domínio de Cristo sobre a história: ele é a realização da nova criação, gloriosa, feliz, livre do pecado. A nova criação coincide com a Vinda do Cristo: ele vem para trazer a glória da salvação, pois é e será sempre o Salvador: “Do mesmo modo também Cristo, que se ofereceu uma vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá, pela segunda vez, sem pecado para os que o esperam a fim de receberem a salvação” (Hb 9,28).
3) A Vinda do Cristo será também glorificação e realização plena da Igreja. Se ela é o Corpo de Cristo, a Glória da Cabeça (Cristo) glorificará plenamente todo o Corpo. Esta idéia aparece muito clara no Apocalipse, onde a Igreja é apresentada como a Jerusalém gloriosa, toda enfeitada como Esposa do Cordeiro, toda pura e toda iluminada pela luz do próprio Cristo ressuscitado (cf. Ap 21).
4) A Manifestação do Cristo será também glorificação do homem pela ressurreição. O cume da obra de Jesus e a plenitude da Igreja serão também a plenitude do homem: “Na verdade Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morrem. Com efeito, assim como por um homem veio a morte, assim também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos reviverão. Cada qual, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo, em seguida os que forem de Cristo por ocasião de sua vinda. Depois será o fim, quando entregar o reino a Deus Pai” (1Cor 15,20-24).
A Vinda do Cristo será para nós Dia da Ressurreição, Dia em que todos ressuscitarão em seus corpos revestidos do mesmo Espírito que ressuscitou o corpo do Cristo! Assim, a Jerusalém celeste, que é a Igreja, estará plenamente gloriosa, com todos os seus filhos ressuscitados pela Glória do Espírito, todos como membros do Cristo no seio amoroso do Pai!
Este tópico ainda continuará no próximo número. Aí veremos o que acontecerá com a história humana e com toda a criação. Veremos também o que significa o juízo final, que ocorrerá na Vinda do Senhor!

A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – III

Vimos, no tópico passado, que a Vinda do Senhor será ação salvífica da Trindade, plena manifestação da glória de Cisto, glorificação e consumação da Igreja e glorificação do homem pela ressurreição. Mas, não é só: a Parusia do Senhor não somente diz respeito ao homem considerado individualmente, mas será glorificação de toda a história humana. Cristo glorificado iluminará tudo aquilo que o homem realizou, de bom e de mal neste mundo! Aí, então, toda a história humana será passada a limpo e a justiça será feita: “Mostrou o poder de seu braço e dispersou os que se orgulham de seus planos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e os ricos despediu de mãos vazias. Acolheu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, conforme o que prometera a nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre” (Lc 1,51-55).
Esta verdade aparece de modo belo no Apocalipse, que apresenta o Cristo, Cordeiro imolado e ressuscitado, tendo nas mãos o livro da história humana. É ele, que na sua Vinda, desvendará o sentido último de todas as coisas (cf. Ap 5).
Além da história humana, todo o universo, toda a criação será transfigurada, plenificada pelo Espírito Santo que o Senhor Jesus derramará sobre tudo: “Vi um céu novo e uma terra nova, porque o primeiro céu e a primeira terra haviam desaparecido e o mar já não existia. Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu do lado de Deus, ornada como uma esposa se enfeita para o esposo. Ouvi uma voz forte do trono, que dizia: ‘Eis a tenda de Deus entre os homens. Ele levantará sua morada entre eles e eles serão seu povo e o próprio Deus-com-eles será o seu Deus. Enxugará as lágrimas de seus olhos e a morte já não existirá nem haverá luto nem pranto nem fadiga, porque tudo isso já passou’” (Ap 21,1-4). Portanto, a manifestação da Glória do Ressuscitado será também plena libertação da criação, lugar da história do homem com o seu Deus em Cristo: “Com efeito, o mundo criado aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus. Pois as criaturas foram sujeitas à vaidade, não voluntariamente mas pela vontade daquele que as sujeitou, na esperança de serem também elas libertadas do cativeiro da corrupção para participarem da liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação até agora geme e sente dores de parto. E não somente ela mas também nós que temos as primícias do Espírito gememos dentro de nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção de nosso corpo” (Rm 8,19-23).
Notemos que a Sagrada Escritura não anuncia a destruição do mundo, da criação, mas a sua transformação, a sua glorificação! A história humana terminará; terminará o tempo como nós conhecemos, toda a criação será glorificada – já não mais será assim, como a conhecemos agora. Poderíamos até afirmar, em certo sentido, que a criação toda ressuscitará, isto é, será glorificada! Passará para a plenitude de Deus e de seu Cristo glorioso na potência do Espírito. Há um texto na Escritura que parece afirmar a destruição de tudo pelo fogo: “Entretanto, virá o dia do Senhor como ladrão, e nele passarão com estrépito os céus, e os elementos abrasados se dissolverão e a terra será consumida com suas obras. Pois, se deste modo tudo vai desagregar-se, como não deveis perseverar em vossa santa conduta e em vossa piedade, aguardando e acelerando a chegada do dia de Deus, quando os céus em fogo se dissolverem e os elementos abrasados se derreterem?” (2Pd 3,10-12).
Mas, se olharmos este texto com bem atenção não é bem assim: Pedro está comparando o fim de todas as coisas com o dilúvio (cf. v. 6): ora, no dilúvio o mundo não foi destruído pela água, mas purificado! O apóstolo quer ensinar que, pelo Espírito de Cristo, a criação toda será ainda mais plenamente purificada que na época de Noé, desta vez pelo fogo do Espírito de Cristo, que destruirá toda impiedade para sempre (cf. 2Pd 3,7). Notemos que o fogo purifica mais radicalmente que a água; por isso Pedro usa a imagem do fogo (a trata-se apenas de uma imagem)! Então, não será a destruição do mundo, mas sua purificação, sua glorificação. Pensemos no fogo que, em contato com uma barra de ferro, purifica-a e torna-a incandescente. É esta a imagem: um mundo purificado e transfigurado, impregnado da Vida do Cristo ressuscitado, que é dada pelo Espírito Santo! Passará este mundo como o conhecemos, e teremos – são palavras do próprio Pedro! – “novos céus e nova terra onde habitará a justiça!” (v. 13). Assim pensar em fim do mundo como destruição apavorante de tudo não está de acordo com as Escrituras! Deus não odeia nada do que criou: “Pois Deus não fez a morte, nem se alegra com a perdição dos vivos. Criou todas as coisas para subsistirem” (Sb 1,13s); “Sim, tu amas todos os seres, e nada detestas do que fizeste; se odiasses alguma coisa, não a terias criado. E como poderia subsistir alguma coisa, se não a quisesses? Ou como poderia conservar-se se não a tivesses chamado à existência? Porém, a todos poupas, porque te pertencem, ó soberano amigo da vida” (Sb 11,24-26).
A Parusia do Senhor, será portanto, acontecimento de vida, plenitude, alegria! O Senhor consumará a obra de sua salvação!
Falta-nos ainda meditar sobre um aspecto desta Parusia: o juízo! Sim, o Senhor virá para julgar os vivos e os mortos. Este será o tema de nosso próximo tópico!

A Parusia do Senhor e o Juízo Final

Várias vezes, nesta série de tópicos sobre Escatologia, tenho dito que tudo quanto acontecerá no final dos tempos está ligado à Manifestação ou Parusia do Senhor Jesus glorioso. Isto também vale para o que chamamos Juízo Final. Pensemos um pouco: a Parusia do Senhor será manifestação plena da sua Glória, do seu esplendor, da sua luz e, por isso mesmo, iluminará todas as coisas: a história humana e nossa história pessoal. Na luz de Cristo nós veremos claramente o que foi a história humana e o que foi a nossa vida: na sua luz veremos a luz! Jesus é o critério último, o ponto de referência de toda a humanidade; ele é o centro da vida do mundo e da nossa vida. Assim, saberemos o que vale o mundo e o que valeu a nossa vida quando estivermos diante da luz do Cristo glorioso! Ele é, ao mesmo tempo, juiz e critério de julgamento! No encontro com o Senhor confrontamo-nos, ao mesmo tempo, com nossa realidade. Jesus não aparecerá para, depois, julgar! Não! Sua aparição, sua luz, sua verdade, já serão, para nós juízo. Que fique claro: ele não aparecerá para, posteriormente, julgar; sua aparição mesma é juízo!
Em Mt 25 Jesus conta várias parábolas que mostram sua chegada como momento de julgamento: as dez virgens, que deverão ser examinadas pelo Noivo que chega, o homem, que viajando, na volta pede conta dos talentos aos empregados e o último julgamento, quando o Filho vier em glória e separar bons e maus, chamando a si os bons e apartando de si os maus. Repito: a ambigüidade da história desaparecerá à manifestação de sua luz – ele, que é o seu sentido último. Por isso mesmo, somente a Deus e a seu Cristo compete o julgamento (cf. Mt 13,24-30: a parábola do trigo e do joio), porque nenhum juízo humano atinge a realidade última das coisas e situações: somente Cristo revelará o íntimo das coisas e das pessoas: “Quanto a mim, mui pouco se me dá de ser julgado por vós ou por qualquer tribunal humano, pois nem a mim mesmo me julgo. Certo que de nada me acusa a consciência, mas nem por isso me creio justificado; quem me julga é o Senhor. Também vós, pois, não julgueis antes do tempo, enquanto não vier o Senhor, que iluminará os esconderijos das trevas e tornará manifestos os propósitos dos corações, e então cada um terá o louvor de Deus” (1Cor 4,3-5). Por outro lado, o juízo acontece a cada dia, na nossa atitude de acolhimento ou rejeição de Deus em Jesus Cristo presente no irmão (cf. Jo 3,18; 3,36; 5,24; Mt 25,31s), pois o Pai deu ao Filho ressuscitado todo o poder de julgar: “O Pai não julga ninguém mas entregou ao Filho todo o poder de julgar” (Jo 5,22). Este julgamento já começou, na potência do Espírito Santo, Espírito do Cristo ressuscitado, pois o Espírito vai mostrando ao coração daqueles que o acolhem que Cristo é o Salvador do mundo e que o mundo pecou ao rejeitá-lo: “Quando ele (o Espírito Santo) vier, convencerá o mundo quanto ao pecado, à justiça e ao julgamento. Convencerá quanto ao pecado, porque não creram em mim, quanto à justiça, porque vou para o Pai e já não me vereis; e quanto ao julgamento, porque o príncipe deste mundo já está condenado” (Jo 16,8-10). No entanto, na Parusia do Senhor o julgamento aparecerá claramente: todo o pecado do mundo, quer pessoal, quer coletivo, será para sempre desmascarado e eliminado!
O juízo tem, portanto, uma dimensão trinitária: o Pai entregou ao Filho o julgamento, que se dará na luz e na potência do Espírito! Em Cristo glorificado pelo Pai e pleno do Espírito, tudo será julgado!
Já vimos que no Antigo Testamento aparece claro que haveria um Dia do Senhor, que seria Dia de Salvação, mas também Dia de Juízo. Este juízo é salvífico: Deus não vem para condenar, mas para salvar… agora quem se fechou para o Senhor, claro que ficará fora da salvação de Deus (cf. Sb 3,10 e também o capítulo 5). Neste sentido, o juízo final discriminará bons e maus: “Nesse tempo, muitos dos que dormem na terra poeirenta, despertarão; uns para a vida eterna, outros para vergonha, para abominação eterna. Então os sábios brilharão como o firmamento resplandecente, e os que tiverem conduzido a muitos para a justiça brilharão como estrelas para sempre” (Dn 12,2s).
Para o Novo Testamento, como já foi dito acima, é nossa atitude em relação a Cristo nesta vida que definirá nosso destino: ele é o critério do juízo (cf. Lc 12,8ss; 9,26; 11,30; Mc 3,38; Mt 16,27). Em Jesus manifestar-se-á no fim dos tempos a justiça de Deus, que é de salvação, que nos justifica (cf. Rm 3,26): na cruz do nosso Juiz o príncipe deste mundo foi jogado fora (cf. Jo 12,21s). Sim, nunca nos esqueçamos: quem nos julgará é o nosso Salvador! Para Deus não é difícil unir justiça e misericórdia. Cristo nos julga salvando!
A respeito do julgamento, alguns autores atuais falam em auto-juízo: na luz do Cristo nós mesmos nos julgamos. Tal expressão é ambígua: é correta se pensamos que, à luz de Cristo, nos veremos como somos e veremos nossa própria verdade; por outro lado, é errada se pensarmos que nós mesmo seremos nossos juizes! A clara consciência do que somos, sem máscaras e mentiras, faz-se somente à luz de Cristo! Não somos nós mesmos que chegamos a esta idéia clara do que fomos e somos: a realidade do mundo, da nossa vida e da história somente aparecerão quando forem iluminadas pela manifestação do Senhor Jesus.
Agora, pensemos bem: se na Parusia do Senhor será manifestado aquilo que fomos na nossa vida, é importantíssimo valorizar cada momento da existência! É esta minha vida que aparecerá diante do Cristo Jesus! O que estou fazendo dela?
Finalizando, devemos deixar claro ainda uma

Antônio 17/11/2014 14:13 0 0

ESCATOLOGIA CRISTÃ

Pe. Henrique soares da Costa

O HOMEM, O FIM DOS TEMPOS E AS REALIDADES ETERNAS

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Índice

Pe. Henrique soares da Costa 1
Índice 2
Algumas questões sobre e morte e o Além 3
Escatologia – Sobre o fim do mundo! 7
A Vinda do Senhor segundo o Antigo Testamento 8
A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – I 9
A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – II 11
A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – III 12
A Parusia do Senhor e o Juízo Final 13
A ressurreição dos mortos – I 14
A ressurreição dos mortos – II 15
A ressurreição dos mortos – III 17
A ressurreição dos mortos – IV 18
A ressurreição dos mortos – V 20
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? – I 21
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? – II 22
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? – III 23
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? – IV 25
A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado – I 26
A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado – II 27
A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado – III 29
O inferno – morte eterna, existência na contradição – I 30
O inferno – morte eterna, existência na contradição – II 31
O inferno – morte eterna, existência na contradição – III 32
A visão cristã da morte – I 34
A visão cristã da morte – II 35
A visão cristã da morte – III 36
A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade. 38
A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade – II 39
A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade – III 41
A purificação após a morte: o estado purgatório 42
Anjos, Diabo, demônios: o que a fé da Igreja ensina sobre eles? – I 45

Algumas questões sobre e morte e o Além

Pe. Henrique Soares da Costa http://www.padrehenrique.com

É importante compreender que nossa esperança repousa unicamente em Cristo: sua Ressurreição é garantia e modelo da nossa: o destino de Jesus na sua morte e ressurreição é o único critério para o cristão; é a garantia da nossa Esperança. Aquilo que aconteceu nele é feliz antecipação da nossa herança futura.
A Escritura nos ensina que a Parusia do Senhor Jesus, sua Manifestação gloriosa no final dos tempos, será causa da Ressurreição dos mortos: Cristo glorioso glorificará toda a humanidade, vivos e mortos! “Esperamos o Salvador Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a si toda criatura” (Fl 3,20s).
É importante, desde já, fazer uma distinção sobre o modo como o Novo Testamento utiliza a palavra ressurreição. Há três modos de usá-la:
• em sentido figurado: como volta de um morto a esta vida. É o caso da “ressurreição” de Lázaro, da filhinha de Jairo, do filho da viúva de Naim… etc. Aqui não se trata rigorosamente de ressurreição no sentido cristão da palavra, mas de revitalização: ou seja, alguém estava morto e voltou a esta vidinha nossa… e, depois, morrerá novamente!
• em sentido neutro: como passo prévio ao juízo: o homem não ficará na morte: ele, quer salvo, quer condenado, continuará vivendo após a morte. Todos “ressuscitarão” para serem julgados! Este não é ainda o sentido teologicamente mais profundo, mais forte e verdadeiro de ressurreição;
• em sentido teologicamente positivo: como plena participação e configuração à vida de Cristo ressuscitado. Tal ressurreição é reservada somente aos bons. Aqueles que viveram na comunhão com Cristo serão completamente transfigurados, transformados em Cristo ressuscitado: serão como o próprio Cristo: passarão desta vida para uma outra Vida, plena, realizada, eterna! Este último sentido é o que realmente tem importância e faz parte essencial do anúncio cristão; antes, é o próprio centro do Evangelho! Quando dizemos que Cristo ressuscitou e que, nele, nós ressuscitaremos, é neste último sentido que estamos falando! A Ressurreição que nos interessa é esta última!
A Ressurreição, então, é a passagem desta vida (limitada, ambígua, precária) para uma Vida plena, diversa desta nossa vida de agora: teremos a Vida do próprio Cristo ressuscitado, uma Vida divina, na qual nosso corpo e nossa alma serão transfigurados. Como diz a III Oração Eucarística para as crianças: “No Reino de Jesus ninguém mais vai sofrer, ninguém mais vai chorar, ninguém mais vai ficar triste!” Nosso corpo será transfigurado, como o de Jesus: não mais estará sujeito às leis da física, da matéria como a conhecemos agora; nossa alma também será ressuscitada, transformada: nunca mais teremos tristezas, depressão, saudades… seremos plenamente realizados, porque estaremos para sempre com o Senhor, que saciará todas as nossas sedes e realizará todos os mais profundos anseios do nosso coração! É isto que significa ressuscitar! Mas, vamos seguir passo a passo o Novo Testamento!
Vejamos, primeiro, o ensinamento do próprio Jesus Cristo. No seu tempo, a Ressurreição era uma doutrina muito divulgada e aceita entre os judeus. Somente os saduceus achavam que a vida acabava com a morte (cf. Mc 12,18; At 23,6-8). Uma idéia que nunca existiu no meio do povo de Israel foi a da reencarnação – esta não tem nada a ver com a Bíblia! Contra os saduceus, Jesus ensinou que Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos: ele é o Deus que ressuscita seus amigos (cf. Mc 12,18-27). Ainda para Jesus, essa vida após a morte será vida com o corpo e não somente como a alma: “Não tenhais medo dos que matam o corpo mas não podem matar a alma. Deveis ter medo daquele que pode fazer perder-se a alma e o corpo no inferno” (Mt 10,28). Observe-se bem que segundo o Evangelho, corpo e alma sofrerão no inferno: “Se teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e joga longe de ti, pois é preferível perder um dos teus membros do que teu corpo inteiro ser lançado no inferno. E se tua mão direita te leva a pecar, corta-a e joga longe de ti, pois é preferível perder um dos teus membros do que teu corpo inteiro ser lançado no inferno” (Mt 5,29s). É o homem todo, no seu corpo e na sua alma, que é salvo ou condenado! A idéia de uma alma desencarnada que não tem nada a ver com o corpo, é totalmente contrária ao pensamento bíblico! Jesus ensina também que bons e maus “ressuscitarão” (no segundo sentido, que apresentamos acima) para o julgamento: e, assim, uns ressuscitarão para a Vida (verdadeira Ressurreição: estar com Cristo e, com ele, ser glorificado) e outros ressuscitarão para a morte (ressurreição em sentido figurado: viver no Inferno, viver na morte!): “Não vos admireis, porque vem a hora em que todos os que estão mortos ouvirão sua voz. Os que praticaram o bem sairão dos túmulos para a ressurreição da vida; os que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados” (Jo 5,28s). O próprio Senhor ensinou também que, após a sua Ressurreição, aqueles que comessem, na Eucaristia, seu corpo ressuscitado, pleno de Vida eterna, ressuscitariam também com ele e como ele. Ressurreição, aqui, no sentido forte, profundo, verdadeiro: “Jesus lhes disse: “Na verdade eu vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim, e eu nele” (Jo 6,53s.56).
Assim, Jesus não somente anunciou sua própria Ressurreição (cf. Mc 8,31; Mt 16,21ss; Lc 9,22, etc), como também ensinou que todos ressuscitariam através dele! Há uma passagem em Mateus que mostra bem isto: “Os túmulos se abriram e muitos corpos de santos ressuscitaram. Eles saíram dos túmulos, depois da ressurreição de Jesus, entraram na Cidade Santa e apareceram a muitos” (Mt 27,52s). Qual o significado deste trecho tão misterioso? Será que os mortos voltaram a viver e entraram em Jerusalém, espantando as pessoas?! Não! Não é isto que Mateus quer dizer! Ele quer afirmar somente que a Ressurreição de Cristo é causa da nossa ressurreição. A Cidade Santa na qual os mortos entrarão é a Jerusalém celeste, a Glória do Corpo de Cristo, isto é, o Céu (cf. Ap 21,2.10; 22,19). Mateus usa, aqui, aquele tipo de linguagem que os estudiosos da Bíblia chamam de apocalíptica: uma linguagem cheia de figuras!!
Concluindo, por enquanto: 1) Jesus ensinou a Ressurreição; 2) ensinou que ressuscitaremos em todo o nosso ser, corpo e alma; 3) ensinou que há uma Ressurreição para a Vida (verdadeira Ressurreição) e uma ressurreição para a morte (para a condenação: ressurreição às avessas!); 4) o próprio Jesus é a causa da nossa Ressurreição: ressuscitaremos porque ele ressuscitou!
Vimos que Jesus nos prometeu a ressurreição: ressuscitaremos nele e por ele: “Eu sou a Ressurreição!” (Jo 11,25), ressuscitaremos em todo o nosso ser, corpo e alma. Agora, nos perguntamos: como e quando será isso?
Ressuscitaremos da morte, que é o término de nossa vida terrena. Mas, que é a morte? É certo que, com ela, a condição humana chega a seu ponto culminante e também a seu ponto crítico, pois esta experiência da morte toca o homem não somente pela dor da progressiva dissolução de seu corpo como também pelo temor da desaparição perpétua. Não podemos, portanto, fazer de conta que a morte não existe ou, se existe, diz respeito aos outros e não a nós. Pelo contrário: a morte dos outros deve recordar-nos que também nós morreremos: com a morte, realiza-se o ponto crítico da passagem desta vida para uma outra situação – aquela podemos esperar somente na fé. Todo organismo vivo decai até chegar à morte natural. Não dá para escapar da morte. A medicina pode prolongar a vida, mas não pode evitar a morte
Mas, o que significa morrer? A morte, primeiramente, revela nossa finitude, nossa limitação! Que estranho é o ser humano: sonha com a vida, deseja a vida… mas sabe que um dia morrerá! Aliás, o homem é o único ser que sabe que morrerá… por isso mesmo, a morte não é somente uma questão física, biológica: não é apenas um corpo que morre e vira cadáver; é uma pessoa que morre! Eu não digo: “Meu corpo morre”, ao invés, digo e sinto: “Eu morro!” São minhas relações, é minha história, meus sonhos, que são colocados em crise com a morte! E é interessante: em geral, aproximamo-nos da morte exatamente quando mais queremos viver, quando, já adultos, damos tanto valor à vida e somos já maduros. Em certo sentido, nunca estamos prontos para morrer, mas para viver. E é assim, já que Deus é o Deus vivo e nos criou para a vida e não para a morte. A morte terá sempre um gostinho amargo, mesmo para quem crê. A morte com gosto de morte entrou no mundo pelo pecado (cf. Sb 2,23s). Nossa passagem pelo mundo deveria terminar com o desabrochar da eternidade, sem esta experiência dolorosa a que chamamos morte. A morte como experiência negativa e ameaça do nada é conseqüência do pecado (cf. Rm 6,23). A morte, como nós experimentamos atualmente, na nossa situação de pecadores, não é somente uma questão biológica, física; é também uma decadência pessoal, existencial. É dolorosa no corpo e na alma! Tem um gosto de derrota, de salto no escuro, de pulo no desconhecido! E não adianta fingir que a morte não existe! O que nossa fé nos ensina é exatamente isso: Deus não é o autor dessa situação de morte em que vivemos: as mortes de cada dia, de cada derrota, de cada sofrimento, de cada injustiça, traição ou lágrima… tudo isso é conseqüência de uma humanidade pecadora…. Tampouco Deus é o autor da última morte, daquela que marca o término da nossa vida terrena… Se a experimentamos como derrota, dissolução, salto no escuro… é devido à situação de pecado. Se o homem não tivesse dito “não” a Deus, não experimentaria a partida deste mundo como morte, como derrota dolorosa, como salto no escuro…
É dessa morte que Cristo, o Ressuscitado, nos liberta: “Eu sou a Ressurreição!” Ora, desde o Batismo, estamos unidos a ele; vamos morrendo com ele nesta vida para, enfim, ressuscitar também com ele, participando da sua ressurreição: para nós, morrer é morrer com Cristo e como Cristo, é completar em nós a morte de Jesus para que a vida ressuscitada de Jesus nos plenifique. Assim, aquele que é batizado já não vê na morte o angustioso fim do seu ser, mas a possibilidade última e mais radical de configuração com seu Modelo, que é Cristo ressuscitado. Sim, seremos como Cristo ressuscitado! Vista deste modo, a morte torna-se o ato que deve ser vivido com vontade de entrega livre e amorosa, na esperança da ressurreição. A morte torna-se um co-morrer com Cristo para co-ressuscitar com ele: ”Com ele fomos sepultados pelo batismo na morte para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim também andemos em novidade de vida. Pois, se estamos inseridos no solidarismo de sua morte, também o seremos no da ressurreição” (Rm 6,4s). Desde o Batismo começamos a morrer com Cristo, isto é, começamos a viver as mortes de cada dia como participação na morte do Senhor. Tal participação deve ser ratificada pela mortificação de cada dia, pela participação da Eucaristia, que é mergulho na morte e ressurreição do Senhor Jesus. Assim, o cristão vai se apropriando da própria morte e dando-lhe um sentido, fazendo de sua morte uma morte-ação, morte como união com o Cristo morto! Morrer, para o cristão, já não deveria ser uma fatalidade: ele deveria dizer: “Morro a cada dia, em cada lágrima, em cada tristeza, em cada derrota… Mas não morro como um derrotado: uno minhas mortes à morte do Senhor, para como ele ressuscitar!” A morte, assim, vai ganhando sentido em nós, vai se tornando uma realidade humana e cristã, e não uma fatalidade biológica. Enquanto isso, para quem não se abre para o Cristo, para quem o refuta, a morte vai sendo experimentada a cada dia como poder aniquilador, vazio do ser e total fracasso da existência… Assim, vamos morrendo e caminhando para o encontro com Cristo. Para nós, com efeito, a morte tem também este aspecto belíssimo: é um encontro com o Senhor: “Ficai preparados, porque, numa hora que não pensais, o Filho do homem virá” (Lc 12,40).
Sim, Jesus virá: ele é aquele que vem ao nosso encontro (cf. Mt 11,2): “Vou e retorno a vós” (Jo 14,18.28). Ele vem vindo sempre na nossa existência: veio no Batismo, quando entramos em comunhão com sua morte e ressurreição, vem sobretudo na Eucaristia, quando mergulhamos na sua Páscoa e já experimentamos o gosto da comunhão com ele, vem a cada dia para nos fazer passar da “carne” (pecado) ao “espírito” (vida no Espírito Santo). Finalmente, ele virá na passagem definitiva, no momento do encontro final. Por isso mesmo Paulo exclamava: “O meu desejo é partir para estar com Cristo” (Fl 1,23). Assim, morrer é ir ao encontro do Salvador que vem, quem irrompe com sua Glória na minha pobre existência; morrer é ser surpreendido por Cristo, é ser invadido pela sua Vida divina e plena. Santa Teresinha dizia com sabedoria: “Não é a morte que virá me buscar, é o bom Deus!”
Pois bem: eis a conclusão maravilhosa: não morreremos sozinhos; morreremos como Cristo e com Cristo; mais ainda: morreremos em Cristo. Ele não vem sozinho ao nosso encontro! Ele é o primogênito dentre os mortos, é a Cabeça da Igreja. Tendo sido batizados, morremos como membros do seu corpo, que é a Igreja e morremos no seu corpo. Assim, não morremos sozinhos: morremos na comunidade dos santificados, dos batizados! A morte será o passar da Igreja terrestre para a Igreja da Glória. É também mistério de comunhão com os irmãos que ficam e que fazem parte do Corpo de Cristo, que é a Igreja!
O que ressuscitará em mim?
Comecemos deixando claro que, para a Sagrada Escritura, o homem é um todo, corpo e alma espiritual ou em outra linguagem, corpo, alma e espírito. Nós temos a dimensão material (nosso corpo) e aquela dimensão imaterial (a que denominamos alma). São dimensões, não pedaços nossos! Eu sou um todo: sou meu corpo e sou minha alma! É absolutamente contrário à Sagrada Escritura e a uma sã antropologia pensar o ser humano simplesmente como um espírito que “tem” um corpo, que está encarnado num corpo! Nada disso: sou corpo e alma!
Pois bem, dizer que ressuscitarei, é afirmar que todo o meu ser, corpo e alma, é chamado à comunhão com o Cristo. Não é um pedaço de mim que vai ressuscitar, mas eu todo! Minha alma, sede de toda a minha vida inteligente, afetiva, sentimental e espiritual, será ressuscitada; também meu corpo, com o qual eu amei, chorei, sorri, criei relações, exprimi sentimentos, também será transfigurado!
Meu corpo ressuscitará: São Paulo diz de modo belíssimo: “Semeado corruptível, o corpo ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual” (1Cor 15,42-44). É interessante que a ressurreição da carne sempre foi escândalo, já no novo Testamento: os atenienses zombaram de São Paulo, quando este falou sobre ela: “Ao ouvirem falar da ressurreição dos mortos, alguns começaram a zombar, enquanto outros diziam: ‘A respeito disto, te ouviremos outra vez’” (At 17,32). Como os espíritas atuais e os espiritualistas de todas as épocas, os gregos aceitavam que a alma era imortal e “desencarnava”… mas que também o corpo ressuscitava, não aceitavam de modo algum! Até os cristãos de Corinto, na Grécia, pensavam que a ressurreição era somente espiritual. São Paulo os repreende duramente: “Se se proclama que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou!” (1Cor 15,12s). É o mesmo engano dos espíritas e de todos os espiritualistas! Nós cremos que nosso corpo também ressuscitará.
Mas como isso é possível? Ele será destruído totalmente e, mais ainda, já nesta vida, meu corpo vai mudando, células vão morrendo e outras vão nascendo… Por um lado é meu corpo mas, por outro, é sempre e continuamente renovado… Então, como ressuscitará? O engano aqui é querer descrever o corpo da ressurreição! Também os coríntios perguntavam a São Paulo como isso seria possível: “Mas, dirá alguém, como ressuscitam os mortos?” E o Apóstolo respondia com firmeza e quase indignação: “Insensato!” (1Cor 15,36). Não se pode descrever o corpo da ressurreição, não se pode imaginar como será, e isso por uma razão simples: o corpo da ressurreição não pertence mais a este mundo. Será o meu corpo, mas não mais do modo como eu agora o possuo; será minha matéria, mas totalmente transfigurada pelo Espírito do Ressuscitado: “Semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual” (1Cor 15,44). Um dos grandes enganos de muitos teólogos atuais é a preocupação em imaginar como será possível um corpo ressuscitado a partir do nosso pobre corpo mortal. É totalmente impossível qualquer descrição! Basta pensar no corpo do Ressuscitado: era seu corpo, o mesmo que fora crucificado e os apóstolos conheciam tão bem: tinha as marcas da paixão (cf. Lc 24,40; Jo 20,27); e, no entanto, eles tinham dificuldades em reconhecer o Senhor, pois seu corpo estava agora glorificado: “Depois disso, manifestou-se em outra forma a dois deles” (Mc 16,12); “Seus olhos estavam impedidos de reconhecê-lo. Ele ficou invisível diante deles” (Lc 24,16.31); “Já amanhecera, Jesus estava de pé, na praia, mas os discípulos não sabiam que era Jesus” (Jo 21,4). Então: é pela potência do Espírito do Ressuscitado que nosso corpo ressuscitará como o corpo do Cristo glorioso. Especular mais que isso, é inútil e presunçoso.
E a alma? Também ressuscita. É importante não confundir ressurreição com imortalidade! Os espíritas confundem direitinho as duas coisas! Dizer que a alma é imortal é dizer que ela, por ser imaterial, não pode ser desagregada, decomposta, destruída. Mas isso não quer dizer que ela tem a garantia de ser feliz. Muito pelo contrário: a alma, simplesmente entregue a si mesma, teria as mesmas privações que já tem aqui: solidão, medo, tristeza, angústia, incompletude, etc…Afirmar que a alma ressuscita é afirmar que ela também – e não só o corpo! – será transfigurada e glorificada: nada mais de tristeza, solidão, saudade, angústia, medo… O mesmo Espírito Santo que ressuscitou Jesus será a vida de nossa alma: passaremos de uma vida simplesmente psíquica para uma vida espiritual (= “espirituada”)!
Então, em todo o nosso ser, corpo e alma, estaremos com o Senhor, revestidos totalmente de sua glória, participando da sua ressurreição!
Como e quando será a ressurreição?
Nossa ressurreição é um processo que inicia logo após a morte e terminará na Parusia: logo após a morte, com uma dimensão mais individual e na Parusia do Senhor, com uma dimensão mais marcadamente comunitária e cósmica. Vejamos:
A morte, além de ser uma realidade que me atinge como “eu”, como identidade e como alguém que vive neste mundo em relações com as coisas e as pessoas, é também uma dilaceração de minha unidade psicossomática: meu corpo e minha alma, inseparáveis, separam-se! Por isso também a morte é experimentada por nós como algo existencialmente doloroso, como uma realidade que traz em sai algo de violência… Eu sou meu corpo, e na minha corporeidade experimento a morte e a dissolução do meu corpo, que vai decompor-se até o nada. Eu sou minha alma, que padece a separação do corpo com o qual e para o qual foi criada.
Mas imediatamente após a morte, minha alma ressuscita, isto é, é transfigurada com Cristo e em Cristo. Note-se bem: a alma ressuscita! Não basta, para ela, ser imortal porque é indestrutível: isso não garantiria a felicidade da alma. Somente transfigurada pelo Espírito do Cristo ressuscitado, temos a plenitude! É nesta plenitude feliz que nossa alma entra logo após a morte. Isto é o céu: estar com Cristo; aí ninguém mais vai sofrer, ninguém mais vai chorar, ninguém mais vai ficar triste, ninguém mais vai ter saudade. Perder o Cristo é o inferno, que também começa logo após a morte para a alma dos condenados. Note-se que, para os cristãos, não é suficiente afirmar que a alma é imortal; é necessário afirmar também que ela ressuscitará e será plenificada em Cristo!
Mas, o que é a alma? É o nosso princípio de vida, de consciência e liberdade, é o núcleo de nossa personalidade, do nosso eu. Não é uma parte, um pedaço de mim, mas uma dimensão minha. Na minha alma, na minha dimensão anímica, eu tenho consciência de mim, de minha identidade: sei quem sou, sei o que quero, recorde plenamente o que fui e o que vivi! Então, logo após a minha morte uma minha dimensão – a alma! – já entra na plenitude de Cristo, mas o meu ser humano como um todo ainda não está totalmente glorificado: falta a dimensão corporal…
Na Parusia do Senhor, quando ele se manifestar na sua glória, todo o mundo físico será glorificado e, aí também meu corpo, minha dimensão somática, física, material, será ressuscitada. Então, em corpo e alma eu estarei com o Senhor glorificado ou, estarei eternamente distante dele.
Então, há duas afirmações que é necessário manter quisermos ser coerentes com a Tradição da Igreja e com os dados da Escritura: 1) após a morte não ficamos dormindo, mas já ressuscitamos; 2) esta ressurreição imediata atinge somente uma dimensão nossa – a alma; no final dos tempos, também nosso corpo ressuscitará. Nosso corpo não ressuscita logo após a morte, mas somente no final dos tempos, no Dia da Ressurreição!
Alguns teólogos perguntam: como pode existir uma alma separada? É preciso ter cuidado com esta questão! Filosoficamente falando, não pode existir alma separada neste mundo: a alma foi feita para animar o corpo e o corpo só é corpo humano porque animado por uma alma humana! Isto vela para este mundo! Com a morte, nós saímos deste mundo e, então, não há muito que a filosofia ou a teologia possam falar sobre o além de modo descritivo. Não podemos descrever nossa situação no além! Um outro ponto importante, a ser tomado em consideração: o modelo do que acontecerá conosco após a morte é Cristo! Ora, entre sua morte e ressurreição, enquanto seu corpo era destruído pela morte, no túmulo, sua alma humana não estava ali, unida ao corpo; não estava morta, apesar de ainda não estar glorificada! Então, não é impossível falar numa alma “separada”. Além do mais, a alma não fica propriamente separada: desde o Batismo e pela Eucaristia estamos incorporados em Cristo, no seu corpo, que é a Igreja: mesmo sem o nosso corpo físico e individual, estamos inseridos em Cristo e unidos ao seu corpo! Mesmo antes da ressurreição final do nosso corpo, não somos alma sem corpo algum, separada de todo corpo! Estamos no corpo de Cristo! Como é isto? Não podemos descrever nem imaginar, pois são realidades que pertencem ao mundo futuro! Sabemos disso, no entanto, pela fé naquilo que o Novo Testamento atesta e a contínua Tradição da Igreja ensina.
Quanto ao modo como o corpo ressuscitará no final dos tempos, já vimos nos artigos passados; basta dar uma olhadinha.
Uma última observação: em Maria, a Virgem, a ressurreição já foi totalmente realizada. Ela – e somente ela entre todos os santos – já está totalmente com Cristo, em corpo e alma, devido à sua singularíssima união com o Cristo!
Ficamos por aqui. Espero que, de modo geral, algumas questões sobre o além tenham ficado mais clara. Para uma apresentação mais detalhada, leia uma série de artigos sobre escatologia, que escrevi neste mesmo site.

Escatologia – Sobre o fim do mundo!

Este tópico deveria chamar-se “Escatologia”. Mas, se eu colocasse este título, quem iria lê-lo? Com o título que escolhi, tenho certeza que ninguém resistirá à curiosidade!
O presente escrito é o primeiro de uma série que pretendo apresentar sobre a Escatologia, a parte da teologia que trata das “últimas coisas”, dos novíssimos, como se dizia antigamente… “morte, juízo, inferno e paraíso”. É assim que se aprendia no catecismo.
Mas, para que possamos compreender bem a Escatologia cristã, é necessário, antes, entender uma coisa muito importante: o centro da esperança cristã é Cristo ressuscitado; assim, ele é também o centro de tudo aquilo que vamos afirmar nestes tópicos. Jesus é o centro da fé e da história humana: tudo quanto o Pai fez e pensou para a humanidade e o mundo foi através de Cristo e somente em Cristo terá sua realização (cf. Cl 1,15-20). Portanto, as coisas últimas que acontecerão nada mais são que o cumprimento amoroso daquilo que o Pai sonhou para nós desde o início em Cristo: “Disse-me, então: “Está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. A quem tiver sede, darei gratuitamente água da fonte da vida” (Ap 21,6). Jesus é, assim, o Fim (quer dizer, a Finalidade, Escaton, em grego) de toda a criação e de toda a humanidade: Jesus é o nosso único Futuro; Futuro certo, Futuro para o qual tudo quanto foi criado caminha: ele é o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim!
Este Futuro nosso, que é Jesus, tem quatro características:
• É um Futuro Absoluto. Nós estamos acostumados com tantos futuros: todo dia planejamos e enchemos a agenda de compromissos; fazemos planos para o futuro. Os futuros que esperamos e planejamos podem acontecer ou não… e, se acontecerem, um dia vão virar passado. É, assim: de futuro em futuro, nossos futuros vão se tornando presentes e, depois, passados… Mas, quando dizemos que Cristo é um Futuro absoluto, estamos afirmando que ele vai acontecer de certeza porque tudo foi criado pelo Pai através dele e para ele. Cristo é o único Futuro certo da humanidade! E mais ainda: é o Futuro que nunca será passado. Quando ele vier, quando estivermos nele, seremos plenos; nós e toda a criação… para sempre!
Ele é um Futuro que vem. Este Futuro, que é o próprio Cristo, é vinda, é chegada! Nos nossos futurozinhos, somos nós que vamos até eles, eles estão sempre dentro do tempo: viram presente e depois passado. Nossos futuros vão sendo feitos de presente: com o presente vou plantando o futuro, vou caminhando para ele. Com Cristo não é assim: ele vem e vem trazendo algo novo: um mundo novo, uma vida nova, uma Glória sem fim, que vai transformar tudo! Ele será a Novidade que vai renovar toda esta velha criação, toda esta velha humanidade! Quando ele vier fará novas todas as coisas (cf. Ap 21,5). É por isso que não podemos nem pensar direito como será o final dos tempos e a Vida na eternidade: é Futuro novo, é algo muitíssimo diferente deste mundo que conhecemos. Não tem nada a ver com aquele céu boboca da novela “A Viagem”, nem com as coisas que a gente imagina. Por isso a Escritura exclama: “Santo, santo, santo
é o Senhor Deus, o Todo-poderoso, que era, que é e que vem” (Ap 4,8). Não se diz: “Deus que era, que é e que será”, mas “Deus que vem!”… vem como novidade que enche de alegria a vida do mundo e a nossa, porque vem trazendo a graça e a salvação! Por isso mesmo Jesus ensinou a pedir no Pai nosso: Venha o teu Reino!” E a Bíblia termina pedindo: “Vem Senhor Jesus!” (Ap 22,20).
• Ele é um Futuro que já se faz presente. Este Futuro, que é Cristo, que será uma novidade linda para toda a criação, é também um Futuro já presente de modo misterioso. Ele está vivo, ressuscitado no nosso meio, agindo pela força do seu Espírito. Basta pensar na Eucaristia e nos demais sacramentos, na graça que Cristo derrama no nosso coração. Quantas vezes a gente experimenta o aperitivozinho do céu aqui na terra, quando experimenta a união com Cristo no nosso coração! Estar com Cristo agora é já o início do Futuro que virá!
• Este Futuro exige uma resposta humana. Este Futuro que é Cristo, vem ao nosso encontro; mas nós também vamos ao encontro dele. Como? Respondendo-lhe “sim” na nossa vida! Cada escolha nossa, cada palavra, cada decisão, cada ato, é um “sim” ou um “não” a esse Futuro, a Cristo. Então, nossas ações neste mundo têm já um gosto de eternidade, preparam o nosso encontro com o Senhor que vem. Não existe ação neutra: é sim ou não ao Cristo que vem!
Ainda uma coisa, para terminar: se Cristo é o nosso Futuro, o nosso Fim último, a nossa Finalidade, nosso Destino, nosso Porto, então, tudo aquilo que vai acontecer conosco e com o mundo, no final dos tempos, somente pode ser compreendido a partir de Cristo: ele é o Fim Último (Escaton) que dá sentido às “coisas últimas” (escatà). Por exemplo: só poderemos compreender o que é a morte, o céu, o inferno, o purgatório, o juízo, etc… se colocarmos tudo isto em relação com Cristo ressuscitado, nosso Destino! É isto que vamos fazer neste série de tópicos. Então a gente vai ver quanto é bela a esperança cristã!
Guardemos bem isto: a esperança cristã não tem outro objeto a não ser o próprio Deus, Futuro absoluto e definitivo do homem, que vem a nós em Jesus Cristo. Assim, podemos compreender as palavras de um grande teólogo deste século: “Deus é o fim último (Escaton) das criaturas: ele é o céu para quem o alcança, o inferno para quem o perde, o juízo para quem por ele é examinado, o purgatório para quem é por ele purificado… e tudo isto no modo em que ele dirigiu-se ao mundo, isto é, no seu Filho, Jesus Cristo, que é a revelação de Deus e, portanto, a síntese das coisas últimas!”
Resumindo: nosso Fim é Deus que vem a nós em Jesus Cristo para nos salvar. Nele tudo se explica: o céu é estar com ele; o inferno é perdê-lo; o juízo é se ver na sua luz; o purgatório é ser purificado no seu amor e verdade!

A Vinda do Senhor segundo o Antigo Testamento

Vimos, no tópico passado, que o Futuro que Deus prepara para o mundo todo e para os cristãos é o próprio Cristo: a criação toda caminha para ele, a história caminha para ele, nossa vida caminha para ele!
No Credo nós professamos, conforme a Escritura, que o Senhor Jesus ressuscitado “está sentado à Direita de Deus Pai, donde há de vir em sua Glória para julgar os vivos e os mortos. E o seu Reino não terá fim”.
Esta Vinda gloriosa de Cristo no final dos tempos é chamada de Parusia do Senhor. A palavra grega “parusia” era usada para significar a chegada solene do rei em uma determinada cidade. Quando ele chegava, provocava um ambiente de alegria e distribuía ao povo benefícios e alimentos em fartura. Os cristãos, ao pensarem na vinda do Cristo como Rei eterno, que virá trazendo a alegria da salvação final, deram a este último acontecimento da história humana o nome de Parusia do Senhor.
A idéia de que haveria um Dia do Senhor já existia desde o Antigo Testamento. O povo de Israel sempre soube que o seu Deus era o Senhor dos tempos, Deus que age na história humana, levando o seu povo para um futuro sempre melhor e cheio de esperança. Se observarmos bem os textos do Antigo Testamento aparece claro que Deus sempre está prometendo ao seu povo um futuro de bênção e felicidade: ele é o Deus da Promessa, o Deus que nunca fica parado no presente, o Deus que sempre faz o povo caminhar ao encontro do futuro que o Senhor preparou, futuro sempre melhor, futuro de vida. Por isso mesmo aparece tanto nos profetas aquelas expressões: “eis que virá um tempo”, “eis que virão dias”, “naqueles dias”, “acontecerá no fim dos dias”… Assim, enquanto para os pagãos o tempo nunca mudava e tudo que já tinha acontecido ia continuar sempre acontecendo e o mundo não tinha jeito mesmo, para o povo de Deus a história do mundo e a história do povo de Israel caminham para um destino, uma finalidade, uma plenitude, que o próprio Deus prometeu e preparou! Bastava que o povo não se fechasse para Deus, que aceitasse caminhar com o Senhor. Isto é muito importante, pois fica claro que não existe destino: o homem é chamado a construir seu destino dizendo sim a Deus e caminhando para o futuro que ele lhe preparou. Cada pessoa é livre: pode dizer sim ou não ao convite de Deus!
É assim que Israel vai tendo cada vez mais certeza de que Deus age na história, conduzindo todos os acontecimentos. O povo da Bíblia sabe que pode se confiar nas mãos do Senhor e esperar num futuro no qual Deus vai agir de modo pleno, com uma intervenção fulgurante, mudando toda tristeza do seu povo em alegria, toda opressão em liberdade, todo pranto em sorriso, toda morte em vida. Todo sofrimento do povo de Israel, todas as suas humilhações terão fim e Deus vai consolar para sempre o seu povo, numa nova situação, em que não haverá mais dor, opressão, pecado nem morte. Este futuro é conhecido, no Antigo Testamento, com o nome de Dia do Senhor. Será um Dia de Julgamento e de derrota para todo o pecado do mundo, para todo o mal praticado na história humana e um Dia de salvação e vitória para todos os amigos de Deus, particularmente para o povo de Israel. Por exemplo: “Os olhos orgulhosos do homem serão humilhados, e será abatida a arrogância humana; naquele Dia só o Senhor será exaltado. Porque é o Dia do Senhor Todo-poderoso contra tudo que é orgulhoso e arrogante, contra tudo que se exalta e que será humilhado (…); só o Senhor será exaltado naquele dia. Os ídolos desaparecerão completamente…” (Is 2,11s.18s). É importante observar que quando o Antigo Testamento fala desse Dia do Senhor usa comparações, imagens, figuras, metáforas, para ensinar que será um Dia solene e decisivo, Dia da verdade, Dia de julgamento, Dia que envolverá não somente a humanidade, mas toda a criação: “Tocai a trombeta em Sião, dai alarme em minha montanha santa! Tremam todos os habitantes do país, porque está chegando o Dia do Senhor! Sim, está próximo! É um Dia de trevas e escuridão, um Dia de nuvens e obscuridade”! (Jl 2,1s); “Colocarei sinais no céu e na terra, sangue, fogo e colunas de fumaça! O sol se transformará em trevas, a lua em sangue, antes que chegue o Dia do Senhor, grande e terrível”! (Jl 3,3s); “Eis que vem o Dia, que queima como um forno. Todos os arrogantes e os que praticam o mal serão como palha; o Dia que vem os queimará de modo que não lhes restará raiz nem ramo. Mas para vós que temeis o meu nome, brilhará o sol de justiça, que traz a cura em seus raios” (Ml 3,19s). Nestes textos, a imagem da trombeta significa solenidade, julgamento (pois os julgamentos e as entradas dos personagens solenes eram sempre anunciadas com o toque da trombeta), os sinais no céu e na terra são imagens para mostrar que esse Dia do Senhor terá importância para toda criação e o fogo recorda que o Senhor purificará sua criação de todo pecado e maldade. Trata-se de um tipo de linguagem chamado de linguagem apocalíptica, que descreve as coisas de modo bem estonteante, vivo, exagerado, em que o importante não são os detalhes, mas a idéia que as imagens querem transmitir!
Mais uma coisa: aos poucos, os profetas vão descobrindo que este Dia do Senhor estará ligado à chegada de um personagem misterioso, chamado de Messias (= o Ungido de Deus) e, às vezes, de Filho do Homem: “Continuei a prestar atenção às visões noturnas, eis senão quando, com as nuvens do céu, vinha vindo um como filho de homem; ele avançou até junto do Ancião e foi conduzido à sua presença. Foram-lhe dados domínio, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam. Seu domínio é eterno e não acabará, seu reino jamais será destruído” (Dn 7,13-14). Esse Filho do Homem viria de junto de Deus (representado aqui pela imagem do Ancião, recordando a sua eternidade). Quando a profecia diz que ele vem sobre as nuvens, quer dizer que ele vem do mundo divino, que é alguém mais que um simples ser humano. Ele vem para estabelecer um reino eterno, reino de Deus, o Dia do Senhor! Assim, na esperança do povo de Deus, o Senhor mandaria Alguém, chamado de Messias ou Filho do Homem, um personagem misterioso, que traria consigo o Dia do Senhor.
Então, resumindo: (1) o povo de Deus sempre soube que sua história estava nas mãos de seu Deus; (2) este Deus preparava para o seu povo um futuro de salvação, alegria, plenitude e paz, chamado Dia do Senhor, (3) este Dia será de julgamento para os maus e os opressores do povo eleito, um Dia eterno, de uma situação completamente nova, (4) este Dia será trazido pelo Filho do Homem, pelo Messias.
No próximo tópico veremos o que o Novo Testamento ensinou sobre este Dia do Senhor.

A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – I

No tópico passado vimos que a Vinda do Senhor no final dos tempos é chamada de Parusia, que significa chegada, vinda de alguém importante e que traz consigo dons e bênçãos. Vimos também que já no Antigo Testamento Israel esperava pelo Dia do Senhor, Dia de salvação para os amigos de Deus e de julgamento para os maus. Este Dia do Senhor, anunciado pelos profetas, estava ligado à vinda de um personagem misterioso: o Messias, o Filho do Homem.
O Novo Testamento continuou falando no Dia do Senhor, relacionando tudo a Cristo: é ele o Messias, o Filho do Homem prometido pelo Antigo Testamento. Para os cristãos, o Cristo que veio para salvar, voltará com glória para levar tudo à plenitude da salvação. Esta Vinda ou Manifestação do Senhor Jesus era chamada pelos cristãos e pelo Novo Testamento com o nome de Dia do Senhor ou Parusia do Senhor. Esta Parusia de Cristo será Dia de alegria, de plenitude, de consumação, de glória. Será também Dia da Aparição do Senhor, que vai revelar toda a sua glória, toda a vitória da sua Ressurreição; vitória sobre o pecado, o egoísmo e a morte! A Vinda do Senhor será, portanto, uma verdadeira manifestação: todo o mundo verá e reconhecerá, finalmente, a soberania de Cristo!
Nos primeiros tempos da Igreja esta Parusia foi ardentemente desejada e pensada como algo iminente, que iria acontecer logo, a qualquer momento. Mas, por que esta pressa da Vinda de Cristo? O motivo era este: se Jesus ressuscitou e tudo lhe está submetido é normal que se pensasse que o domínio do Senhor devesse manifestar-se rapidamente: quem tem a alegria da salvação, deseja logo a sua plenitude; fica impaciente para estar na plenitude do Cristo ressuscitado. Assim, encontramos nos textos mais antigos do Novo Testamento afirmações dessa proximidade da Parusia: “Irmãos, não queremos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos, para não vos entristecerdes, como os outros homens, que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, cremos também que Deus levará com Jesus os que nele morrerem. Eis o que vos declaramos conforme a palavra do Senhor: nós, que ficamos ainda vivos, não precederemos os mortos na vinda do Senhor. Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do céu e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os vivos, que estamos ainda na terra, seremos arrebatados juntamente com eles para as nuvens, ao encontro do Senhor nos ares. Assim estaremos sempre com o Senhor” (1Ts 4,13-17).
É necessário fazer algumas observações sobre este texto:
• Note-se que Paulo esperava para muito breve a Parusia; e não só: ele mesmo pensava que estaria vivo quando o Senhor viesse. Para ele, quem estivesse já morto ressuscitaria corporalmente e quem estivesse vivo seria transformado em Glória!
• No entanto, é importante notar que Paulo não fazia cálculo algum… não fazia como as seitas nem como os videntes de fim de ano, contratados pelo “Fantástico” da Rede Globo! Não inventava datas para a Vinda do Senhor… somente esperava para logo… porque esperava ansiosamente, esperava com amor!
• Quanto à linguagem que Paulo usa, é a linguagem apocalíptica, que exagera nas figuras e comparações: ele fala em “sinal”, em “som da trombeta”, em “voz do arcanjo”, em “ser arrebatado nos ares”, simplesmente para afirmar que nós seremos elevados até à Glória de Cristo Senhor. O som da trombeta significa que este momento será solene, como as chegadas dos grandes personagens e como os julgamentos: antigamente as trombetas soavam quando chegavam os reis e os juízes! Paulo, aqui, não quer descrever a Vinda do Senhor: é impossível fazer tal descrição porque o Dia do Senhor já não pertence a este mundo como nós conhecemos, mas será o começo de um mundo novo! Do mesmo modo a imagem do arrebatamento nos ares é somente uma imagem! As seitas se apegam a isto literalmente por pura e cristalina ignorância!
O que era bonito nos cristãos é que eles não somente esperavam o Senhor, mas sobretudo desejavam sua Vinda. A primeira Comunidade cristã espera e deseja o Senhor na sua Parusia; tanto que exclamava freqüentemente: Marana thá! (= Vem, Senhor!) (cf. 1Cor 16,22; Ap 22,20). Portanto, é muito importante, para o cristão, viver no desejo da plena Manifestação do Senhor. A Liturgia latina exclama ainda hoje em cada Missa: “Anunciamos a vossa morte… vinde, Senhor Jesus!”
Diante disto, uma questão pode ser colocada: os primeiros cristãos erraram, esperaram em vão ao pensar que o Senhor viria logo? Afinal, o tempo passou e o Senhor não veio! Para responder bem a esta questão é necessário primeiramente distinguir sentido cronológico e sentido teológico. É certo que, cronologicamente (ou seja, se olharmos o tempo contado pelos dias e anos), séculos já se passaram e o Senhor ainda não voltou; porém teologicamente (ou seja, do ponto de vista da fé), a certeza da manifestação de Jesus Cristo, o desejo dessa manifestação e a consciência de que ele é Senhor são tão profundas em nós e a sua salvação é tão presente na vida dos cristãos que, para nós a sua Vinda é algo próximo, que exige sempre de nós uma opção imediata, urgente, por ele em toda a nossa vida! A cronologia não é o mais importante! Sabemos que o Senhor virá e, nosso desejo é tanto que continuamos dizendo: ”o Senhor virá em breve: preparemo-nos! Sua Vinda é tão importante que o tempo é breve para nos converter!” É por isso mesmo que o Novo Testamento dá tanta importância à Parusia do Senhor, que levará tudo à plenitude. Tal expectativa revela o desejo e, ao mesmo tempo, a urgência da escolha – o tempo é breve!
É interessante que já no tempo dos Apóstolos alguns cristãos começaram a perder o fervor porque o Senhor não voltava logo, Na sua Epístola São Pedro responde: “Deveis saber que nos últimos dias virão zombadores cheios de escárnio que vivem segundo suas próprias paixões, dizendo: ‘Onde está a promessa de sua vinda? Pois, desde que morreram os pais, tudo permanece igual desde o princípio da criação’. Mas há uma coisa, caríssimos, de que não vos deveis esquecer: um dia diante do Senhor é como mil anos e mil anos como um dia. O Senhor não retarda o cumprimento de sua promessa, como alguns pensam, mas usa de paciência para convosco. Não deseja que alguém pereça. Ao contrário, quer que todos se arrependam. Entretanto, virá o dia do Senhor como ladrão! Por isso, caríssimos, vivendo nesta esperança, esforçai-vos para que ele vos encontre imaculados e irrepreensíveis na paz. E crede que a paciência do Senhor é para nossa salvação!” (2Pd 3,3-15). Notemos que Pedro dá ao problema do atraso da Parusia uma resposta em duas partes: (1) Para o Senhor um dia é como mil anos: é inútil fazer cálculos e esperar que o Senhor cumpra nossos cálculos! (2) Não se devem angustiar se o Senhor não chega; se ele tarda é para a nossa conversão!
Resumindo o que vimos:
• Para nós, cristãos, o Senhor Jesus virá na sua Glória; é isto que chamamos Dia do Senhor.
• Esta Vinda manifestará a todos que Cristo é o Senhor de todas as coisas e de toda a história humana.
• Os primeiros cristãos esperavam para logo a Parusia do Senhor simplesmente porque amavam ardentemente o Cristo: quem ama, deseja logo a presença do Amado.
• Os cristãos não faziam cálculo sobre quando o Senhor voltaria.
• Como o Senhor não veio logo, os cristãos começaram a compreender que o importante é estar sempre preparados e desejando a Vinda do Cristo, aproveitando o tempo para a conversão.
No próximo tópico veremos o que acontecerá na Vinda do Cristo!

A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – II

Vimos, no tópico passado, que os cristãos esperam o Dia do Senhor, que será o Dia da Parusia, da Manifestação gloriosa de Cristo. Mas, em que consistirá esta Manifestação?
Primeiramente é necessário deixar bem claro que o Dia da Vinda do Senhor não é um dia entre os outros dias: é o Dia, Dia que já não pertence à seqüência de dias do nosso modo de contar o tempo… não é um dia de 24 horas. O Dia do Senhor não pertence mais a este nosso tempo; é um Dia sem fim, um Dia eterno, um Dia que já não é mais iluminado pela luz deste sol, mas pelo próprio Sol de Justiça, Cristo gloriosos, pleno do esplendor do Espírito Santo.
Assim sendo, duas coisas devem ser claras para nós:
• Não podemos marcar a data do Dia do Senhor: este Dia estará fora dos dias, meses e anos; já não pertence ao nosso tempo!
• Também não podemos descrever o que ocorrerá neste Dia. Isto por um motivo simples: este Dia pertence já à eternidade, à Glória e, assim, não pode ser descrito nem comparado a nada neste mundo! Quando a Escritura usa imagens para falar deste Dia, é somente para nos dar uma idéia distante daquilo que ocorrerá. Nós já escrevemos sobre isto no tópico passado… Querer descrever o final dos tempos é fundamentalismo tolo; é rebaixar o Dia eterno aos nossos pobres dias!
Uma coisa é certa: o Senhor virá, glorioso, pleno do esplendor do Espírito Santo, que o ressuscitou dos mortos. A sua Vinda, que será Manifestação da sua Glória, terá conseqüências imensas:
1) Primeiramente ficará clara, na Vinda do Senhor Jesus, sua relação com o Pai e o Espírito Santo, ou seja, aparecerá a Glória da Trindade que nos salva: é o Pai quem enviará o Cristo glorificado: “Virão da parte de Deus os tempos de refrigério e enviará aquele que vos é destinado: o Cristo Jesus” (At 3,20). O mesmo Pai que enviou o Filho a primeira vez, enviá-lo-á na sua Parusia, que é iniciativa salvífica do Pai que tanto nos ama! O Pai, que tudo criou pelo Filho e para o Filho e quer, através dele, tudo levar à plenitude, tudo glorificar (cf. Cl 1,16). Este Filho vem glorificado pelo Espírito que o Pai derramou sobre ele na Ressurreição (cf. Rm 1,3s). É o Espírito quem glorifica o Filho na sua natureza humana, morta e ressuscitada; é na potência do Espírito que o Cristo aparecerá diante do mundo com Senhor e Juiz. Ele vem, pleno do Espírito, para encher da Glória do Espírito todas as coisas: “A este Jesus Deus o ressuscitou. Exaltado pela direita de Deus, ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou” (At 2,32s; cf. Jo 14,26; 20,19-23); “Sucederá os últimos dias, diz o Senhor, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne”…(At 2,17).
2) A Vinda do Cristo será também manifestação da Glória do Senhor ressuscitado. Desde a Ressurreição Jesus assume pleno domínio sobre todas as coisas, mas este domínio não se exerce ainda em toda a plenitude. Jesus já é o Senhor; a salvação já aconteceu; o seu domínio é real, mas não ainda plenamente manifestado. Quando ele se manifestar, então sim, tudo ser-lhe-á submetido para que tudo entre na Glória do seu Espírito e chegue até o Pai. A Parusia manifestará em toda a criação, e em nós, particularmente, aquela plenitude de Vida que, em Cristo, já é uma realidade plena: “Vi o céu aberto e eis um cavalo branco. Quem o montava chama-se Fiel e Verdadeiro e é com justiça que julga e faz guerra. Seus olhos são como chamas de fogo, traz na cabeça muitos diademas e tem um nome escrito que ninguém conhece, só ele mesmo. Está vestido com um manto tinto de sangue e seu nome é Verbo de Deus. Seguem-no os exércitos celestes em cavalos brancos, vestidos de linho branco puro. De sua boca sai uma espada afiada para ferir as nações. Deverá governá-las com cetro de ferro e pisar o lagar do vinho com o furor da cólera de Deus Todo-poderoso. Sobre o manto e sobre a coxa está escrito seu nome: Rei dos reis, Senhor dos senhores” (Ap 19,11-16). Neste texto aparece o domínio de Cristo sobre a história: ele é a realização da nova criação, gloriosa, feliz, livre do pecado. A nova criação coincide com a Vinda do Cristo: ele vem para trazer a glória da salvação, pois é e será sempre o Salvador: “Do mesmo modo também Cristo, que se ofereceu uma vez para tirar os pecados de muitos, aparecerá, pela segunda vez, sem pecado para os que o esperam a fim de receberem a salvação” (Hb 9,28).
3) A Vinda do Cristo será também glorificação e realização plena da Igreja. Se ela é o Corpo de Cristo, a Glória da Cabeça (Cristo) glorificará plenamente todo o Corpo. Esta idéia aparece muito clara no Apocalipse, onde a Igreja é apresentada como a Jerusalém gloriosa, toda enfeitada como Esposa do Cordeiro, toda pura e toda iluminada pela luz do próprio Cristo ressuscitado (cf. Ap 21).
4) A Manifestação do Cristo será também glorificação do homem pela ressurreição. O cume da obra de Jesus e a plenitude da Igreja serão também a plenitude do homem: “Na verdade Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morrem. Com efeito, assim como por um homem veio a morte, assim também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos reviverão. Cada qual, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo, em seguida os que forem de Cristo por ocasião de sua vinda. Depois será o fim, quando entregar o reino a Deus Pai” (1Cor 15,20-24).
A Vinda do Cristo será para nós Dia da Ressurreição, Dia em que todos ressuscitarão em seus corpos revestidos do mesmo Espírito que ressuscitou o corpo do Cristo! Assim, a Jerusalém celeste, que é a Igreja, estará plenamente gloriosa, com todos os seus filhos ressuscitados pela Glória do Espírito, todos como membros do Cristo no seio amoroso do Pai!
Este tópico ainda continuará no próximo número. Aí veremos o que acontecerá com a história humana e com toda a criação. Veremos também o que significa o juízo final, que ocorrerá na Vinda do Senhor!

A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – III

Vimos, no tópico passado, que a Vinda do Senhor será ação salvífica da Trindade, plena manifestação da glória de Cisto, glorificação e consumação da Igreja e glorificação do homem pela ressurreição. Mas, não é só: a Parusia do Senhor não somente diz respeito ao homem considerado individualmente, mas será glorificação de toda a história humana. Cristo glorificado iluminará tudo aquilo que o homem realizou, de bom e de mal neste mundo! Aí, então, toda a história humana será passada a limpo e a justiça será feita: “Mostrou o poder de seu braço e dispersou os que se orgulham de seus planos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e os ricos despediu de mãos vazias. Acolheu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, conforme o que prometera a nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre” (Lc 1,51-55).
Esta verdade aparece de modo belo no Apocalipse, que apresenta o Cristo, Cordeiro imolado e ressuscitado, tendo nas mãos o livro da história humana. É ele, que na sua Vinda, desvendará o sentido último de todas as coisas (cf. Ap 5).
Além da história humana, todo o universo, toda a criação será transfigurada, plenificada pelo Espírito Santo que o Senhor Jesus derramará sobre tudo: “Vi um céu novo e uma terra nova, porque o primeiro céu e a primeira terra haviam desaparecido e o mar já não existia. Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu do lado de Deus, ornada como uma esposa se enfeita para o esposo. Ouvi uma voz forte do trono, que dizia: ‘Eis a tenda de Deus entre os homens. Ele levantará sua morada entre eles e eles serão seu povo e o próprio Deus-com-eles será o seu Deus. Enxugará as lágrimas de seus olhos e a morte já não existirá nem haverá luto nem pranto nem fadiga, porque tudo isso já passou’” (Ap 21,1-4). Portanto, a manifestação da Glória do Ressuscitado será também plena libertação da criação, lugar da história do homem com o seu Deus em Cristo: “Com efeito, o mundo criado aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus. Pois as criaturas foram sujeitas à vaidade, não voluntariamente mas pela vontade daquele que as sujeitou, na esperança de serem também elas libertadas do cativeiro da corrupção para participarem da liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação até agora geme e sente dores de parto. E não somente ela mas também nós que temos as primícias do Espírito gememos dentro de nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção de nosso corpo” (Rm 8,19-23).
Notemos que a Sagrada Escritura não anuncia a destruição do mundo, da criação, mas a sua transformação, a sua glorificação! A história humana terminará; terminará o tempo como nós conhecemos, toda a criação será glorificada – já não mais será assim, como a conhecemos agora. Poderíamos até afirmar, em certo sentido, que a criação toda ressuscitará, isto é, será glorificada! Passará para a plenitude de Deus e de seu Cristo glorioso na potência do Espírito. Há um texto na Escritura que parece afirmar a destruição de tudo pelo fogo: “Entretanto, virá o dia do Senhor como ladrão, e nele passarão com estrépito os céus, e os elementos abrasados se dissolverão e a terra será consumida com suas obras. Pois, se deste modo tudo vai desagregar-se, como não deveis perseverar em vossa santa conduta e em vossa piedade, aguardando e acelerando a chegada do dia de Deus, quando os céus em fogo se dissolverem e os elementos abrasados se derreterem?” (2Pd 3,10-12).
Mas, se olharmos este texto com bem atenção não é bem assim: Pedro está comparando o fim de todas as coisas com o dilúvio (cf. v. 6): ora, no dilúvio o mundo não foi destruído pela água, mas purificado! O apóstolo quer ensinar que, pelo Espírito de Cristo, a criação toda será ainda mais plenamente purificada que na época de Noé, desta vez pelo fogo do Espírito de Cristo, que destruirá toda impiedade para sempre (cf. 2Pd 3,7). Notemos que o fogo purifica mais radicalmente que a água; por isso Pedro usa a imagem do fogo (a trata-se apenas de uma imagem)! Então, não será a destruição do mundo, mas sua purificação, sua glorificação. Pensemos no fogo que, em contato com uma barra de ferro, purifica-a e torna-a incandescente. É esta a imagem: um mundo purificado e transfigurado, impregnado da Vida do Cristo ressuscitado, que é dada pelo Espírito Santo! Passará este mundo como o conhecemos, e teremos – são palavras do próprio Pedro! – “novos céus e nova terra onde habitará a justiça!” (v. 13). Assim pensar em fim do mundo como destruição apavorante de tudo não está de acordo com as Escrituras! Deus não odeia nada do que criou: “Pois Deus não fez a morte, nem se alegra com a perdição dos vivos. Criou todas as coisas para subsistirem” (Sb 1,13s); “Sim, tu amas todos os seres, e nada detestas do que fizeste; se odiasses alguma coisa, não a terias criado. E como poderia subsistir alguma coisa, se não a quisesses? Ou como poderia conservar-se se não a tivesses chamado à existência? Porém, a todos poupas, porque te pertencem, ó soberano amigo da vida” (Sb 11,24-26).
A Parusia do Senhor, será portanto, acontecimento de vida, plenitude, alegria! O Senhor consumará a obra de sua salvação!
Falta-nos ainda meditar sobre um aspecto desta Parusia: o juízo! Sim, o Senhor virá para julgar os vivos e os mortos. Este será o tema de nosso próximo tópico!

A Parusia do Senhor e o Juízo Final

Várias vezes, nesta série de tópicos sobre Escatologia, tenho dito que tudo quanto acontecerá no final dos tempos está ligado à Manifestação ou Parusia do Senhor Jesus glorioso. Isto também vale para o que chamamos Juízo Final. Pensemos um pouco: a Parusia do Senhor será manifestação plena da sua Glória, do seu esplendor, da sua luz e, por isso mesmo, iluminará todas as coisas: a história humana e nossa história pessoal. Na luz de Cristo nós veremos claramente o que foi a história humana e o que foi a nossa vida: na sua luz veremos a luz! Jesus é o critério último, o ponto de referência de toda a humanidade; ele é o centro da vida do mundo e da nossa vida. Assim, saberemos o que vale o mundo e o que valeu a nossa vida quando estivermos diante da luz do Cristo glorioso! Ele é, ao mesmo tempo, juiz e critério de julgamento! No encontro com o Senhor confrontamo-nos, ao mesmo tempo, com nossa realidade. Jesus não aparecerá para, depois, julgar! Não! Sua aparição, sua luz, sua verdade, já serão, para nós juízo. Que fique claro: ele não aparecerá para, posteriormente, julgar; sua aparição mesma é juízo!
Em Mt 25 Jesus conta várias parábolas que mostram sua chegada como momento de julgamento: as dez virgens, que deverão ser examinadas pelo Noivo que chega, o homem, que viajando, na volta pede conta dos talentos aos empregados e o último julgamento, quando o Filho vier em glória e separar bons e maus, chamando a si os bons e apartando de si os maus. Repito: a ambigüidade da história desaparecerá à manifestação de sua luz – ele, que é o seu sentido último. Por isso mesmo, somente a Deus e a seu Cristo compete o julgamento (cf. Mt 13,24-30: a parábola do trigo e do joio), porque nenhum juízo humano atinge a realidade última das coisas e situações: somente Cristo revelará o íntimo das coisas e das pessoas: “Quanto a mim, mui pouco se me dá de ser julgado por vós ou por qualquer tribunal humano, pois nem a mim mesmo me julgo. Certo que de nada me acusa a consciência, mas nem por isso me creio justificado; quem me julga é o Senhor. Também vós, pois, não julgueis antes do tempo, enquanto não vier o Senhor, que iluminará os esconderijos das trevas e tornará manifestos os propósitos dos corações, e então cada um terá o louvor de Deus” (1Cor 4,3-5). Por outro lado, o juízo acontece a cada dia, na nossa atitude de acolhimento ou rejeição de Deus em Jesus Cristo presente no irmão (cf. Jo 3,18; 3,36; 5,24; Mt 25,31s), pois o Pai deu ao Filho ressuscitado todo o poder de julgar: “O Pai não julga ninguém mas entregou ao Filho todo o poder de julgar” (Jo 5,22). Este julgamento já começou, na potência do Espírito Santo, Espírito do Cristo ressuscitado, pois o Espírito vai mostrando ao coração daqueles que o acolhem que Cristo é o Salvador do mundo e que o mundo pecou ao rejeitá-lo: “Quando ele (o Espírito Santo) vier, convencerá o mundo quanto ao pecado, à justiça e ao julgamento. Convencerá quanto ao pecado, porque não creram em mim, quanto à justiça, porque vou para o Pai e já não me vereis; e quanto ao julgamento, porque o príncipe deste mundo já está condenado” (Jo 16,8-10). No entanto, na Parusia do Senhor o julgamento aparecerá claramente: todo o pecado do mundo, quer pessoal, quer coletivo, será para sempre desmascarado e eliminado!
O juízo tem, portanto, uma dimensão trinitária: o Pai entregou ao Filho o julgamento, que se dará na luz e na potência do Espírito! Em Cristo glorificado pelo Pai e pleno do Espírito, tudo será julgado!
Já vimos que no Antigo Testamento aparece claro que haveria um Dia do Senhor, que seria Dia de Salvação, mas também Dia de Juízo. Este juízo é salvífico: Deus não vem para condenar, mas para salvar… agora quem se fechou para o Senhor, claro que ficará fora da salvação de Deus (cf. Sb 3,10 e também o capítulo 5). Neste sentido, o juízo final discriminará bons e maus: “Nesse tempo, muitos dos que dormem na terra poeirenta, despertarão; uns para a vida eterna, outros para vergonha, para abominação eterna. Então os sábios brilharão como o firmamento resplandecente, e os que tiverem conduzido a muitos para a justiça brilharão como estrelas para sempre” (Dn 12,2s).
Para o Novo Testamento, como já foi dito acima, é nossa atitude em relação a Cristo nesta vida que definirá nosso destino: ele é o critério do juízo (cf. Lc 12,8ss; 9,26; 11,30; Mc 3,38; Mt 16,27). Em Jesus manifestar-se-á no fim dos tempos a justiça de Deus, que é de salvação, que nos justifica (cf. Rm 3,26): na cruz do nosso Juiz o príncipe deste mundo foi jogado fora (cf. Jo 12,21s). Sim, nunca nos esqueçamos: quem nos julgará é o nosso Salvador! Para Deus não é difícil unir justiça e misericórdia. Cristo nos julga salvando!
A respeito do julgamento, alguns autores atuais falam em auto-juízo: na luz do Cristo nós mesmos nos julgamos. Tal expressão é ambígua: é correta se pensamos que, à luz de Cristo, nos veremos como somos e veremos nossa própria verdade; por outro lado, é errada se pensarmos que nós mesmo seremos nossos juizes! A clara consciência do que somos, sem máscaras e mentiras, faz-se somente à luz de Cristo! Não somos nós mesmos que chegamos a esta idéia clara do que fomos e somos: a realidade do mundo, da nossa vida e da história somente aparecerão quando forem iluminadas pela manifestação do Senhor Jesus.
Agora, pensemos bem: se na Parusia do Senhor será manifestado aquilo que fomos na nossa vida, é importantíssimo valorizar cada momento da existência! É esta minha vida que aparecerá diante do Cristo Jesus! O que estou fazendo dela?
Finalizando, devemos deixar claro ainda uma

Antônio 17/11/2014 14:13 0 0

ESCATOLOGIA CRISTÃ

Pe. Henrique soares da Costa

O HOMEM, O FIM DOS TEMPOS E AS REALIDADES ETERNAS

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Índice

Pe. Henrique soares da Costa 1
Índice 2
Algumas questões sobre e morte e o Além 3
Escatologia – Sobre o fim do mundo! 7
A Vinda do Senhor segundo o Antigo Testamento 8
A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – I 9
A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – II 11
A Vinda do Senhor segundo o Novo Testamento – III 12
A Parusia do Senhor e o Juízo Final 13
A ressurreição dos mortos – I 14
A ressurreição dos mortos – II 15
A ressurreição dos mortos – III 17
A ressurreição dos mortos – IV 18
A ressurreição dos mortos – V 20
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? – I 21
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? – II 22
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? – III 23
A Reencarnação: uma idéia cristã ou pagã? – IV 25
A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado – I 26
A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado – II 27
A Vida Eterna: comunhão com Jesus ressuscitado – III 29
O inferno – morte eterna, existência na contradição – I 30
O inferno – morte eterna, existência na contradição – II 31
O inferno – morte eterna, existência na contradição – III 32
A visão cristã da morte – I 34
A visão cristã da morte – II 35
A visão cristã da morte – III 36
A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade. 38
A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade – II 39
A retribuição imediata. O estado intermédio. A imortalidade – III 41
A purificação após a morte: o estado purgatório 42
Anjos, Diabo, demônios: o que a fé da Igreja ensina sobre eles? – I 45

Algumas questões sobre e morte e o Além

Pe. Henrique Soares da Costa http://www.padrehenrique.com

É importante compreender que nossa esperança repousa unicamente em Cristo: sua Ressurreição é garantia e modelo da nossa: o destino de Jesus na sua morte e ressurreição é o único critério para o cristão; é a garantia da nossa Esperança. Aquilo que aconteceu nele é feliz antecipação da nossa herança futura.
A Escritura nos ensina que a Parusia do Senhor Jesus, sua Manifestação gloriosa no final dos tempos, será causa da Ressurreição dos mortos: Cristo glorioso glorificará toda a humanidade, vivos e mortos! “Esperamos o Salvador Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso, em virtude do poder que tem de sujeitar a si toda criatura” (Fl 3,20s).
É importante, desde já, fazer uma distinção sobre o modo como o Novo Testamento utiliza a palavra ressurreição. Há três modos de usá-la:
• em sentido figurado: como volta de um morto a esta vida. É o caso da “ressurreição” de Lázaro, da filhinha de Jairo, do filho da viúva de Naim… etc. Aqui não se trata rigorosamente de ressurreição no sentido cristão da palavra, mas de revitalização: ou seja, alguém estava morto e voltou a esta vidinha nossa… e, depois, morrerá novamente!
• em sentido neutro: como passo prévio ao juízo: o homem não ficará na morte: ele, quer salvo, quer condenado, continuará vivendo após a morte. Todos “ressuscitarão” para serem julgados! Este não é ainda o sentido teologicamente mais profundo, mais forte e verdadeiro de ressurreição;
• em sentido teologicamente positivo: como plena participação e configuração à vida de Cristo ressuscitado. Tal ressurreição é reservada somente aos bons. Aqueles que viveram na comunhão com Cristo serão completamente transfigurados, transformados em Cristo ressuscitado: serão como o próprio Cristo: passarão desta vida para uma outra Vida, plena, realizada, eterna! Este último sentido é o que realmente tem importância e faz parte essencial do anúncio cristão; antes, é o próprio centro do Evangelho! Quando dizemos que Cristo ressuscitou e que, nele, nós ressuscitaremos, é neste último sentido que estamos falando! A Ressurreição que nos interessa é esta última!
A Ressurreição, então, é a passagem desta vida (limitada, ambígua, precária) para uma Vida plena, diversa desta nossa vida de agora: teremos a Vida do próprio Cristo ressuscitado, uma Vida divina, na qual nosso corpo e nossa alma serão transfigurados. Como diz a III Oração Eucarística para as crianças: “No Reino de Jesus ninguém mais vai sofrer, ninguém mais vai chorar, ninguém mais vai ficar triste!” Nosso corpo será transfigurado, como o de Jesus: não mais estará sujeito às leis da física, da matéria como a conhecemos agora; nossa alma também será ressuscitada, transformada: nunca mais teremos tristezas, depressão, saudades… seremos plenamente realizados, porque estaremos para sempre com o Senhor, que saciará todas as nossas sedes e realizará todos os mais profundos anseios do nosso coração! É isto que significa ressuscitar! Mas, vamos seguir passo a passo o Novo Testamento!
Vejamos, primeiro, o ensinamento do próprio Jesus Cristo. No seu tempo, a Ressurreição era uma doutrina muito divulgada e aceita entre os judeus. Somente os saduceus achavam que a vida acabava com a morte (cf. Mc 12,18; At 23,6-8). Uma idéia que nunca existiu no meio do povo de Israel foi a da reencarnação – esta não tem nada a ver com a Bíblia! Contra os saduceus, Jesus ensinou que Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos: ele é o Deus que ressuscita seus amigos (cf. Mc 12,18-27). Ainda para Jesus, essa vida após a morte será vida com o corpo e não somente como a alma: “Não tenhais medo dos que matam o corpo mas não podem matar a alma. Deveis ter medo daquele que pode fazer perder-se a alma e o corpo no inferno” (Mt 10,28). Observe-se bem que segundo o Evangelho, corpo e alma sofrerão no inferno: “Se teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e joga longe de ti, pois é preferível perder um dos teus membros do que teu corpo inteiro ser lançado no inferno. E se tua mão direita te leva a pecar, corta-a e joga longe de ti, pois é preferível perder um dos teus membros do que teu corpo inteiro ser lançado no inferno” (Mt 5,29s). É o homem todo, no seu corpo e na sua alma, que é salvo ou condenado! A idéia de uma alma desencarnada que não tem nada a ver com o corpo, é totalmente contrária ao pensamento bíblico! Jesus ensina também que bons e maus “ressuscitarão” (no segundo sentido, que apresentamos acima) para o julgamento: e, assim, uns ressuscitarão para a Vida (verdadeira Ressurreição: estar com Cristo e, com ele, ser glorificado) e outros ressuscitarão para a morte (ressurreição em sentido figurado: viver no Inferno, viver na morte!): “Não vos admireis, porque vem a hora em que todos os que estão mortos ouvirão sua voz. Os que praticaram o bem sairão dos túmulos para a ressurreição da vida; os que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados” (Jo 5,28s). O próprio Senhor ensinou também que, após a sua Ressurreição, aqueles que comessem, na Eucaristia, seu corpo ressuscitado, pleno de Vida eterna, ressuscitariam também com ele e como ele. Ressurreição, aqui, no sentido forte, profundo, verdadeiro: “Jesus lhes disse: “Na verdade eu vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia. Quem come minha carne e bebe meu sangue permanece em mim, e eu nele” (Jo 6,53s.56).
Assim, Jesus não somente anunciou sua própria Ressurreição (cf. Mc 8,31; Mt 16,21ss; Lc 9,22, etc), como também ensinou que todos ressuscitariam através dele! Há uma passagem em Mateus que mostra bem isto: “Os túmulos se abriram e muitos corpos de santos ressuscitaram. Eles saíram dos túmulos, depois da ressurreição de Jesus, entraram na Cidade Santa e apareceram a muitos” (Mt 27,52s). Qual o significado deste trecho tão misterioso? Será que os mortos voltaram a viver e entraram em Jerusalém, espantando as pessoas?! Não! Não é isto que Mateus quer dizer! Ele quer afirmar somente que a Ressurreição de Cristo é causa da nossa ressurreição. A Cidade Santa na qual os mortos entrarão é a Jerusalém celeste, a Glória do Corpo de Cristo, isto é, o Céu (cf. Ap 21,2.10; 22,19). Mateus usa, aqui, aquele tipo de linguagem que os estudiosos da Bíblia chamam de apocalíptica: uma linguagem cheia de figuras!!
Concluindo, por enquanto: 1) Jesus ensinou a Ressurreição; 2) ensinou que ressuscitaremos em todo o nosso ser, corpo e alma; 3) ensinou que há uma Ressurreição para a Vida (verdadeira Ressurreição) e uma ressurreição para a morte (para a condenação: ressurreição às avessas!); 4) o próprio Jesus é a causa da nossa Ressurreição: ressuscitaremos porque ele ressuscitou!
Vimos que Jesus nos prometeu a ressurreição: ressuscitaremos nele e por ele: “Eu sou a Ressurreição!” (Jo 11,25), ressuscitaremos em todo o nosso ser, corpo e alma. Agora, nos perguntamos: como e quando será isso?
Ressuscitaremos da morte, que é o término de nossa vida terrena. Mas, que é a morte? É certo que, com ela, a condição humana chega a seu ponto culminante e também a seu ponto crítico, pois esta experiência da morte toca o homem não somente pela dor da progressiva dissolução de seu corpo como também pelo temor da desaparição perpétua. Não podemos, portanto, fazer de conta que a morte não existe ou, se existe, diz respeito aos outros e não a nós. Pelo contrário: a morte dos outros deve recordar-nos que também nós morreremos: com a morte, realiza-se o ponto crítico da passagem desta vida para uma outra situação – aquela podemos esperar somente na fé. Todo organismo vivo decai até chegar à morte natural. Não dá para escapar da morte. A medicina pode prolongar a vida, mas não pode evitar a morte
Mas, o que significa morrer? A morte, primeiramente, revela nossa finitude, nossa limitação! Que estranho é o ser humano: sonha com a vida, deseja a vida… mas sabe que um dia morrerá! Aliás, o homem é o único ser que sabe que morrerá… por isso mesmo, a morte não é somente uma questão física, biológica: não é apenas um corpo que morre e vira cadáver; é uma pessoa que morre! Eu não digo: “Meu corpo morre”, ao invés, digo e sinto: “Eu morro!” São minhas relações, é minha história, meus sonhos, que são colocados em crise com a morte! E é interessante: em geral, aproximamo-nos da morte exatamente quando mais queremos viver, quando, já adultos, damos tanto valor à vida e somos já maduros. Em certo sentido, nunca estamos prontos para morrer, mas para viver. E é assim, já que Deus é o Deus vivo e nos criou para a vida e não para a morte. A morte terá sempre um gostinho amargo, mesmo para quem crê. A morte com gosto de morte entrou no mundo pelo pecado (cf. Sb 2,23s). Nossa passagem pelo mundo deveria terminar com o desabrochar da eternidade, sem esta experiência dolorosa a que chamamos morte. A morte como experiência negativa e ameaça do nada é conseqüência do pecado (cf. Rm 6,23). A morte, como nós experimentamos atualmente, na nossa situação de pecadores, não é somente uma questão biológica, física; é também uma decadência pessoal, existencial. É dolorosa no corpo e na alma! Tem um gosto de derrota, de salto no escuro, de pulo no desconhecido! E não adianta fingir que a morte não existe! O que nossa fé nos ensina é exatamente isso: Deus não é o autor dessa situação de morte em que vivemos: as mortes de cada dia, de cada derrota, de cada sofrimento, de cada injustiça, traição ou lágrima… tudo isso é conseqüência de uma humanidade pecadora…. Tampouco Deus é o autor da última morte, daquela que marca o término da nossa vida terrena… Se a experimentamos como derrota, dissolução, salto no escuro… é devido à situação de pecado. Se o homem não tivesse dito “não